Auschwitz

14 Capítulo 12


Não havia muita coisa que Rose temesse. Talvez a floresta escura que ficava em frente à casa que ela viveu com Dimitri, mas ele nunca a deixava lá sozinha. Então, quando ela teve o braço puxado com violência, a levando para longe da fila em que esperava chegar sua vez ela se sentiu verdadeiramente aterrorizada.

Christian gritava impropérios e injúrias, a acusando de ter feito algo que Rose nem ao menos fazia ideia do que seria. Ela queria perguntar o que estava acontecendo, mas não teve tempo.

Rose teria gritado de dor quando Christian empurrou seu corpo contra uma construção, mas não queria dar aquele gosto a ele, de saber que estava a machucando. Só lamentava por ter acreditado na palavra dele, mas não se arrependia por ter tentado até o último instante salvar a si própria e os amigos.

Ajeitou os ombros e ergueu o olhar para ele, esperando que ele continuasse a ofendendo e a punindo por sabe-se lá o que.

Todavia, nada foi dito quando Christian retirou do bolso um papel de formato quadrado, o rosto em uma expressão que não lembrava a do mesmo soldado que a agarrara com violência.

Foi então que viu Dimitri e quase engasgou, se seu coração não tivesse tão acelerado de medo, provavelmente teria.

O seu primeiro impulso foi o de jogar seu corpo contra o dele e se perguntar o que ele fazia ali. Não havia o visto ser forçado. Olhou por breves segundos para seus olhos, mas então parou.

Já havia sido defendida por ele tantas vezes, que quando viu sua expressão calma e não aparentando pânico e nem pronto para destroçar o soldado que lhe tocou, deu passos para trás e olhou para Christian. Esse sim parecia assustado. Voltou à atenção para Dimitri e seu olhar desceu para as mãos dela, que seguraram as dele quando por um momento ela pensou que ele estava ali para defendê-la. No entanto, assim que ela o soltou, notou a camiseta fina que ele usava manchada de um vermelho vivo.

— Isso é-

— Não é meu — Dimitri falou, cortando o que Rose dizia. Cortando qualquer ataque que ela pudesse vir a ter somente com o pensamento de que ele estava machucado. Pedia mentalmente para que ela não insistisse para saber de quem era.

— Não temos tempo para isso — Christian os interrompeu, entrando entre eles e fazendo Rose recuar. Quanto mais distância, para ela, melhor.

Christian lançou um olhar enojado por cima do ombro, mas ela somente ignorou.

— Que está havendo? — perguntou — Por que me trouxe aqui? O que ele faz aqui?

— Não esperava que eu fosse confiar somente em você, pensou?

Havia um tom ácido nas palavras de Christian, mas ela odiou a voz de Dimitri quando falou com ela:

— E eu pensei que tivéssemos um acordo, Rose — ele disse, e o tom calmo foi o que fez tudo pior — Confiar em nós, lembra? Foi isso o que prometemos.

Ela se lembrava de todas as promessas e não havia como negar aquilo.

— Eu não podia ficar esperando. Você não entende! Eu perdi meu pai e minha mãe apenas esperando. Foi isso o que fiz a vida toda; esperei. E eu não quero ficar aqui, esperando pelo dia em que eles vão me matar, igual fizeram com todos!

— Se continuar agindo como uma egoísta e pensando apenas em você isso não é algo que vai demorar a acontecer! — ele não queria, mas as palavras soaram mais duras do que deveriam.

Christian havia se afastado, deixando que os dois discutissem. Rose nem se lembrava mais da sua presença.

— Em mim? Eu estava pensando em Lissa e em vocês. Principalmente em você!

Dimitri sabia que havia sido equivocado ao chamá-la de egoísta, mas sentia-se extremamente bravo por pensar que ela não havia confiado nele. E a justificativa usada apenas piorou isso.

— Se quer pensar em mim, então comece cuidando de si mesma! — rebateu irritado.

Ele confiava em Christian, mas não sabia até onde ele estava disposto a ir.

— Eu realmente adoraria ficar aqui e vê-los discutir sobre isso, mas temos um assunto sério a tratar, Camarada — o tom irônico presente era como um alerta para ambos. Não se confia totalmente em um nazista.

— Quando vai ser? — Dimitri perguntou, deixando tudo o mais o que poderia dizer para Rose para outro momento.

— Assim que amanhecer. Quando todos estiverem indo para o trabalho. Vão fazer parecer um acidente.

Ela trocou olhares entre eles, confusa sobre o que falavam.

— O que vai acontecer?

O olhar de Dimitri pesou sobre ela, e então soltou um longo suspiro.

— Vão matar todos, Rose. Execução em massa. Essa manhã.

Não era como se ele estivesse esperando gritos desesperados da parte dela. Sabia quem era Rose e mesmo que Christian tivesse dito que não era uma boa ideia contar aquilo para a garota impulsiva, ele não podia esconder dela. Havia visto de perto a mudança dela para achar que se tornara capaz de tudo.

— Não vai dar para esperar o trem. Ninguém está se importando com o resto de nós — murmurou e mesmo que tivesse dito em forte tom comiserado, Rose sabia que isso não era por ela e pelas centenas que ali estavam.

Centenas...

Muitos que ela não chegara a conhecer. Muitos que ela não se lembraria dos rostos. Muitos que jamais voltariam para casa. Foi como se alguém tivesse comprimido seus pulmões. Puxava o ar com força, lutando contra a pressão do horror que fazia em seu peito.

— E os outros? — perguntou com respiração entrecortada.

Não conseguia mais ver nenhum dos dois, era como se estivesse assistindo ao futuro, vendo em diferentes formas pessoas morrendo. Algumas sem nem ao menos terem consciência disso.

Sentiu duas mãos se postarem em seu rosto, uma de cada lado.

Dimitri não disse nada, apenas colou sua testa a dela, respirando lentamente e de olhos fechados.

— Como fará com o outro? — a voz de Christian furou a pequena bolha que se formara ao redor deles — Ele será um empecilho quando sairmos daqui.

Rose abriu os olhos se inclinando para trás e os estreitando para Christian. Percebeu Dimitri ficar tenso e olhou para ele. Foi como se tivesse olhado para ele pela primeira vez naquele dia. Uma das mãos voou para um pouco abaixo da orelha direita, mas hesitou antes de tocar o vergão avermelhado que se erguia em sua pele.

— O que houve com você? — mudou o olhar novamente para Christian e então de volta para ele — De quem falam?

— Foi apenas uma pancada, Roza — uma nota forte e cautelosa estava em sua voz. Era como se ele esperasse que Rose se contentasse com aquela simples explicação.

— Foi aquele judeu — Christian respondeu, parecendo não ter entendido o quanto aquilo dificultaria ainda mais as coisas para eles — O que anda com vocês. Não pude fazer nada quando Otto não gostou da forma como ele o olhava.

Dimitri fechou as mãos em punhos e virou-se para ele.

— Você só não fez nada porque não lhe afetava!

Era uma acusação quase falsa. Aquilo afetou Christian. Oh sim, ele não achou uma boa justificativa aquela para começar a surrar alguém, mas não podia intervir. Não na frente de seus superiores. Com o fim determinado do complexo ou não, ele ainda era um filho da Alemanha criada por Hitler e deveria seguir seus dogmas.

— Por Deus, o que houve?

Não era algo comum; ver Rose pronunciar palavras sagradas com tanto desespero, mas era exatamente daquela forma que ela se sentia.

— Eddie — Dimitri disse, voltando-se para ela — Eddie se feriu. Ninguém vai saber se é grave até que acorde.

— Ninguém está preocupado em matá-lo por ser um inútil quando algo grande está para acontecer.

[...]

Nervosismo. Hesitação. Medo. Ansiedade... Rose sentia tantas coisas ao menos tempo, que toda hora levantava a cabeça, pensando que havia escutado algo. Mas sempre era alarme falso.

O silêncio pesava como uma rocha sobre seu peito quando ela teve a certeza de ter ouvido uma conversa próxima a porta.

Foi até lá com cuidado, com o coração a boca. Medo irradiava de cada poro seu.

Reconheceu a voz de Christian do outro lado, falando com um homem, apenas trocando cumprimentos. Ouviu passos se arrastando pelo chão e foi então que o nervosismo aumentou ainda mais. Todos os seus pensamentos, mesmo que não quisesse, estavam voltados para caso algo desse errado. Mas não poderia desistir.

Voltou com cuidado para onde Lissa dormia, tomando cuidado com as pessoas espalhadas pelo chão.

— Ei, acorde! — falou a sacudindo com cuidado para não acordar os demais — Liss, acorde!

Os olhos verdes se abriram, piscando contra a semiescuridão.

Rose tapou sua boca antes que dissesse algo.

— Apenas se agasalhe e venha comigo. Não faça barulhos.

Deixou-a para trás, seguindo até Gisela.

Para seu espanto, ela estava acordada, com os olhos desfocados, sem encarar nada exatamente.

— Vamos Gisela — Rose sussurrou, a puxando pelo braço, um pouco apavorada pelo tempo que poderia estar se esgotando — Precisa levantar. Venha comigo.

— Não posso! — falou de volta em um triste tom infantil — Sei o que quer fazer e também sei que não vai dar certo. Vamos ficar. Vai ser melhor assim.

— Não! — Rose falou e a puxou fortemente pela mão — Vamos sair daqui. Eu disse que cuidaria de todo mundo, lembra? Você disse que confiava em mim Gisela, então confie agora.

Rose não sabia o que estava havendo com ela, mas pedia para que o olhar sem vida significasse apenas falta de esperança.

— Como você acha que deve ser? — Gisela perguntou quando finalmente se levantou e Rose a olhou sem entender — A morte – sussurrou – Morrer dói?

Um arrepio percorreu a espinha de Rose e lhe deu calafrios. Ela não sabia se morrer doía, mas ela já havia sentido a dor de perder alguém e era insuportável, como um ferro quente pressionado contra seu coração todo dia. Sua mãe era o primeiro pensamento do seu dia, e o ultimo ao dormir.

— Sobreviver aqui não é muito diferente da morte, Gisela — afirmou, sem querer responder à pergunta da amiga. Ela não sabia a resposta — Vamos sair daqui. E eu prometo que nós vamos ser felizes. Todos nós. Eu só te peço um pouco de fé. Só um pouco.

Como em uma estranha e descabida cena, ali estava Rose, exigindo de Gisela algo que ela própria um dia havia duvidado de ter.

Pedir fé em meio ao caos deveria ser pecado. Um atentando contra a mente humana que em um momento de desespero se agarra a mais trepida e tremula chama de uma minúscula fogueira, prestes a apagar de uma vez por todas. Cobrar fé de alguém que não tem mais nenhum pouco de esperança dentro de si é uma jogada arriscada; de alguém que aposta alto. Ou simplesmente de alguém que se agarra tanto a vida e a liberdade, que a única forma de desistir é se aquela minúscula fogueira de fé se apagar e cinzas serem jogadas sobre ela... Aí, então, será o fim.


Notas finais
Como vcs acham que a Gisela esta reagindo em meio a tudo isso? Enquanto escrevia sobre ela neste capítulo, eu pensei que talvez, de todos eles, ela fosse a que mais sofresse. Por ser a mais jovem, mas tbm a mais solitária ja que antes de tudo mesmo com os problemas ela era sempre a mais alegre. Enfim, comentem. Bjs