Ausência
10 Medos
Notas iniciais
Trying to catch myself before I fall
(Tentando me agarrar antes que eu caia)
Too little too late
(Um pouco tarde demais)
Can you save me?
(Você pode me salvar?)
Don’t let me go — Raign
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Sentado na cadeira dura da sala de espera, conseguia observar todo o tumulto no hospital. Havia muitos feridos da luta de hoje, pois ninguém estava preparado para isso. O costume era Ladybug arrumar tudo, curar os feridos, sempre foi assim.
Ladybug…
Luka estava tentando colocar em prática tudo o que havia aprendido com seu mestre.
“Controle sua mente. Domine seus pensamentos.”
Mas, era a primeira vez que nenhuma tática funcionava.
Inspire, segure, expire.
Sua cabeça estava a mil, o coração batendo forte, as palmas da mão suando frio, respiração pesada, e seu pé cismado em balançar sem parar. Mas tudo piorou ao ver Adrien entrando pelas portas duplas.
— Onde ela tá? — Perguntou, agonia transbordando de sua voz, enquanto vinha ao seu encontro.
Os olhos assustados dele analisando todo o lugar, como se Adrien pudesse encontrá-la a qualquer instante.
Luka se levantou, pronto para ampará-lo.
— Ela já está lá dentro, sendo atendida. Vai ficar tudo bem! — Colocou ambas as mãos no ombro do amigo, forçando-o a parar para ouvi-lo. — Tom e Sabine já estão lá com ela.
Adrien pareceu precisar de alguns segundos para controlar a respiração, antes de se voltar para ele.
— Luka, o que houve? — Ele conseguiu perguntar, parecendo mais calmo. Mas os olhos verdes dele ainda estavam alarmados, e as mãos de Adrien tremiam.
Seu amigo sabia que ele era o Viperion. E com certeza, havia o visto sair com a Ladybug ferida do local. E agora, ali estava ele, com a namorada de Adrien hospitalizada.
Mas Luka cumpriria o pedido dela, não importava as circunstâncias.
Puxou o amigo para um canto, onde ninguém poderia ouvi-los. Mas ainda abaixou a voz ao narrar, como precaução.
— Após eu sair com a Ladybug, ela pediu aos heróis, pelos comunicadores, para ajudarmos os civis feridos da batalha, foi assim que eu a encontrei. — Precisou tomar um longo fôlego antes de continuar a se explicar. Se lembrando daquele momento, vividamente, mesmo que ao descrever, fosse distorcer toda a situação. — Ela estava caída no meio dos escombros, perto da ponte que desmoronou. Havia um pedaço de concreto em cima do tronco dela. — Viu os olhos do loiro dobrarem de tamanho com horror, e se sentiu horrível. — Eu sinto muito Adrien. Eu a trouxe para cá o mais rápido que pude.
— Mas ela devia estar em casa! — Adrien protestou, as mãos dele agarrando ambos os seus braços. — Ela já estava ferida, Luka! A costela quebrada…
— A culpa é minha. — Interrompeu, não aguentando mais ouvir a dor na voz dele. — Ela me ligou mais cedo dizendo ter ideias para o design da banda, e que estava cansada de ficar em casa. Então combinei de encontrá-la. Mas então, toda a luta começou e ela deve ter tentado se esconder, e se machucou.
Adrien se afastou dele, e começou a caminhar de um lado para o outro. Esperava que ele pudesse acreditar nessa mentira absurda. Luka jamais pediria para ela encontrá-lo naquele estado, ou a deixaria sozinha.
Sua aposta é que Adrien estava tão absorto em agonia, que nem ao menos perceberia essas controvérsias.
E Luka entendia os sentimentos dele. Impotência. Desespero. Aflição. Estava sentindo tudo isso também.
Viu quando ele parou de andar e o olhou temeroso.
— E… a Ladybug? — Então compreendeu, o motivo da apreensão.
Adrien ainda se importava com ela, é claro. E mesmo a contragosto, queria notícias da ex-parceira.
Luka precisou desviar o olhar para o corredor para conseguir responder.
— Ela está bem também. Já havia melhorado, quando eu a deixei. — A mentira tinha gosto amargo em sua boca.
O loiro apenas concordou com a cabeça, parecendo um pouco aliviado com isso, fazendo o peso de sua culpa diminuir um pouco. Ao menos Adrien não ficaria preocupado com ela.
Então os dois então sentaram lado a lado nas cadeiras da lotada sala de espera, e aguardaram até Tom ir buscá-los, em completo silêncio.
Cada um com sua própria tempestade de sentimentos, causando estrago em seu interior.
O homem apareceu após alguns minutos, e os dois se colocaram de pé no mesmo instante.
— Tom! — Adrien foi até ele primeiro, e Luka sabia que suas perguntas já estavam prestes a ser liberadas, quando ele foi interrompido pelo homem.
— Oi meninos. A Marinette está acordada. — Ele já chegou explicando. Luka soltou o fôlego que estava segurando, e tinha certeza que Adrien havia feito o mesmo. — Ela recebeu os medicamentos que precisava, e está desperta o suficiente para recebê-los.
— Mas como ela está? — Foi Luka quem perguntou. Havia prometido a si mesmo que deixaria Adrien tomar à frente, mas não estava conseguindo mais se controlar.
E viu Tom Dupain, aquele enorme homem, engolir em seco, antes de responder.
— Disseram que a pedra… esmagou o abdômen dela. — Ele precisou de alguns segundos para continuar.
E foi algo recíproco, pois a respiração de Adrien ao seu lado aumentou, e Luka sabia que o amigo precisava desses segundos para conseguir processar a informação.
— O médico disse que ela teve uma concussão na parte de trás da cabeça, deve ter batido ao cair. — Tom continuou, com dificuldade. Luka sabia que ele devia estar imaginando a situação em que sua filha estava, para receber todos esses ferimentos, nenhum pai deveria passar por isso. O homem respirou fundo e fechou os olhos, antes de ir para a próxima parte. — Marinette está com um enorme hematoma nas costas e abdômen, e foi necessário compressas frias no local e uma transfusão de sangue. Sabine está assinando os papéis de autorização para a transfusão.
Então Tom parou. Desviando o olhar dos garotos e os direcionando para algum lugar. Não foi preciso analisar muito para Luka descobrir que ele estava segurando o choro, engolindo em seco antes de fungar, e continuar.
— A costela quebrada causou uma ruptura em alguns órgãos internos. — Precisou fechar os olhos, e respirar fundo, quando Tom deu o diagnóstico. — Ela teve uma hemorragia interna.
Revelou, e Luka ficou assombrado, sabendo agora o que aconteceu com ela. Na hora que ela foi arremessada, e bateu naquela parede, foi como se o mundo tivesse parado alguns minutos. Enquanto tudo que ele queria fazer, era voltar esse mesmo tempo.
Depois com ela em seus braços, ficou com tanto medo, um medo que nunca sentiu em toda a sua vida, pois não sabia o que estava acontecendo com o corpo dela.
Bom, agora ele sabia. Mas ainda assim, o medo continuava ali, agarrado a ele.
— O médico disse que, por sorte, o pulmão dela não se rompeu, e Marinette não precisou de cirurgia. — Tom terminou, com um suspiro de alívio mínimo. Pois um pouco de brilho, em meio a tanta escuridão, ainda era luz.
Luka só podia torcer para que a sorte continuasse do lado deles por mais algum tempo.
Mas, se sua intuição estivesse certa, esse não era o caso.
— Ela está internada no quarto 404, podem ir até lá. Estou indo em casa, buscar algumas roupas para ela. Marinette vai ficar internada alguns dias. — O homem explicou, antes de se voltar para Adrien. — Pedi a mãe dela para ir comigo. Adrien, se importa de…
— Ficarei com ela. — Adrien respondeu, antes mesmo que o homem pudesse terminar o pedido.
— Obrigado, filho. Não devemos demorar.
Então Adrien foi à frente, após agradecer o sogro pelas notícias. E Luka deu um tapinha no ombro de Tom ao passar. Viu o quanto aquele enorme homem estava assustado, pela sua preciosa filha.
Foi então que ele tocou em seu ombro também, fazendo Luka se virar em sua direção.
— Obrigado, Luka, por trazê-la tão rápido. — Os olhos de Tom estavam marejados, a voz falhando no agradecimento. — Salvou a minha menina.
Precisou engolir em seco antes de responder.
— Não foi nada, Sr. Dupain. — Nada que ele não pudesse ter feito melhor.
Se não tivesse dado ouvidos à Marinette, e continuado a usar seu poder da segunda chance, não estariam no hospital agora.
Então o homem foi se encontrar com a esposa, e Luka caminhou atrás de Adrien em direção ao elevador que os levariam ao andar dela.
Estava encostado nos fundos do elevador. As mãos agarrando com força a barra de apoio atrás de si, como se estivesse, literalmente, buscando algo em que se segurar nesse momento.
— Ela… — Adrien começou, mas não conseguiu terminar sua fala.
— Ela vai ficar bem. — Luka completou por ele, falando com uma confiança que não tinha no momento. Porém, recebeu os olhos verdes em sua direção, ainda assombrados, mas com um pequeno brilho de gratidão.
As portas se abriram no andar, e seguiram para lá em silêncio. Ao passar pela porta do quarto 404, os dois garotos foram recebidos com a visão de uma Marinette muito, muito pálida, na cama. Havia um cateter em seu braço, ligado a uma bolsa de sangue no suporte, ao seu lado, e um acesso de soro medicinal do outro.
— Adrien… Luka. — Ela conseguiu dizer fracamente, seus lábios estavam brancos.
Mas o sorriso singelo que se abriu neles, fez o coração de Luka se apertar. Ela parecia tão frágil e pequena naquela cama de hospital.
— Amor! — Adrien foi o primeiro a entrar, chegando rapidamente ao lado dela, e dando um beijo no topo de sua cabeça, antes de encostar a testa na dela.
Decidiu esperar, e dar um tempo sozinho aos dois. Ele só precisava de vê-la, e assegurar que ela estava bem, para apagar da memória o estado em que ela estava, na última vez em que a viu.
Respirou fundo e recostou na parede ao lado da porta, tombando a cabeça no azulejo frio, e fechando os olhos. Enfiou as mãos em seus bolsos, mexendo na palheta autografada que ficava sempre ali, guardada junto a ele. Saber que a tinha, o ajudava a se acalmar.
Estava exausto. Sentia que não dormia há dias. E provavelmente era verdade. Só estava de pé naquele momento, devido à magia do Miraculous.
Ele havia ficado quatro meses naquela luta.
Nenhuma de suas tentativas estavam funcionando, e percebeu, tarde demais, que precisavam mudar de estratégia. Até que por fim, não aguentou mais, pensando também no sermão que tomaria de Marinette, quando ela descobrisse há quanto tempo estava tentando.
Preferia qualquer sermão agora, no lugar disso.
Voltou de seu torpor ao ouvir um celular tocando, e ao erguer a cabeça, viu Adrien com o aparelho na mão.
— Amor, é a Nathalie, ela deve estar querendo notícias. Eu já volto. — Viu a garota concordar levemente com a cabeça, antes de Adrien depositar outro beijo em seus fios escuros, e sair do quarto.
Foi então que Marinette virou os olhos, incrivelmente azuis e cansados, em sua direção. Tombando a cabeça para o lado no travesseiro, ela abriu um pequeno sorriso.
— Obrigada. — Uma única palavra. Mas que acabou com ele, completamente.
Luka precisou de alguns segundos para se recuperar. Com as mãos no bolso, ele abaixou a cabeça em busca de força interna.
— Me perdoe. — Emitiu sua culpa, ao erguer o olhar.
— Não é… sua culpa. — Marinette devolveu, fracamente.
Mas era sim, em grande parte. Ela contava com ele para que coisas assim não acontecessem. Mas não prolongaria isso, sabia que ela jamais o acusaria, tomando tudo para si, e por saber que ela faria exatamente isso, e ignorar o problema principal, ele sentiu a necessidade de a aconselhá-la, antes que Adrien retornasse.
— Precisa dar um jeito nisso. — Disse, se desencostando da parede e se aproximando dela. — Ou então contar para ele. — A advertiu, sério, sentando na poltrona ao lado da cama.
Haviam passado muito perto, de Adrien ou qualquer outro, descobrir a identidade dela. Mesmo que esse fosse a menor de suas preocupações no momento, sabia que era a dela.
— Sabe que não posso… Luka. Nem você deveria saber… mas aconteceu. — Ela precisou recuperar o fôlego antes de continuar a falar, parecendo sentir dor no ato. E isso doeu nele também. — Eu só vou resolver umas coisas antes… só isso. Vai tudo ficar bem.
Ele só conseguiu negar com a cabeça, buscando a mão dela por cima do lençol. A pequena mão, ainda muito fria.
— Marinette, você precisa de ajuda! — Ele implorou, fitando dentro dos olhos femininos. — Não sei o que está acontecendo, mas se for a falta do Chat Noir, então ao menos, me dê o Miraculous dele…
— Não! — Ela disse mais alto, parecendo ficar chateada com a mera sugestão disso, então fechou os olhos com força, se retorcendo de dor na cama, respirando com dificuldade logo em seguida.
Aquilo paralisou o coração dele, chegando a quase uma dor física por ela.
A outra mão dela pousando em cima da barriga, como se pudesse fazer algo para curar a própria dor. Se arrependeu de ter iniciado essa conversa. Deveria ter esperado ela recuperar um pouco mais.
Mas antes que ele dissesse algo, ela continuou.
— Não posso… Luka. É só dele, você… sabe. — A cabeça dela começou a balançar em negação, com veemência. Como se a mera ideia fosse algo insuportável. — Ele foi… escolhido, assim como eu. Isso… o torna insubstituível.
Ela era teimosa. Infelizmente, Luka a compreendia, pois entendia ambos os lados.
Mesmo assim, isso não apagava as memórias.
Assim que chegaram à ponte e ela fez aquele pedido, ele se transformou de volta. Ladybug então ficou inconsciente instantaneamente em seus braços, e aquilo a fez voltar à forma civil. Tikki saiu de seus brincos assustada.
Então, ele a carregou até o hospital mais próximo.
Estava com medo por ela. Aqueles erros na luta não haviam sido naturais. Mas também, não sabia mais o que poderia fazer para ajudar. E se mudar o presente não estava adiantando, o que seria dela no futuro?
Luka queria apenas tirá-la dali, e pegá-la em seus braços, para protegê-la de todo mal. Protegê-la de si mesma.
Não conseguiria continuar naquele quarto, a vendo daquele jeito, e sentindo o fracasso o invadir, sem misericórdia. Soltou a delicada mão feminina, abruptamente.
— Preciso de ar. — Disse, já se levantando, ignorando os olhos arregalados dela.
— Luka…
Saiu do quarto a passos apressados, mesmo com os fracos protestos da garota atrás de si.
Não havia meditações o suficiente para isso.
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Adrien não queria ter saído do quarto, mas além de precisar atender Nathalie, sentiu que precisava de alguns minutos longe de Marinette, para se recompor.
Não estava preparado para a visão dela tão debilitada.
Foi como ter o próprio coração esmagado.
— Adrien, o que houve? Gorila acabou de me mandar uma mensagem, dizendo que te levou até o hospital! Esse ataque que houve hoje…
— Eu estou bem, Nathalie. — A garantiu, antes que a mulher pensasse o pior. — Eu estava seguro em casa quando aconteceu.
Ouviu quando Nathalie murmurou um “graças a Deus” do outro lado da linha. E aquilo o fez se sentir horrível.
Quando deu por si, Adrien estava soltando soluços, com as lágrimas escorrendo pelo seu rosto. E ele precisou se abaixar até o chão do corredor, uma mão segurando o celular no ouvido, enquanto a outra tapava os olhos.
— Adrien! O que foi querido? — Ouviu ela perguntar alarmada, do outro lado da chamada, enquanto ouvia seu choro.
Não era como se pudesse esconder isso agora, então resolveu revelar tudo de uma vez.
— É a Marinette. — Ele conseguiu dizer. — Ela se machucou, Nathalie. Machucou muito. — Então voltou a chorar de novo, não conseguindo mais se controlar.
Precisava se libertar desses sentimentos, antes de voltar para o quarto de novo.
Antes de voltar para ela.
— Estou indo para aí. — Ouviu Nathalie declarar de forma decisiva, e ficou verdadeiramente grato com sua preocupação. Mas não saberia se conseguiria ficar forte com ela ali.
Sabia que se assim que a visse, iria atrás de conforto, e seria como um garotinho assustado em seus braços. E não podia fazer isso, não agora. Adrien precisava se manter forte.
— Não, não precisa. — Exprimiu, entre os soluços. — Os pais dela vão estar aqui daqui a pouco, e eu quero ficar com ela.
— Tem certeza, Adrien?
— Tenho. — Assegurou, fungando e respirando fundo em seguida, limpando às lágrimas que mancharam seu rosto.
Ele só precisava estar com Marinette agora. E ficaria com ela, assim que se recompusesse.
— Estou aqui se precisar. Vai me dando atualizações. — Nathalie pediu.
— Eu vou. E obrigado, por se oferecer para vir. — Não conseguia deixar de pensar que era um fardo para ela, às vezes.
Nathalie poderia estar vivendo sua vida com tranquilidade, ao contrário de estar cuidando de um adolescente cheio de problemas.
— É claro, Adrien. Não precisa passar por isso sozinho.
E isso fez mais lágrimas soltarem de seus olhos. Lágrimas de completa gratidão.
Foi difícil engolir o bolo que se formou em sua garganta após isso.
— Eu sei. — Foi o que conseguiu emitir, antes de desligar.
Precisou chorar mais um pouco, antes de se levantar.
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Queria muito poder conversar melhor com Luka. Ele parecia devastado, talvez em choque. Nem podia imaginar o horror ao qual o submeteu para salvá-la, carregando seu corpo inconsciente até ali.
Mas tinha assuntos mais urgentes para resolver. Precisaria conversar com ele depois, assim que descobrisse o que causou sua atual situação.
— O que… aconteceu, Tikki? — Estava finalmente, sozinha, e só tinha alguns minutos até que Adrien, retornasse. Precisava conversar com os kwamis, e rápido.
Sua cabeça ainda estava uma completa bagunça, e a jogou contra o travesseiro.
Suas joaninhas jamais haviam falhado. Ainda não era capaz de processar isso. Nunca algo como isso havia acontecido antes, como nunca havia errado tanto em seus planos de ataque.
Também nunca havia ficado tão ferida em uma luta. Ainda estava sentindo muita dor, e isso porque estava tomando morfina. Do contrário, sabia que a sensação seria insuportável.
Os médicos disseram tudo o que houve com ela, todo o estrago feito em seu interior. Sabia que se não estivesse transformada na hora, certamente não teria sobrevivido.
Havia acabado de se livrar de uma lesão, já que ficar em repouso por tanto tempo permitiu que seu tornozelo curasse completamente em poucos dias.
Mas se achava que a dor de uma costela quebrada havia sido ruim, não se comparava a dor de uma ruptura interna.
Mas então se lembrou de quando levou um cataclismo de Chat Noir no mesmo local, aquela, sim, havia sido a dor mais forte que havia sentido em sua vida. Quase podendo sentir seus órgãos internos se desfazendo dentro dela. Felizmente, aquela tortura a afligiu por apenas poucos minutos.
Agora essa? Ainda levaria algumas semanas para se recuperar.
Os dois kwamis voaram para perto de seu rosto. Tikki parecia temerosa.
— O inevitável! — A kwami vermelha exclamou, jogando os bracinhos para cima. — Meu poder de criação foi dominado pelo azar e destruição. Perdemos nossa sorte, Marinette.
Achou que não tinha entendido direito, devido à dor e as fortes medicações que estava tomando. Mas após poucos segundos, as palavras se firmaram em sua mente.
E ela ficou horrorizada.
— O quê?! — Exclamou um pouco forte demais, e uma onde nauseante de pura dor invadiu seu abdômen, fazendo-a precisar encostar a cabeça para trás no travesseiro, e morder o lábio com força, sentindo gosto de sangue em seus lábios.
Teve vontade de chorar. De dor, de desespero.
Precisaria de alguns minutos para se recuperar. Mas estava correndo contra o tempo, então se forçou a perguntar.
— Como assim… eu não tenho mais minha sorte? — Disse entre dentes, se forçando a respirar com calma para não se machucar mais, encarando uma Tikki aflita flutuando ao seu lado.
— O universo precisa de equilíbrio, é por isso que sempre existem portadores da Criação e da Destruição coexistindo ao mesmo tempo. Sempre que um dos miraculous começa a ser usado, o outro acha um jeito de encontrar um portador. — A kwami explicou de forma paciente. — Sem um deles, o poder do outro é anulado no universo.
— Mas como posso… continuar sendo a Ladybug… sem minha criação? — Ela não aguentaria isso.
Já havia perdido seu Chat Noir. Como poderia recuperá-lo, se não pudesse mais ser a Ladybug? Se não tivesse mais seu poder?
— Não pode, esse é o ponto! — Foi a vez de Plagg de se pronunciar, incisivo, flutuando para frente de seu rosto. — Guardiã, já esperamos tempo demais! Chat Noir não me convocou. Eu preciso achar outro portador, para você continuar usando seu poder.
— Além do mais. — Tikki continuou, antes que ela pudesse dizer alguma coisa. — Todos esses seus recentes machucados e acidentes foram causados pelo azar. Não pode continuar com isso por muito mais tempo, Marinette.
Marinette se engasgou com o ar que segurou. Seus machucados! A hemorragia da luta de hoje, a costela quebrada, o tornozelo…
Ou havia começado antes? Ela caía tanto, e era tão desastrada, que era quase impossível determinar qual havia sido o primeiro.
Mas lembrou de quando caiu na casa de Adrien, e apesar do tombo não ter parecido grande coisa, causou seu primeiro hematoma feio.
Mas ela balançou a cabeça, em negação.
— Não tenho medo… de me machucar. — E era verdade. Mesmo em meio à tanta dor, ainda não temia isso mais que temia a ausência de Chat Noir. Ela olhou para os dois kwamis à sua frente. — Nós vamos resolver isso.
Ela acharia uma saída.
Nem que fosse a última coisa que fizesse.
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Virando a esquina do corredor do hospital, escorou na primeira parede que encontrou, e fechou os olhos com força.
Estava concentrado em sua respiração. Puxe o ar por quatro segundos, segure por sete, expire por oito segundos. Repita.
Precisava clarear a sua mente, dominar os seus instintos.
Não soube por quanto tempo ficou assim, até alguém encostar em seu braço e chamar seu nome.
— Luka! — Era Alya, parada em sua frente, e com o rosto gravado em pavor. — Ela tá aqui? Ela tá bem?
Seus pensamentos embaralhados precisaram de alguns segundos para se organizar. Ah, sim. Ele havia mandado uma mensagem no grupo de amigos, após ligar para Adrien, relatando a situação da Marinette. Só não imaginou que alguém chegaria ali tão rápido.
— Sim, já está recebendo tratamento. — Tentou não soar tão cansado quanto aparentava, mas achou que falhou miseravelmente.
Alya continuou parada ali, com as sobrancelhas franzidas, em confusão.
— O que aconteceu, Luka?
A mentira começou a sair automaticamente de sua boca.
— Um pedaço de concreto caiu em cima dela quando a ponte desab… — Sentiu seu corpo sendo puxado e parou sua história ensaiada no meio.
Logo percebeu que Alya havia o levado para dentro de um quartinho no corredor, que guardava remédios e suplementos hospitalares. A garota já estava fechando a porta e o olhando feio de cima a baixo, sem nem ao menos deixá-lo terminar de falar.
— Ok, pode parar com essa farsa! — Ela pronunciou de forma agressiva, após se certificar que estavam apenas os dois no pequeno local e que a porta estava bem fechada. E mesmo falando de forma sussurrada, era alto e claro o suficiente para ele ouvir o tom de indignação em sua voz. — Eu sei que isso não é verdade!
A acusação fez Luka sentir a névoa de sua mente dissipar, ficando bem desperto, e entrando no modo defensivo.
— O que quer dizer? — Precisaria averiguar o que Alya sabia, antes de qualquer coisa.
Só não estava preparado para o que viria a seguir.
— Porque a última vez que eu vi a Marinette, ela estava sendo carregada pelo Viperion! — A ruiva esclareceu, alto e claro. E Luka quase sentiu o coração parar.
Não, ele havia sido cuidadoso. Garantiu que o local onde eles se destransformaram estava deserto, e depois disso, eram apenas dois civis, correndo em direção ao hospital, como tantos outros.
Só pôde imaginar que o segredo de Marinette era de conhecimento da amiga, antes do acidente de hoje.
— Você sabe! — Não era uma pergunta, ele chegou à conclusão apenas ao ver a expressão dela. Agora só lhe restava descobrir mais uma coisa. — Como?
Viu a ruiva respirar fundo, quase revirando os olhos em sua direção, antes de responder.
— Eu sei, porque ela é minha melhor amiga, e me contou! — Ela proferiu.
Ela parecia irritada, não com ele, mas com a situação, e Luka não podia julgá-la. Estavam no mesmo barco, afinal de contas.
— Então sabe que algo de errado está acontecendo com ela, há semanas. — Tinha que admitir, era um alívio saber que mais alguém tinha conhecimento sobre ela, assim ela poderia ter mais ajuda. Ainda mais vindo da melhor amiga.
— Sim, eu sei. Mas é você que sabe a identidade do Chat Noir. — Alya apontou em direção ao seu peito. — Fale com ele para parar essa loucura, e voltar!
Gostaria que fosse assim tão simples.
— Ele tem seus motivos, Alya. — Assegurou. — Aconteceu algo bem ruim, e ele ficou com medo.
Não contaria sobre o pesadelo, ou sobre o futuro, era um assunto particular dos dois, e algo que Luka só tinha conhecimento por ser uma ponte entre suas identidades secretas.
E por isso, Alya jamais poderia compreender a situação por completo.
— Temos os nossos motivos também! — Informou de volta. — E coisas bem ruins acontecendo. A Marinette está no hospital, pelo amor de Deus! — Ela começou a gesticular em volta. — Nino também está no pronto-socorro agora, enfaixando o braço!
Não sabia dessa informação. Mas provavelmente, Nino não deveria ser o único de seus amigos a sair ferido daquela luta. Vários civis estavam no pronto-socorro, afinal de contas.
Como Marinette reagiria àquela situação?
Luka precisou puxar o ar para dentro alguns segundos. Inspire, espere, expire.
— Eu sei, Alya, mas ele está irredutível. — Soltou a resposta, junto com sua respiração. — Os dois estão, na verdade.
Viu Alya juntas as mãos sobre as têmporas. Talvez essa fosse sua forma de meditação, para acalmar os nervos.
Após alguns minutos pensando, a ruiva ergueu o olhar de volta para ele.
— Se Chat não te ouve, então conte a ela quem ele é. — Ela começou a explicar seu recente raciocínio. — Talvez se os dois conversarem cara a cara…
Mal sabia ela, como Luka já havia pensado em todas as possibilidades possíveis. Mas, ele jamais iria contra à vontade dos dois. Não era esse tipo de pessoa.
— Alya, — A interrompeu, com uma paciência que qualquer outra pessoa não teria mais. — Todo esse tempo, a Marinette está ciente de que eu sei quem ele é. Mas ela não me pediu o nome dele. Nem uma vez.
Esperou até que ela compreendesse o que ele queria dizer.
Marinette não queria saber.
— Mas por quê? — A garota perguntou, parecendo angustiada. — Por que insistir nessa loucura? — Ela disse, ainda gesticulando com as mãos.
E Luka aprendeu, Alya Césaire era do tipo expressiva, quando estava nervosa.
— Porque talvez, ela tenha tanto medo quanto ele, só não quer admitir. — Ele lhe entregou a conclusão que havia chegado.
Marinette temia aquele futuro, mas jamais poderia confessar isso, pois significaria que ela concorda com Chat Noir, ao passo que também possui medo dele.
E esse era o segredo que ela escondia bem no fundo, e talvez, até de si mesma.
— Não posso mais vê-la se autodestruir assim, Luka. — Alya declarou, depois de ouvir essa verdade. — Temos que fazer alguma coisa.
Foi então a vez de Luka de contar seu próprio medo.
— Não acho que há nada que nós podemos fazer, Alya.
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Daquela vez, Adrien se recusou a sair sem ela do hospital, faltando às aulas nos três dias em que Marinette ficou internada. O que foi, de certa forma, bom para Tom e Sabine, mesmo que eles quisessem se mostrar responsáveis e mandá-lo para a escola sempre que podiam, com Adrien ali, os dois conseguiam se alternar para cuidar da padaria, sem preocupações.
Mas agora, eles haviam, finalmente, levado a filha para casa, onde Marinette continuaria a se recuperar lentamente. E Adrien foi convencido, sem pressão pela namorada e por Nathalie, a voltar à escola.
Já era quinta-feira, e sabia que de certa forma, isso era o melhor para ele. Mas convencer seu coração dessa decisão era outra história. Estava no laboratório de Biologia, já contando as horas para voltar para ela.
O livro de Microbiologia estava aberto em vão em suas mãos. Ao menos com ele assim, os tutores da escola que estavam de olho em Adrien por ter faltado demais, e por ainda não ter escolhido uma especialização, não ficariam em cima de si, oferecendo ajuda e conselhos.
— Oi Adrien. — Iris se aproximou dele, soltando a mochila na banqueta ao lado da sua. — Não te vejo desde segunda. Está tudo bem?
— Oi Iris, estou bem sim. — Respondeu de forma breve e seca, mas acabou se sentindo mal depois.
Mesmo depois da última conversa com a colega não ter sido agradável, Iris não era daquele jeito. Na verdade, a colega era, na maioria das vezes, até bastante educada e gentil com Adrien durante as aulas, apesar de parecer estar quase sempre imitando seus estudos.
E apenas por isso, resolveu dar uma pequena explicação a ela.
— Com todo aquele problema com a Ladybug, Marinette se machucou, e não foi curada. — Disse, de forma sucinta, voltando o olhar para a menina de cabelos pretos. — Fiquei com ela no hospital, mas agora ela está em casa, se recuperando.
A garota levou a mão ao coração, o rosto transmitindo total choque.
— Nossa, que azar! — Ela expressou, espantada. — Sinto muito por ela.
— É, foi um azar mesmo. — Refletiu. Ainda estava tentando entender como foi que Marinette havia acabado naquela situação.
Sim, Luka havia explicado que os dois haviam combinado de se encontrar. Mas Marinette nem ao menos havia o avisado que ela iria sair, ainda mais sozinha, no meio de uma recuperação de fratura na costela. Tudo estava muito confuso. Mas com ela naquele estado, a última coisa que a namorada merecia, era receber um questionário sobre aquele dia. Por isso deixou esses detalhes de lado.
— E obrigado. — Finalizou, agradecendo pela consideração, após sua pequena análise interna.
— Foi uma falha horrível da Ladybug. — Iris continuou, mexendo em sua mochila, e tirando um livro dali, que não tinha a ver com biologia. — Olha quantos inocentes foram machucados por conta dela! — Ela parecia revoltada com a heroína.
Ela então saiu da bancada do laboratório, indo para uma das estantes lá atrás, e quando voltou, estava com um livro de Microbiologia na mão.
Mas Adrien não ligava para isso, o que o incomodava, de verdade, eram pessoas fazendo esse tipo de acusação contra Ladybug. Já não bastava a mídia estar caindo em cima dela, fazendo entrevista com vários dos feridos, perguntando como eles estavam se sentindo depois de serem decepcionados pela heroína, e depois fazendo uma cobertura completa da reconstrução da ponte Alexandre III, mostrando o quanto a prefeitura estava com dificuldade com os destroços. Como se ela mesma tivesse a demolido com seu ioiô.
— Não é culpa da Ladybug. — Assegurou com firmeza. — O akumatizado causou tudo isso.
Mas a garota apenas o olhou, não parecendo nada convencida.
— Mas não é dever dela consertar tudo sempre quando acaba? — Iris declarou de volta, o tom de voz tranquilo, como se explicasse o óbvio.
E aquilo doeu, pois Iris estava certa. Querendo ou não, não importava a destruição, ou quem havia sido afetado durante a luta, Ladybug sempre consertava e curava a todos.
Mas quando precisou que isso acontecesse para Marinette, sua Lady falhou.
E sua doce e linda namorada, pagou o preço por isso.
— Sim, é o que ela fazia. — Revelou, mas para si mesmo do que para a garota ao seu lado.
— Vê? Toda essa situação foi causada pelos erros dela. — A colega continuou, folheando o próprio livro. Mas Adrien não queria mais ouvir aquilo.
Fechou o livro com um baque, e recebeu um olhar arregalado da garota.
— Esqueci que ia participar de outra aula hoje. — Informou, sem contar que aula era, não querendo que ele a seguisse. Na verdade, só queria sair dali. — Te vejo depois.
Iris apenas lhe lançou um sorriso simpático, enquanto ele se dirigia até a saída.
— Até mais, Adrien.
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