Auschwitz
10 Capítulo 8
Os dedos apertavam fortemente as têmporas, sentindo dificuldade ao puxar o ar e um leve sabor de sangue tocar a língua.
Olhava mais um trem ser descarregado.
— Querem nos matar — Lissa murmurou ao seu lado, como se somente naquele momento tivesse percebido aquilo.
— Estamos com superlotação — Gisela sussurrou. Rose tirou seus olhos dos outros prisioneiros e a fitou. Passou a língua entre os lábios machucados.
— Que quer dizer com isso? — questionou franzindo o cenho.
— Você sabe — Gisela soprou — O que se faz quando não consegue mais alimentar o seu gado?
Rose voltou sua atenção para as outras pessoas que tinham expressões assustadas. Ela entendia aquele brilho no olhar delas. Esperança de que ali não era nada demais, apenas um lugar para trabalhar.
Logo que os novos prisioneiros receberam as "boas-vindas" foram para o trabalho.
O campo estava bem cheio.
Para onde quer que Rose olhasse via-se um aglomerado de pessoas. Enquanto caminhava por entre elas ouvia murmurinhos de planos de fuga. O campo feminino e masculino havia se juntado, e a grade que os separava não existia mais para que mais pessoas coubessem.
Na hora da refeição Rose estava na fila para pegar seu alimento quando foi puxada para longe e esbarrou seu corpo no de Dimitri.
— Que há? — perguntou confusa. Quatro dias haviam se passado desde que ele lhe dera as costas e ela não havia nem sequer visto sua sombra outra vez.
— Não coma isso! — ele disse, lançando um olhar feroz para trás.
— Por que não? Estou com fome! — a irritação era porque não sabia o motivo de agora ele estar falando com ela depois de semanas fingindo que não a escutava chamar seu nome cada vez que tinha um deslumbre dele. Tinha plena consciência dos dedos que ainda tocavam a pele sensível de seu braço agora.
— Não coma, apenas isso — murmurou desta vez a fitando. Dimitri piscou. Era quase como na primeira vez que a viu. Coração saindo pela boca e o mundo todo se resumindo a ela. Não pode se impedir de sorrir. Era como ser arrebatado para o céu por um instante.
— O que foi? — perguntou, surpresa pela forma com os dedos de Dimitri acariciava seu braço.
Ele a soltou, dando passos para trás.
— Só não coma agora. Venha, vamos encontrar com os outros.
Lissa, Eddie e Gisela estavam escolhidos em um canto.
Logo que os viu, correu para abraçar o amigo, sentindo que ele estava muito mais magro e sabia que não estava diferente de nenhum dos outros.
— Não acredito que esteja bem, Rose — ele murmurou contra sua orelha.
Ela sorriu, depositando um breve beijo em sua bochecha.
— O que foi, camarada? — Gisela perguntou olhando para Dimitri, que tinha a expressão fechada. Ela parecia feliz com o incômodo que ele parecia sentir sempre que o chamava daquela forma e principalmente agora que olhava Rose e Eddie abraçados.
Rose olhou para Lissa, que tinha sua atenção focada em um fixo ponto atrás de Rose, acima dela. Virando-se, ela visualizou a imagem daquele mesmo soldado.
— Por que está olhando? — Rose perguntou e Gisela no mesmo instante olhou para ela, parando a discussão com Dimitri.
— Você não sabe? — ela sussurrou e Rose a olhou confusa — Ele disse a Lissa para ficar longe da comida.
Rose estreitou os olhos para a amiga, que lhe deu um olhar quase colérico.
— Rose, por favor, não!
Era tarde demais, ela já havia tirado suas conclusões.
— Por que ele está nos ajudando? — perguntou, ficando nervosa e Dimitri segurou seu braço — E por que não podemos comer? Nós nem devíamos confiar nele, Liss! Não aprendeu o suficiente com a morte dos seus pais?
— Rose! — Dimitri ralhou.
— Não! — ela esbravejou, sentindo-se furiosa e continuaria se um engasgo não houvesse soado próximo onde eles estavam, mas não foi um pequeno e baixo. Era um som assustador, estrangulado.
Eles olharam para o lado, onde um garoto estava se dobrando sobre o próprio corpo. Ele cuspiu sangue no chão, antes de tombar de olhos abertos avermelhados, com um filete carmesim escorrendo pelo canto dos lábios.
Como em uma sinfônica do terror, outros começaram. Os sons dos engasgos, tosses e gritos de horror eram precedidos dos corpos tombando sobre o chão, se amontoando, um sob o outro como um efeito dominó do horror.
Nenhum guarda se movia para parar aquilo. Não se importavam.
Tudo durou pouco, rápido demais para alguém perceber o que acontecia, e quando acabou, poucas pessoas ainda estavam de pé, olhando abismadas e catatônicas para o que havia ocorrido.
Rose se virou para Lissa, finalmente entendo o porquê do aviso. Ela a segurou pelos seus ombros com força enquanto continuava a sacudindo.
— Podiam ter salvado eles! — falou, baixo e triste — Podiam ter salvado todos eles!
Dimitri a segurou pelos ombros, a afastando de Lissa com pressa e a
apertando contra o próprio peito, para silenciá-la.
— Não podíamos avisar Rose. Desconfiariam!
Ela se deixou ser abraçada, ouvindo o barulho de choros altos e
incontidos.
Hoss se manifestou horas depois, enquanto trabalhavam. Disse que uma doença silenciosa havia se espalhado na área e fez muitas vítimas. Mas
Dimitri sabia o que era aquilo. Conhecia muito bem quais eram os motivos e principalmente os sintomas. Envenenamento.
Mesmo com a população reduzida, ainda se via um número considerável de pessoas. E mais estavam chegando.
Rose estava sentada ao redor de uma mesa improvisada com outras dezenas de pessoas. Uma mulher de nome Amélia falava algumas palavras tentando dar algum conforto, contando historias de coisas que agora pareciam só um sonho.
Rose não dizia nada. Também não prestava muita atenção. Dividiram um pouco do pão que haviam conseguido. Não sabia como, mas sabia que tinha dedo de Lissa para conseguir aquilo. O galpão estava fechado e ela olhava pesarosamente para as portas, querendo ir até lá, sentir que poderia ir a qualquer lugar que quisesse. Mas isso não era possível.
— Não foi a primeira vez que ele nos ajudou, não é? — Lissa perguntou, colocando uma manta sobre os seus ombros. Rose a olhou. Era uma garota esperta, não demorou a perceber que Lissa sabia como havia conseguido o remédio — O nome dele é-
— Não temos nomes para eles, Liss! Eles também não têm nomes para nós!
— Ele não é como os outros! — Lissa rebateu — Christian foi forcado pelo pai a servir, era o dever dele, você não faria diferente em seu lugar. Não é porque ele está aqui que queira nossa morte.
— Então porque não faz algo? Por que não nos ajuda? Eles não são confiáveis.
— Dimitri confia nele.
E todos os argumentos sumiram de sua boca.
— Dimitri? — o nome escapou por entre seus lábios, soando incrédula — Dimitri está confiando em um nazista, é isso que está me dizendo?
— Não! — Liss balanço sua cabeça para os lados em uma negação — Ele confia em um homem que salvou minha vida e a de todos nós, Rose. Não foi ele quem acabou com nossas vidas!
Não deveria, mas aquelas palavras causaram o ódio de Rose.
Lissa também deveria se sentir assim! Foram eles que mataram nossas famílias! Eles quem nos fizeram esconder e fugir durante anos. Por que agora ela pode se referir a um deles como se fosse digno de qualquer coisa boa?
— Não importa Lissa! Dimitri nem sempre acerta. Nem sempre diz a verdade!
As palavras saíram mais rancorosas do que planejara, provocando a surpresa da outra, mas não as retiraria. Promessas não havia valido de nada. Dimitri as havia quebrado sem dar qualquer explicação. Ele não estava ali para ela. Não como havia prometido que estaria.
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