Auschwitz

17 Capítulo 15


Três meses depois — Polônia — Maio de 1945

Não sabia dizer com exatidão como chegara ali. Em um instante lembrava-se de estar caindo e caindo e caindo e então, em outro, lá estava ela, entre os trilhos do trem que chegava todos os dias, vindo de algum lugar, carregado de prisioneiros ou mantimentos.

Sua veste era apenas um vestido azul celeste que caia até pouco abaixo dos joelhos. Os pés descalços, mas o frio não incomodava nenhum pouco.

— Rose.

O nome foi dito suavemente, como em um sopro.

Parecia ser a voz de Dimitri. Parecia ser o mesmo tom que ele usava quando estava preocupado, ou então quando queria que ela prestasse atenção em algo. Mas não era sua voz. Era mais forte, mas soava igualmente alarmada.

No entanto, quando ergueu os olhos na direção em que seu nome foi chamado, não encontrou nada... Exceto a paisagem de um branco puro, que se estendia a perder de vista como um tapete feito de neve.

Foi então que ela se voltou para trás, quando seus olhos se arregalarem em surpresa e terror e seu coração passou a bater em um ritmo acelerado, quase indo a boca.

Uma fogueira estava acesa.

Hoss estava à frente de uma fileira de soldados, falando alguma coisa que Rose não conseguia entender. Afinal, ela estava vendo Dimitri ali, a poucos metros dela, completamente machucado, como se o tivessem açoitado. Eddie, Lissa, Gisela e o garoto Edmund também. Todos perigosamente perto do fogo, presos juntos por uma grossa corrente que ela não sabia a quê estava ligada.

Christian estava longe, mas olhava fixamente para Rose. Seus lábios tremularam. Parecia ser um pedido de desculpas, mas ela não se atentou a isso. O barulho de um trem se aproximando era alto, junto com as correntes se arrastando, afundando na neve e batendo nos trilhos. E quanto mais a corrente era puxada, mais Dimitri e os outros se aproximavam do fogo.

Não conseguia gritar, era como se tivessem lhe roubado o direito da fala. Não sentia nem ao menos a língua dentro da boca, mas queria desesperadamente poder sentir suas pernas novamente e tentar fazer algo. Não foi capaz nem ao menos de cobrir as orelhas com as mãos, para abafar os gritos dos companheiros quando as chamas trêmulas tocaram seus corpos.

Doía tanto. O sentimento de impotência também era grande, por saber que não estava fazendo nada para parar aquilo. Que todos sempre haviam tentando protegê-la e ela nada estava fazendo em troca. Era sua culpa. Todos tinham um pouco dela, mas Rose a maior parte. Ela havia procurado desesperadamente pela fuga, não se importando se morreria no meio, mas contanto que fosse longe dali. Só não pensou que eles morreriam. Ela estava pronta para morrer, mas não para perde-los.

A cena se reformulou. Estava tudo diferente. O ambiente parecia ter se reinventado diante de seus olhos.

Um barracão estava a sua frente. Sua estrutura metálica completamente fechada. Um homem trajando um macacão cinza e uma máscara no rosto estava sob a estrutura, parecendo tão imóvel feito uma estátua de pedra.

Gritos saíam de lá de dentro. Gritos de socorro, tão dolorosos que apertavam seu coração, como se alguém o tivesse pegado nas mãos e o estivesse apertando cada vez mais forte. Mas durou pouco. Os gritos cessaram quase que no mesmo instante. Apenas segundos pareciam ter se passado desde que haviam começado.

Uma porta foi aberta e ela recuou quando viu os corpos ali, caindo um por cima do outro, como se todos estivessem decididos se amontoarem próximo a porta e tivessem morrido ali. Mais atrás, mais corpos, mas sempre próximos a porta.

Por um instante, pensou ver o pequeno bebê Lucy entre eles, agarrado ao corpo da mãe.

Viu Edmund se aproximar, se debruçando sobre a pilha e puxando um dos corpos, arrastando. Ele nem se quer olhava para Rose ou parecia se importar com aquilo. A tarefa parecia ser mecânica. E então outros se aproximaram, todos prisioneiros, fazendo o mesmo que ele.

O terror engolfou-a naquele momento e quase que instantaneamente a cena se dissolveu para a mais profunda escuridão.

Algumas vezes, Rose sentia como se um espelho tivesse sido colocado em meio a aquela escuridão. Podia jurar que estava vendo seus próprios olhos a observarem, amorosos e astutos. Em outras, sabia que se tratava de um sonho, afinal, ouvia a mesma canção turca que Janine cantava depois de ter aprendido com o marido e que acalmava Rose. E tinha às vezes em que não havia nada além da escuridão, sem som ou imagens, apenas uma reconfortante sensação de proteção.

Quando finalmente teve forças para lutar contra a escuridão e despertou, não sabia em que lugar estava, mas se parecia muito com os sonhos que tivera durante muitas noites em que estava longe do campo, vivendo bem e segura.

Um aroma cítrico pairava no ar e fazia o nariz de Rose formigar.

O quarto era pequeno, mas ainda sim aconchegante com as paredes todas brancas e poucos quadros pendurados nelas. Estava sobre uma cama confortável e devagar, muito lentamente, ela se sentou, sentindo suas juntas estalarem. Parecia ter estado na mesma posição durante algum tempo e a cabeça doeu. O corpo parecia vagarosamente reconhecer os comandos de seu cérebro.

Lembrou-se do que havia visto após cair. Estivera no campo. Vendo as pessoas que amava morrer. E parecia tão real...

Perguntou-se onde estavam os outros. Se haviam conseguido escapar... Se a sua queda havia ao menos lhes dado um tempo para a fuga. Pediu a quem quer que tivesse olhado por eles, que Dimitri uma vez na vida tivesse se esquecido dela e tivesse corrido por sua vida.

Uma porta se abriu e uma mulher baixinha de cabelos castanhos claros apareceu para Rose.

Ela segurava uma bandeja que caiu quando olhou para a garota na cama. Sua boca se abriu em espanto, como se não acreditasse no que estava vendo.

— Que lugar é esse? — Rose perguntou em um alemão quase inaudível com a garganta adormecida, enquanto recuava um pouco na cama. Não sabia onde estava e o que havia acontecido. Não sabia quem era aquela mulher nem se era seguro.

A mulher limpou a garganta.

— Você está em Royce — falou se aproximando após recolher as coisas do chão. Tocou a testa de Rose e novamente ela recuou, sentindo aquela área mais sensível — Você é Rose, certo? Lembra-se, não é?

Havia um toque grave na voz da mulher, um sotaque que a lembrava de algo, mas ela não sabia o quê.

Ela assentiu vagamente, então se perguntando como ela sabia seu nome. Estendendo o braço, ela viu a numeração ainda gravada ali. Acostumara-se a ser chamada por seu número.

— Onde estão meus amigos?

— Como se sente? — perguntou retirando um curativo da testa de Rose, que gemeu de dor, automaticamente lembrando-se da dolorosa queda. Ao perceber que não responderia, a mulher deu um pequeno sorriso — Sou Sasha, estava cuidando de você durante os últimos meses. Seus amigos estão bem. Eles passam muito tempo aqui, se gostaria de saber. Especialmente o Sr. Belikov. Mas Heffley não gosta muito disso.

Sentiu uma forte pontada na cabeça, como se tivesse levado um murro de punho de ferro naquela região. Belikov. Dimitri estivera ali, ele estava bem, então. Queria ver ele, saber se Sasha estava dizendo a verdade. Queria abraçá-lo e ver com seus próprios olhos que estava bem.

Mas não sabia quem era o outro.

— Heffley? — perguntou, esfregando a cabeça com uma mão, notando que o cabelo parecia ter crescido. Agora, ela podia sentir os fios quase roçarem a nuca — Há quanto tempo estou aqui?

— Três meses, desde que Heffley trouxe você e seus amigos e me mandaram para cá. Ele é amigo de Kowalski, que vai querer ouvi-la, mesmo que não seja necessário. Para falar sobre... Isso.

Os olhos escuros de Sasha caíram sobre o antebraço de Rose, que olhou para o mesmo ponto. Aqueles números a perseguiriam para onde quer que fosse. Sentia sua cabeça doer cada vez mais e não estava conseguindo absorver tantas informações ao mesmo tempo. Sentia partes faltando e não entendia nada do que Sasha dizia.

— Quando encontraram você, perto de Stettin, estava desacordava e muito ferida. Levaram você e seus amigos para o acampamento dos soldados e então o sr. Heffley trouxe você e seus amigos para cá. Assim você ficaria mais confortável e teria melhores meios de se curar. A maioria dos outros prisioneiros que foram libertados também vieram para a Polônia.

Libertados. Prisioneiros.

As duas palavras não pareciam combinar na mesma frase, principalmente no sentido em que ela havia compreendido.

Pontinhos negros e brilhantes começaram a dançar no campo de visão de Rose. A dor em sua cabeça parecia aumentar cada vez mais, como se algo estivesse apertando fortemente seu crânio. Os pontos cresceram e logo Rose não conseguia ver mais nada além da escuridão que a abraçou, levando cada vez mais para o fundo.

Quando acordou outra vez, antes mesmo que notasse que não havia mais nada preso ao seu corpo, viu que Dimitri estava ali, com uma expressão de preocupação e ternura, segurando sua mão com carinho. Tinha um pequeno sorriso em sua boca e sua aparência era bem cuidada. Seu cabelo tinha sido cortado, mas não como foi no campo. Até mesmo sua pele estava melhor, o que a deixava confusa.

Rose se lembrava claramente agora, de cada instante. De tudo o que havia acontecido e visto. E mesmo com Dimitri ali, ela sentia-se insegura, desprotegida. Como se em qualquer instante alguém fosse aparecer ali e arrancá-la a força. Então ela não disse nada, apenas esperou que como em seus melhores sonhos e piores pesadelos, a cena se dissolvesse.

Isso não aconteceu.

— Achei que nunca mais veria você de novo, Roza— um raio de calor percorreu todo o corpo de Rose quando ouviu sua voz. Não poderia ser um sonho. Sua imaginação não era assim tão fiel e atroz, afinal — Não sabe como eu me senti quando a vi desacordada e com todo aquele sangue. Pensei que-

— Está tudo bem — ela o interrompeu, tocando com o indicador os lábios de Dimitri — Eu ainda não sei o que houve, mas está tudo bem. Você vê?

É real, não é?

Dimitri assentiu e em um tom calmo e lento, contou a Rose o que havia acontecido desde a noite em que haviam subido a montanha. Vez ou outra ele fazia uma pausa, deixando que Rose absorvesse lentamente as informações dadas.

Ele contou a ela que não eram nazistas que estavam lá naquela noite, era um grupo de soldados soviéticos sondando a área. Ele explicou da melhor forma que pode sobre a guerra que quase chegava ao fim. Dos soldados que haviam pegado suas declarações sobre Auschwitz e que o campo havia sido invadido e os prisioneiros libertados. E de todos os outros campos. Contou que a Alemanha se rendeu incondicionalmente e que aquilo estava perto do fim. Contou a ela que estavam em Royce, uma cidade ao leste da Polônia que já havia sido tomada pelas tropas soviéticas ¹ e que muitos dos prisioneiros feridos de Auschwitz estavam ali. Estavam na mansão de um homem gentil que havia se compadecido com o que todos haviam passado e que havia cedido para que Rose se tratasse ali.

Dimitri não esperou que Rose sorrisse ou ficasse feliz. Ele a entendia bem para saber que ela não teria aquela reação. Estava feliz, mas sentia o peso de tudo. E sentiria por mais algum tempo. Passara três meses em coma. Não viu as coisas acontecerem como ele viu. Não viu como as coisas estavam realmente ruins.

— Lissa e os outros também estão aqui? — perguntou após minutos de puro silêncio.

Dimitri desviou os olhos por um breve instante, antes de voltar a encará-la. Os olhos castanhos escuros antecipavam algo que Rose sabia que não iria gostar de ouvir.

— Que houve? — perguntou — Me diz o que aconteceu, Dimitri!

— Gisela não ficou bem — murmurou, segurando a mão de Rose com mais força — Ela pensava que todos aqui eram nazistas e que estavam esperando apenas o momento certo para nos levarem de volta e nos matarem. Não deixava ninguém se aproximar muito dela e chorava todo instante. Parecia... Parecia outra pessoa.

— Pensava? Chorava? Parecia? — Rose desvencilhou sua mão do seu toque.

— Foi há algumas semanas. Lissa a deixou sozinha por alguns instantes e quando voltou já estava feito.

Grossas lágrimas rolaram pelo rosto de Rose quando entendeu o que estava feito.

Havia prometido a Gisela que iriam conseguir sair daquele lugar terrível, mas foi tarde demais. Lembrava-se do olhar perdido de Gisela e de que nada mais parecia importar para ela.

Morrer doía?

Desde o início Rose sabia que a morte poderia ser uma consequência em ambos os casos, se ficasse ou se fugisse, mas nunca pensou verdadeiramente sobre isso. Nem mesmo quando Gisela havia lhe questionado sobre isso. Talvez porque sua vontade de viver se sobrepunha ao medo de morrer. Ela tinha algo pelo que queria viver e proteger. Tinha seus amigos e Gisela também os tinha claro, mas isso não foi o suficiente para fazê-la lutar contra as coisas ruins pelo que passara.

Mas Rose tinha um adicional: antes de tudo ela tinha Dimitri, que sempre estivera ali para ela. Havia perdido os pais, mas o conhecera. Nunca estivera realmente sozinha. Sempre teve um suporte.

Lembrou-se das imagens que vira em meio à inconsciência. Aquilo sempre a perseguiria, nunca seria esquecido. E ela não queria que isso acontecesse. Talvez o mesmo tivesse acontecido com Gisela; as imagens de terror a perseguindo. Talvez por isso ela não tenha suportado tudo aquilo. Mas Rose tinha alguém ao seu lado, segurando sua mão e a mantendo no mundo real. E Dimitri também tinha alguém para fazer o mesmo. Ambos eram os pequenos pedaços do paraíso um do outro.

Dimitri a abraçou quando o choro se tornou alto, entendendo como ela se sentia. Ele sempre entendia absolutamente tudo quando se tratava dela.

Rose encostou seu nariz ao pescoço de Dimitri, inalando profundamente seu cheiro.

Aquilo era real.

— Lissa está querendo ver você, assim como Eddie. Até mesmo Edmund.

Ela não o soltou, continuou abraçada enquanto chorava por Gisela, se lamentando por não ter estado lá para dizer a ela que tudo ficaria bem, que cuidariam uns dos outros.

— Eddie está melhor?

— Conseguiram tratar do seu braço — soprou ao seu ouvido.

Rose se afastou dele e tocou em sua bochecha, onde um ferimento já havia cicatrizado. Ela o fitou, focando sua atenção no olhar radioso e na lembrança da sensação dos seus lábios nos dele. Mas não teve tempo de cobrar dele a promessa que haviam feito no campo um para o outro.

A mesma porta pela qual Sasha passara para ver Rose foi aberta, mas desta vez um homem entrou.

A expressão de Dimitri ficou dura quando ele olhou para o homem, e apertou um pouco mais a mão de Rose que ficou nervosa, disparando um choque elétrico por sua pele. Ela entendeu o que ele queria dizer. Estou aqui.

Rose observou o homem caminhar para perto da cama. Era alto e extremamente intrigante. Tinha cabelos escuros e olhos da mesma cor só que em um tom mais claro, como os de Rose.

Ele olhava para Rose como uma criança curiosa, imaginando o que deveria dizer a ela.

Rose notou, entre seus dedos, a presilha de cabelo que Dimitri havia devolvido a ela no rio, antes que ela se ferisse, e se perguntou o que ele fazia com ela.

— Não acho que seja uma boa ideia falar com ela agora, Heffley — Dimitri disse, levantando-se — Rose acabou de acordar.

Então ele é Heffley, Rose pensou. De alguma forma, achou que o nome não combinava nenhum pouco com ele.

Mas ele não tinha sua atenção em Dimitri. Seus olhos ainda encaravam Rose, com uma profunda admiração. Ela recuou quando a mão de Heffley ignorou totalmente Dimitri e tocou seu rosto.

O homem se afastou, notando que Rose não gostou da aproximação. Mas o sorriso melancólico ainda estava em seu rosto. Juntamente com algo que não era compreensível para Rose.

— Eu sou Heffey, Ibrahim Heffey — o homem se apresentou — Pensei que nunca mais a veria novamente, Biberiye.

¹ Vi um filme que falava exatamente sobre isso, a ação das tropas soviéticas durante a Segunda Grande Guerra, Katyn, e “mostra” todo o massacre que ocorreu lá. Se alguém quiser saber mais sobre o assunto, eu indico.

Notas finais
Não deixei escrito com todas as letras mas, sim, Gisela se matou. Acho que o maior problema de quem passou por isso e sobreviveu, foi o psicológico. Seguir em frente quando até mesmo sua identidade foi retirada de você... O que acham de um capítulo sobre como Gisela estava se sentindo? Comentem aqui embaixo sobre o que estão achando da historias, vamos interagir srsrs