Aurora Luz - O Comandante

6 Quem somos nós na poeira do caos?



Tudo era preto. Tirando as mochilas e usando apenas o tato para separar suas ferramentas, Samuel e Lucca iniciaram suas tarefas.

O mais velho estava nervoso: suas mãos tremiam, o coração batia alto e a respiração se acelerava ao ouvir os sons distantes nos cascalhos. Pondo-se de pé primeiro, ele tocou na pilastra e deu a volta, distribuindo uma faixa de explosivos interligados na base enquanto verificava a integridade dos fios com os dedos.

Lucca ficou perto de Bóreas e tinha mais confiança no próprio processo. Colocou a mochila em sua frente, posicionada sobre o peito, e segurou firme os dispositivos de escalada em ambas as mãos. A jovem mulher respirou fundo, sem ver nada, apenas ouvindo Samuel andando, e avançou. O dispositivo de Lucca fazia o som de um estalo e um zumbido, perfurando a rocha e funcionando como estaca para que ela subisse pela pilastra.

Bóreas sabia o que cada um deles tinha que fazer e admirou a coragem da mulher de apenas seguir em frente com o plano, mesmo não enxergando nada e com o risco de serem atacados. Talvez aqueles dois estivessem confiando demais nele como segurança, e isso o preocupou. Então o antigo navegador redobrou a atenção ao que acontecia em todas as direções, cumprindo seu papel.

Apesar de saber que as paredes da caverna estavam a centenas de metros, ao encarar a sombra densa parecia que elas estavam a poucos passos de distância. Era como estar em uma caixa escura, com todos os lados iguais, sem saída e sufocante. Antes que seu coração começasse a se apertar angustiado com a sensação opressora, um brilho distante e quase insignificante surgiu e chamou seu olhar. Era uma lanterna direcionada para o teto, acesa como uma pilastra de luz solitária, abandonada e sem movimentos ao seu redor. Pelos sons, os inimigos também pareciam hesitantes e cuidadosos naquela região, sem avançarem de forma ameaçadora para a claridade.

— Consegue ir para a próxima? — Samuel assustou Bóreas, surgindo à sua direita como uma voz no meio das sombras.

— Talvez — respondeu, confiando em seus instintos de navegação e em um mapa mental.

O trio reuniu-se novamente e foi para a próxima tarefa, contando os passos, metro por metro. O distante brilho da lanterna abandonada, que Bóreas ainda podia ver, servia como ponto de referência de localização e de distância.

— Caramba... Olhem lá em cima — Lucca sussurrou de repente, sem parar de segurá-lo e acompanhá-lo.

Ouvindo-a, o rapaz virou o rosto para o alto e viu pequenos pontos verdes luminescentes brilhando e se movendo, acompanhados do som baixo de aplausos.

— Deve ser natural deles. Não podem evitar brilhar — Samuel comentou, logo notando um brilho maior e distante no solo, de alguma criatura que caminhava no alto de uma colina afastada.

Um zunido elétrico surgiu, surpreendendo a todos. As luzes se acenderam em cadeia, vindo da área próxima da saída do túnel e depois se ramificando para as outras direções. Toda a caverna ficou clara novamente.

O trio teve um breve momento de alívio, apesar do desconforto nos olhos.

Bóreas rapidamente analisou ao redor para localizar a posição dos inimigos e confirmar a próxima coluna. Encontrou apenas silhuetas escuras, imóveis, reagindo de forma confusa à iluminação súbita. Não havia muitos e estavam distribuídos longe de sua equipe. Acima deles, os pequenos alienígenas voadores ainda se camuflavam na escuridão do teto fora de vista, por isso não pôde definir quantos eram.

— Vamos, está ali! — Lucca o empurrou, ansiosa e fazendo-o encarar a próxima pilastra-alvo.

O trio acelerou os passos, nervosos e atentos ao movimento ao redor, avançando com cuidado para não chamar atenção.

Infelizmente, no meio do caminho, as luzes piscaram e se apagaram mais uma vez. A escuridão profunda voltou cruelmente, atrapalhando a todos.

Bóreas aproveitou-se do momento:

— Segurem! — sentiu os dois agarrarem sua roupa e os puxou em uma corrida mais intensa e determinada até alcançar o segundo ponto de explosivos em poucos segundos.

Samuel sorriu sem ser visto na escuridão, entendendo que o jovem navegador havia se aproveitado da falta de luz e da nova confusão para avançar sem serem notados. Reconheceu que Bóreas era inteligente e conseguia pensar rápido em alguma estratégia se fosse necessário, merecendo sua confiança. Apesar da respiração rápida pelo exercício e escuridão, ao ouvir Lucca começar sua escalada, Samuel também foi fazer sua parte.

A mulher agia de forma silenciosa, rápida e nervosamente focada, fincando seu dispositivo e prendendo pequenas bombas em diversas alturas. Em nenhum momento, ela conseguiu deixar de pensar no que viu antes de as luzes se apagarem... Não muito longe da área daquela última coluna, havia criaturas inimigas no solo.

Ela decidiu não contar para Bóreas, não queria assustá-lo e precisava garantir o sucesso da missão pelo bem de todos os outros sobreviventes. Com sorte, daria tempo de os três fugirem, ganhando distância e retornando ao túnel.

A vibração do dispositivo de escalada começava a afetar a sensibilidade da mão de Lucca. Cada estocada acima de sua cabeça e o uso da força para se içar começavam a fadigar os seus músculos, que estavam acostumados com o sossego de um escritório. Logo, a dor começou a contaminar seu corpo lentamente, mas ainda não superava a sua determinação em concluir a missão.

O som de um tiro ecoou como um estopim alto e inesperado. Todos olharam na direção do túnel de acesso à Caverna Bolsão. Seguido de um chiado sem fim e uma trilha de fumaça, uma esfera de luz alaranjada voava através do ar em direção ao alto da caverna, banhando todo o espaço próximo com seu brilho intenso e dourado por um longo tempo.

Ainda no alto da pilastra, Lucca sorriu, aliviada de ter o mínimo de iluminação para os guiar de volta. A luz era suficiente para os humanos enxergarem as coisas, mas não para as criaturas notarem seus movimentos. Ela subiu no ponto mais alto e começou a prender as últimas bombas mais pesadas.

Quando a luz dourada do sinalizador estava mais fraca, uma explosão interna surpreendeu a todos.

O eco estrondoso rebateu nas paredes, redobrando-o em várias direções e indicando que não foi algo da batalha na superfície. O chão, colunas e vigas vibraram de forma crescente. Novos ruídos de desabamento se fundiram à sinfonia. Todo o espaço foi preenchido por estalos altos de rachaduras e pelo barulho de rochas se chocando. Estalactites despencaram e montes de cascalho deslizaram. Logo uma corrente de ar súbita e violenta, cheirando a água e poeira, se espalhou como uma onda. Era como se a caverna tivesse sido ferida internamente.

Com o solo balançando de forma brusca e o caos sonoro, Bóreas se agachou, tentando entender o que estava acontecendo o mais rápido possível pelo bem de sua equipe. Quando tudo se acalmou, percebeu que Samuel estava caído de quatro ao seu lado, confuso e ofegante. Um novo sinalizador foi lançado, renovando a luminosidade e revelando uma parede de poeira densa preenchendo lentamente um dos cantos da caverna e se movendo.

— Caramba! Isso é perigoso — Samuel quase gritando, assustado.

— O que aconteceu? — Bóreas quis saber.

— Foi uma das nossas bombas! Com certeza, todo esse abalo significa que ela impactou uma gruta inferior. Não temos como saber a extensão dela, então a Caverna Bolsão e até nosso piso podem estar instáveis e desmoronar também!

Bóreas ouviu-o, mas outras perguntas ecoaram rapidamente em sua cabeça, deixando uma nova angústia invadir seu corpo: por que ela explodiu antes da hora? Quem estava naquela área? Haveria alguém ferido?

— Sabe as vigas acima de nossas cabeças, que atravessam conectando os pilares aos dos lados sem um padrão?

O rapaz ouviu Samuel e olhou para cima, assentindo. Era como uma teia de pedras de vários níveis até a escuridão profunda. De um único pilar e em diferentes alturas, essas vigas brotavam e despontavam para várias direções.

— Elas provavelmente já foram pequenas grutas que se desgastaram e cederam. Entende?

De repente, o som do cascalho sendo pisado de forma pesada e próximo demais tirou Bóreas do choque de compreender o perigo natural que os rodeava. Ele virou o rosto na direção do som e, com a fraca luz do sinalizador, enxergou uma silhueta mais alta que um humano surgindo próxima da pilastra larga. Com surpresa, o rapaz levantou-se e atirou com o rifle.

O único disparo alto deixou um zunido no ouvido dos dois homens enquanto a criatura tombava com a cabeça desfigurada.

— Onde está Lucca? — Bóreas ficou com pressa, procurando-a na pilastra e no solo. Tudo variava em tons de sombras cinzas e pretas.

Seu abate tinha atraído outras criaturas. Podiam ouvir os urros animalescos e o bater agitado das asas das criaturas voadoras mais perto.

O rádio no ouvido de Bóreas chiava e cortava as falas, sendo uma distração para a mente subitamente lotada dele.

A cortina de poeira os envolveu sem cerimônia pouco depois. Os dois homens cobriram o rosto com lenços improvisados e procuraram pela mulher através da cortina pálida. Encontraram Lucca pendurada, segurando com esforço apenas um dos dispositivos fincados na pilastra. Antes que falassem qualquer coisa, outra grande criatura surgiu próxima da base da pilastra.

Bóreas não conseguiu definir alguma característica além de uma silhueta alta dentro da penumbra poeirenta. Ele mirou e atirou à distância, reverberando outro disparo seco. Sem opção, atingiu mais algumas sombras que vinham na direção deles e estavam próximas, mantendo uma área segura para sua equipe enquanto Samuel agia para resgatar Lucca:

— Solte! — gritou ele, nervoso e quase pronto para segurá-la. A mulher negou, pois estava alto demais para se deixar cair. — Vamos, confie!

— Jogue o outro! — ela pediu num fôlego, indicando onde o dispositivo de escalada da mão direita estava caído. O objeto tinha escapado quando a explosão distante surgiu.

Sem paciência e se encolhendo a cada disparo de Bóreas, Samuel pegou o equipamento, mas uma lança atravessou seu corpo. A arma áspera, esverdeada e com detalhes únicos estava banhada em sangue vermelho humano e fresco.

O grito de horror de Lucca chamou a atenção de Bóreas para a cena e logo notou o alienígena alto se aproximando do corpo com superioridade, tão próximo que o rapaz pôde enxergar os detalhes insetoides de seu rosto. Olhos pequenos, placas de pele dura e brilhante, pequenas antenas agitadas e uma mandíbula larga que perturbaria seus sonhos.

Naquele mesmo segundo de choque e medo, Bóreas pôde sentir que se encararam. Depois, ele apontou sua arma e atirou, mirando a cabeça. Com um movimento veloz, a criatura fez o disparo ricochetear na proteção do antebraço e avançou contra ele, puxando sua lança do corpo de Samuel.

O som úmido da carne e do sangue humano soou mais alto do que deveria, aterrorizando a mente de Bóreas, mas ele buscou se manter focado e atirou seguidas vezes. Atingiu o inimigo na coxa e no ombro, observou uma reação rápida de dor e mirou a testa, sem dar tempo de ser rechaçado novamente, atirou pela última vez. Mais um corpo caiu, aquele quase aos seus pés.

Outros disparos começaram a ecoar de diversas direções dentro da Caverna Bolsão. Luzes de lanternas se acenderam e balançavam na névoa amarelada, retornando para o ponto de encontro diante do túnel.

"Bor...?" O som do comunicador chiou em seguida. O rapaz não teve certeza se havia ouvido seu nome ou se foi uma alucinação. Teve que ignorar quando ouviu um novo grito de pavor de Lucca. Duas das criaturas menores e voadoras a cercavam no alto, espetando-a com suas espadas-agulhas enquanto ela se esforçava para segurar-se no lugar e se proteger.

O jovem soldado rapidamente mirou, mas hesitou, sentindo medo de acertá-la. Amaldiçoou os bichos por serem tão pequenos e se confundirem na escuridão e luz fraca. Sem mais tempo, ele soltou o rifle, deixando-o pendurado na alça, e puxou a pistola, afastando os pés e se preparando.

Entretanto, no mesmo momento, as criaturas puxaram o corpo de Lucca até ela soltar-se do dispositivo de escalada. Assustada com a possível queda, a mulher agarrou-se em um deles e foi sendo carregada, deixando uma trilha de pingos de sangue e tossindo. O pequeno alienígena capturado se esforçava para ganhar altura, mas, com o peso extra, eles começaram a se afastar da pilastra.

Sem prestar atenção no caminho que fazia, Bóreas os seguiu, buscando uma boa mira e esperando o melhor momento.

"Bóreas, vocês são os últimos! Sejam mais rápidos!" A voz urgente de Kai ecoou dentro da cabeça do rapaz de forma clara e afiada, gelando-o e apavorando-o.

Nervoso, o rapaz com a pistola se concentrou e disparou. Bóreas assistiu à criatura alada abaixar o voo, com dificuldade de bater suas asas, e continuou com esperança de que Lucca chegasse a uma altura em que ela pudesse saltar com segurança para o solo. Contudo, o pequeno inimigo ferido golpeou o rosto da mulher com sua arma afiada, atravessando um dos seus olhos com raiva. Com esse ataque, ela se soltou e despencou, sem chance de sobreviver.

Os pensamentos de Bóreas se quebraram depois de ver a cena. A pistola foi abaixada, seus passos pararam, seus olhos muito atentos não focaram em nada. E nada foi o que ele tinha feito pelos dois colegas.

Na companhia apenas do silêncio instalado, o rapaz percebeu gradualmente o que havia feito com aqueles inocentes e se perguntou internamente: quem ele era? Melhor, quem ele pensou que era? Por que tudo teve que ser daquele jeito? Era culpa dele sua equipe ter terminado daquela forma.

O brilho do sinalizador já desaparecia e ele parecia uma das estruturas cavernosas que brotavam do chão, em pé, imóvel e silencioso. Sua mente estava no limite de turbulência e, ao mesmo tempo, vazia.

Não havia passado muitos minutos e Bóreas, o jovem naturalmente sensível, estava sozinho mais uma vez e em um cenário de pesadelo. Nenhuma das dez equipes estava mais na caverna e nem Joaquim, para surgir e levantar a súbita âncora que o prendeu naquele fundo, naquele momento que matou seus colegas por ser quem era.

"Onde ele está?!" Reynald questionava nervoso através da voz do comunicador ignorado pelo rapaz.

"Droga! Não temos nem a confirmação se colocaram os explosivos", avisava Kai, soando agitado.

Por um momento, a mente de Bóreas se abriu e ele se perguntou por que teria alguma importância para aqueles estranhos, se ele havia acabado de somar mais duas mortes inocentes em suas memórias.

De repente, um pequeno dardo áspero zumbiu e atingiu sua mão, fazendo-o largar a pistola. Sentir a dor ardente e estranha o trouxe de volta para a realidade. Rapidamente retirou a agulha branca, esfregou o ferimento e, ao olhar para a mão, viu o anel de cisnes em seu dedo anelar. Recordando-se de que Joaquim poderia estar o esperando voltar no túnel, a motivação para sobreviver ressurgiu.

Bóreas forçou-se a reagir, pegou a pistola do chão, movimentou-se e atirou em seus inimigos mais próximos, desviando dos novos dardos que as estranhas armas dos alienígenas voadores disparavam. Sem dar atenção aos sentimentos pesados que o haviam tomado e mantendo sua mente livre, atingiu os dois inimigos no ar com uma precisão incomum e frieza. Iria apenas sobreviver, mesmo que sozinho e sem nada do que se orgulhar diante do destino de sua equipe. Só por mais um momento, resistiria.