Rose nunca havia andado de trem. Ao menos, não que se lembrasse. A sensação era ruim para ela, que fazia de tudo para não se concentrar no cheio forte que havia ali dentro. Controlava a respiração o máximo que conseguia, mas quando não aguentava mais e buscava por ar, logo começava a tossir. A atmosfera ali dentro era escura e pesada. Quando passavam por algum foco de luz, as poucas entradas em formas retangulares que haviam na forte estrutura de ferro, iluminavam parte dos rostos aterrorizados que estavam ali. Já era o segundo dia de viagem, mas eles não tinham muita certeza quanto aquilo. Não saíram uma única vez sequer daquele local apertado.

— Para onde estamos indo? — Rose ouviu alguém perguntar e virou a cabeça, vendo uma menina loirinha agarrada fortemente a uma mulher.

— Eu não sei. — a mulher, que parecia ser sua mãe, respondeu.

— Ouvi dizer que é para um campo de trabalho — um homem disse. Ele estava abraçado a uma mulher, que acariciava uma pequena barriga — Vai ficar tudo bem, você vai ver.

Rose olhou para Dimitri, e ele assentiu levemente com a cabeça antes de puxá-la para mais perto e abraçá-la. Ele tinha o lábio inferior um pouco inchado, resultado de quando havia tentado se revoltar contra o ataque que sofreram. Os momentos de paz ou o que sobrara deles haviam acabado, todos ali sabiam disso.

— Vamos fica bem –Lissa disse e Rose a procurou entre os rostos. Não demorou a encontrá-la. Estava segurando um crucifixo na mão — Vamos ficar todos bem — ela repetiu.

Antes que Rose pudesse tentar se mexer e ir até ela, Eddie o fez, abraçando-a enquanto murmurava que ela precisava se acalmar.

Gisela estava sentada ao canto, abraçada aos joelhos e completamente calada. O olhar estava fixo em algo que ninguém não saberia dizer exatamente o que era. Ela havia se machucado mais do que Dimitri. Quando viu os nazistas entrarem, não perdeu tempo em tentar feri-los, de qualquer que tenha sido a forma.

O trem pareceu diminuir a velocidade, fazendo um barulho de ferro batendo contra ferro soar. Quando parou abruptamente, os murmúrios ali dentro ficaram mais altos. Mal sabiam eles que haviam acabado de passar pelo irônico "Arbeit march frei" do portão da frente.

O barulho das travas se abrindo fez todos se encolherem e se amontoarem no fundo do trem. Dimitri apertou a mão de Rose, que se segurou a ele mais como se buscasse por proteção e com uma das mãos livre buscou Lissa e segurou firmemente seu braço.

A grade de segurança que não deixava qualquer chance de escapatória durante o trajeto, desceu, dando a ampla visão de um campo que se estendia na frente deles. Parecia ser alguma plantação que já havia morrido coberta por um bocado de neve. O cenário todo parecia morto. O dia dava a impressão de estar nascendo. Devia ser pouco mais das cinco da manhã.

Alguém disse alguma coisa em alemão, mas Rose não prestou atenção ao que era. A sensação de mal-estar a estava deixando atordoada.

— Estão nos mandando descer — Lissa sussurrou ao ouvido de Rose, como se esperasse que a amiga pudesse fazer algo.

A ordem não foi repetida. Uma mulher magra, mas com músculos, subiu no vagão e puxou uma criança que estava por perto, forçando-a a descer. Guardas a encaminharam para um lado, enquanto outras pessoas eram forçadas a descer. Mulheres de um lado e homens de outro.

Rose protestou quando sentiu o cabelo ser puxado com violência e ela teve que descer, quase tropeçando na rampa que havia sido colocada ali de maneira precária. Dimitri tentou lhe abraçar, dizer que tudo iria ficar bem e que ele não a deixaria, mas no momento em que seus pés tocaram a terra congelada foi empurrado para o outro lado.

Dezenas de galpões podiam ser vistos dali, perfeitamente enfileirados lado a lado, e então mais um punhado atrás destes. Era como uma pequena cidade. Mais ao lado dos galpões, havia algumas casas. Não parecia ser um local ideal para se morar, mas parecia ser melhor do que nos galpões. Rose observou quando, de dentro de uma das casas, três pessoas saíram, com uniformes perfeitamente brancos e pranchetas nas mãos. Ela viu eles se dirigirem para trás daquelas casas, parecendo não notar a chegadas deles. Sentiu um gosto amargo na garganta, engolindo todo o vomito que ameaçava sair. Eles agiam como se a chegada de novos prisioneiros fosse algo comum ali, mesmo naquela quantidade. Quantos deviam de ter vindo apenas em seu vagão?

— Que bom que fizeram boa viagem, senhores — um homem alto e de porte atlético falou, com os braços esticados e mãos cruzadas à frente do corpo. Tinha grossas sobrancelhas e o cabelo preto era rente dos lados da cabeça. A massa de cabelos era tão lustrosa que dava a impressão de ter sido pintada com tinta preta brilhante — Sou o Capitão Hoss¹ e quero que saibam que aqui, os senhores não estarão passando férias. Vejam isto como uma temporada de trabalho — os pequenos olhos nem sequer vacilavam com as afirmações. Talvez, seus olhos tenham brilhado com algum tipo de sentimento quando disse "temporada", mas Rose não tinha sua atenção totalmente focada nele, de modo que não teve como ter certeza. As unhas de Lissa estavam cravadas em seu braço enquanto ela tentava se manter atenta ao homem, esperando qualquer atitude vinda dele — Seus bens pessoais não serão necessários aqui.

Assim que terminou de dizer isso, as equipes dos soldados se dividiram cada uma seguindo rumo a um amontoado. Mulheres e homens eram empurrados, enquanto tinham roupas sendo puxadas, tirando deles seus broches ou qualquer coisa que parecesse valiosa. Lissa emitiu um grito quando um crucifixo fora puxado com violência, causando uma dor em sua garganta. Já Rose, empurrou as mãos de um soldado que insistiu em puxar seu cabelo para tentar arrancar uma presilha que estava presa em sua trança e que não tinha o menor valor que pudesse ser contado. Era apenas sentimental, já que fora sua mãe quem a colocara em seu cabelo no dia em que tudo aconteceu.

Uma garota de mais ou menos dezessete anos, que estava atrás de Lissa, tentou esconder o que parecia ser um anel de ouro na mão, mas foi falha quando um soldado começou a gritar com ela e puxar seu braço para que ela libertasse o objeto. A atenção de Rose foi desviada quando viu uma movimentação ainda maior no grupo em que Dimitri estava. Era o Rabino. Havia conversado com ele e com a família durante pouco tempo. Era ele quem falava educadamente com um homem, mas isso não parecia importar enquanto o outro gritava em um tom brusco e incisivo.

— Não estou desafiando ninguém, apenas quero dizer que não precisa nos forçar a fazer algo que faremos de bom grado — ele disse, com a voz branda, mas não adiantou muito naquele momento.

Outro que também assistia a tudo ficou ao lado do soldado, que recuou alguns passos para trás. A movimentação toda parou quando Hoss se inclinou para mais perto do Rabino. Um fuzil pareceu brilhar na visão de todos os novos prisioneiros. Dimitri olhava para Rose, como se a mandasse ficar quieta, mas aquilo não seria necessário ali. Não quando as imagens do assassinato da mãe dançavam impiedosas em sua memória. Um aperto em sua mão fez com que ela virasse a cabeça para trás. Gisela observava no Rabino, com a expressão mais amedrontada que o resto deles.

— Hm — Hoss tinha seus olhos no homem já de idade e então, olhou ao seu redor, para todos os homens e então as mulheres, que pareciam se espremer umas nas outras. Por último, olhou para seus soldados. Estes permaneciam tão estáticos quanto estátuas, mas reagiriam ao primeiro comando de ameaça — Muito bem. Afastem-se, deixe que eles próprios esvaziem seus bolsos — disse ele e então se aproximou ainda mais, ficando cara a cara com o homem — Mas, caso um de vocês cometa a estupidez de esconder algo, eu não serei tão... Tolerante.

Os bens que restaram com as pessoas foram jogados em um carrinho de ferro que passava em frente a eles. O cansaço era evidente em suas expressões. Dimitri não tinha nada mais de valor consigo, então, permaneceu com seus olhos em Hoss. Este tinha seu olhar fixo no Rabino enquanto seus lábios eram uma fina linha. Dimitri os conhecia o suficiente para saber que aquilo não sairia impune. Ele viu o olhar que Hoss lançou aos seus soldados. Pode ver a raiva por trás de seu semblante endurecido. Teria volta. Ele não deixaria que aquela afronta passasse sem a correção que ele achasse merecida.

Mas, não importava o quanto Dimitri os conhecia, ele não esperava que tudo fosse tão longe.

—

Capitão Hoss¹ — Hoss era capitão da SS, uma temida tropa de choque nazista, ou, ainda, Schutztaffel. Ele liderou o campo de prisioneiros em Daschau, na Alemanha, antes de ser mandado para comandar Auschwitz. Foi ele quem mandou escrever Arbeit macht frei no portão da frente.


Notas finais
O q foi grifado é pke é em outra lingua, oks? É q ia ficar chato se eu ficasse colocando tradução, eu acho e os diálogos entre os soldados serão sempre em alemão '-' . O que estão achando da história ate aqui? Comentem, me enviem uma mensagem. Estou sempre aberta a fazer novas amizades e aceito conselhos para a fanfic. Grande beijo