Ausência

15 Solitude


Notas iniciais
Bonne nuit meus amores! Como estão? Espero que bem. Tenho um recadinho, porém deixarei ele no final. Ah, a cena de luta desse cap eu usei como inspiração a música Still Here, do League of Legends. Quem quiser ler a cena ouvindo ela, fique a vontade. Vai que dá uma experiência diferente kkk sei lá. Sugiro dar play quando a Bug Noir aparecer. Boa leitura! Alerta gatilho: momentos de angústia, descrição de um ataque de pânico.

Just don't let go

(Apenas não ceda)

Hold on. Don't give up the fight

(Aguente. Não desista da luta)

Cause heroes never die

(Porque heróis nunca morrem)

HeroesNever Die — UNSECREAT

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— Vamos almoçar. — Adrien a chamou, após terminar de esquentar todos os pratos que Sabine havia preparado, e colocá-los em cima da mesa para os dois.

Estava sendo uma sexta-feita agitada, ele havia chegado após o café da manhã, depois que as ruas foram liberadas e consideradas seguras após a luta que ocorreu mais cedo.

Marinette estava esperando por ele quando chegou, juntamente com seus sogros, mas esses almoçaram rapidamente antes de voltar a padaria. A movimentação do final de semana começava cedo para os dois.

Ouviu um resmungo de Marinette vindo da sala.

— Preciso mesmo? — Perguntou de forma arrastada e manhosa.

Adrien sorriu, terminando de colocar os pratos.

— Sim, sua mãe disse que você comeu só algumas fatias de maçã no café. — Ele contou, antes de sair da área da cozinha e caminhar para a sala, dando uma boa olhada na namorada sentada no sofá, com a cabeça tombada em sua direção. — Ela já deixou a comida pronta para nós.

A namorada piscou os olhos azuis, e fez um biquinho em sua direção, tentando convencê-lo a desistir. Mas Adrien apenas cruzou os braços, achando divertido sua tentativa, e a encarou com uma sobrancelha erguida.

Isso a fez bufar, finalmente cedendo às suas ordens.

— Certo, certo. — Levantando as mãos em sinal de rendição.

Então, antes que pudesse chegar perto dele para ajudá-la, Marinette se impulsionou para cima sozinha, conseguindo se erguer sem ajuda.

— Amor, me espere para te ajudar! — Adrien alertou ao chegar ao seu lado.

Mas Marinette já estava em pé, olhando-o tranquilamente.

— Está tudo bem, viu? — Marinette demonstrou, dando uma pequena volta com o corpo, e com um sorriso satisfeito no rosto, e apesar da preocupação, Adrien estava contente, ela já estava se levantando sozinha havia dois dias.

Ela o acompanhou até a cozinha, onde Adrien insistiu em puxar a cadeira e ajudá-la a se sentar.

— Vamos garantir que continue assim. — Ele destacou, depositando um beijo no topo de sua cabeça, antes de servir a comida quente em seu prato.

Viu quando ela apenas acenou em concordância, mas seu rosto não parecia muito entusiasmado com a refeição à sua frente, apesar de ser um de seus pratos favoritos.

Com já três semanas desde o acidente, o médico disse que a hemorragia já havia sido contida, e as lacerações internas se fechado. As marcas do hematoma já estavam sumindo em seu abdômen, e apesar de teoricamente ainda não estar pronta para retornar às suas atividades, Marinette parecia estar se fortalecendo cada dia mais.

Na terça-feira daquela semana, ele e os pais dela comemoraram quando ela conseguiu subir as escadas de seu quarto sozinha, mesmo que devagar. Marinette pediu naquele mesmo dia para que o pai voltasse com o colchão para sua cama, o que ele fez de bom grado, ao ver a melhora da filha.

Adrien questionou se não estava cedo demais, se não seria melhor esperar mais alguns dias, apenas para ter certeza que ela não estava exigindo demais do próprio corpo. Mas a namorada estava irredutível, e mais que disposta a conseguir seu espaço de volta. Não sabia bem o motivo, mas a namorada prezava bastante pela própria privacidade, não seria ele a tirar isso dela depois de quase um mês tendo que dormir no chão da sala.

Sentando-se à sua frente, Adrien estava almoçando lembrando daquele dia, no entanto, ao chegar à metade do prato, notou a comida quase intocada da namorada.

Estreitou os olhos para ela, sentindo um vinco de apreensão de formar em sua testa.

— Amor, vai ficar fraca se não comer…

— Eu sei, só não tô com fome agora. — Ela o interrompeu, abaixando o garfo em seu prato, antes de suspirar e se virar para ele, com um olhar afetuoso. — Prometo que vou comer mais à noite. — Declarou, com a voz doce.

Adrien resignou em apenas concordar. Apesar de relutante, ele não a forçaria a fazer algo que não queria. Ela comeria quando estivesse com vontade.

Finalizando o almoço, os dois escovaram os dentes antes de voltarem para o sofá. Ao ligar a TV, a familiar voz da Clara chegou aos seus ouvidos, percebendo rapidamente que estavam no canal de notícias.

— … Bug Noir derrotou esse vilão de lama com louvor! Podemos ver agora os bombeiros usando água para lavar toda a sujeira das ruas. Pelo menos hoje não houvera destruições e nem feridos, apenas pessoas muito sujas. — Adrien já tinha visto a luta ao vivo, através da televisão de seu quarto, mas agora estava acompanhando as gravações do helicóptero, mostrando todas as ruas cheias de lama, da batalha que houve naquela manhã. Ryuko estava auxiliando agora, junto de Rooster Bold e Caprikid.

Desde a primeira aparição como Bug Noir na escola, mais quatro akumatizados apareceram, e ela ainda era a única os enfrentando.

O Miraculous Bug Noir ainda não havia voltado a funcionar, mas as unidades locais junto dos heróis estavam conseguindo lidar bem com o caos deixado para trás, por enquanto. Então, as coisas pareciam estar dando certo para a heroína, apesar da conversa que tiveram em seu quarto naquele dia, e sua esperança pelo retorno dele.

Na quarta-feira, por exemplo, um alarme de akuma tocou e Adrien ligou imediatamente a TV para assistir às notícias, enquanto sua namorada estava tomando banho. Ele só se afastou da televisão quando Sabine apareceu preocupada, informando que a filha não estava respondendo e com medo de que Marinette tivesse desmaiado no chuveiro. Eles tentaram chamar por ela através da porta, porém todas as tentativas foram em vão. Por sorte, quando Tom chegou pronto para arrombar a porta, Marinette gritou de dentro do banheiro que estava apenas lavando o cabelo, e por isso não os ouviu.

A luta já havia acabado quando Adrien retornou para assistir à TV, com Nadja mostrando imagens do local atingido por uma tempestade de gafanhotos, uma praga com a qual o akumatizado apocalíptico aterrorizou os parisienses naquela tarde.

O controle de animais já havia sido acionado para conter o enxame, depois do garoto akumatizado ter sido liberto pela Bug Noir, e Marinette voltou para ele minutos depois, já com seu pijama e com os cabelos recém lavados, já secos.

Se sentiu aliviado ao ver que ela estava bem depois daquele susto, e os dois assistiram a um filme juntos enquanto aguardavam o jantar. No entanto, Marinette dormiu antes que a comida ficasse pronta, então Tom a carregou até a cama. Adrien comeu com os sogros e Gorila, antes de ir embora.

— Quer jogar? — Adrien perguntou para a namorada ao seu lado, mudando o canal do noticiário para o videogame, depois que Nadja encerrou a programação.

Adrien queria aproveitar o último dia da semana com ela, pois na segunda-feira as aulas voltariam. Marinette ainda não frequentaria a escola, mesmo estando bem, para respeitar as ordens médicas que alegavam que ela ainda precisava de mais uma semana de repouso em casa, para sua completa recuperação.

— Acho que prefiro ver um filme. — Ouviu a namorada responder com a voz baixa, e olhos pesados.

Adrien hesitou antes de responder.

— Ah, tudo bem. — Tentou não demonstrar tanto desânimo, mas já fazia dias que não jogavam juntos.

Adrien não estava reclamando, era apenas algo incomum Marinette não querer jogar. Ela sempre adorou fazer isso, preferindo do que a qualquer outra atividade que faziam juntos.

Mexendo no controle, procurou por opções que poderiam agradá-la.

— O que acha desse filme? — Se animou quando encontrou o filme na plataforma de streaming. — Você disse que queria assistir ele no cinema, mês passado.

Mas ao olhar em direção à namorada, em busca de algum traço de entusiasmo, foi recebido apenas com um ameno acenar de cabeça.

— É, pode ser. — Ela abriu um singelo sorriso ao final da frase, talvez para tentar disfarçar a feição de desânimo, mas que não deu muito certo.

O filme começou e ele deixou que ela ficasse confortável ao seu lado. Não demorou muito, e logo sentiu o corpo dela pesar em seu ombro, ela estava dormindo. Se arrastou um pouco para o lado, permitindo com que ela deitasse em seu colo, e apenas ficou fazendo carinho nos cabelos dela, enquanto assistia ao filme sozinho.

— Ela dormiu, de novo? — Sabine apareceu à porta alguns minutos depois, vindo das escadas do andar debaixo.

— Sim. — Adrien confirmou, pacientemente, dando uma nova olhada para a garota em seu colo.

Os cabelos escuros esparramados em suas pernas, davam um grande contraste com a pele porcelana. Seus cílios grossos delinearam seus incríveis olhos azuis, agora, fechados serenamente.

— Marinette tem dormido muito. — Sabine informou, aproximando dos dois no sofá. — Deve ser o corpo precisando de energia para se recuperar de todos esses ferimentos que ela teve, nas últimas semanas.

— É, ela tem estado bem cansada. — Respondeu, mas ele estava começando a ficar preocupado. O médico não havia falado nada sobre essa fadiga.

Devia ponderar que cada corpo agia de uma maneira, e talvez, essa havia sido a forma que o corpo de Marinette encontrou para se curar mais rápido.

Ouviu barulhos na cozinha, e virou a cabeça a tempo de ver Sabine pegar alguns ingredientes no armário, antes de se virar para ele.

— Estou voltando para a padaria, querido. Qualquer coisa é só me ligar. — A mulher emitiu, com um sorriso, e ele acenou com a cabeça em concordância.

Viu a forma que a mãe de Marinette olhou para ela, alguns segundos a mais, antes de se virar para a saída, e ele retornar ao seu filme.

O filme continuou até o final, e depois que acabou, ele continuou ali no sofá, acariciando os fios macios dos cabelos azulados dela. Sentindo um aperto no coração.

Continuou o cafuné, tentando não deixar a mente vagar para os lugares obscuros que estavam indo normalmente nos últimos dias. Marinette estava ficando bem, ela só precisava de mais alguns dias, depois, tudo voltaria ao normal.

Contudo, sempre que tinha momentos solitários como esse, Adrien se encontrava pensando em seu novo tormento.

“Eu sou um senti-ser”. — Ele afirmou mentalmente. — “Eu sou um senti-ser, e estou escondendo isso das pessoas que amo”.

Respirou fundo, tentando controlar o frio gélido que sentia em seu estômago, sempre que lembrava disso.

Ainda não tinha criado coragem para contar à Marinette. Na verdade, havia planejado fazer isso no final daquela semana, estava apenas esperando a namorada se recuperar completamente, antes de jogar essa notícia tão drástica.

Queria muito poder confiar no primo, quando ele disse que a namorada dele não iria se importar com isso, mas a verdade é que Félix não tinha garantias. Marinette não aceitou sua aliança, quando ele tinha certeza que ela faria, como poderia saber sua reação quanto a isso?

Mas olhando para o passado, sabendo o que agora sabia, percebeu como a decisão dela o livrou de um grande problema. Se Marinette tivesse posse de uma das alianças, ela poderia tê-lo controlado sem nem ao menos saber.

Mesmo que isso ainda parecesse absurdo, quando ele pensava que isso era possível, porém Adrien não se viu tentado a testar a verdade. Olhou para as alianças gêmeas em seu anelar esquerdo. Ele era um senti-ser, e essa era uma verdade irrefutável e imutável. E ele queria contar isso à namorada, mas apenas no momento certo.

Não podia saber qual seria a reação dela, mas tinha certeza de uma coisa: do amor que ela sentia por ele, e que ele não se abalaria tão facilmente. Precisava apenas confiar nela.

Estava finalmente conseguindo aquietar sua mente, se forçando a pensar de forma positiva para suas atuais situações, quando sentiu seu celular vibrar no bolso, o que acabou acordando a namorada em seu colo.

— Me desculpa, linda. É o Nino. — Ele sussurrou em sua direção, vendo-a esfregar os olhos, e erguer o corpo para sentar-se no sofá. Levou o celular ao ouvido, enquanto a observava despertar lentamente. — Oi.

— Ei cara! — A voz entusiasmada do amigo chegou alto, e precisou afastar o celular alguns centímetros para não ferir seu tímpano. — Vamos aproveitar que amanhã é sábado, e reunir os meninos lá na sua casa.

Adrien ouviu a proposta com atenção, mas não conseguiu impedir a indecisão de formar em sua mente.

— Não sei, Nino. A Marinette ainda está se recuperando… — Estava no meio da frase, quando ouviu um movimento da namorada ao seu lado.

Ao olhar para ela, a viu fazer uma careta e sinalizar “não” com ambos os dedos indicadores.

— Relaxa! Eu já olhei com a Alya, ela vai ficar com a Marinette amanhã. Talvez as outras meninas vão também.

Adrien ainda estava olhando para a namorada, recém-acordada, com os olhos inchados e cabelos bagunçados, tão linda, o indicando silenciosamente para marcar a reunião.

— Ah, tudo bem, se elas já combinaram. — Ele respondeu concordando, o que pareceu agradar os dois ao mesmo tempo, já que Marinette abriu um pequeno sorriso e Nino comemorou através da ligação.

— Beleza, vou ligar pro resto do pessoal. Fui! — Então o amigo encerrou a chamada, repentinamente como chegou, ele se foi.

— Nino quer reunir os meninos lá em casa amanhã. — Percebeu que a namorada já parecia estar ciente do assunto, mas ainda assim, quis explicar para ela.

Marinette voltou a se recostar no sofá, e Adrien não resistiu ao impulso de puxá-la para mais perto, trazendo sua cabeça para pousar em seu ombro.

— Dia dos meninos, hein? Que legal. — Ela incentivou, mas Adrien ainda estava incerto,

— Vai ficar tudo bem mesmo? — Não queria ser protetor demais, mas agora que ela estava ficando melhor, não queria arriscar isso por nada;

— É só um dia, Adrien. — Ela revirou os olhos com graça, antes de pôr o indicador no espaço entre suas sobrancelhas, desfazendo a ruga de preocupação ali. — Aproveite com seus amigos. Vou ficar bem aqui em casa, com a Alya.

Ele vasculhou em seu rosto qualquer sinal de mentira.

— Me liga se precisar de alguma coisa. — E depois lembrou de avisar. — E nada de sair, por favor.

Foi a primeira vez que a viu soltar uma risada naquele dia.

— Não vou precisar ligar, nem vou sair. Só se divirta com eles amanhã, ok?

— Ok, meu amor.

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Avisou à Nathalie sobre seus planos e no dia seguinte, ela preparou com animação uma vasta mesa de café da manhã no jardim, para que Adrien pudesse receber os amigos. Nino foi um dos primeiros a chegar, acompanhado de Max, Kim e Ivan.

— E aí, cara! — Nino entrou na mansão já com familiaridade, e Adrien os guiou para os fundos da casa

Em seguida, Gorila apareceu nos fundos com Mark e Nathaniel, e por último, Luka.

Adrien não o via desde aquele dia no hospital, então após cumprimentar os demais, ele se aproximou do mais velho.

— Oi, Adrien. — O mais velho saudou quando se aproximou. — Obrigado por me convidar. — Agradeceu em sua forma cortês de sempre.

— Claro, Luka. Como você tá?

— Bem, e você? — Sabia que o amigo queria checar como ele estava, podia ver as demais perguntas em seus olhos.

Adrien havia passado por muitas coisas nos últimos dias, e apenas Luka sabia como ele estava tentando se manter bem, entre ser o motivo da falha da Ladybug e cuidar da namorada ferida.

— Bem. — Respondeu, simplesmente, encerrando aquela saudação supérflua, mas sabendo que ambos queriam dizer mais coisas.

Queria perguntar a Luka abertamente sobre Bug Noir, se ele ainda mantinha contato com ela e sabia como ela estava, depois dessa “ordem” de lutar sozinha. Também queria poder contar sobre a visita dela, e a conversa que tiveram. Apenas não havia contado ainda por ainda não estar preparado para revelar o motivo que levou a heroína até a sua janela naquela noite.

Quando as coisas se acalmassem, procuraria o amigo para que pudessem ter uma conversa franca.

Em seguida, desceram as escadas juntos para se juntar aos demais no gramado. Piscina, jogos e esporte, ele tinha que admitir, aquele dia estava sendo maravilhoso, nem havia visto as horas passarem. Só lembrava de ter se divertido tanto assim nas férias.

Com ela ali. Droga, porém agora já estava sentindo saudades.

Quando começou a anoitecer, uma pequena chuva começou, e todos foram para o seu quarto. Depois de várias partidas no pebolim, Max e Nathaniel estavam em uma disputa acirrada na máquina de fliperama, enquanto ele e os demais passaram por uma intensa competição de dança em seu Pump it Up.

Adrien gargalhou quando Nino perdeu por 2 pontos para ele, e alegou que a máquina estava com defeito e ele merecia uma revanche.

Estavam recomeçando a música, quando um alerta de akuma apitou em todos os celulares. Saindo do jogo, ele andou a passos rápidos até o sofá onde estava o controle, e ligou a TV no noticiário. Seus amigos vieram logo atrás, se amontoando no sofá com ele.

— Não fique temerário, é só o noticiário! — Nadja abriu a programação ao vivo do estúdio. — Estamos ao vivo agora, com Clara Conrad indo em direção à avenida Kléber, onde nosso alerta de Akuma foi acionado.

Enquanto a câmera mudava para a de Clara no helicóptero, viu Luka ao seu lado pegar o celular, e depois de ver algo nele, começou a olhar ao redor.

Adrien sabia bem o que ele estava fazendo, conhecia aquele olhar, ele mesmo já o tivera em muitas ocasiões: o amigo estava procurando uma desculpa para sair e se transformar.

— Vai. Eu te dou cobertura. — Sussurrou para ele, que respondeu com um aceno de cabeça e saiu discretamente pelo fundo do quarto, enquanto todos estavam distraídos com o noticiário.

Pelo que sabia, Bug Noir ainda estava combatendo vilões sozinha, mas se a heroína havia pedido reforços secretos à Luka por isso, óbvio que iria ajudá-lo.

Então se voltou para a TV, e sentiu o coração acelerar ao ver a feição de assombro da repórter.

— É Nadja, a situação aqui não está nada boa. — Ela informou, precisando aumentar a voz para ser ouvida pelo microfone, pois a leve chuva de mais cedo havia engrossado, se transformando em um temporal. O vento forte estava bagunçando seus cabelos loiros e as gotas de água invadindo o helicóptero pelas laterais. — Já estamos na avenida, perto do Arco do Triunfo, e meus olhos não estão acreditando no que estou vendo. Peço aos telespectadores que se preparem para as imagens a seguir.

Então a câmera mudou o foco dela para a rua, apesar das luzes, a chuva estava deixando tudo escuro.

— Mas o que é isso? — Ivan proferiu.

Foi quando um raio cortou os céus, iluminando a cidade e então todos viram, uma enorme cobra rastejando entre os prédios, onde ainda muitas pessoas estavam correndo, fugindo da criatura.

— Meu Deus! — Nino exclamou ao seu lado, com mais alguns sussurros dos outros garotos, mas Adrien estava sem palavras.

O helicóptero jogou um novo jato de luz para melhor visualização. A cobra tinha escamas azuis escuras, que brilhavam conforme ela se movia, e um enorme chifre no meio da cabeça. Quando percebeu a luz, ela mudou o rumo, erguendo parte superior de seu corpo para cima e com seus olhos amarelos em direção ao helicóptero, abrindo a grande boca e mostrando as enormes presas.

Aquele era um akumatizado terrível.

— Acho melhor sairmos daqui! — Clara gritou para o cameraman, mas já era tarde, pois a cobra já estava com a cauda erguida, pronta para acertar o helicóptero.

Soltou um arquejo, junto com os outros meninos, temendo estar prestes a ver Clara e sua equipe sendo atingidos em pleno ar.

Foi quando a câmera gravou uma corda se enrolando ao redor da aeronave, os puxando para baixo e os tirando da mira da cobra.

Era o ioiô dela.

— Ela chegou! — Nathaniel bradou para eles, com alívio na voz.

Adrien assustou quando uma mão pousou em seu ombro, ao virar o rosto, era Nino com a respiração ofegante ao seu lado, e a outra mão no coração.

— Me lembra de nunca deixar a Alya ser repórter de campo. — Ele pediu, sem desviar o olhar da televisão.

Adrien só colocou a mão sobre a do amigo.

— Nós dois sabemos que, se ela quiser isso, ninguém vai poder impedir. — Nino devolveu seu conselho com uma careta, pois ele sabia bem que era a verdade.

— Uau! Nossa heroína nos salvou mais uma vez! — Clara declarou para a câmera, passado o susto, antes de virar a imagem para Bug Noir.

Adrien prendeu o fôlego ao vê-la, como aconteciam todas às vezes.

Ela saltou para o asfalto, com ioiô e bastão em mãos, estava de pé, com a enorme cobra se erguendo sobre ela. Era incrível e assustador ao mesmo tempo, ver ela ali parada sozinha, de frente com aquele monstro.

Quando o réptil deu o bote, Bug Noir estendeu o bastão, saltando por cima dela e enrolando a parte superior do corpo dela com o ioiô, enlaçando seu pescoço.

Adrien precisou conter sua euforia, pois a heroína era ágil, mas a cobra era mais. Ela contorceu todo o corpo, dando chicotadas em Bug Noir com a cauda, que logo precisou a libertar de sua corda.

— Vamos, você consegue. — Adrien entrelaçou ambas as mãos em frente ao seu rosto, na tentativa de controlar sua ansiedade, e fazendo uma pequena oração em nome dela. Era sua única forma de ajudá-la.

Bug Noir então foi para os telhados, cataclismando os carros que a cobra estava jogando em sua direção com a boca, antes de invocar um talismã, um lança-fumaça que ela logo acionou.

Ela queria distrair o akumatizado, camuflando em meio a fumaça para que a cobra não a achasse, mas para quê? Qual era seu objetivo com isso? Adrien tentou analisar a situação, como geralmente fazia, e se pegou surpreso por não ter feito isso antes. Estava começando a ver as lutas apenas como um olhar de civil, e não de um herói.

A cobra estava perdida na fumaça, tentando descobrir de onde Bug Noir surgiria. Foi quando ele notou que no cifre único da cobra estava uma bandana amarrada. Aquele era o objeto onde estava o akuma, e Bug Noir precisava se aproximar o bastante para alcançá-lo. Mas, com aquela boca gigante, que abria em 180°, era quase impossível.

Ela apareceu, saltando com o bastão perto o suficiente para conseguir capturar, porém, a cobra parecia preparada: com a boca aberta e presas à mostra, um líquido saiu em um rápido jato na direção e Bug Noir, que graças a sua agilidade aprimorada, desviou se balançando com o ioiô para o lado.

Percebeu que o líquido era veneno da cobra. Ele atingiu o prédio em que a heroína antes estava, corroendo a estrutura onde atingiu, em poucos segundos.

— Mas que droga! Ela tem veneno ácido também? Isso não vale! — Nino reclamou, revoltado ao seu lado.

— A destruição que esse akumatizado vai deixar para trás vai ser 75% pior do que os outros. — Max afirmou, com ele e Markov analisando a luta através de seu notebook, aberto em seu colo.

— Ou seja, vai ser 75% pior para os heróis, quando eles tiverem que arrumar toda a bagunça. — Kim continuou.

Adrien e os demais fizeram cara feia para ele.

— Ela está lá lutando sozinha, Kim! — Falou, tentando conter sua irritação. — Arrumar depois é a menor das nossas preocupações.

— Verdade. Ela precisa ganhar primeiro. — Marc finalizou, e aquilo foi como um balde de água fria. Adrien precisou respirar fundo, voltando seu olhar para a tela da TV.

Bug Noir iria ganhar, ela precisava ganhar. Claro, não é? Do contrário, quem poderia salvá-la?

A observou invocar outro talismã, um escudo vermelho de bolinhas, que estava usando para se proteger do veneno. A câmera do helicóptero deu um zoom em sua figura, enquanto ela estava no telhado do prédio, não podendo se aproximar tanto com risco da cobra tentar derrubá-los novamente.

Acertando golpes na cobra com o bastão, Adrien viu os lábios de Bug Noir se mexendo, e soube que ela estava com Viperion do outro lado.

Queria saber como estava indo, quantas chances ele já havia gastado para levá-la até ali. Ao menos sabia que ela não estava tão sozinha, e isso acalentou seu coração.

Bug Noir usou o cataclismo mais duas vezes, em carros que a cobra jogou em cima dela e não conseguiu desviar. Precisou saltar com o bastão outra vez, quando a cobra começou a destruir prédios inteiros com sua cauda.

Foi quando ela invocou seu talismã pela terceira vez, o brilho rosa acendeu em sua mão, trocando o escudo por algo que, desta vez, foi um objeto pequeno demais para a câmera capturar.

Bug Noir paralisou no topo do prédio que estava, segurando o pequeno objeto com a mão. Adrien a conhecia o bastante para saber que um plano estava se formando em sua cabeça. Em seguida, ela se virou, e começou a fugir.

— O que ela tá fazendo? — Nino falou verbalmente a pergunta que estava em sua mente.

Ela estava fugindo do confronto para arquitetar melhor seu plano, ou estava conduzindo a cobra para algum lugar.

O que quer que fosse, agora ambas estavam indo em direção à torre Eiffel.

Bug Noir estendeu o bastão, a câmera quase a perdendo de vista de tão alto que foi, só parando de subir quando chegou ao topo da torre. Ela saiu de seu bastão e pousou lá em cima, como se estivesse esperando algo acontecer.

A cobra sibilou alto com a língua bifurcada, ao perceber que sua oponente estava fora de alcance. Então, começou a circundar a torre com seu corpo, subindo mais a cada volta.

Bug Noir apenas estava lá parada, como uma presa encurralada, apenas aguardando seu predador capturá-la.

Adrien sentiu as palmas de suas mãos suarem. “O que você está pensando, Bugaboo? Saia daí!”

A cobra já estava quase a alcançando, com todo o seu comprimento em espirais ao redor da torre.

Foi então que Bug Noir saltou, um pulo de metros para cima e enquanto caía de volta, ela tombou o corpo para frente, estendeu a mão e gritou tão alto, e tão forte, que a câmera do helicóptero foi capaz de capturar sua voz.

— CATACLISMO! — O poder invocado foi tão poderoso, que uma enorme bola preta se formou na palma da heroína.

Adrien se ergueu do sofá em um pulo. Ele sabia que ela jamais cataclismaria uma pessoa, mesmo que uma pessoa transformada em uma animal monstruoso. Porém, o poder foi direcionado à estrutura da torre, que foi corroída do topo à base em segundos, tamanha grandeza dele.

A cobra, que estava com todo seu corpo enroscado, perdeu sua base de apoio completamente, caindo sem equilíbrio. Então todos observaram a cobra e a heroína caindo juntas, Bug Noir em queda livre com o corpo em direção a ela.

Ouviu suspiros ao seu redor, mas ele mesmo estava prendendo o fôlego enquanto a via indo direto para a cabeça da cobra.

Depois, foi tudo rápido demais.

Em um impulso do ioiô, ela se jogou para o chifre, e cataclismou o objeto no ar, ao mesmo tempo que lançou o ioiô novamente, desta vez em direção à borboleta negra que saiu.

Ela estendeu o bastão, o apoiando antes de cair metros abaixo. Um estrondo foi ouvido, e quando a fumaça do chão se dissipou, a viram ajoelhada sobre a chuva, com a pessoa que foi akumatizada, em seu colo.

Ela estava completamente feroz. Implacável. Era tudo o que Adrien conseguia pensar, enquanto olhava Bug Noir ali, sozinha, fazendo todo o trabalho de forma espetacular.

Ouviu os amigos comemorarem ao seu lado, em alívio.

— Meu Deus, que foda! — Kim gritou ao seu lado.

— Ela conseguiu! — Clara celebrou diante da câmera, antes de fechar o rosto em um semblante sério. — Mas e agora? A Bug Noir destruiu o maior símbolo de Paris. Vamos mesmo ficar sem a nossa amada torre?

A câmera deu um zoom na figura preta e vermelha lá embaixo. Depois de conversar com o garoto recém-liberto, ela o soltou para ir em direção aos bombeiros, que já estavam a postos.

Bug Noir se virou para o local onde antes era localizada a torre. Em seu punho fechado estava o talismã, e ela pareceu respirar fundo antes de jogá-lo para cima

— Miraculous Bug Noir!

Um grande brilho rosa surgiu e as joaninhas voaram, a Torre Eiffel reaparecendo em segundos, carros retornando para as ruas e os prédios e casas voltando à sua forma original.

Adrien, mesmo em casa, conseguiu ouvir os gritos de alegria nas ruas.

— Ela conseguiu cara! Ela conseguiu! — Nino disse, balançando Adrien pelos ombros, e depois indo pular junto com os outros garotos, em comemoração.

— Nossa heroína está de volta! — Clara festejou para a câmera, jogando os braços para cima.

Adrien estava feliz também, soltando uma risada, completamente aliviado por saber que sua Lady conseguiu seu poder de volta.

Estava prestes a se juntar aos amigos, que agora estavam pulando em círculos, quando olhou para a TV, e viu a câmera ainda focada nela.

Bug Noir estava olhando diretamente da tela, com o olhar endurecido, quando ela fez questão de retirar o ponto de acesso do ouvido, antes de erguer o punho e fazer um movimento no ar.

No momento em que Adrien percebeu o que era, foi como se alguém tivesse aberto um buraco em seu peito, tão brutalmente, que ele se sentiu perdendo o ar por alguns segundos.

Bug Noir estava fazendo o “zerou” sozinha.

E aqueles olhos ferozes, transmitiam uma mensagem, que Adrien sabia ser direcionado para ele. Para o Chat Noir.

“Você deveria estar aqui, comigo.”

Toda sua vontade de celebrar se perdeu depois disso. Então, a heroína lançou o ioiô e se foi, e a transmissão foi para Nadja Chamack no estúdio.

Ele deu uma olhada em direção aos seus amigos, antes de escapar para o banheiro, precisava de privacidade para se recompor, e talvez jogar uma água no rosto. Estava no meio do caminho, quando Luka atravessou a porta, retornando para o quarto e com um semblante preocupado no rosto.

Deixou os amigos comemorando e puxou o amigo para o banheiro com ele.

— Como foi? — Mal conseguiu esperar fechar a porta para perguntar.

Luka ainda parecia atordoado.

— Eu não fiz nada. — Ele disse, ainda em choque.

Adrien achou ter entendido errado.

— O quê? Como assim?

— Hoje, nessa luta, não usei a segunda chance. — Luka explicou, colocando uma de suas mãos sobre a têmpora, parecendo confuso. — Ela apenas ficou me dizendo “ainda não, ainda não”, enquanto fazia tudo sozinha.

Aquela informação deu voltas em sua mente.

— Então, como ela sabia que as joaninhas iam funcionar?

— Ela não sabia, ou apenas soube depois, quando recebeu o talismã. — O mais velho respondeu atordoado, antes de perceber que estava perdido e logo explicou. — Ela recebeu um chaveiro da Torre Eiffel, depois apenas me disse que sabia o que fazer, e que eu não precisava ativar meu poder.

Aquela informação acendeu uma chama de esperança em Adrien. Agora estava mais claro, e sentiu que podia respirar em paz pela primeira vez, em muito tempo.

Ela não parecia estar necessitando de ajuda alguma, além dos próprios Miraculous unificados. Mesmo sendo arriscado, confiava que ela estava fazendo o certo, e que não seria algo permanente.

— Está dando certo, Luka, é por isso. Além do mais, ela conseguiu o poder de volta! — Emitiu empolgado.

Depois da conversa que ambos tiveram em seu quarto, ele percebeu o quanto ela ainda era contra a ideia de encontrar um substituto para ele. Ela não o superou, assim como Adrien também jamais a superaria, mas ela era esperta e incrivelmente responsável. Ladybug tentou esperá-lo e não funcionou, ela não cometeria o mesmo erro duas vezes.

Um novo portador apareceria em breve, agora que as coisas estavam voltando ao normal.

E com esse pensamento, e com o rosto dela zangado ainda em sua mente, Adrien percebeu algo: ele poderia aguentar o ódio dela por ele. Mas não sua morte.

— É, está dando certo. — Ouviu Luka declarar em voz baixa, ainda contemplativo. Olhou bem para o amigo, cujo rosto não estava compartilhando de sua animação.

— O que foi?

Foi então que Luka o analisou, antes de emitir um estalo com a língua e andar pelo banheiro, contemplativo.

— Eu não sei, Adrien. Sinto que algo está errado.

Adrien observou o mais velho caminhar pelo espaço, antes de apoiar ambas as mãos na bancada atrás dele, ainda com uma expressão séria no rosto. Os olhos azuis de Luka estavam endurecidos, ele mirou a parede à sua frente, mas o loiro sabia que sua mente estava bem longe dali.

— Mas o que poderia ser? — Ele questionou, também tentando analisar a situação. Mas não chegando a lugar algum.

Ao seu ver, estava tudo dando certo.

Luka voltou o rosto para ele, e por um momento viu um traço de tormento em seus olhos, mas que com um piscar, sumiram.

— Ainda vou descobrir. Mas saiba que você está ficando sem tempo. — Luka limpou a garganta e ergueu seu corpo. — Ela me prometeu entregar o Miraculous para outra pessoa em breve.

Saber daquilo apertou seu peito. Porém, precisava lembrar que era isso que queria. Seu objetivo estava quase sendo cumprido.

Balançou a cabeça em confirmação,

— Que bom.

Viu as feições de Luka endurecerem com sua obstinação em não retornar.

— Mas ela ainda não quer isso, Adrien. Você precisa entender, está fazendo algo contra a vontade dela. — Notou pela voz do amigo o quanto ele estava contra essa ideia.

Mesmo sabendo seus motivos, Luka não suportava vê-la sofrer, e isso era algo que os dois compartilhavam.

Porém, ele precisava ser firme. Foi então que Adrien respirou fundo antes de engolir em seco, com a garganta apertada.

— Eu sei. Ela me disse. — Observou a expressão confusa de Luka antes de prosseguir. — Ela veio me ver.

Então contou sobre o encontro que tiveram. Deu uma rápida explicação sobre como Bug Noir ainda tinha assuntos pendentes sobre seu pai, e viu quando Luka respeitou sua evasão sobre o assunto, entendendo que era algo particular seu. Até chegar na parte onde conversou com ela sobre ter que seguir em frente em relação a ele.

— Ela ainda está me esperando. — Seu coração se apertou ao lembrar da esperança nos olhos dela. — Mas você sabe que minha escolha é a melhor para ela. — Não soube porque disse aquilo, mas sentiu que precisava de uma validação de Luka.

Que a aprovação dele o deixaria melhor sobre sua escolha.

Por isso, sentiu seu mundo cair quando ele proferiu sua resposta.

— Na verdade, não sei mais.

Adrien se viu em choque por alguns segundos. Sua boca aberta em choque, antes de encontrar as palavras.

— O quê? Mas Luka, você sabe do futuro…

— Sim, eu sei, Adrien. — Ele o interrompeu, parecendo chateado, antes de olhá-lo com dor nos olhos. — Mas se eu aprendi algo com meu poder, é sobre agir de acordo com meu presente, e honestamente, agora eu sinto que estamos falhando com ela.

Adrien se espantou. Ele achava que Luka o compreendia

— Eu estou protegendo ela!

Precisaria lembrar a ele como Adrien a assassinou cruelmente naquele futuro? Como corpo dela se desfez como areia em suas mãos?

— E quem está a protegendo de si mesma? — Luka devolveu. — Você viu os efeitos que sua partida causou.

— Mas ela os reverteu! E as coisas estão voltando ao normal, não é? — Era o que sabia até então, a não ser que o amigo estivesse ocultando informações a ele. Porém, esse era um risco que corria, ao não saber quem ela era.

Observou intrigado, Luka desviar o olhar.

— Sim, estão, aparentemente. Mas isso não garante que não pode haver outros problemas. Talvez até piores! — Notou como ele se esquivou da resposta.

Sabia que Luka apenas estava preocupado, ele não havia usado seu poder hoje e isso o deixou confuso. Mas ele precisava perceber que isso era um bom sinal. O universo estava tão em equilíbrio, que apenas Bug Noir era o suficiente.

Luka então suspirou fundo, antes de falar com ele, de forma derrotada.

— Ela não está bem agora, Adrien.

Aquilo causou fincadas em seu coração. Sim, sabia disso, viu com os próprios olhos o rosto dela aquele dia. Mas precisava manter a esperança. Já haviam chegado tão longe, não podia vacilar agora e deixar todo o esforço deles ter sido vão.

— Mas ela vai ficar. E também, ela tem você ao lado dela.

Foi então que Luka soltou o sorriso em humor, antes de olhá-lo com os olhos tristes. Como se não acreditasse em suas palavras.

— Eu realmente espero que esteja certo sobre isso, e que minha ajuda seja o suficiente.

Adrien então jogou os braços ao redor dele, querendo fazer algo para confortá-lo.

— Obrigado por continuar cuidando dela. Não sabe o quanto isso me deixou melhor.

Tinha ficado com tanto medo quando soube que ela iria começar a agir sozinha, mas agora sabendo que Luka estava com ela, não conseguia nem medir seu alívio.

Luka devolveu seu abraço, também parecendo precisar daquele contato, mas não pelas mesmas razões que as suas.

— Não há nada que eu não faria por ela, Adrien.

Estava completamente grato a Luka por isso. E tranquilo sabendo que sua Lady o tinha por perto.

Queria poder dizer o mesmo. Porém, precisou se lembrar, que o que ainda estava fazendo, se manter distante, era por ela.

Ainda estava cuidando dela, apenas de outra forma.

⋆⊱--------------⋇❬❤️❤︎❭⋇--------------⊰⋆

Bug Noir saltou pelos telhados, a caminho de casa, precisando se controlar para não ir em direção a uma certa mansão, ao invés disso. Em poucos minutos, conseguiu avistar a sacada de seu quarto.

Atravessou a porta aberta da claraboia, caindo diretamente agachada em sua cama.

— Marinette, sua doida! Foi enfrentar aquela cobra enorme sozinha? — Alya estava na parte debaixo de seu quarto, saindo da escrivaninha e indo ao seu encontro.

Diferente do que havia combinado, ela preferiu ter apenas a amiga ali com ela naquele dia, o que terminou sendo a escolha certa, quando o alerta de akuma soou.

Alya devia ter acompanhado toda a luta do computador, e estava brava com ela novamente, mas não se importava.

Nada mais estava importando naquele instante, além da dor em seu coração.

Ela desfez a transformação, libertando Tikki e Plagg, e assim que estava de volta a sua forma normal, mirou bem suas mãos já trêmulas, antes de colocá-las sobre o peito.

O coração estava batendo tão forte que chegava a doer. Ela conhecia essa sensação, porém, nunca tão forte quanto estava agora. Sentou no colchão e escorou na parede atrás de si.

Sentiu que estava ficando sem ar, puxando goles grandes de fôlego para fazer a respiração funcionar direito.

— Marinette! Está machucada? — Alya bradou desesperada, acelerando a subida da escada para vir ao seu encontro.

Sua cabeça começou a ficar estranha, leve, tonta, enquanto tentava sugar oxigênio, mas não adiantava mais. Sentiu aquele medo horrível tomar conta de todo seu corpo, uma sensação de gelo subindo dos dedos de seus pés ao topo da cabeça.

Seus olhos embaçaram, com um ardor familiar surgindo atrás de seus olhos. Ela tentou, com todas as forças, não chorar, pois se começasse, sentia que jamais conseguiria parar. Mas também, não entendeu o motivo de querer resistir, não havia mais esperança.

Talvez o melhor fosse apenas ceder.

— Não, não! — Era tudo o que ela conseguia dizer em meio aos soluços, de dor, de falta de ar, de frio, da sensação que jamais seria feliz novamente. Enquanto balançando a cabeça em negação com os olhos fechados, porque talvez assim, as lágrimas não escapassem.

— Marinette! O que foi? — Tikki também questionou, flutuando aflita ao seu redor.

Todo seu esforço estava sendo em vão. Suas estratégias, lutas, tentativas, todas falharam. E agora, não conseguia nem segurar o próprio choro.

— Eu nunca mais vou ver ele. — Ela disse, cedendo as lágrimas quentes que começaram a descer pelas suas bochechas.

— O quê? — Alya já estava ao seu lado, uma mão em seu ombro e com o rosto assombrado pelo seu estado.

— Chat Noir! — Doía, só de dizer seu nome. — Eu nunca mais vou ver ele! — Ela gritou para a amiga, o ar faltando em seguida, a respiração intensa já não adiantando.

Sentia que ia morrer, afogada em tormento.

— Estou melhorando. — Ela exclamou, o tremular de sua mão transformando em um formigamento, junto de um suor frio em suas palmas. Parecia estar se desligando de seu corpo cada vez mais. — Estou melhorando e ele ainda não está aqui! — Ela disse com dificuldade, seus lábios começaram a tremer e formigar junto com o restante do corpo.

Ela só conseguia gemer, chorar, e soluçar, enquanto segurava o próprio corpo com suas mãos, como se seu próprio abraço pudesse salvá-la, de alguma forma. Impedi-la de se perder em meio a agonia do seu interior.

— Mari… — Alya a puxou para seus braços, parecendo desesperada, sem saber o que fazer.

Mas não havia nada. Nada que ela fizesse poderia ajudar.

— Eu sinto falta dele, Alya! — Seu corpo estava sendo amparado pela amiga, mas por dentro, uma terrível náusea estava se formando.

— Eu sei, eu sei. — Sentiu a mão da amiga acariciando sua cabeça, em uma tentativa falha de lhe trazer conforto.

Mas isso era impossível.

Queria vomitar, queria chorar mais. Queria dormir. Queria desaparecer.

— EU NUNCA MAIS VOU VER ELE! EU NUNCA MAIS VOU VER MEU CHAT NOIR! — Ela bradou em meio aos soluços, com a voz abafada pelo corpo de Alya.

A dor em seu peito só estava aumentando e seus pulmões se expandindo, sentindo que eles poderiam explodir a qualquer momento de tanta dor. E talvez, isso trouxesse seu alívio.

— Mari, para de chorar. Eu tô aqui, tô aqui com você, vai ficar tudo bem. — Alya começou a embalá-la em seus braços, sussurrando palavras de consolo em seu ouvido.

Palavras que jamais seriam o suficiente.

— ME AJUDA, ALYA, POR FAVOR! — Ela então se entregou ao choro, soltando gemidos de dor, não querendo acreditar que agora sua vida seria essa.

Uma vida sem ele, e com uma dor que jamais sumiria.

⋅⋆⊱--------------⋇❬ღ❭⋇--------------⊰⋆⋅

Desceu as escadas, sentando no divã na parte de baixo do quarto. Com o celular em mãos, ligou para a única pessoa que poderia ouvi-la naquele momento.

Era tarde, não sabia se ele iria atender, se já havia ido embora ou se ainda estava se divertindo com os outros meninos, mas precisava tentar.

— Alya. — Foi recebida por sua voz suave, e soltou o ar que estava segurando.

— Luka…

— Ela tá bem? — Ele já perguntou logo em seguida, a interrompendo, com preocupação vazando de sua voz.

Claro que ele já saberia. O tópico da conversa de ambos era sempre sobre ela.

— Não, Luka, ela não está nada bem. — Vociferou consternada. Então, relatou ao mais velho o estado em que a amiga estava quando chegou, lembrando da angústia que passou naqueles minutos com ela, e as horas seguintes. — Ela chorou até dormir. Dei um remédio para acalmá-la, mas não sei mais o que fazer.

Não sabia se ele poderia fazer algo também, não depois de tudo aquilo que ele disse no hospital, mas precisava tentar.

— Só estarmos aqui para apoiá-la… — Apenas o começo da resposta a irritou.

— Não está sendo o bastante! — O cortou, depois respirou fundo, antes de continuar. — Desculpa descontar minha frustração em você, mas está sendo muito difícil ver ela sofrer assim.

Lágrimas brotaram em seus olhos, e olhou para cima, onde Marinette estava agora, junto com os kwamis, que estavam velando seu sono inquieto. Ela havia dormido com os olhos inchados e rosto manchado, e lembrou como em meio ao chorou em seu ombro, ela agarrou seus braços, como se Alya pudesse, de alguma forma, aplacar todo aquele sofrimento,

Foi horrível. Não queria ter que presenciar sua amiga daquele jeito, nunca mais.

— Acredite, também não é algo que me agrada muito. — Ele resmungou do outro lado.

— E também eu não consigo entender! — Ela jogou de volta. — O jeito que ela fala do Chat Noir… Eu amo o Nino, e eu acho que é como eu choraria se algo acontecesse com ele. — Explicou, dando voz aos pensamentos agitados de sua cabeça. — Mas, ela tem o Adrien, e ainda assim… — Deixou a divagação no ar. Não conseguia chegar a uma conclusão.

Luka hesitou do outro lado.

— É complicado, Alya. — Ele declarou, depois de alguns segundos em silêncio. Como se nem ele mesmo gostasse dessa resposta.

Bufou frustrada, mesmo já sabendo que era isso que Luka diria a ela.

— Sim, é complicado, e eu não entendo! — Disse, indignada. — Não consigo me imaginar tendo sentimentos tão profundos assim por outro.

Não que estivesse julgando a amiga, ela só precisava entender. Era da sua natureza querer saber todos os fatos antes de chegar à uma conclusão final. Marinette tratava Chat Noir, no começo, como um parceiro irritante. Então, ele virou um amigo. Depois teve aquele surto em que dizia gostar dele, quando, na verdade, ela só estava querendo fugir de seus sentimentos por Adrien, por algum motivo.

Entendia claramente, que ela e Chat eram bons parceiros, sempre os admirou muito desde o início, quando ainda não sabia que a heroína de Paris era sua amiga, e depois que soube, passou a admirá-la até mais.

Alya também entendia a importância do equilíbrio que o universo exigia em relação aos miraculous deles. Mas achava que Marinette precisava de um portador do Miraculous da Destruição, não de um portador específico.

Sim, imaginou que ela sentiria saudades, mas que eventualmente, seguiria em frente. Eles nem sabiam a identidade um do outro afinal!

Não, Alya não entendia. Ela não conhecia os outros membros da equipe, mas se algum deles fosse substituído, ela não iria se importar tanto. Ah não ser que o herói em questão fosse Nino, mas isso porque ele era seu namorado e porque ela já sabia quem ele era afinal!

Como autora do Ladyblog, e uma fã dos dois desde o começo, também sentia falta do Chat Noir. Mas não chegava nem perto do que Marinette estava sentindo.

— Acredito que as coisas vão melhorar, com o tempo. Está dando certo agora, o poder dela voltou. — Luka explicou do outro lado, e Alya precisou interromper sua investigação mental.

— Tem que melhorar! Não suporto mais ver minha melhor amiga sofrendo desse jeito.

— Fizemos uma promessa. — Luka confessou. — Ela vai entregar o Miraculous do Gato para alguém em breve.

Bom, isso não era algo que ela estava sabendo. Talvez, quando outro portador aparecesse, Marinette poderia, finalmente, seguir em frente.

— Mas e esses sentimentos pelo Chat Noir? — A dúvida surgiu em sua mente em seguida. — O que ela vai fazer com eles?

A voz abatida veio do outro lado.

— Ela vai precisar superar, é o único jeito.

Alya lembrou de quando perdeu a sua avó, com quem tinha uma ligação muito forte, e ter aquele sentimento de dor que parecia não acabar. Mas o tempo passou, e curou o que ela sentia.

Superar alguém era como afundar no mar, e deixar a onda do luto e da dor passar por cima de você, antes de retornar para a superfície, logo em seguida. Era preciso apenas aguentar firme, enquanto o tempo de sofrer pela pessoa, passava.

Mas Marinette não parecia estar aguentando, e sim sendo levada pela maré, em direção ao fundo. Apenas afundando e afundando, cada vez mais… sem sinal de volta.

E então Alya desligou o celular, e chorou pela amiga. Chorou por quem Marinette era, e por quem estava se tornando.

E torceu para que todas as histórias que ouviu sobre coração partido, não fossem reais. Pois se fossem, então não haveria esperança para sua melhor amiga.

Notas finais
O coração sangrando ali no chão me pega demais... Só uma pequena observação: vocês perceberam que o único "zerou" que tivemos entre o Chat e a Ladybug nessa história, foi no primeiro cap? Com os dois na torre Eiffel, e nem akumatizado teve. Foi só uma observação que tive aqui kkk nada demais. Ah, e sobre esses dois cabeça dura. É a MariBug pressionando ele de um lado e o Adrien pressionando do outro... Isso não vai dar bom. Ele não ta errado em querer ficar longe, afinal, é a vida dela em risco, mas ela também não ta errada em não aceitar. Eu sei que muita gente ta ficando com raiva kkk mas Ausência é algo complicado. Se fosse algo simples eu nem escreveria nada. Ah, o recadinho: eu tive alguns problemas pessoais e acabei atrasando meu cronograma de escrita. O cap 16 já esta quase pronto, mas não estou fazendo promessas para o 17. Não entraremos em hiatos (eu espero), mas pode haver atrasos no futuro, só quero deixar avisado. É isso! Beijos doces e até sexta!