Auschwitz

15 Capítulo 13


Rose tinha certeza de que não desistiria do plano que havia se tornado a única chance de saída deles dali, mas, ao ver Eddie, a insegurança tomou conta de cada pensamento seu. Hesitação e medo, se não conseguissem. Medo de serem pegos em meio à fuga ou pior ainda: que morressem logo que saísse dali, de frio ou fome.

— Por que não me disse antes? — Rose perguntou aos sussurros para Dimitri, enquanto Christian distribuía entre eles os poucos agasalhos que pegara no deposito¹

— Você se preocuparia — falou enrolando um cachecol preto em seu pescoço — E ele vai ficar bem, você vai ver. Vamos sair daqui e encontrar alguém que o ajude.

Rose moveu discretamente seus olhos para Eddie que estava sendo ajudado por Lissa. Os olhos que outrora tinham tido um brilho de alegria e até mesmo esperança em meio aquele sofrimento, estavam vidrados em um único ponto e opacos. Sem brilho e nenhuma esperança. Haviam o machucado seriamente e ela duvidou de algum dia ele fosse voltar ao normal. Isso sem falar do braço direito, que tremia a todo instante.

Quando todos estavam agasalhados, Christian se afastou, mirando o pequeno grupo de cinco desafortunados. Suspirou. Aquilo seria um suicídio inconsciente. Três mulheres e dois homens, cujo um se encontrava quase inválido. Um peso morto, o soldado pensou.

— Eu nunca fiz algo tão idiota em minha vida — murmurou para si mesmo, mas todos foram capazes de ouvir. Lissa, silenciosamente, pegou em sua mão, mas nada disseram, até porque um garotinho chegou aos berros, gritando para que o esperassem.

Christian ignorou se tratar de uma criança e atirou seu corpo contra o dela, a derrubando na neve e apertando seu pescoço para calá-lo, com medo de que o garoto conseguisse atrair atenção de algum soldado atento.

— Largue-o! — Rose falou entre dentes, tentando intervir e afastá-lo do menino que começava a ficar ainda mais pálido. Não tinha mais do que 12 anos. Era magrelo e tinha brilhantes olhos castanhos.

Dimitri o reconheceu. Havia o visto poucas vezes já que sempre o mandavam para trabalhar no Canadá, mas recordava-se de ter falado com ele logo que chegou ao campo.

— Edmund – Dimitri tocou o ombro de Christian, mostrando que o conhecia e ele o soltou. Ajudou o garoto ofegante a se levantar e este logo firmou os olhos na trouxa amarrada que estava próxima aos pés de Rose.

— Quero ir com vocês — murmurou com voz falha e baixa.

Christian riu sentindo o azar aumentar, mas nada disse.

Dimitri quem tomou a frente, olhando para Edmund com olhos severos. O garoto provavelmente havia o visto sair, mesmo que ele tivesse certeza de ter sido discreto. Um garoto poderia atrapalhar a fuga ainda mais, mas, caso voltasse, não teria nem ao menos a chance de sobreviver.

Por fim, assentiu. Rose apenas afagou o ombro de Dimitri, olhando para o garoto e lembrando-se de quando conheceu outro garotinho que salvou a vida.

— Não estão falando sério! — Christina bradou — Já temos um cego em nosso grupo, o que reduz nossas chances de escapar. Agora querem levar uma criança barulhenta?

— Não vou fazer barulho — murmurou apenas.

Mas Christian sabia que havia perdido a discussão no momento em que Gisela, que permanecera calada e sem expressão, passou um braço pelos ombros do garoto, o abraçando parcialmente.

Não discutiram mais sobre aquilo.

Não haveria tempo para discussões. A claridade já surgia no céu quando começaram a se mover. Christian ia à frente, levando todos pela direção oposta à da linha do trem.

Rose, que ia um pouco atrás, apressou seus passos até ele.

— Não, temos que seguir na outra direção — murmurou, lançando um olhar para trás, vendo O TRABALHO LIBERTA ficar cada vez mais longe.

Christian engoliu a seco. Não podia dizer sobre a tremenda guerra que estava havendo e que se fossem naquela direção provavelmente cruzaria com o exército dos Aliados. Mesmo que tivesse um soviético no grupo e ele fosse o único inimigo, sabia que guerra era guerra.

— Estamos indo para um lugar seguro — respondeu apenas, com o olhar firme a frente.

Dimitri puxou Rose de volta antes que ela insistisse. No entanto, ele esperava pelo momento em que ficaria sozinho com Christian e que o indagaria sobre o que realmente estava havendo. Sabia que a Alemanha estava em guerra direta com a União Soviética. Foi à última coisa que soube antes de ser arrastado para o campo de trabalho. Não sabia quem ganhava, mas julgando pelo pouco que Christian lhe contara e sua disposição em ajudá-los, podia apostar sua vida em quem estava perdendo.

Não pode evitar o sentimento de inutilidade que preencheu o peito. Crescera vendo o pai tomar decisões políticas com seus camaradas e agora sentia que de nada valera já que não podia estar lutando ao lado da sua nação.

— Qual seu nome? — Rose perguntou para o garoto que seguia se agarrando a Gisela.

Ele respondeu em um sussurro tão baixo e tímido que Rose teve que perguntar mais duas vezes. Ela havia escutado Dimitri o chamar, mas queria ouvir dele próprio.

— Edmund.

O diálogo morrera ali, enquanto avançavam ainda mais para longe do campo.

No entanto, Rose notou, cada vez que andavam, podia ver mais e mais dali. Perguntou-se quantas pessoas dormiam nos barracões... Ou quantas delas já haviam morrido.

— São três complexos — Christian falou quando notou seu olhar — Vocês ficavam na melhor parte de Auschwitz — seu tom, meio áspero, levou Rose a crer que quando ele disse isso, alguma parte dele esperou que eles fossem se sentir melhor diante daquilo.

Não funcionou.

O pior ainda estava por vir.

Christian não diria nada, mas foi impossível não olhar quando passaram por um muro um pouco baixo que tinha alguns arames farpados e manchas escuras que não eram tão iluminadas pela pouca luz do nascer do sol. O estômago dela se retraiu, sentindo o cheiro da morte. Haviam algumas coisas rabiscadas nas paredes, mas ela não conseguiu olhar por tempo suficiente para entender.

Quando Christian falou, entendeu porque havia estado no melhor lugar de Auschwitz.

— Presos políticos — olhou rapidamente para Dimitri — Alguns apenas trabalham, mas se você não for um bom prisioneiro-.

— Eles o fuzilam — concluiu.

Christian não falou sobre aquilo, apenas assentiu. Dimitri balançou a cabeça, para que não se lembrasse do pai que teria morrido daquela forma.

Rose teve que fazer um esforço sobre humano para que não vomitasse logo que viu a enorme vala que havia na frente deles. Lissa não conseguiu segurar e Gisela tampou os olhos do garoto. Christian já havia se acostumado com aquilo e Dimitri apenas desviou o olhar.

A vala não estava vazia.

Estava cheia de corpos, jogados de qualquer forma, dispostos como se não fosse o amor da vida de alguém ali, como se não tivessem valor.

Rose não teve certeza, mas pensou ter visto uma criança agarrada ao seio de uma mulher. Homens, mulheres, crianças, idosos, todos jogados ali, sem nada que cobrisse seus corpos.

Alguns sem ferimento algum e outros já em decomposição.

— Como morreram? — Gisela perguntou.

Christian não respondeu, apenas virou-se para trás e mandou que seguissem o caminho.

Não queria explicar sobre o Zyklon B e o efeito mortal daquele gás. Rápido e limpo, como o general de Auschwitz desejava...

A partir de 1943, 70% dos prisioneiros que chegavam a Auschwitz eram mortos nas câmaras de gás. — fonte: The Architect of Genocide: Himmler and Final Solution (O Arquiteto do Genocídio: Himmler e a Solução Final)

GLOSSÁRIO

¹ Havia uma espécie de depósito, em que todos os pertencem que eram retirados dos prisioneiro ficavam.