Aurora Luz - O Comandante

5 O eco pacífico das rochas.



Caixotes de materiais e carros de carga estavam nos cantos do longo túnel de teto arqueado, que levava à tão falada Caverna Bolsão de extração. Um par de trilhos de ferro vincava o chão e sumia para um galpão interno.

No ápice do arco do teto, as grandes lâmpadas estavam apagadas, e a iluminação mínima vinha das luminárias presas ao longo de toda a extensão do espaço. O ar estava mais frio do que nos corredores, uma antecipação para o ambiente gelado e sombrio do outro lado das grossas e altas portas de ferro.

Aquela última fronteira do subsolo estava em completo silêncio, como se a gigantesca gruta rochosa e úmida aguardasse pacientemente seu momento para mostrar seus desafios.


Ao contrário disso, as dez equipes murmuravam conversas rápidas e de volume contido, repassando a localização de seus pilares e os detalhes de suas estratégias. Todos estavam nervosos, porém focados na conclusão da missão de instalação dos explosivos, que deveria ser rápida e eficaz.

No fundo do túnel, havia uma estrutura reforçada de selamento que costumava ficar aberta nos tempos de paz. Mas, assim que todo o grupo ocupou o espaço, a proteção foi sendo abaixada lentamente, blindando a entrada para os corredores subterrâneos e isolando os soldados e voluntários.

Ouvir os ruídos das engrenagens tomando o lugar e assistir às luzes vermelhas das laterais girando em aviso enquanto a enorme placa de ferro descia pesada até o piso de concreto polido fez o coração de Bóreas pulsar mais alto. O desespero interno pelo cenário de terror para o qual estavam indo quis surgir novamente. Mas ele conteve seus pensamentos, engolindo em seco e pressionando o rifle de metal frio que carregava, como se tentasse lembrar-se de que tinha toda a capacidade de se defender.

— Mantenha a calma. Nós vamos conseguir! — disse Lucca, a mulher de seu trio, parada ao seu lado.

A jovem analista de informações internas trabalhava para a empresa mineradora que comandava o planeta e já estava pronta para a missão, carregando nas costas a mochila com as bombas menores. Ela tinha a idade de Bóreas, mas parecia mais responsável e adulta, apesar de falar aleatoriamente.

O rapaz apenas balançou a cabeça em silêncio. Se escolhesse falar, provavelmente sua palavra seria acompanhada de gaguejos inseguros e isso acabaria com a confiança que reconquistou de sua equipe. Depois da cena de pânico, ele se uniu à dupla com pedidos de desculpas sem mais explicações, e os dois compreenderam, acolhendo-o e motivando-o amigavelmente, dando uma nova chance de seguir na missão, protegendo-os.

Naqueles segundos de pausa, Bóreas lembrou-se de Joaquim e o procurou com os olhos. Seu antigo capitão estava a alguns grupos de distância e bem diante do portão, quase como se estivesse ansioso para começar. Suspirando, o rapaz se concentrou em fazer sua função para terminar logo também e verificou mais uma vez seu kit de armas.

"Esse armamento foi revisado pelos soldados. E essa pistola é outra, não vai travar", Joaquim havia enfatizado quando entregou o conjunto para ele preencher seus coldres e bolsos ainda nos corredores. Depois, olhando-o sério, ressaltou: "Nenhum de nós vai falhar nesse plano, Bóreas. Quando tivermos feito nossa parte, os sobreviventes já terão passado pela saída desativada e estarão a caminho da nave de fuga, longe da batalha. E vamos alcançá-los. Todos nós."

O plano de destruição dos pilares e o de fuga dos sobreviventes seriam simultâneos. As dez equipes na caverna eram pressionadas por um tempo limitado. Se não voltassem nesse intervalo, os sobreviventes podiam embarcar na antiga nave abandonada e arrumar um jeito de sair do planeta. Eles eram a prioridade para Reynald.

Tudo que Bóreas ouviu do outro plano envolvendo os civis foi durante o curto caminho até aquele túnel. Samuel, um chefe de mineração de um setor, era o mais velho de seu trio e contou a história do milagroso e lendário veículo de fuga que estaria esperando-os e que, felizmente, não chamava atenção e nem estava perto dos hangares destruídos.

A nave de transportes de porte médio era antiga. Da época em que a base terráquea estava sendo construída e havia apenas terrenos planos na superfície para pousar. Por azar, ela aterrissou parcialmente sobre uma área de terra macia e metade dos seus apoios afundaram, deixando-a em ângulo torto e com a saída de um dos propulsores principais parcialmente enterrado.

Como havia muito trabalho de construção e engenharia exigindo atenção, técnicos inexperientes tentaram tirá-la do atolamento e contaminaram seu motor. Os administradores logo decidiram abandoná-la, concentrando seus esforços em finalizar a base no prazo.

Por anos, a nave foi ignorada. Largada na superfície do 49-OS dia e noite. Até que uma dupla de trabalhadores resolveu cuidar dela em seus dias de folga como passatempo.

Desobstruíram o propulsor, limparam seus mecanismos e revisaram todos os equipamentos. Sua meia quantia de combustível estava preservada e sua energia alta, já que se carregava com energia solar. Mas, sem conseguir autorização da administração para reativá-la, a nave continuava presa, com os apoios soterrados, e não muito distante da saída simples e mais longínqua da base subterrânea.

O subsolo onde Bóreas estava tremeu e as luzes do túnel piscaram. Outra explosão ecoou distante e ruídos baixos de desabamento vieram da caverna. O rapaz controlou sua mente e se concentrou em revisar o caminho que faria até seus pilares, mentalizando que tudo seria rápido e sem erros.

— Atenção! — Kai gritou na dianteira, voltando-se para todos. — Lembrem-se de que temos meia hora para colocar os explosivos e estar aqui de volta. Depois vamos para a próxima parte do plano e encontrar os sobreviventes!

Bóreas ficou confuso e murmurou, enquanto os outros concordavam com Kai:

— Não era quarenta e cinco minutos?

— É uma estratégia — Samuel comentou, com um suave sorriso nervoso sob o bigode. — Com menos tempo, todos terão que ser rápidos. E os mais lentos ainda terão quinze minutos de folga, mas vão correr. Pessoalmente, quero terminar isso no menor tempo possível.

Preparem-se — o ponto de rádio no ouvido de Bóreas soou a ordem de Reynald. Apenas os soldados tinham o comunicador, mas bastou um olhar mais sério e um aceno para sua equipe para eles compreenderem que o momento havia chegado.

Na distante sala de controle, Reynald apertou um botão e todas as luzes do túnel se apagaram.

Com a escuridão, um brilho fraco se revelou por baixo dos pesados portões que levavam à caverna. A passagem começou a deslizar para as laterais com ruídos metálicos e uma sequência de apitos de aviso. Logo, as dez equipes foram encobertas pelo brilho sereno e brancos das diversas lâmpadas ao redor da saída, e um sopro frio e úmido invadiu o ambiente, roubando a temperatura morna. A missão estava começando.

***

O interior da Caverna Bolsão se abria além dos portões para um ambiente imenso, úmido e mergulhado em sombras. O horizonte disforme se elevava em colinas e declives sem padrão. A paisagem era logo barrada por incontáveis pilares pálidos e amarelados, com veios de cores quentes, como troncos de uma floresta fossilizada no subterrâneo. Além deles, a escuridão profunda engolia os pontos finais, as texturas ásperas e os obstáculos.

Os sinais da presença da civilização terrestre começavam com as diversas estradas para os veículos mineradores, limpas, planas e livres de rochas e estalagmites saindo do solo. Todos aqueles caminhos eram iluminados por postes de concreto, ligados entre si por diversos cabos de energia. Os pontos de luz eram espaçados e os corpos dos pilares geravam mais sombras, por isso a escuridão no interior da caverna vencia a iluminação artificial, escondendo sem dificuldade seus detalhes daqueles que nunca a haviam visitado antes.

O grupo iniciou seu trabalho avançando para a imensidão da gruta em um fluxo rápido e rítmico. Apesar dos ruídos da superfície, o silêncio dentro da catedral natural era pesado e cada passo ecoava parecendo um erro imperdoável.

Bóreas seguiu todos, engolindo em seco e pressionando o coldre da pistola enquanto olhava atentamente cada novo detalhe próximo.

O portão do túnel era quase minúsculo, encrustado na parede escavada do Bolsão. Na área do pátio de saída, havia contêineres de sedimentos, ferramentas amontoadas e máquinas paradas.

Ao longe, à direita, um brilho forte de um holofote acoplado ao alto de um guindaste chamava atenção. Abaixo dele, os sinais da escavação parada de repente eram notados pelos buracos raspados na parede, poços de água fundos e montes de rochas partidas e grandes.

O ar parado, úmido e frio estava contaminado pelo cheiro único da caverna, que misturava os dos minerais, diesel queimado e químicos. Sutis sussurros de água correndo, estalos de pedra e raros estrondos de rochas despencando se misturavam aos sons ecoantes do caos da invasão do planeta.

Cada equipe sabia o que fazer, logo muitos seguiram para diferentes direções em uma marcha rápida e contra o tempo.

O trio de Bóreas teve a companhia de outro grupo por longos metros de uma trilha até os primeiros pilares surgirem ao redor e o caminho se dividir.

O jovem navegador olhou uma última vez para trás, vendo sua companhia se distanciar, e encarou a solidão verdadeira que o esperava no caminho que tinha que seguir. Ele inspirou fundo, nervoso, e deu um leve tropeço em uma rocha do solo.

Samuel riu baixo, sem conseguir evitar, e depois sussurrou, calmo:

— Ei, Bóreas, olhe para cima também.

O rapaz apenas obedeceu e quase tropeçou novamente sem precisar de uma pedra no caminho, surpreso.

A iluminação dos postes não ia muito alto, mas alcançava suavemente as diversas vigas rochosas que atravessavam aquele teto acima da cabeça deles. Era um emaranhado sem padrão, surgindo em diferentes alturas, indo para direções estranhas e conectando os pilares. As colunas, por sua vez, erguiam-se monumentais, milhares de vezes à altura de um simples humano, rígidas há milênios, sustentando com orgulho a cúpula mergulhada no completo breu e fora de vista.

Nenhuma menção anterior, ou a imaginação do rapaz por meio dos mapas, fazia justiça a estar dentro da Caverna Bolsão.

Vendo a atenção e admiração no rosto de Bóreas, Samuel concordou entre suas inspirações pesadas pela caminhada rápida demais:

— Sim, sim. Provavelmente somos os últimos a ver tudo isso de perto.

Bóreas perdeu o foco ao ouvi-lo. Sua existência insignificante foi oprimida novamente ao compreender a grandiosidade daquele lugar que seria sacrificado e o verdadeiro nível alto da potência do plano de Reynald.

Lucca cutucou-o de repente e apontou para uma das colunas distantes, avisando:

— Aquela é a nossa.

Aos poucos, caminhando na dianteira de seu grupo e seguindo a rota que havia memorizado, Bóreas se acostumou com o novo lugar, mas seu corpo ainda se mantinha tenso e sua mente atenta, para reagir rápido se fosse necessário.

O silêncio predominava no ponto de rádio no ouvido dos soldados de cada trio, sendo interrompido rapidamente apenas pelas atualizações de posição de cada um.

Apesar do fluxo de comunicação, o coração de Bóreas bateu mais rápido quando uma sequência de soldados avisou que chegaram em seus primeiros pilares. Sentindo-se incomodado e nervoso, ele olhou o cronômetro no relógio de pulso, questionando-se se seu grupo estava marchando devagar demais.

A mulher que vinha logo atrás percebeu seu gesto e reclamou:

— Nos deram um lugar bem distante. Devíamos ter pegado um veículo.

— Não. Se as criaturas estiverem aqui, chamaríamos atenção. — Bóreas respondeu, escondendo o medo que teve ao imaginar a cena e camuflando seus sentimentos numa expressão concentrada. A vontade de parar de tentar ser um líder confiante já estava acumulada, mas não podia ceder. Precisava se esforçar para dar orgulho às expectativas de Joaquim.

Um zunido elétrico alto soou de repente, seguido por um ronco grave e breve. O som deslizou como uma onda pelo interior da caverna, parecendo o rugido de uma criatura mal-humorada sendo acordada.

O trio parou escutando com atenção, sem saber o que era aquilo, até que um estalo magnânimo ressoou e todas as luzes do Bolsão se apagaram juntas.

— Vamos para a primeira! — Bóreas mandou, não enxergando nada.

Samuel, Lucca e ele começaram a correr em direção à pilastra que estava a menos de vinte metros e perdida na escuridão profunda, guiados pelos sons dos passos uns dos outros.

"O escudo de energia caiu!", avisouum dos técnicos pelo comunicador. "A sala de controle tem um gerador, mas pode não durar muito e não poderemos nos comunicar. Sejam rápidos."

A mensagem atingiu a cabeça de Bóreas como um choque e ele parou de correr. Por um momento, se desconectou para escutar os sons da agitação urgente na sala de controle e falas baixas que ainda eram transmitidas. Eles estavam tentando fazer algo para reativar a proteção e reestabelecer a energia.

Nisso, Lucca trombou forte nas costas dele.

— Desculpe! — ela pediu, nervosa.

— Droga... — o rapaz murmurou, ainda distante, trêmulo e começando a sentir a capacidade de seus pulmões se reduzir pela pressão da ansiedade e falta de tempo.

— Bóreas? — A garota chamou, confusa, olhando para um preto infinito, de onde veio a voz dele.

Samuel chegou mais suave atrás dela e perguntou:

— Qual é o problema? Chegamos à pilastra? — sua voz transmitia tensão, imaginando se o protetor do grupo tinha um motivo ameaçador para ter parado.

Os olhos de Bóreas não viam nada sem a luz. A sua coragem recente estava prestes a deixá-lo ao imaginar os alienígenas tomando tudo finalmente e então toda aquela luta ter sido para nada. Seus pés não se moviam, mesmo sabendo que o tempo corria. Logo, seus pensamentos diziam que não havia razão para eles continuarem se haviam perdido a maior proteção que a base tinha na superfície.

Contudo, de repente, a voz sussurrada de Joaquim estava no rádio e o trouxe para a caverna novamente. Seu antigo capitão xingou baixo e depois disse para todos: "Há alguns deles aqui... Escutem bem ao redor de vocês."

Bóreas reagiu ao aviso, armou o rifle para longa distância e prestou atenção em volta, vasculhando a escuridão profunda enquanto ouvia com atenção.

Seus dois companheiros entenderam e ficaram em silêncio.

Embora o povo da terra tivesse desenvolvido tecnologia para ir ao espaço e armas igualmente avançadas, os equipamentos de segurança do planeta 49-OS eram muito arcaicos por ser considerado um lugar sem ameaças. Naquela situação incomum, armas balísticas, lâminas e explosivos eram o que tinham para se defender dentro da caverna.

O jovem navegador podia estranhar o peso e não estar seguro sobre o ajuste da mira ou a potência do ricochete, mas ia usar aquela arma para sobreviver.

Gradualmente, os sons mais altos vindos da superfície se silenciaram, ficando apenas um zunido suave, o chiado da ventilação e o gotejamento líquido da caverna. Nada aconteceu por longos segundos.

De repente, Bóreas foi surpreendido quando Lucca segurou a parte de trás de sua blusa. E foi pior quando um brilho de lanterna ofuscou seu rosto e ele grunhiu, levando um tempo para reagir e tapar a claridade:

— Desliga! — avisou, realmente bravo.

Samuel obedeceu, desculpando-se baixo.

O trio ficou em silêncio e então todos puderam ouvir passos sobre os cascalhos, pesados demais para serem humanos, e sons distantes de aplausos.

Outras luzes de lanternas surgiram em pontos distantes em meio à escuridão, chamando o olhar dos três, mas também logo se apagaram.

— E agora? Como vamos terminar isso? — Sussurrando, Lucca disse o que os três pensavam nervosamente. — Você consegue chegar na pilastra, Bóreas?

Ele pensou um pouco, organizando suas emoções e focando-se apenas no que seria necessário resolver naquele momento. O tempo corria e, seja qual fosse o destino dos aliados na superfície, eles tinham uma missão potente e ainda válida. Apesar da escuridão, fechou os olhos e visualizou a última cena em que enxergava a pilastra alvo diante deles. Com uma breve análise, teve alguma noção da distância que faltava.

— Consigo — pronunciou, determinado e em tom baixo. — Segurem-se em mim e venham em silêncio.

Sentiu a mão da mulher agarrar mais firme as costas de sua blusa grossa e um novo puxão surgir do outro lado. Assim, tendo consciência da posição de seus dois companheiros e com o rifle pronto, Bóreas guiou-os pelos metros seguintes até a presença da imponente coluna oculta nas sombras profundas. Parando, ele estendeu a mão e localizou a estrutura rígida e áspera que os esperava.