Auschwitz
16 Capítulo 14
Rose não parava de ter pesadelos, durante as três noites seguidas em que se revezava com os outros para montar guarda. Eles sempre eram sobre os que haviam ficado nos campos. Alguns envolviam os corpos na vala e outros os que foram levados todos os dias para sabe-se lá onde. Sonhou até mesmo com Lucy. O bebê que ninguém sabia para onde foi. Aquele mesmo que nunca conheceria sua mãe e pelo que ela passou.
Ela não era a única a ter pesadelos.
Gisela apenas os escondia da melhor forma. Abraçava Edmund e dizia baixinho que tudo ficaria bem, como se tentasse acalmar o garoto.
Mas Rose sabia duas coisas sobre as más-lembranças: Você podia sofrer com elas para o resto de sua vida, ou poderia usá-las para ficar mais forte. E ela estava desesperadamente tentando seguir pela segunda opção.
No entanto, isso não era tão fácil. Não quando conforme o tempo passava mais eles tinham certeza de que não sabiam para onde exatamente estavam indo.
E ainda assim, mesmo sem um plano, continuavam a viajar para longe do campo, a cada noite procurando por um lugar seguro onde pudessem ficar. E toda manhã, bem cedinho, eles se certificavam de não estarem deixando nenhuma pista para trás.
Não sabiam se estavam sendo caçados. Christian, por algum motivo que não dissera aos outros, parecia ter certeza de que não, mas ainda assim não deixavam de tomar precaução.
E, conforme o tempo passava o fato de não terem um plano certo e que os tirassem daquela situação, era o principal motivo para que Rose lançasse olhares sobre todo o grupo. Era apenas um grupo de sete pessoas, cujo um deles estava meio cego e com um braço incapacitado e o outro era uma criança. Era um grupo sem ter para onde ir, cujo o único feito até aquele momento, era não terem morrido.
O que não parecia estar tão longe de acontecer.
A comida estava acabando, o frio da floresta não era apenas uma questão de temperatura, mas uma presença que se infiltrava nos ossos, lembrando-os de que a morte sempre estava a espreita, e, quanto mais avançavam, mais rigoroso era.
Era o quarto dia de viagem e estavam subindo um morro íngreme, cheio de arvores secas. Christian tinha uma preocupação exagerada com Lissa, com medo que ela se desequilibrasse.
— Estive pensando esses dias — Rose murmurou para Dimitri, que ia do outro lado de Eddie, o ajudando para que não tropeçasse em algo. A visão de um dos olhos havia voltado, mesmo que ainda fosse difícil de enxergar e tivesse que forçar um pouco — sobre quando nos conhecemos.
Dimitri ergueu o olhar para ela de cenho franzido.
— O quê exatamente sobre esse dia?
— Se meu pai estaria do outro lado — falou por entre a respiração, como se falar em voz alta sobre aquilo fosse trazer as lembranças de forma mais dolorosa — Se você não tivesse estado lá e eu tivesse escutado minha mãe e corrido. Se ele realmente estaria lá.
Ele fingiu que estava olhando para a paisagem, coberta pela neve que já derretia.
— Lembra-se de como ele era? — perguntou. Queria perguntar se ela pensava que ele estaria vivo, mas certamente não seria algo em que ela queria pensar naquele momento. Dimitri sabia por experiência própria que o tempo não curava feridas, ele apenas, de alguma forma quase milagrosa, diminuía o tamanho delas, até que se tornasse pequena o suficiente para que você não se sentisse mais no fim do mundo.
— Mais ou menos — deu de ombros — Lembro da sua voz, eu acho. Também não penso muito sobre isso. Mas, eu só queria poder saber se ele nos esperou, entende? Se ele cumpriu com o que disse a minha mãe. De qualquer forma, aprendi a viver com a ausência dessa certeza.
— Andem mais rápido — Christian falou, lançando um rápido olhar para trás — Não vão querer ficar aqui quando escurecer.
Rose revirou os olhos, querendo mandá-lo calar a boca e ir para mil outros lugares. Estava começando a depositar sua confiança nele, mas ainda não o achava digno dela.
Quando chegaram ao topo do morro, eles montaram o acampamento novamente. Névoas naturais os cobriam e disfarçava a fumaça lançada pela pequena fogueira em que eles esquentavam alguns alimentos enlatados que sobraram.
Dimitri mantinha o fogo vivo da melhor forma que podia. Não podiam contar com muitos galhos secos ali. Eddie estava encostado contra uma arvore, cochilando algumas vezes.
Christian havia deixado Lissa com Gisela, falando algo sobre o garoto que estava com eles e estava de pé, olhando para o céu. Foi quando Rose se aproximou dele.
— Não sabe para onde está nos levando, não é? — perguntou, apertando ao redor dos ombros um casaco que Dimitri havia lhe entregado.
Christian olhou para ela. Tinha um papel amassado nas mãos. Era um mapa.
— Esse é o problema — murmurou desgostoso — Eu sei exatamente para onde estou levando vocês — olhou para Lissa, que no exato instante em que ele olhava, ergueu o rosto. Ela sorriu para ele, corando logo em seguida.
— Isso é péssimo, sabia? — Rose perguntou, e ele olhou de volta para ela — Você gostar de Lissa. Eu sempre pensei que ela ficaria com Eddie ou com algum outro cara de quem gostasse. Ela é judia e você-
Rose parou. O adjetivo porco nojento não seria algo inteligente para dizer quando ele os estava ajudando.
— Nazista, certo? — completou o que, para Rose, tinha o mesmo significado da ofensa — Eu não sou isso. Agora não mais. E eu espero que você saiba que meu pai nesse exato momento deve ter queimado meu nome da nossa arvore genealógica. Ele nem deve mais se lembrar de mim. E você? O camarada ali não parece ser o tipo certo para ficar com alguém que age feito a própria Melpômene. Uma verdadeira tragédia grega.
Rose arregalou os olhos, os desviando logo em seguida. Mas isso não escondeu o rubor que coloriu violentamente suas bochechas. Ela não estava abalada com o insulto.
— Não temos nada!
Christian soltou uma gargalhada.
— Mesmo? Bem, então eu acho que não devo me preocupar agora que ele está olhando para mim como se fosse capaz de quebrar meu pescoço apenas por estar falando com você.
Incerta de estarem falando sobre a mesma pessoa, Rose se virou, encontrando os olhos castanhos de Dimitri cravados em Christian. Ele parecia realmente irritado. E quando notou que Rose o observava, jogou os galhos que segurava no chão e pegou o cantil de água, dizendo algo para Lissa que Rose não conseguiu entender e então sumindo por entre as arvores.
— Onde ele foi? — perguntou a Lissa, se aproximando dela.
— Procurar água. Tentei dizer que eu queria ir junto, mas ele nem me deu tempo.
Rose mal escutou ela terminar de falar e seguiu pelo mesmo caminho que Dimitri. O encontrou minutos depois, de costas para ela e de frente a um rio que tinha algumas placas de gelo boiando. Ele olhava para algo prateado que estava em sua mão e Rose não conseguiu ver direito
— Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou e Dimitri se virou, guardando rapidamente o objeto que estava em sua mão.
— Não — respondeu, mas ainda mantinha o olhar sobre Rose, como se a acusasse — Você fica bem próxima as pessoas de quem não gosta.
Rose não pode deixar de notar como ele parecia realmente furioso com a imagem dela e Christian. Sorriria, se não soubesse que aí sim teria problemas com Dimitri.
— Só estávamos conversando! — defendeu-se
— Você não gostava de me ver conversando com Gisela.
Mais surpreendente que vê-lo agir daquela forma, era vê-lo agir daquela forma justamente por causa dela.
— Porque Eddie gostava dela e ele sempre ficava reclamando para mim. Além disso, você também nunca foi muito próximo dela.
— E nem você de Christian! — acusou — Agora ele é confiável?
— Você confia nele!
Dimitri mordeu a língua, não tinha mais o que dizer
Rose caminhou até ele em passos vacilantes, com cautela para que não pisasse em falso naquele solo úmido. Colocou seus dois braços ao redor do pescoço dele e encostou seu rosto no peito dele. Os braços faziam um pequeno carinho em sua nuca, fazendo os pelos dali se arrepiar.
— Desculpe. Eu não estava sendo racional — ele murmurou, a puxando pela cintura.
— Tudo bem — sorriu, erguendo a cabeça e ficando na ponta dos pés, dando um rápido beijo nele — Vamos pegar água e voltar para junto dos outros.
Eles pegaram a água, mas antes que saísse dali Dimitri segurou as mãos de Rose, a prendendo no lugar.
— Eu sei que não é exatamente um presente — Dimitri iniciou a dizer — mas sei também que tem realmente um grande valor para você — ele segurou a palma da mão dela aberta e depositou alguma coisa fria e meramente pesada ali.
Quando Rose viu o que era, os olhos lacrimejaram. Olhou para Dimitri e então para o enfeite que pensou que nunca mais veria novamente. Não depois que arrancaram dela a força. Tracejou com as pontas dos dedos e com muito cuidado os desenhos entalhados na presilha que era a única lembrança que tinha de sua mãe.
— Queria esperar um pouco mais para te entregar — Dimitri disse — Quando estivéssemos em um lar, mas eu não sei quanto tempo mais isso vai demorar e não queria esperar muito.
Uma lágrima escorreu por sua bochecha.
— Eu estou com você, não estou? — Rose perguntou, abraçando ele e se sentindo protegida. Intocável por qualquer um que quisesse estragar a felicidade que sentia por estar ali com ele, sozinhos, nem ninguém para ameaçá-los — Então eu sempre estive em casa. Com você.
Dimitri apanhou a presilha de volta, só para prende-la com cuidado no topo da cabeça de Rose, segurando os curtos fios de cabelo, antes de beijá-la rapidamente.
Voltaram para perto dos outros depois daquilo. Todos notaram que os dedos estavam entrelaçados e Rose nem tentava dissimular o sorriso nos lábios. Houve um tempo em que ela pensou que nunca mais seria tocada por ele. Ao seu lado, teve a impressão que o tempo no campo de concentração haviam sido um pesadelo doloroso, lento e ruim. Um que ela teve a certeza: conseguiria vencer ao lado de Dimitri. Um sendo o porto seguro do outro.
Ao se juntar ao resto do grupo, Dimitri apenas fingiu que não estavam sendo alvo de olhares tão indiscreto. Até mesmo Gisela tinha uma sobrancelha arqueada para ele, como se estivesse dizendo a ele "eu sabia! Eu sabia!".
— Que é que está fazendo? — Rose perguntou ao garoto, que tinha uma pedrinha afiada na mão e riscava algo insistentemente na casca de uma árvore.
Edmund olhou para ela, como se estivesse decidindo se responderia ou não. Ela tinha quase certeza de que o cabelo dele era de um loiro escuro, agora que começava a crescer.
— Escrevendo — respondeu — Tinha uma mulher que morava na mesma igreja que eu e meus pais. Ela disse que se você escrever seus sonhos é mais fácil deles se realizarem.
Rose se inclinou um pouco, tentando ver o que o garoto escrevia.
— Ela era uma mulher muito-
O garoto cobriu a boca de Rose, olhando ao seu redor.
Christian e Dimitri fizeram o mesmo quando ouviram o barulho de galhos baterem em algo.
Cautelosamente, Rose se levantou, mas não se moveu mais. Pensou que nunca mais teria aquela sensação outra vez. Medo. Correndo por cada veia do seu corpo e deixando sua respiração acelerada. Os pesadelos que tinha tido, pareciam estar se tornando realidade. Todos eles.
Foi quando dezenas de chamas alaranjadas brilharam um pouco abaixo deles, se aproximando ainda mais.
Edmund agarrou a mão de Rose e o medo o fez começar a puxá-la para um lugar que nem ele próprio sabia onde era.
— Não — Rose disse, tentando mantê-lo em seu lugar. Mas foi inútil quando ele puxou sua mão com mais força. As forças contrárias fizeram Rose se desequilibrar.
Ela tentou controlar o grito que saiu de sua garganta quando rolou pelo chão, sentindo pedras e galhos cortarem seu rosto durante a queda.
Quando parou de rolar, após chocar seu corpo em uma superfície completamente sólida, sentiu como se algo dentro de sua cabeça tivesse se partido pela queda. Houve um momento de dor aguda e depois tudo o que ela percebeu foi sangue — sangue em seus olhos. Sangue e um liquido viscoso onde antes ficavam sua boca e seu nariz. Foi a única coisa que Rose percebeu antes de encarar a completa escuridão, sem ter tempo nem ao menos de ver se seu grito havia denunciado a localização dos outros ou se eles haviam sido atraídos para ela.
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