Final de 1944


— Uma maçã pelos seus pensamentos. — Rose falou, rindo quando o homem se assustou, pego de surpresa.

Dimitri sorriu de volta e ergueu a mão para pegar a fruta, mas Rose a puxou de volta.

— Sem confissões, sem maçã — falou tentando repreendê-lo.

— Você faria algo tão cruel comigo, Roza? — o russo perguntou dando um passo em sua direção enquanto Rose recuava outro. O sorriso maroto ainda estava presente em seu rosto quando Dimitri segurou a cintura de Rose e, mesmo ela inutilmente erguendo seu corpo com a mão para cima, pegou a maçã de suas mãos.

— Você joga sujo, Camarada. — falou dando um tapa inofensivo em seu braço.

Ele mordeu a fruta, achando engraçado o fato de Rose tentar parecer realmente irritada.

— Não jogo não — defendeu-se — Não tenho culpa se você é péssima com negociações, Roza.

Ela revirou os olhos e Dimitri a soltou. Avaliou a maçã que estava em sua mão.

— O inverno está aí. — falou tranquilamente e olhou de relance para a neve que se acumulara na janela de vidro redonda um pouco acima deles. Mesmo sendo noite, a fraca luz que iluminava o porão era o suficiente para iluminar o local — Talvez não dê tempo de colhermos tudo.

— Vai dar! — Rose lhe assegurou — Temos apenas que-

Dimitri sorriu e Rose parou de falar.

— O que houve? — ela passou uma mão pelo longo cabelo castanho escuro, o levando para frente, pensando que havia algo de errado com ele.

— Gosto da sua maneira de ver as coisas. Você tem esperança até mesmo quando tudo pode ir mal — sorriu novamente e Rose corou.

— Você sabe, nunca devemos desistir. — declarou, lembrando-se do que Dimitri havia dito quando a salvara dos soldados nazistas.

Ele sorriu e deu um tapinha no topo da cabeça de Rose.

— Você aprende rápido, baixinha.

— Você é um bom professor, grandão. — devolveu encostando seus braços levemente enquanto caminhavam lado a lado para fora do porão. Subiram as curtas escadas que davam no térreo e mal haviam pisado ali o lugar ficou totalmente escuro.

A mão de Dimitri segurou a de Rose fortemente na sua.

— Estou aqui — ele disse. Mesmo sabendo que ela já não temia tanto a escuridão, achou que fosse de bom tom segurar sua mão, caso ela saísse correndo pela casa.

— Eu sei que está. — apertou levemente sua mão de volta e a soltou no mesmo instante em que ouviu a voz de Eddie.

— Aqueles saumensch¹ estão desligando os geradores cada vez mais cedo. — o rosto de Eddie foi iluminado por uma lamparina que ele segurava. As mãos estavam um pouco esfoladas e assim que os olhos de Rose pararam nelas ele se explicou — Estava tentando colher aquelas ervas que Dimitri disse, mas parecem ter congelado na terra. — falou como se pedisse desculpas.

— Está tudo bem Eddie — Rose respondeu contendo a expressão infeliz que ameaçava escapar a qualquer momento. Tinha que manter as esperanças já que todos os outros não pareciam mais capazes de fazê-lo — Eu vou vê-la agora, talvez esteja melhorando...

— Gisela está tentando fazer com que ela coma alguma coisa agora. Aqui, pegue esta — Eddie disse, lhe oferecendo a lamparina.

— Não é necessário. Eu coloquei uma lá mais cedo, pouco antes de descer. — ela olhou brevemente para Dimitri — Não coloque água de mais quando cozinhar os ovos.

Dimitri sorriu para suas costas quando ela caminhou em direção ao cômodo em que Lissa estava ficando.

— Vamos lá grandão, eu te ajudo com a janta. — Eddie caçoou e não pode ver o olhar que Dimitri lhe deu já que a luz da lamparina jogava sombras em seu rosto.

— Você sabe como Rose é. — ele disse, caminhando ao lado de Eddie.

— Não sei não — ele respondeu, tentando parecer engraçado — foi você quem passou os últimos 10 anos ao lado dela, não eu. Então, diga-me: como Rosemarie é?

Dimitri parou de andar abruptamente, entendendo o sentido malicioso explicito nas palavras de Eddie.

— Nunca mais repita isso! — falou. Sua mão, mesmo estando um pouco escuro, agarrou a camisa fina de Eddie e o puxou para mais perto — Se eu te ouvir fizer qualquer alusão desse tipo a Rosemarie novamente, aí você vai ver como eu sou!

Escondendo o sorriso Eddie ergueu as mãos em um sinal de rendição.

— Desculpe-me, Belikov — falou, sabendo como falar de Rose o atormentava. Ainda não sabia por que não estavam juntos, já que as chances de sobreviverem em meio aquele caos diminuía de acordo com seus suprimentos. Sua língua coçou para falar, e ele sabia que seria perigoso fazer aquilo quando os punhos de Dimitri ainda estavam perigosamente perto de seu rosto, mas ele simplesmente disse — Não sei por que simplesmente não diz que gosta dela. Há três anos venho vendo você agir feito um adolescente apaixonado perto dela. — ele disse e virou a cabeça para o lado, temendo pelo golpe que não veio.

— Arschloch ² — Dimitri praticamente soletrou em alemão, mesmo odiando o idioma era o único que todos ali falavam.

Ele soltou Eddie com um empurrão e foi caminhando às cegas pelo corredor que nunca parecia ter fim. No fim, seus olhos se acostumaram com o breu e finalmente chegou à cozinha improvisada. Havia poucos utensílios ali, mas serviam para os cinco moradores daquela casa. Acenderam as velas que haviam por lá e Eddie ajudou Dimitri a fazer os poucos legumes que haviam sobrado e grãos.

Enquanto estava ali, Dimitri ignorava as brincadeiras de Eddie mesmo sabendo que elas tinham um fundo.

Desde que vira Rose na fronteira da Áustria, perto do corpo de sua mãe, começou a protegê-la. Foi difícil correr com ela enquanto Rose ainda mantinha os olhos grudados no corpo da mãe, que jazia no chão. E ainda mais difícil quando os soldados correram atrás deles. Eles haviam se tornado amigos. Dimitri sabia caçar bem e era isso o que ele fazia para se alimentarem enquanto ficavam na floresta. Rose era boa para achar água, já que conhecia bem àquela região. Com o tempo, aquele não era mais um lugar seguro.

Foi quando conheceram Eddie, Lissa e Gisela. Eles procuravam por um lugar para ficar. Dois dias andando durante o dia, onde ficava mais fácil e menos suspeito de prosseguirem, fez com que eles se sentissem cada vez mais cansados e consequentemente mais próximos. Encontraram uma casa abandonada perto de um penhasco. As imagens nas paredes mostravam a quem aquela casa havia pertencido antes. Alguns quartos tinham as paredes cobertas por fuligem.

Os nazistas haviam queimado aquela casa poucos dias antes deles a encontrarem. Pertenceu a uma família que ia contra as ideias de Hitler. Os pais foram mortos quando resistiram. Os dois meninos levados para o campo de concentração, conhecido também como campo de trabalho. A filha, a mais velha dos irmãos, quando se teve a suspeita de estar com tifo foi levada para uma câmera de gás. Não é necessário que se diga o que houve depois...

— O que vamos fazer? — Eddie perguntou quando notou o olhar de Dimitri sobre os poucos suprimentos que estavam dispostos sobre a mesa. Todos ali o viam como um líder, já que era o mais velho e responsável entre todos.

— Lissa precisa se alimentar bem agora — Rose falou entrando no cômodo — Gisela disse que ela está se recuperando rápido. A febre abaixou o que significa que daqui a pouco ela estará com fome — ela parou de falar, notando Dimitri e Eddie um pouco tensos — O que houve?

— A carne acabou. E o pão também — Eddie respondeu — Tem alguns grãos e frutas, mas não é o que minha mãe recomendaria para alguém doente.

— Amanhã resolvemos isso — ela falou prendendo o cabelo com um tecido que estava em sua mão — Por hora servirá.

Assim que Rose acabou de falar Gisela entrou. Ela, assim como Eddie, era judia. Tinha pouco mais de 15 anos, a mais jovem do grupo. Ela, Lissa e Eddie eram amigos quando Dimitri e Rose os encontraram. A garota, que antes era tímida e sempre se retraia por ser mais nova que o restante, havia se mostrado uma grande falastrona quando o assunto era política ou manobras arriscadas.

— Eu ouvi falarem que amanhã haverá uma reunião na praça central. Querem passar um filme para as pessoas — ela fez careta — Eu aposto que aqueles saumensch vão ficar falando sobre serem superiores a nós — balançou a cabeça em desagrado e suas finas mechas marrons balançaram juntas — De qualquer forma, se precisamos de alimentos aqueles saukers³ podem muito bem nos dar um pouco.

Dimitri a olhou em descrença. Na metade do tempo achava sadio conversar com Gisela e assim saber sobre o rumo que a Alemanha estava levando e se a guerra estava perto ou não de acabar, em sua opinião. Mas, na outra metade, Gisela não dizia coisas facilmente aceitáveis.

— E como sugere que façamos isso? — perguntou cruzando os braços sobre o peito — Que simplesmente cheguemos e peçamos um pouco a eles?

Ela deu de ombros, erguendo a mão para tocar no vestido de Rose. Admirava a morena verdadeiramente. Sorriu.

— Ninguém aqui falou em pedir. Temos Rose aqui. Lembra-se de quão rápida ela é? — Gisela perguntou.

Os olhos de Rose brilharam enquanto ela assimilava o que Gisela havia dito com a necessidade. Ela travava uma briga entre o necessário e a loucura que era fazer aquilo. Outra vez.

— Não! — Dimitri disse, socando um tanto quanto forte a velha mesa de madeira que balançou um pouco — Ela não pode fazer isso de novo, é arriscado!

— Deu certo uma vez — Gisela rebateu.

— Ela quase morreu!

— Mas precisamos fazer algo — Eddie disse, considerando a ideia de Gisela — Rose é rápida e espert-

— É suicídio! — Dimitri gritou, movendo-se em direção a Gisela. Tinha intenção de que intimidasse a garota o suficiente para que ela se calasse, mas ela estufou o peito.

— Lissa pode morrer! Acha que Rose poderia conviver com isso?

— Exagero! Ela aguenta algumas semanas. Isso está fora de cogitação, Gisela, nem ao menos tente!

— Eu consigo — a voz de Rose calou a todos, Ela havia permanecido calada por tanto tempo que os três se surpreenderam que o motivo da discussão ainda estivesse parado ali — Eu posso me mover rápido o suficiente e entrar no armazém deles. Eu faço. — tinha tanta determinação em suas palavras que Dimitri ficou preso entre admiração pela coragem e raiva pela estupidez.

— Não! Rose, não entende? Eles quase a pegaram daquela vez. — o tom de Dimitri beirava as súplicas.

— Eu estava machucada aquela vez, Dimitri. Tudo está bem agora. — ela colocou as duas mãos sobre o seu rosto e ele fechou os olhos — Eu preciso ir. Precisamos fazer algo, você sabe.

Dimitri abriu os olhos, se prendendo aos castanhos de Rose.

— Eu vou com você.

— Isso — Gisela deu ênfase — Seria suicídio.

— Não — Dimitri falou sem se virar para ela — isso se chama proteger os nossos.


1 — Saumensch — Na frase com o sentido de porcos, mas também serve para dizer imprestável, preguiçosos.

2 — Arschloch — Babaca.

3 — Saukerl — Bastardos.



Notas finais
Ahhh eu sou tão apaixonada por esse casal maravilhoso. Tão diferentes e impossivel um ficar longe do outro. O que acharam do capítulo? Bjs