Ausência

14 Proximidade


Notas iniciais
Eita que já tivemos Ladybug x Viperion, Mari x Félix, Mari x Adrien. Chegou a hora da Ladybug x Adrien. Boa leitura!

And I've moved further than I thought I could

(E eu segui mais adiante do que pensei que conseguiria)

But I missed you more than I thought I would

(Mas eu sinto sua falta mais do que eu pensei que sentiria)

I found — Amber Run

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Adrien não queria, mas começou a duvidar das próprias escolhas. Jamais imaginou que Ladybug chegaria a esse ponto, e temia por ela, mas não mais quanto temia por aquele futuro.

Por que a joaninha apenas não escolheu outro portador em seu lugar? Tudo teria sido muito mais simples. Além disso, as escolhas dela não estavam apenas a afetando, toda Paris estava um caos, pessoas haviam sido feridas. Sua Marinette havia se ferido, e muito, por conta dessas escolhas.

Não gostava disso, mas sentia um pouco de raiva da heroína por isso. Por ter falhado com sua namorada, a fazendo passar por tanto sofrimento. Apesar de saber que o início de todo esse caos, foi culpa dele.

Só não imaginou que o resultado seria esse.

Era madrugada, mas Adrien não conseguia dormir, estava mal. Os pensamentos sobre Bug Noir estavam inundando sua mente a tempo demais, mas por mais que pensasse, ele não poderia fazer mais nada para ajudá-la, ela só precisava seguir em frente. E agora, era Marinette quem precisava dele, e o maior motivo da sua insônia era o fato de ter discutido com ela mais cedo, por conta de seus problemas. Ele estava se odiando por isso.

Decidiu assistir ao filme de sua mãe, que conseguia o confortar em situações como essa, mas nem isso estava sendo suficiente naquela noite.

— Adrien Agreste. — Tomou um susto com a voz familiar o chamando, e ao procurar a origem, encontrou Bug Noir em sua janela. — Não deveria estar na cama?

Era a primeira vez que a via tão de perto, a luta na escola não contava, estavam acontecendo coisas demais para que pudesse apreciar a presença dela. Deu uma boa olhada na heroína, como não fazia desde aquela noite no telhado, e mesmo ela estando tão diferente por conta da fusão, só ali percebeu o quanto estava com saudade dela.

“Bugaboo”.

— Bug Noir. — Foi o que ele realmente disse. — Por que você está aqui? — Não pode deixar de perguntar, se levantando do sofá com calma, dando passos incertos em sua direção. Não queria se aproximar demais, com receio de afastá-la ou temendo que se tratasse de uma ilusão que desapareceria rapidamente se chegasse perto demais. Afinal, heróis geralmente não fazem visitas noturnas a civis. — Está tudo bem?

Mas logo se deu conta, que essa era a oportunidade perfeita para tentar conversar com ela, e fazê-la mudar de ideia.

— As coisas estão bem… na medida do possível. — Ela respondeu com cautela, e permaneceu pendurada do lado de fora, parecendo incerta do que falar ou fazer, olhando ao redor antes de continuar. — Se importa se eu entrar?

Adrien então notou que estava paralisado olhando para ela, e logo mudou a postura, gesticulando com a mão.

— Entre, por favor.

Após dizer as palavras, Bug Noir pulou para dentro de seu quarto com a graciosidade que só um gato teria. E ele perguntou internamente se ele também era assim, antes.

A heroína olhou ao redor, aqueles olhos verdes incríveis sondando seu quarto, antes de pousar em si.

— Como tem estado? Você sabe, desde… — Ela não precisava completar, Adrien sabia ao que ela estava se referindo.

Ainda lembrava, vividamente, quando recebeu a notícia por ela, sobre a morte do pai.

— Estou bem. — Assegurou com calma, e a viu acenar com a cabeça em concordância.

— Bom, eu fico feliz. — Ela parecia sem jeito para conversar com ele, e Adrien podia dizer que sentia o mesmo. Seu coração estava tão acelerado, com a mera presença dela ali.

Ele não sabia o que fazer.

— Eu preciso conversar com você, te contar sobre algumas coisas. — Ela disse então. — Sobre você. Sobre o seu pai.

Aquilo tirou o foco dele sobre ela.

— O meu pai? — Questionou, confuso. — Achei que tudo havia sido esclarecido após o acidente com as Aliances.

— Não, Adrien, não foram. — Então Bug Noir o indicou para se sentar no sofá, com ela o seguindo. E ele o fez, sem protestar.

Faria tudo o que ela mandasse fazer.

Agora, devidamente sentados, Adrien sentiu um frio de medo crescer em seu estômago. Aquela situação estava estranha. Para começar, com a hesitação que Bug noir estava tendo com ele. Com um suspiro pesado, ela iniciou a conversa.

— Adrien, você se lembra da Mayura? Conhece o Argos? — A voz dela estava serena ao se virar para ele.

Adrien franziu os olhos. Porque Bug Noir estava citando a antiga vilã e seu primo, naquele momento?

— Sim, mas o que tem eles?

— O Miraculous deles, o do Pavão, é capaz de criar criaturas, seres viventes, através de fortes emoções. — Explicou calma. — Eles são chamados por nós, de senti-seres.

— Sim, eu sei disso. — Não sabia se esse assunto era de conhecimento público, mas confirmou, torcendo para não parecer suspeito.

Bug Noir então juntou as duas mãos sobre o colo.

— Então, se o Argos criar um ser humano, por exemplo, o que acha que aconteceria? Seria um humano como os outros, que envelhece e morre, ou não?

O questionamento o pegou de surpresa. Adrien nunca havia parado para pensar nisso. Desviou os olhos dela para pensar a respeito.

— Acredito que sim, ele envelheceria como todos os outros. — Respondeu com sinceridade, lembrando de tudo que sabia sobre os senti-seres. — A diferença é que existiria o objeto que o controla. Sem falar que o portador atual do Miraculous do Pavão teria controle sobre a vida dele.

Viu Bug Noir acenar com a cabeça. Aparentemente, ele havia chegado à conclusão que ela queria.

— Sim, foi por isso que Félix, seu primo, roubou o Miraculous do Pavão do Monarch. — Ela expressou, e depois, soltou um pequeno suspiro. — Ele queria a segurança que ninguém mais poderia ameaçar a vida dele.

Adrien franziu os olhos, pensando ter ouvido errado aquela parte.

“A vida dele?”

— O que você quer dizer? — Ele soltou, sentindo o gelo em seu estômago aumentar. — Que meu primo é um senti-ser?

Só pode ouvir o próprio coração batendo acelerado, no silêncio que se arrastou.

— Ele. — Ela deu uma pausa, antes de estilhaçar seu mundo. — E você.

Aquilo o golpeou como um soco no estômago. Sentiu as palmas de sua mão suando frio, enquanto a informação que ela deu rondava em sua mente, várias e várias vezes.

Ele era um senti-ser? Não, não podia ser verdade.

Algo devia estar errado com o ar, pois por mais que respirasse, ainda se sentia sem fôlego.

— Sinto muito por te contar assim. — Ela quebrou o silêncio, colocando ambas as mãos sobre a sua. Olhou para as mãos dela, era a primeira vez que a heroína o tocava desde aquele abraço, mas não conseguia dar mais importância para isso agora.

Ele era um senti-ser? Ele sempre foi, um senti-ser?

— Mas Félix me contou, pouco antes do seu pai morrer. Eu senti que precisava te falar, mas muitas coisas aconteceram nesse tempo. Me desculpe por demorar tanto. — Ela continuou, a voz banhada em empatia — Sei que é muito para absorver…

— Eu sou um senti-ser. — Exprimiu as palavras, diretamente de seus pensamentos.

Não era uma pergunta, mas de alguma forma, ainda parecia uma. Tanto que Bug Noir a respondeu.

— Sim, Adrien, você é.

Foi só então que sentiu forças para olhá-la de volta nos olhos. As feições dela eram suaves em sua direção, apesar das sobrancelhas franzidas em compaixão.

— Quem me criou? — Sentia que já sabia a resposta, mas ainda precisava ouvi-la de forma verbal.

— Sua mãe utilizou o Miraculous do Pavão danificado, assim como o pai de Félix. Foi por isso que ambos…

— Morreram. — Adrien completou, fechando os olhos e voltando a cabeça para a frente, completamente consternado. Aquilo se estava tornando verdade rápido demais. As peças se encaixando em sua mente.

Foi então que se deu conta: a razão por sua mãe ter adoecido e morrido, havia sido ele. Aquilo lhe rendeu uma onda de náusea.

Sempre soube que havia algo diferente. Ele não era como os outros, mesmo antes de ir para a escola e fazer amigos, quando se encontrava com Chloé e outros filhos dos sócios de seu pai, sempre se sentiu estranho. Um deslocado, esquisito.

Tinha dificuldade de entender os relacionamentos, nunca conseguindo estabelecer uma amizade verdadeira com ninguém. Porém, sempre sentiu uma forte ligação com Félix, apesar de seu pai não aprovar.

Isso trouxe à luz um novo questionamento: seu primo sempre soube sobre isso? Ou viveu no escuro, como ele havia vivido?

Estendeu ambas as mãos à sua frente, abandonando as dela, para se analisar. Observou suas mãos, seus dedos, sua pele. Ele não era um ser humano, era um ser criado, destinado a obedecer seu mestre.

— Então é por isso que eu sou assim? — Questionou, tanto para a heroína, quanto para si mesmo, se lembrando de tantas vezes que mudou de ideia na última hora, sem ao menos entender o porquê. — Os meus pais controlavam toda a minha vida. — Afirmou, consternado.

Agora muitas coisas faziam sentido. O motivo de não conseguir ir contra as ordens diretas de seu progenitor, não foram porque era um covarde, mas porque para ele, fazer isso era algo impossível.

— Ao morrer, seu pai deixou o amok para você. — Bug Noir continuou, pegando a mão esquerda dele e fazendo um carinho em suas alianças gêmeas com os dedos. — Para finalmente ser livre, e poder fazer suas próprias escolhas.

— Eu não sou… normal? — Ele era um monstro?

Definitivamente deveria ser. Um monstro criado por sua mãe. Um monstro que a matou.

— É claro que é normal, Adrien! — Bug Noir então se levantou, mas apenas para agachar à sua frente, no sofá, pegando seu rosto com ambas as mãos, fazendo-o focar apenas nela. — A única diferença foi o poder que te criou. Não é um ser humano comum, admito, mas você continua sendo você.

Adrien tentou absorver aquelas palavras. Ele ainda era ele.

Mas isso não parecia mais verdade.

— A diferença é que minha vida pode ser controlada por um objeto, e minha existência pode ser desfeita por uma joia mágica, em um estalar de dedos! — Ele bradou, tentando se afastar daquelas mãos que o confortavam. O pânico dessas verdades começou a invadi-lo.

Quantas vezes havia chegado perto da morte, apenas pelo fato do Miraculous do Pavão estar em mãos erradas?

O que seria dele, se algo acontecesse com seu objeto?

— E a dos humanos pode ser desfeita com um tiro! Um acidente de carro ou uma doença! — Bug Noir expressou de volta, se recusando a soltá-lo, e o tirando daquela horrível e sinistra espiral de pensamentos. — Não somos tão diferentes assim, Adrien.

Então ela suspirou, como se aceitando que isso era algo que necessitaria de tempo para ele se acostumar, e que ela precisava respeitar isso.

— Converse com o Félix, tenho certeza de que ele poderá te esclarecer melhor. Mas jamais pense que você é tão diferente das outras pessoas, por causa disso.

Adrien ficou calado, ainda em choque.

— Essas alianças, cuide bem delas e as mantenha sempre com você. — Ela os tocou, colocando a mão por cima de sua mão. Não eram necessárias mais palavras para dizer, que elas eram o seu objeto. Depois viu Bug Noir abanar a cabeça para os lados, a voz dela quebrada, quando disse. — Eu devia ter vindo conversar com você há muito tempo. Sinto muito, Adrien. Você merecia uma explicação minha.

Se sentiu mal ao vê-la tão culpada. Ela não era a razão dele ser assim, afinal de contas, só estava nessa situação porque soube de seu segredo.

Adrien conseguiu respirar fundo pela primeira vez desde que soube, tirando sua mente de si próprio. Virou a mão para cima, segurando a dela, que ainda estava ali.

— Obrigado, Bug Noir, por vir aqui.

A heroína então tombou a cabeça para o lado, um ínfimo sorriso abrindo em seus lábios. Com os cabelos escuros e as orelhas, ela parecia um gatinho adorável.

— Não por isso. — Declarou, ainda o fitando com carinho.

Enquanto a olhava tão de perto, precisou engolir em seco para conseguir perguntar algo que queria há muito tempo.

— Ele sofreu? — Sabia que ela não precisava de mais explicações.

Os olhos de Bug Noir pareceram escurecer, antes de responder.

— Não, foi uma morte pacífica. — Ela então desviou o olhar dele, admirando o céu através da janela. — Ele fez coisas horríveis Adrien, com você e várias pessoas à sua volta. Mas ele acreditava que estava fazendo o certo. — Então virou aqueles olhos maravilhosos de volta para ele. — Eu sei que ele te amava.

Adrien sentiu uma pequena emoção aquecer seu interior, ainda frio.

— Eu sei, mas também sei que, depois da morte da minha mãe, ele nunca mais conseguiu ser o mesmo. — Admitiu. Isso não justificava a forma como o pai havia o tratado, mas ainda assim, era a verdade. — Acredito que ele esteja até mais feliz agora, junto com ela. Esse pensamento me dá paz.

Era algo horrível de se pensar, que seu pai preferiu morrer a continuar com ele. Mas soube que ele tentou, e não conseguiu, viver sem ela. Ao menos agora Gabriel Agreste estava feliz.

— Fico contente em saber disso. — Ela devolveu, parecendo genuinamente aliviada por saber do seu bem-estar.

Senti-ser. Ele era um senti-ser. Criado por um Miraculous, a partir dos sentimentos de seus pais.

Isso estava rodando em sua cabeça sem parar. Era de fato, algo muito grande para digerir de uma vez, mas quando viu Bug Noir se levantar e sabia que ela estava pronta para ir embora, todos esses pensamentos foram guardados para mais tarde.

Ele ainda precisava falar com ela, e não sabia quando teria outra chance.

— Espera! — Se levantou, atraindo o olhar dela sobre ele novamente. — Antes de ir, eu também preciso falar com você.

Bug Noir virou o corpo completamente em sua direção, as tranças balançando ao redor dela com o gesto.

— Comigo?

Adrien passou a língua sobre os lábios secos, nervoso ao tocar no assunto. Teria que ser cuidadoso, e não revelar coisas demais.

Se alguém poderia descobrir quem ele um dia havia sido, esse alguém era ela.

— Eu acompanho todas as suas lutas. Estou preocupado com você, Bug Noir. — Expressou, com sinceridade.

A heroína desfez a confusão do olhar, substituindo com ternura. Como se sentisse comovida, por sua preocupação.

— Obrigada, Adrien, mas é uma situação temporária. — Ela assegurou, sorridente. — Quando o Chat Noir retornar, tudo voltará ao normal. — Então ela desviou os olhos para a janela, para os telhados, como se o herói pudesse aparecer ali a qualquer momento.

Ver aquela esperança em seus olhos o esmagou. Ela não havia desistido. Ela ainda estava o esperando.

Desde aquele dia, Ladybug não havia conseguido seguir em frente.

— Bug Noir, eu não acho que ele vai voltar. — Suavizou a voz, enquanto dava as más notícias. — Precisa encontrar outro portador para te ajudar.

Apenas neste momento, não gostou de ter aqueles olhos verdes sobre si, pois estavam cheios de mágoa e raiva.

— Sinto muito, Adrien, mas isso não diz respeito a você. — A voz dela saiu ríspida, e Adrien sentiu o baque daquelas palavras. Bug Noir pareceu se arrepender no mesmo momento, suavizando os ombros e negando com a cabeça, como se nem se desse conta que havia respondido com tanta raiva. — Me desculpe.

Adrien acenou com a cabeça.

— Não, tudo bem. — Engoliu em seco. — Eu não deveria me intrometer. — Afinal, esse não era mesmo um assunto da conta de Adrien Agreste.

Mas precisava ajudá-la a entender essa nova realidade.

Achou que a heroína iria embora depois disso, e estava pronto para insistir mais, porém, ela começou a caminhar para mais dentro de seu quarto, reparando em suas coisas. E Adrien apenas ficou ali, paralisado em seu lugar, seguindo-a com o olhar, sondando a heroína,

Viu quando Bug Noir passou por seu piano, os dedos finos flutuando sobre as teclas, sem tocá-las de fato.

Estava com a cabeça para baixo, de forma pensativa.

— Sabe, eu pensei em entregar a você.

Ficou confuso com aquelas palavras, até ver ela mexer no anel preto no dedo anelar.

Aquilo travou sua respiração, e Adrien sentiu o sangue sumir de seu rosto.

— O-o Miraculous do Gato? — Atropelou nas palavras, mal acreditando no que havia ouvido.

Qual sádico o universo era? Querendo oferecê-lo de volta aquilo que doeu tanto para abrir mão.

— Sim. Seria muito bom, por um lado. — Ela revelou, ainda fitando o anel e não olhando em direção a ele. — Mas por outro… eu não acho que conseguiria. Mesmo sendo você. — Ela soltou um sorriso sem humor, antes de sair de perto do piano e voltar a caminhar pelo cômodo, sem um rumo específico.

Era quase como se ela não quisesse ir embora.

— Sendo eu? — Seu sangue ainda estava gelado em suas veias, e apesar desse assunto ser algo perigoso para falar, especialmente com ela, sentia que precisava de explicações. — Por que eu, Bug Noir?

Estavam se desviando do assunto principal, mas ele não conseguiu impedir sua curiosidade.

Começou a dar passos em direção a ela. Foi quando Bug Noir virou de frente para ele, parecendo aguardar o seu encontro. Porém, quando Adrien parou de andar, ela se aproximou, chegou bem perto e quase colando seus corpos.

Sentiu o coração acelerar com essa proximidade, não conseguindo deixar de analisar o rosto feminino à sua frente. E ao fitá-la, se questionou internamente como alguém podia demonstrar tanto amor e dor, em um único olhar.

— Seria tudo tão mais fácil, se você soubesse quem sou. — Ela levantou uma de suas mãos, tocando em sua bochecha, seguindo até seus cabelos, fazendo um carinho em seus fios loiros, colocando-os atrás de sua orelha.

Era um gesto inocente, mas Adrien se viu prendendo a respiração para não suspirar com esse toque.

Foi quando sentiu uma vibração no ar, junto de um barulhinho vindo dela.

purrrrrrr

Bug Noir estava… ronronando? Por ele?

O coração de Adrien deu um salto.

Além disso, ela estava oferecendo aquilo que ele, uma vez, mais sonhou. Conhecer a garota por trás da máscara.

Agora que não era, e nunca mais seria, o Chat Noir, talvez pudesse saber…

NÃO!

Freou seus próprios pensamentos, antes que fosse tarde demais.

— Por favor, não. — Ele afastou a mão dela, e deu um curto passo para trás, antes que não pudesse mais resistir — Eu sei como isso é perigoso e não quero ser um risco para você.

A viu prender a respiração, antes de dar uma resposta.

— Tem razão, é perigoso. — Então ela também se afastou, dando outro passo para trás.

Agora, dois passos os separaram. Eles se olharam por curtos segundos, que logo acabaram, antes de Bug Noir oferecer um aceno de despedida com a cabeça e virar o corpo.

Adrien soube que agora ela iria partir, mas antes que ela se afastasse demais, agarrou sua mão.

— Sinto muito. — Pronunciou baixinho, sua voz falhando ao final. Precisou limpar a garganta, que agora estava se fechando. Sendo esmagada pelas palavras não ditas

Pois ela não sabia, mas ele sentia muito, por tanta coisa. Mais do que ela poderia imaginar. Por ser aquele que a fez sofrer. Por abandoná-la, mesmo que ela soubesse seus motivos, viu com os próprios olhos o quanto estava sendo difícil para ela, mais do que imaginou.

Não sabia quando teria outra chance de dizer essas palavras.

Viu quando o rosto dela suavizou em sua direção, não fazendo ideia da explicação por trás das suas desculpas.

— Não se preocupe, Agreste, tudo vai se resolver. Eu confio no meu Chat Noir.

Antes que ele pudesse dizer algo, ela lhe deu às costas e pulou para a noite, deixando-o para trás em completa agonia.

Deixando o coração de Adrien pior do que antes.

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Acordou péssimo na manhã seguinte, seu corpo exausto pela noite mal dormida.

Teve pesadelos com joias mágicas do gato e do pavão, com penas flutuando ao seu redor. Ao abrir os olhos, sendo recebido pela claridade do dia, ele respirou fundo antes de erguer a mão esquerda para cima, analisando as alianças pratas, brilhando em seu anelar.

Como poderia aceitar, que toda sua existência provinha desses dois objetos em seu dedo?

Parecia que a noite passada havia sido apenas um sonho, e se permitiu acreditar nisso por alguns segundos. Mas a cada segundo passado, a verdade daquela nova realidade parecia se assentar cada vez mais pesado em sua mente.

“Eu sou um senti-ser.” Ele repetiu mentalmente. E continuaria a fazer isso, até se acostumar, e essa ideia criar raízes em seu âmago.

Depois se levantou, e foi ao banheiro lavar o rosto. Temeu se olhar no espelho, como se temesse que seu exterior tivesse mudado tanto quanto o interior. Apertou os lábios e fechou os olhos, antes de erguer a cabeça e expirar. Quando se sentiu pronto para se autoanalisar, ele abriu os olhos.

Sem nenhuma surpresa, ainda estava tudo igual, apenas estava com os cabelos loiros bagunçados pelo travesseiro e olhos fundos pela noite mal dormida. Ainda parecia o mesmo Adrien, somente com uma aparência mais sofrida.

Torceu para conseguir melhorar isso, antes de ir ver Marinette.

Tomou um breve banho, desejando que sua mente clareasse, e sua angústia fosse embora junto com a água. Trocou de roupa e saiu do banheiro em busca de seu celular, se assustando ao ver que um alerta de akuma tocou no meio da madrugada.

Ao abrir a notificação, descobriu que Bug Noir enfrentou outro akumatizado sozinha, e poucas horas depois de sua visita.

Foi rápido em direção à área da sala em seu quarto, e ligou o canal de notícias. Clara Contard estava sobrevoando a cidade com seu helicóptero, mostrando os locais que haviam sido alvos dos ataques.

— … até agora vimos seis bairros atingidos pelo akumatizado da noite, que se autonomeou Rayon. Ele atacou Paris entre três e cinco horas da madrugada, queimando vários prédios com algum tipo de raio laser, e até algumas pessoas em seu caminho. Ele foi detido poucas horas depois pela nossa heroína, a Bug Noir.

Clara estava passando as imagens gravadas durante a luta da madrugada, com o repórter do turno da noite mostrando Bug Noir pulando nos prédios, escapando dos raios. Em vários momentos, podia ver o brilho rosa e preto dela ativando ambos os poderes da criação e destruição.

— E novamente, a heroína de Paris estava lutando sozinha. — O repórter apontou, finalizando a narração.

— E temos notícias sobre os feridos, Clara? — Nadja perguntou do estúdio.

— Sim, o casal atingido foi rapidamente levado ao centro de queimados, no hospital Necker. Tivemos atualizações que estão sendo tratados e estão bem. — Ela informou.

— Isso é bom. — Então Nadja no estúdio virou de frente para a câmera. — Agora, de volta ao vivo, com nossos repórteres em locais afetados:

Então a imagem da TV mudou para Clara no helicóptero novamente, retirando as imagens da luta.

— Localizamos Caprikid, Minotaurox e Miss Hound, eles estão desde cedo esta manhã, ajudando os bombeiros com os reparos dos prédios afetados. — A câmera mostrou os heróis ajudando nas ruas.

Adrien desligou a televisão, se sentindo mais calmo. Só precisava saber que tudo havia dado certo com ela, e aparentemente, sim, mesmo que o poder do Miraculous Bug Noir ainda não tivesse retornado.

Suspirou aliviado, sabendo que agora só lhe restava fazer uma coisa, antes de ir ver a namorada.

Pegou o celular e chamou pelo número tão conhecido, mas só foi atendido após a quinta tentativa.

— Olá, meu primo favorito. — A voz tranquila soou do outro lado.

— Félix. — Adrien o chamou, irritado. — Por que não me contou sobre mim? Sobre nós?

— Pelo seu tom, acredito que descobriu. — Ouviu o primo bufar através da ligação, como se isso não passasse de uma chateação. — Quem te contou?

Por que isso importava no momento? Adrien não sabia, mas respondeu de toda forma.

— A Bug Noir, é claro.

— Ah sim, claro que foi. — Não podia ver o primo agora, mas o conhecia bem. E pelo tom, podia jurar que Félix estava revirando os olhos agora.

Bom, se sua resposta não foi suficiente para ele, que não tivesse perguntado. Pois ele e Adrien tinham assuntos mais importantes para tratar agora.

— Mas o que eu quero entender, é porque não foi você quem me contou sobre isso.

Ele havia contado à Ladybug, com qual intuito, ele ainda não sabia. Mesmo não sendo tão próximo, achava que podia contar com Félix, ainda mais com algo que os dois tinham em comum.

Mas pelo visto, havia se enganado, de novo.

— Olha, se você ainda estivesse sob o domínio do seu pai, é claro que eu teria dado um jeito de te contar. — Ele explicou, parecendo aborrecido por ter que fazer isso. — Mas agora você já é livre. Eu só não vi mais a necessidade.

Adrien cerrou os dentes. Saber que havia sido deixado no escuro, sem o direito de fazer mais uma escolha, o enervou.

— Acho que sou eu quem deveria decidir isso. — Declarou firme.

Então, surpreendentemente ouviu uma curta risada.

— Que bonitinho, já querendo tomar as próprias decisões, como um bom senti-ser livre. — A voz alegre de Félix chegou aos seus ouvidos, e Adrien mal pode acreditar.

— Não tem graça, Félix! — Ralhou, ainda podendo ouvir a risada do primo do outro lado.

— Desculpa, muito cedo? — Disse, antes de parar com o falso divertimento. — Mas agora que você já sabe, o que importa é você saber que nada vai mudar na sua vida. O Miraculous do Pavão está bem protegido comigo.

— Claro que vai mudar! O que isso diz sobre mim?

Estava tentando entender como Félix conseguia tratar esse assunto com tanta normalidade. Isso foi consequência por ter obtido esse conhecimento de forma prévia? Adrien um dia conseguiria normalizar esse fato também?

Porque agora, isso parecia ser impossível.

— Nada. Você continua sendo o mesmo Adrien perfeitinho de sempre. — O tom de escárnio não passou despercebido.

— E que eu vou dizer pros meus amigos? E para Marinette? — Havia tentado pensar em uma solução antes de dormir, nervoso em imaginar qual seria a reação de cada um.

Se eles o desprezaram ou se o iriam tratar diferente depois de saber. Mas não conseguiu chegar à conclusão nenhuma, pois nem ele mesmo sabia como se sentia ainda.

— Você não precisa dizer nada a ninguém se não quiser, não é da conta deles. — Félix cortou seu pequeno espiral de agonia. — Agora com a Marinette… tenho a impressão de que ela não vai se importar muito.

Aquela não era apenas uma suposição, o primo parecia ter certeza do que falava, e isso foi o que o intrigou mais.

— Como pode saber? A Kagami sabe que você é um senti-ser? — Perguntou, pois talvez essa segurança viesse de sua própria experiência.

Então outra risada veio do celular, e Félix usou aquele tom de voz que sempre usava quando queria demonstrar a Adrien o quanto ele era ingênuo.

— Oh Adrien, a Kagami também é uma.

Precisou de um segundo para assimilar aquilo.

— O quê?

— Aparentemente, no círculo de amizade dos nossos pais, mulheres inférteis eram comuns.

Adrien mal conseguiu responder. Tanta coisa estava se encaixando agora. O fato do pai sempre querer os dois juntos. Dizendo coisas como “Vocês são perfeitos um para o outro” ou “Vocês são do mesmo mundo”.

Tudo fazia sentido. E agora, Kagami havia, de fato, achado outro igual a ela. Pelo menos eles estavam felizes juntos.

— Adrien, sei que nunca fomos realmente tão próximos. — Então Félix deu uma pausa, como se estivesse lutando para as palavras saírem. — Eu poderia colocar a culpa no sentimento que me criou, pois a verdade é que é muito fácil para mim sentir inveja de você. Os seus pais te amavam, mas o meu não conseguia me amar, por saber o que eu era.

Aquilo doeu. Jamais imaginou que seu primo tivesse passado tanto sofrimento em casa. Sim, ele sabia que a relação de seus tios nunca havia sido como a de seus pais, afinal, sua mãe se casou por amor, deixando Amelie com o dever de se casar por negócios. Mas jamais pensou que o pai havia o rejeitado dessa forma.

— Sinto muito. — Não podia deixar de sentir, mesmo ainda estando irritado.

— Não sinta, eu já superei. — Félix o cortou rápido, uma forma implícita de dizer que não queria permanecer naquele assunto. — O que estou tentando falar é que venho me esforçando para melhorar, e Kagami tem me ajudado muito nisso. Então, quando quiser conversar, estarei aqui por você.

Ainda não entendia muito bem como isso funcionava. O quanto do sentimento que o criou influenciava em sua vida, então não poderia dizer que o entendia. Mas sabia que não devia ficar com raiva de Félix por ter guardado esse segredo dele, mesmo sendo algo tão importante.

Félix ainda era sua família, da pouca que havia restado, e mesmo com tantos defeitos, ele amava o primo. Assim como sabia que Félix o amava de volta, e só queria seu bem, apesar de ter uma forma distorcida de demonstrar isso.

— Obrigado, Félix, de verdade. — Então com uma despedida silenciosa, Félix encerrou a chamada.

Essa pequena conversa não era o suficiente para Adrien internalizar e se acostumar com sua nova realidade, mas como Bug Noir disse, conversar com Félix realmente o acalmou um pouco.

Era bom saber que alguém o conhecia por completo, e ainda estava ao seu lado para ajudá-lo.

— Eu sou um senti-ser. — Ele afirmou em voz alta, sozinho. Mas sentindo o apoio de seu primo o fortalecendo.

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Marinette chegou exausta em casa. Os pais ficaram preocupados quando foram acordá-la, e ela negou o café da manhã oferecido por eles, pedindo apenas mais tempo para dormir. Estava tão cansada que não se importou em apenas fechar os olhos, e descansar. Ela os acalmaria por isso depois.

Adrien chegaria em sua casa em poucas horas, e ela não sabia se ele diria tudo a ela logo de cara, ou se ele esperaria alguns dias para contar sua nova descoberta. De qualquer forma, queria estar bem disposta para quando fosse recebê-lo.

Os dois pareciam estar andando em uma corda bamba há alguns dias. Sua revelação da noite anterior poderia melhorar ou piorar essa situação, ainda não sabia.

Mas independente do resultado, estava se sentindo melhor agora, com o peso de um segredo a menos, agora que compartilhavam a verdade milagrosa de sua origem.

Ao pensar em Adrien, analisou como ele estava vivendo seus dias, nas últimas semanas, apenas em função dela, sendo mais como um cuidador e enfermeiro do que namorado, ultimamente. E com essa nova descoberta, talvez ele fosse precisar de mais apoio do que ela era capaz de fornecer.

Buscou o celular, ainda sonolenta, e mandou uma mensagem à Alya, sugerindo uma ideia. Algo para fazê-lo relaxar e se distrair.

Pegou no sono pensando no quanto estava preocupada, e que precisava dar algum tipo de alívio a ele.

Mas, além disso, aproveitaria essa folga também para si. Queria ficar um pouco sozinha.

Porém, de repente, começou a sentir uma coisa boa. Não sabia explicar o que era, apenas que era bom. Seu corpo estava relaxado, mas isso parecia intensificar essa sensação. E nossa, estava tão cansada, que só queria poder ficar ali para sempre, sentindo isso.

Percebeu que a origem da coisa vinha de sua cabeça. Literalmente, parecia ter alguém mexendo no topo de sua cabeça. Precisou se esforçar um pouco para tentar definir o que era.

Eram dedos. Dedos fazendo carinho em seus cabelos: a sensação boa era um cafuné. Ficou feliz por ter conseguido descobrir, o alívio dessa pequena vitória a dominando. Já estava pronta para voltar àquele lugar de descanso de antes, quando se deparou com uma questão principal:

Quem estava fazendo cafuné em seu cabelo?

Com isso, abriu os olhos depressa, a luz do dia machucando sua retina. Tornou a fechá-los, e respirou fundo antes de abri-los de novo.

— Desculpa, minha linda, te acordei. — Uma voz masculina soou ao seu lado, e agora, o novo mistério havia sido solucionado.

— Adrien? — O chamou, a voz ainda rouca e tentando organizar sua mente sonolenta. — Já chegou. — Não era uma pergunta, mas uma enorme confirmação.

E estava ali, sentado ao seu lado no colchão, lindo, cheiroso e arrumado, vendo-a acordar, provavelmente, com a cara amassada, olheiras, cabelos bagunçados e com bafo.

Por Deus, como se ele já não tivesse visto ela em situações deploráveis nas últimas semanas, ainda precisava vê-la tão de uma forma tão crua, como aquela? Ela devia estar horrível!

Os acontecimentos recentes aceleraram em muito a intimidade deles.

— Já tem algumas horas. — Ouviu a resposta dele, e apesar de se assustar com essa informação, tudo o que conseguia pensar agora era em levantar dali, e ir ao banheiro se arrumar.

Adrien percebeu sua inquietação no colchão, e se levantou, oferecendo os braços como apoio.

Ela precisou desviar o olhar, ainda com muita vergonha para encará-lo.

— Obrigada. — Sussurrou.

O impulso dessa vez não foi tão sofrido, e respirou aliviada ao perceber isso. Já de pé, foram poucos passos até o banheiro.

Entrando lá, fechou a porta com pressa, prendendo o fôlego ao ver sua péssima aparência no espelho. E ele ainda havia a acordado dizendo “bom dia, linda”. Adrien deveria ter algum problema de vista.

Escovou os dentes rapidamente, antes de molhar o rosto.

— Por que não me acordou antes? — Ela falou alto, ainda de dentro do banheiro, antes de secar o rosto.

Agora, estava lutando contra seus fios de cabelos rebeldes, o penteando apenas com a mão direita, e falhando miseravelmente em escovar o lado contrário da cabeça. Desde o hospital, era sua mãe que geralmente a ajudava a se arrumar nas manhãs, mas agora Sabine não estava ali para ajudá-la com essa emergência.

— Você parecia tão serena dormindo que a deixamos descansar. — Ouviu a resposta do outro lado da porta. — Mas quis fazer carinho nos seus cabelos e te acordei sem querer. — Ele contou, parecendo culpado pelo ocorrido.

Se sentiu tocada com o gesto, mas bufou de frustração por sua pequena derrota contra o pente. Mas pelo menos descobriu que Adrien era a razão de ter tantos fios embolados.

Desistindo, Marinette abriu a porta, ainda com o pente em mãos, e encontrou Adrien escorado na parede ao lado, com ambas as mãos nos bolsos, a aguardando.

Ele estava apenas ali parado, mas parecia digno de uma capa de revista. Os traços faciais eram refinados, e mesmo a curvatura do nariz em seu rosto de perfil era perfeita. Não importava de que ângulo olhasse: a aparência dele assemelhava-se a uma pintura. Adrien exalava a essência do belo, sem nem ao menos se esforçar.

Ela devia ter desconfiado antes. Apenas um ser humano criado seria tão perfeito assim.

— Que horas são? Onde estão meus pais? — Questionou, desviando o olhar, antes que começasse a babar por ele.

Figurativamente, claro.

— Nós almoçamos, já são uma hora da tarde, e eles desceram. — Ele respondeu calmamente, aproximando dela e oferecendo o braço para ajudá-la a voltar ao sofá.

Estava pensando no quão estranho isso havia sido. Marinette nem sentiu que dormiu tanto, mas em um piscar de olhos, horas haviam passado, e o pior, ela ainda se sentia cansada.

Desviou de seu devaneio interno, quando foi posta na ponta do estofado, mas quando estava indo ajustar sua posição, Adrien encaixou atrás dela e o pente sumiu de sua mão.

Em segundos, ele estava penteando seus cabelos de forma natural, como se fosse algo que ele fazia todos os dias.

— Obrigada. — Ela sussurrou. — E me desculpa, não queria ter dormido tanto.

Como estava de costas, não podia ver as reações dele, mas achou que deveria se desculpar.

— Tá tudo bem, amor, eu não me importo. — A voz estava suave, com ele concentrado em mexer em seu cabelo. — Não teve uma boa noite? — Perguntou, e ela hesitou, antes de responder, refletindo sobre a noite passada.

Marinette não teve noite nenhuma, na verdade.

Entre esperar os pais irem dormir, ir conversar com Adrien, lutar contra aquele akumatizado e voltar, já estava quase na hora de seu pai se levantar.

Por que padeiros levantavam tão cedo? Porque clientes faziam fila antes da padaria abrir, só para conseguir comprar pães quentinhos de manhã, saídos direto do forno. Então antes do sol raiar, Tom já estava de pé, colocando a massa para assar.

— Não tive. — Respondeu sincera.

Então Adrien terminou de pentear seus fios, depositando o pente da mesa da lateral do sofá e saindo de trás dela, para sentar-se ao seu lado.

— Estava com dor? — Perguntou preocupado, mirando dentro de seus olhos, enquanto a ajudava a encostar no sofá.

— Não, estou me sentindo melhor. — E era verdade, a pouca dor que estava sentindo agora já estava sendo facilmente aplacada com a medicação. — Não sei o que foi, eu só... não consegui pegar no sono.

Era uma resposta vaga, mas seria sua única explicação.

Adrien se demorou em seu rosto, antes de inspirar fundo e dizer, com a voz séria.

— Se for pelo mesmo motivo que eu, então sei o que foi.

Sentiu o ar faltar. Ele iria revelar seu segredo a ela, ali, agora?

Por ter sido pega desprevenida quando acordou, não conseguiu analisar bem o namorado, e ver se ele parecia bem, ou não. Se seus olhos estavam fundos por uma noite mal dormida, ou se havia traços de tristeza em seu rosto. O analisando agora, Adrien parecia, sim, levemente triste, até um pouco chateado.

Queria, sim, conversar com ele, e torcia para estar pronta e dar o máximo de apoio que conseguisse, mas, ao mesmo tempo, torcia para que ele ainda não estivesse preparado para ter essa conversa.

Assim, ela teria mais tempo. Tempo para se afundar em seus próprios segredos enquanto ele se escondia no dele. Pronta para estar mais focada em seu namorado, do que em um garoto que ela não sabia o verdadeiro nome.

— O que foi? — Indagou, temerosa.

— Nossa discussão ontem, me tirou o sono também. — Marinette não poderia expressar o quanto seu coração desacelerou, ao ouvir aquilo. Mesmo tendo em mente que Adrien estava mentindo para ela, pois seria impossível para qualquer um colocar como prioridade esse problema acima de outros. — Me desculpe, acabei me exaltando com você. E detestei isso.

Precisou conter o suspiro de alívio, e depois, buscou a mão dele sobre o sofá, com a mão direita. Pois mesmo que fosse uma mentira o motivo de sua insônia, ela conhecia o namorado bem demais, para saber que ele estava se sentindo mal pelo o que houve entre os dois.

— Oh Adrien, eu também preciso me desculpar com você. Nós dois erramos.

Na verdade, ela estava errando muito nessa última semana. Depois da discussão com Adrien, percebeu como estava sentindo muita raiva ultimamente, brigando com as pessoas ao seu redor por motivos que antes, não brigaria.

Mas não podia controlar essa irritação em seu interior, um sentimento de injustiça.

Estava sentindo falta de Chat Noir, sabia disso. Mas ultimamente, estava com raiva dele, por ter partido. Com raiva também do vilão que o deu aquele pesadelo. Raiva da nova portadora da Borboleta, por ser um novo risco a ele. Raiva do mundo, por tirar seu parceiro dela.

Raiva de si mesma, por não ter sido forte o suficiente, a ponto dele escolher partir ao invés de ficar, e lutar contra isso ao seu lado.

Mas não podia ficar com raiva de seus amigos, muito menos com Adrien. Ele não havia feito nada além de cuidar e amá-la, todo esse tempo.

O namorado ergueu suas mãos unidas, e depositou um beijo em seu dorso. Foi um doce, e delicado, pedido de desculpas.

— Acho que essa pode ser considerada nossa primeira briga como casal. — Adrien expressou, tornando a olhar para ela. E ela notou sua nada sutil tentativa de aliviar a situação.

Marinette mordeu o lábio inferior, antes de soltar uma pequena piada interna, apenas para ela mesma compreender.

— Ainda é considerada nossa, sendo que nem estávamos discutindo sobre nós? — Falou, lembrando como quase estragou sua identidade secreta, expondo os próprios sentimentos naquela discussão.

Adrien pareceu paralisar com sua fala, antes de abrir um sorriso sem graça, e coçar a nuca.

— É verdade, nem era sobre nós. Então, eu não sei.

Ela dividiu o pequeno sorriso com ele, mesmo que forçado. De fato, estava feliz por terem resolvido esse assunto, ela se sentiu péssima depois que discutiram em sua casa. Mas agora que haviam esclarecido tudo, e também desviado de sua próxima conversa séria sobre “senti-seres”, ela teria algum tempo para respirar e descansar.

— Então, estamos bem? — Perguntou, querendo se certificar.

Adrien apenas se aproximou mais de seu rosto, e beijou sua bochecha.

— Sim, minha linda, estamos. — O sorriso surgiu em seus lábios antes que pudesse sequer pensar nele. Atos de carinho de Adrien quase nunca falharam em trazê-los à tona. — Quer jogar? — O namorado perguntou depois de se afastar, já se inclinando para pegar os controles do videogame.

Marinette lançou o rosto culpado em sua direção.

— Se importa se fizermos outra coisa? — Estava se sentindo tão exausta que só queria assistir a alguma coisa, deixar sua mente vagar, sem precisar pensar demais.

Adrien a analisou um pouco antes de responder.

— Claro que não, minha linda. O que quiser. — Ele então pegou o controle e sentou ao seu lado.

Marinette apenas aconchegou seu corpo no dele, grata por poder estarem juntos ali, torcendo para mais nenhuma complicação séria ficar entre os dois novamente.

Notas finais
Aaah Adrien, você é uma PENINHAAA!! Tadinho gente. E pra quem concorda com o Félix sobre ela não ter que contar ao Adrien sobre isso, saibam que a Marinette não é perfeita, ok? Ela erra sim, ainda mais quando ela ainda está tão perdida quanto ao que fazer. Ela só quer o gatinho dela de volta gente, só isso tenham piedade dela! Cometer erros é humano. Por isso o Adrien é perfeito kkkkk PAREI! Beijos doces, até a próxima pedrada... quero dizer, capítulo.