Aurora Luz - O Comandante
4 Um compromisso selado.
Notas iniciais

O plano de Reynald carregava a esperança daqueles terráqueos de trazer uma reviravolta contra os inimigos de outro mundo. Não importava a motivação do ataque àquele planeta, que não tinha relação alguma com o meio militar ou político; seria uma vitória mínima se tivessem alguns sobreviventes.
A missão dos dez grupos formados era instalar explosivos em pontos estratégicos de dois pilares alvos. Cada equipe seria guiada por um soldado ou usuário de arma através da enorme caverna subterrânea, que também protegeria os dois civis voluntários responsáveis por levar e instalar as bombas. Quando todos cumprissem o objetivo, se reuniriam em um ponto de encontro de onde todos sairiam do subsolo antes do grande momento de destruição orquestrada pelo maior oficial militar.
O salão sem janelas do refeitório subterrâneo estava agitado e preenchido por conversas. Uma mulher magra e falante se aproximou de Bóreas, acompanhada por um senhor alto, negro e com um bigode volumoso. Os dois o incluíram na equipe mesmo sem ele estar reagindo.
Depois de ser afetado pelo distanciamento de Joaquim, sua mente estava vazia, resistindo naturalmente ao não pensar em nada. Nem mesmo escutava de verdade, tanto que, depois que seus companheiros se apresentaram, ele esqueceu seus nomes. Seu rosto não tinha expressão, mas, de forma inconsciente, mantinha seu maxilar travado e uma respiração ritmada.
Como um trovão próximo, uma explosão forte ecoou por todo o subterrâneo e as luzes se apagaram. Na escuridão, o chão balançou, os pisos estalaram, as paredes vibraram e abriram finas trincas no reboco, trazendo poeira.
Bóreas foi imediatamente cercado pelos gritos e choros assustados. Parecia que sua mente estava escapando para dentro daquele refeitório escuro e banhado pelo fraco brilho fluorescente da placa da saída. Seu coração pulsou forte, ouvindo o pavor e não enxergando nada. De repente, acelerou como se estivesse em fuga por vontade própria. Sua respiração também escapou do ritmo estável para algo desordenado, que desencadeou uma necessidade de ar crescente. Em questão de segundos, seu estado imóvel virou o oposto e não havia nenhum porto seguro para se agarrar e justificar ficar.
A luminosidade voltou fraca, gradativamente aumentando o brilho, enquanto o silêncio denso pesava entre a poeira suspensa.
Ao redor do navegador, havia apenas rostos desconhecidos e apreensivos. Mesmo procurando com desespero, não encontrou Joaquim por perto para lhe dar um sinal de confiança. Parecia que a pressão que sentia vinha do ambiente, mas era interna. Seu corpo estava no limite e sua cabeça começava a dar sinal de um desabamento. O grito de fuga interno era insistente.
O rádio de Reynald passou a transmitir falas chiadas e agitadas de algum acontecimento na superfície que ninguém podia definir. Os outros soldados assumiam uma postura mais atenta e pronta para o plano.
Mas tudo em que Bóreas se concentrou foi em como seu plano simples e seguro havia sido arruinado pela falta de seu capitão. Ele conhecia todo o plano de destruição da Caverna Bolsão, mas não tinha imaginado estar sozinho em ação e em um espaço desconhecido. Muito menos, protegendo estranhos com sua própria vida.
Um novo abalo ecoou e tremeu todo o lugar com mais força. Mais gritos e lamentos soaram em meio ao terror que era transmitido nas falas vindas do rádio. Algumas pessoas tentaram correr, mas Reynald agarrou a primeira que passou por ele:
— Fiquem calmos! — tentou pôr ordem, elevando a voz.
Mas, no caos da estrutura, a última resistência de Bóreas contra os pensamentos se foi junto com o susto de um terceiro estrondo.
— Eu não quero ir! — gritou no impulso do susto, fechando os olhos com força e soando junto às exclamações das crianças. Mas foi ouvido pelos adultos.
As luzes falharam e acenderam novamente, acentuando o momento inusitado que passou.
Soldados e civis ficaram preocupados, encarando o rapaz estranho e angustiado que protegia a cabeça com as mãos sem necessidade. Até sua equipe estava silenciada e observando-o com cuidado. Foi instantaneamente difícil acreditar que ele os protegeria durante a missão.
Por longos segundos, Bóreas ficou assim e não notou os olhares de julgamento. Seu medo era verdadeiro e compreensível para quem sabia o tempo todo que não era um guerreiro. Naqueles três últimos anos de sua vida, ele havia se tornado um empregado comum e feliz de um cargueiro. Seu trabalho não tinha grandes responsabilidades ou riscos com outras pessoas além da pequena tripulação. E isso bastava.
Depois de tanto tempo em uma mesma nave, Bóreas não estava disposto a se apegar aos estranhos indefesos tão rápido. Não queria encarar os monstros alienígenas em um ambiente sombrio como o da caverna, que ele só havia visto pelos mapas. Tinha certeza de que a missão seria pior que os momentos de pesadelo que passou nos corredores do subsolo da área sul. Além disso, tinha o risco de ele morrer e acabar debaixo dos entulhos daquele planeta que mal conhecia, sem nunca ser reencontrado. Estava enlouquecendo rápido demais para conseguir resistir.
Uma sequência de pensamentos e imaginação o atormentou. Memórias de quando deixou sua família, das perdas e cenas que viu durante o ataque daquelas criaturas que eram mais fortes poluíram sua mente. Pensava também se Joaquim perceberia que estava errado e voltaria a se unir a ele. Diversos momentos se misturavam em flashes enjoativos e acelerados. Seu medo, aumentado pelo afastamento de seu capitão, era apenas uma das diversas cenas que alimentavam sua insegurança.
O mundo real se misturou à ilusão. Tudo que Bóreas conseguia fazer era tentar ignorar tudo, manter-se distante, com os olhos bem fechados e ficar parado, tensionando todos os músculos enquanto resistia ao instinto desesperado e gritante de fuga... Mesmo que outra parte sã de sua mente dissesse que não havia para onde ir.
Joaquim soltou um riso breve e alto, quebrando o silêncio constrangedor e inseguro que havia se estabelecido.
O som familiar estava próximo e atingiu a cabeça de Bóreas como uma pedrada, fazendo-o novamente consciente naquele instante.
— Ele só se assustou — o homem disse, seguro, para a equipe do rapaz. — Bóreas é totalmente confiável. Eu vou conversar com ele.
— O que estão esperando?! Terminem de se preparar! — Reynald ajudou a desviar a atenção, dando continuidade ao plano de forma agitada.
Bóreas encarou Joaquim, que estava logo atrás dele. Estava surpreso de não o ter visto antes, tão próximo. Esperou um novo sinal de conforto, uma frase amiga ou um toque calmante, mas isso não veio. Então olhou ao redor e viu os olhares declarando que não confiavam nele. Era como se ele fosse um intruso. O errado. O problema. O ponto frágil de algo importante.
Seu rosto se aqueceu quando percebeu o que havia feito em voz alta. Seus colegas de equipe comentaram algo tentando animá-lo, mas a vergonha o sufocou e o pôs diante da ordem que gritava para ele correr. Então ele fugiu, querendo passar pelas portas e encontrar seu lugar.
Caminhou sem direção pelo corredor, afastando-se daquelas pessoas. Seus passos rápidos não fizeram som. Por aquele momento, nem mesmo os abalos externos ou conversas estavam no corredor. Tudo era abafado pela névoa densa e sombria instalada na mente de Bóreas, ocultando a realidade.
Sem perceber, ele tentava escapar de si mesmo. Seus pensamentos agitados giravam em círculos. Entorpecido e confuso, não conseguia encontrar a saída. Suas mãos começaram a tremer, mesmo com os dutos de ar mantendo uma temperatura estável. O oxigênio parecia pouco para respirar, pressionando seu peito. A sensação fria era insistente, surgindo da nuca e se espalhando, congelando seu corpo maldosamente.
Uma nova explosão abafada ressoou e uma lâmpada estalou alta, queimando. Bóreas percebeu que estava em um corredor vazio e escuro, onde já não poderia ser visto por alguém. Diante dele havia apenas o breu profundo que escondia todo o restante do corredor. Assustado e perdido, ele olhou para os dois lados, não sabia como havia chegado ali.
Com alguns curtos passos para trás, encostou-se na parede e escorregou, agachando-se em silêncio e escondendo o rosto entre os braços. Respirando fundo várias vezes, questionou-se o que estava fazendo. Mas a voz mental ainda era forte e dizia para ele aceitar sua incapacidade e abandonar todos. Imaginar seus restos soterrados depois de falhar na missão o atingia como cenas de um filme de terror, deixando-o com mais falta de ar.
Eram pensamentos problemáticos, descontrolados e intensos, refletindo-se nos tremores de seu corpo. A sensação física de queda o fazia buscar algo para segurar firmemente, e seus dedos já doíam, agarrando fortemente o tecido de sua própria roupa. "Pense no silêncio e respire", repetiu para si mesmo, como sua mãe uma vez o havia ensinado quando estava no primeiro dia de aula em um novo lugar e começou a ficar ansioso demais.
De repente, ele se perguntou por que havia pensado em sua mãe naquela crise. Vários outros pensamentos e lembranças de opressão vieram em seguida. Um momento de quando era criança e a mãe segurou seu braço fino com força para que ele ficasse parado ao seu lado. Os olhares de estranhos com expectativas precipitadas ao vê-lo chegar. A briga de supostos amigos para ficar no grupo dele nas brincadeiras. As coisas que o obrigavam a fazer, sustentando uma atuação que era importante para sua família.
Havia tantas coisas pelas quais passou que lhe tiraram a decisão sobre seu próprio destino e rotina. Se perguntou, naquele momento, por que faziam isso com ele. Bóreas tinha escapado dessas correntes na nova profissão. Tinha amigos que o enxergavam de verdade... E que havia perdido em poucas horas...
Lágrimas incontidas escaparam ao lembrar de Muvick morrendo sozinho e pelo afastamento frio de Joaquim. Bóreas não tinha mais nada novamente. Tremendo sozinho e resmungando sem sentido, sua respiração rápida já doía no peito. No fundo, não se importava mais com seus pais ou o passado, mas a crise os trazia de volta, deixando-o confuso e sobrecarregado.
— O que foi isso? — a voz de Joaquim surgiu de repente, levemente irritada. — É. Eu também me esconderia depois daquela cena.
Bóreas ficou imóvel, mas sentiu o olhar intenso sobre si. Abaixo dos braços, observava a sombra do homem parado próximo e não o respondeu.
Com o pensamento mais calmo, as lembranças do que aconteceu no salão surgiram claras. Seu grito, os olhares de julgamento, sua saída dramática. A vergonha aqueceu seu rosto. Um soluço choroso escapou e sentiu a imediata necessidade de enxugar o rosto, voltando a escondê-lo de seu capitão.
Joaquim Procyon suspirou, vendo seu estado. Compreendeu que ele estava ansioso com o plano e com medo do futuro desconhecido. Não podia continuar sendo rígido e repreender aquele humano quebrado. Bóreas era jovem e ainda iria entender que, para viver além da segurança do solo da Terra, grandes medos tinham que ser enfrentados e aceitos, com ou sem coragem. Sentou-se bem na frente dele e disse, calmo:
— Todas aquelas pessoas estão com medo. Não esperavam o ataque nem que o plano de evacuação falhasse. Eles são pessoas comuns e perderam pessoas importantes, como nós.
Bóreas não reagiu e Joaquim sabia que não tinham muito tempo, ouvindo o distante som das botas do grupo da missão dos pilares.
— Quando você falou aquilo, até eu fiquei inseguro. Mas eu confio em você, Bóreas. Eu sei a força e capacidade incomum que você ignora que tem.
Onde estavam era bastante escuro, o brilho da luz mais próxima os alcançava de forma fraca, mas o capitão viu um movimento do gorro, um sinal de que estava sendo ouvido.
— Aqueles civis não podem ajudar no plano de Reynald. Somos os únicos que podem protegê-los e levá-los para a saída que não pensaram. Temos que acreditar em nós e que vamos salvá-los ou vamos realmente perder tudo. O que você fez foi um erro, Bóreas. A fé de todos foi afetada quando disse aquilo em voz alta. Eu sei que você reage emocionalmente demais, mas precisa ter mais autocontrole.
Ouviu passos e alguém apareceu no corredor, procurando por Joaquim, mas percebeu que ainda conversavam, então foi embora. O tempo estava passando rápido demais.
O capitão segurou os braços do rapaz e o desarmou de seu abrigo. Os olhos azuis de Bóreas estavam atentos e conscientes, apesar dos sinais de choro em seu rosto.
— Você é um adulto devidamente treinado e inteligente — avisou, confiante. — Eu não sei onde conseguiu toda essa carga de conhecimentos, mas chegou o momento de ser o homem mais corajoso de todos nós. Me faça ter mais orgulho de você, rapaz, e aja como o herói que aquelas crianças enxergam em nós. Eu não vou estar do seu lado por um tempo e você precisa aceitar de uma vez.
— Joa... — Bóreas ia reclamar, dizendo seus argumentos para não querer aquilo, mas o outro nem ia perder tempo ouvindo, já tinha escolhido como seriam as coisas quando foi para a outra equipe.
— Eu já decidi.
Joaquim compreendia que não podia mais carregar seu jovem navegador e amigo, precisava fazê-lo crescer e ser responsável naquele momento para que sobrevivessem.
— Não! — lágrimas escaparam ao gritar com seu capitão. — Eu não vou conseguir fazer isso! Você é importante para mim, não eles. Não quero perder você também! E... eu tenho uma sensação de algo ruim se aproximando.
Joaquim hesitou por um segundo, sentiu-se brevemente culpado de ter deixado o rapaz tão dependente. Segurou um dos ombros dele, balançando-o suavemente, um gesto semelhante ao que fez com Muvick quando se despediu.
— Eu também gostaria de evitar todos esses caminhos difíceis, mas não temos escolha, Bóreas. Essas sensações e pensamentos estão bloqueando seu potencial gigante. Mostre-me sua coragem. Seja "O herói" inesquecível dentre todos nós. Vamos concluir a missão e nos reencontrar para sairmos disso tudo juntos. Se você me prometer que vai se dedicar e lutar para continuar vivendo, eu vou acreditar e tentar ser rápido para te achar o quanto antes.
—... Se eu não estiver lá, vai me esperar? — O rapaz ficou mais calmo, murmurando.
— Sim. — Joaquim concordou, rindo suavemente e olhando um anel de prata que sempre teve, logo o tirando do dedo indicador e mostrando para o rapaz. — Aqui, fique com isso para me devolver depois.
Bóreas encarou o objeto sem ousar tocar de imediato. Quando pegou, sentiu que era pesado e analisou o metal brilhante, de aro largo e com detalhes esculpidos. Ficou confuso com o gesto e um pouco preocupado, mas se distraiu:
— O que é isso? ... Dois patos?
—Cisnes — e suspirou. — São cisnes, Bóreas.
— ... Você o usava o tempo todo. Isso parece ser importante para você — disse Bóreas, olhando Joaquim, e depois testou em qual dedo o anel se encaixava melhor.
— É meu animal preferido da terra. São criaturas bonitas, livres, puras e fiéis... Também não me deixa esquecer de onde vim.
O jovem observou-o novamente, reconhecendo a nostalgia em seu tom de voz.
— Então é melhor ficar com ele — estendeu a mão para que o capitão tirasse do seu dedo anelar, onde o anel ficou mais seguro.
— Não. É um lembrete para você também. — Encarou os olhos azuis de Bóreas de forma séria. — Só vou pegá-lo quando nos encontrarmos novamente depois do plano.
Um tremor passou por Bóreas enquanto ouvia aquilo e o olhava de volta, a mesma sensação incômoda pressionando seu estômago. Mas ele não sabia exatamente o que estava errado e do que estava sendo avisado.
— Ei! — Joaquim percebeu o novo lugar do objeto e ficou perturbado. — Esse dedo é apenas para anéis de compromissos sérios. Tire daí!
— O quê? Isso não é verdade! É só um dedo e é o melhor lugar para eu não o perder. Esquece essa superstição de velho.
— Bóreas — Joaquim franziu o cenho, não gostando.
O rapaz sentiu o peso do olhar sem diversão ou abertura, então mudou para o dedo indicador. Analisou os detalhes com os dedos, sentindo as ranhuras enquanto memorizava os significados que seu comandante tinha falado ao entregar o pequeno objeto.
— Controle suas emoções, certo? Foque no fato de que, em poucas horas, vamos estar na nave de fuga, longe de tudo isso e em paz por ter feito nossa parte. E vou precisar de você para definir a rota para o Comando Central e garantir o resgate dos sobreviventes. — Um zunido começou a vibrar pelo corredor escuro, distraindo-os por segundos. — Não temos muito tempo. Venha logo, se já se recompôs.
O capitão se levantou com pressa e seguiu em busca dos outros soldados e de sua equipe.
Observando-o se distanciar, Bóreas respirou fundo. Seu corpo ainda doía pela tensão e uma leve dor de cabeça dava sinal, mas estava mais fácil respirar. Logo, mudou o anel para o lugar mais seguro enquanto pensava nos pedidos de Joaquim: ter coragem... Ser "O herói" inesquecível dentre todos...
Só de tentar encontrar quais eram os próximos passos para cumprir a expectativa, o fez tremer de nervoso. O futuro podia ser fácil ou difícil, então seria melhor, para sua mente, se preparar para o que tinha mais obstáculos.
Bóreas se levantou, enxugou o rosto com as mangas e correu atrás de Joaquim para encontrar o caminho de volta para o salão. De nenhuma maneira se enxergava como um herói, como seu capitão via, mas se esforçaria para tentar ser confiável e chegar próximo disso.

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