Se fosse parar para pensar, Rose chegaria a conclusão de que nunca havia imaginado o mundo tal como ele estava. Claro, ela tinha uma superficial noção do que estava ocorrendo e que a fazia se esconder com os amigos, mas, o grau de violência e o quão perigoso aquilo estava sendo, era algo que ela ainda não havia tido ciência de quão grande era.

— ¹Mulheres sem filhos e saudáveis, para direita — Rose seguiu mecanicamente na direção apontada pelo homem que disse se chamar Karl. Ele usava um jaleco tão branco quanto à neve em que pisavam. Karl escreveu algo na prancheta que segurava logo depois de contar o número de mulheres que haviam ido naquela direção — Mulheres com filhos ou com qualquer tipo de doença na esquerda — poucas se moveram e, dando um singelo sorriso, o homem prosseguiu — Não se preocupem, as mães e as doentes serão tratadas — Com receio, outras voltaram a se mover, algumas segurando seus filhos ainda bebês nos braços, mas a maioria com crianças que não passavam dos dez anos de idade. Era um grupo de 260 ao todo — Homens de até 30 anos e saudáveis a direita. Idosos e os demais na esquerda — ele contou novamente os que haviam ficado na esquerda. 156. Sorriu, balançando a cabeça — Muito bem. Todos os da esquerda me acompanhem.

— As mulheres da esquerda, venham comigo — a guarda que havia empurrado Rose mais cedo falou, mantendo sua postura ereta. Dimitri estava em um grupo dos que havia ficado. Trocara um rápido olhar com ele antes de seguir o resto do grupo. Enquanto caminhava o mais rapidamente que podia, ouviu apenas a última frase de um soldado que falava calmamente com outro.

— Hoss realmente tem horror a fuzilamentos e banhos de sangue ² — falou em um tom risonho.

Rose franziu as sobrancelhas, tentando entender aquelas palavras. Virou-se para trás rapidamente, vendo o grupo das mulheres que haviam ficado a seguir para um dos maiores galpões. Havia uma espécie de chaminé no teto, mas não era como uma realmente. Era mais estreita e metálica. Viu duas pessoas subirem por uma escada até o teto e então parou de olhar, voltando sua atenção para frente.

Assim que ouviu a ordem que foi dada, Rose esqueceu sobre o outro grupo, se preocupando em mover os dedos com rapidez, tentando se livrar das roupas o mais rápido que conseguia, mas o frio que sentia a cada peça removida tornava o processo lento e doloroso. Enquanto fazia isso, ouvindo as ordens em meio aos insultos sendo ditos a ela e todas as outras mulheres que estavam fazendo o mesmo que ela, Rose ainda tentava ajudar Lissa. A pele da garota, que já era um pouco pálida pela sua cor natural, atingira um tom meio esverdeado.

— Minha cabeça está doendo — chorou quando Rose puxou a blusa que ela vestia por cima de sua cabeça.

— Shh, — ela fez, olhando para a mulher loura e de olhos azuis que estava atrás dela — Vamos dar um jeito de sair daqui, Liss, está me ouvindo? — perguntou aos sussurros enquanto a ajudava com a saia — Mas para isso eu preciso que confie em mim e fique calma, entendeu?

Lissa assentiu, mesmo sabendo que as palavras de Rose não foram firmes. Lançou um rápido olhar para Gisela, que ainda parecia olhar a tudo com um assombro de dar pena em qualquer um, não lembrando mais a garota que havia enfrentado Dimitri poucos dias antes.

— Como acha que estão Eddie e Dimitri? — Lissa perguntou, falando o mais baixo que conseguia.

Rose continuou a ajudando em silêncio, não respondendo à pergunta.

Quando foram enfiadas naquele barracão, não pode ver o que estava acontecendo a Dimitri e a todos os outros homens. O silêncio seria melhor do que se começasse a pensar no que eles estariam fazendo com Dimitri ou Eddie. Terminou de ajudar Lissa a se vestir e vestir a si mesma com as roupas finas que lhes foram dadas. Aquilo não foi o suficiente nem mesmo para parar o tremor que sentia pelo frio.

Não foi possível nenhuma outra conversa quando elas foram levadas para fora do barracão rapidamente. Caçou Dimitri com os olhos enquanto saia dali, não esperando que nenhuma outra maldita nazista tocasse nela, mas não o encontrou em lugar algum. Exceto pelos soldados montando guarda segurando fuzis com um olhar que dizia que não hesitariam a qualquer passo em falso delas, não havia qualquer outro homem em parte alguma dali. Nenhum dos que haviam sido seus companheiros na viagem de trem.

— Siga em frente! — Alguém gritou em seu ouvido, lhe dando um cutucão. Só então notou que as mulheres faziam uma fila enquanto cinco cadeiras estavam no início dela, com mais mulheres uniformizadas atrás das cadeiras.

Ela não pode ver o que estava acontecendo já que algumas pessoas se moveram e ficou a sua frente, mas era capaz de ouvir os soluços e murmúrios das mulheres. Entre eles, reconheceu a voz de Lissa, mas antes que tivesse a chance de novamente tentar ver o que estava ocorrendo, a sua vez chegou e ela se sentou na cadeira. Não demorou mais do que alguns milésimos de segundos para entender o que estava acontecendo.

Nem se quer se deram o trabalho de desfazerem sua trança. Ao contrário, viu o longo cabelo ainda trançado cair no chão quando o cortaram. As outras madeixas, mais curtas, iam caindo em seu colo conforme eram cortados.

Rose sentia os olhos marejados, finalmente entendendo o porquê do lamurio. Seus cabelos não eram o que ela tinha de mais precioso, mas era uma das poucas coisas que a ligavam ao pai, já que quase não tinha lembranças dele. Janine, sua mãe, também gostava de passar horas e mais horas penteando seus cabelos antes de tudo aquilo começar. Mas, mesmo com sua mãe sempre tecendo elogios sobre o quão bonito ele era e parecido com os de seu pai, Dimitri parecia ser o seu maior admirador. Lembrava-se bem de como, quando ainda dormiam juntos, acordava com Dimitri segurando um punhado de seu cabelo entre os dedos.

Ela soluçou, prendendo o choro o máximo que pode e se negando a dar um grito de dor enquanto sentia alguém puxar com força os tufos de cabelo que pareciam ser mais difíceis de serem cortados.

Quando se levantou da cadeira, os fios castanhos escuros caíram no chão e ela passou uma mão pela cabeça, sentindo os cabelos curtos e, em alguns pontos, eles nem ao menos pareciam existir, tão rentes que haviam sido cortados.

Naquele momento ela ficou preparada para o pior. Forçava-se a manter o grito preso na garganta, lutando para não chamar atenção para si mesma. Os pés, que pareciam estar calçados com apenas meias de tão fino que eram os sapatos se afundaram na pesada neve, mas aquilo não era nada comparado ao frio que percorria todo o seu corpo, como se fossem pequenas agulhas bem afiadas espetando-a a cada segundo. Abraçou seu próprio corpo, finalmente se permitindo deixar uma lágrima cair, mas foi a única. Poucas vezes havia se sentido tão sozinha em sua vida. A última vez, fora no dia em que encontrara Dimitri na floresta, desde então, sempre estiveram tão juntos que solidão era um sentimento que Rose nem conseguia se lembrar de como era ruim.

— O que pensa que está fazendo? — alguém perguntou e segurou no que sobrara de seu cabelo a empurrando para algum canto.

Ela sentiu alguém ampará-la e se virou, olhando para Gisela.

— Não chame atenção, Rose, isso fará tudo ser ainda pior para nós.

Ciente de que se falasse alguma coisa tudo o que sairia de sua boca seria choro, ela ficou em silêncio enquanto Gisela a levava para outra fila. Esta parecia igual à outra, mas, ninguém ali estava cortando cabelos.

A sensação de ser tratada como um objeto nunca ficou tão clara na mente de Rose. O braço estava estendido sobre a mesa, enquanto as unhas perfeitamente lixadas, mas castigadas pelo frio intenso que ali fazia seguravam seu braço firmemente, como se soubesse o que Rose tanta almejava fazer.

O objeto afiado dançava sobre sua pele de maneira forçada, não como se deslizasse. Gotículas de sangue surgiam no caminho, conforme os números eram gravados em sua pele morena. 607656. Era seu número de identificação, ouviu alguém dizer perto dela em alemão, como se estivesse cantando. Como se aquela fosse uma das melhores coisas que se pudesse acontecer. Não era.

Quando acabou, tudo o que Rose fez foi olhar para a numeração em seu braço, como se não fosse uma pessoa e não tivesse alma. O local ainda ardia, mas muito mais ardia seu corpo. Tantas coisas passavam pela sua cabeça, mas a morte estava em último lugar. Dimitri e os outros estavam em primeiro. Ela percorreu toda a extensão do campo, tentando enxergar além das construções. Foi desesperador. Não havia nada ali que indicasse qualquer chance de fuga. Não quando o campo parecia ser vigiado desde os soldados em terra até os que estavam nos faróis, atentos a toda movimentação.


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¹ A triagem realmente ocorria e, caso não tenha ficado claro, o local para que o outro grupo, de mães, crianças, doentes e idosos foram levados era a câmera de gás, onde havia o Zyklon B (ciclone, traduzindo para o português) e a morte chegava em até 10 minutos. Tentei descrever a área como está nos mapas divulgados após a morte do engenheiro Karl Bischoff, mas me desculpem qualquer erro.

² O fato sobre Hoss realmente ter horror a banhos de sangue é verdadeiro. Ele próprio admitiu, mas a frase completa e correta é: "A história do gás me tranquilizou. Sempre tive horror dos fuzilamentos, daqueles banhos de sangue". — pag 68 (Auschwitz — Por Dentro da Fábrica de Matar).