Aurora Luz - O Comandante
3 Os pilares de um plano.

Os ruídos da batalha na superfície ecoavam desordenados, sussurrando, vibrando e chacoalhando, às vezes tudo ao mesmo tempo. Sirenes distantes percorriam o subsolo de vários lugares, em diferentes volumes e toques. As luzes mais frágeis já haviam queimado. Cabos rompidos em algum corredor desmoronado deixaram grandes áreas sem energia alguma. Os dutos de ar tossiam, falhavam ou sopravam com força extra ar frio ou aquecido por estarem desestabilizados. Em todo lugar, predominava o odor de fumaça e poeira, mesmo que nenhuma partícula estivesse visível.
Joaquim seguiu o soldado, sem fazer perguntas. Estava aliviado por encontrar uma pessoa que conhecesse a estrutura do lugar e soubesse os caminhos mais curtos. Ainda assim, olhou para Bóreas, verificando se ele os seguiria ou permaneceria chocado e estático. Ele os seguiu de perto.
O silêncio denso permanecia entre eles, interrompido somente pelas respirações alteradas, pelos passos apressados e pelos sons da luta distante. Cruzaram uma sequência de corredores e passaram por portas que o capitão do cargueiro e seu subordinado não teriam encontrado sozinhos em apenas um minuto. Com o ritmo confiante do desconhecido na dianteira, a tensão dos dois companheiros reduziu, mas não desapareceu.
No final de um corredor estreito, surgiu a última porta que dividia os dois setores. O soldado parou diante da estrutura reforçada e digitou um código no pequeno painel lateral. A passagem se abriu com alguns cliques metálicos e um ranger pesado, soando nitidamente como o cadeado de uma jaula sendo aberto após muito tempo. Após todos atravessarem, a passagem foi trancada novamente e sua rigidez verificada pelo soldado.
O corredor daquele lado era idêntico ao anterior. Mas ali, as luzes eram brilhantes e estáveis, ofuscando por um momento a vista de Joaquim e Bóreas. Os rugidos dos dutos de ar eram mais suaves e constantes.
— Desde que saí, não houve invasão desse lado. É um pouco mais seguro — o soldado explicou, olhando-os rapidamente. Depois, seguiu à frente, tirando o capuz balaclava e respirando fundo o ar mais limpo, sem interesse em alongar a conversa.
Mais atrás, Bóreas o observou com curiosidade. Os cabelos pretos eram muito lisos, grudados na pele clara de seu pescoço pelo suor do exercício. Seu físico era esguio, mas com músculos fortes e treinados. Também recordou que seus olhos eram castanhos-escuros e estreitos, sinalizando uma fisionomia cultivada.
— Ei? — chamou-o subitamente. — Você é um legado da Ásia?
A pergunta inesperada, enquanto andavam, pegou Joaquim e o soldado de surpresa. Ambos o olharam com estranheza por um segundo, sem parar.
— O que isso quer dizer? — questionou o capitão, caminhando ao lado do navegador, sem entender.
— Ah... — Bóreas desviou o olhar para o chão, percebendo que havia falado no impulso, novamente. — Foi uma pergunta estranha. Esquece.
— Bóreas! — Joaquim disse, como se confrontasse uma criança a dizer a verdade, golpeando-o de leve no estômago. Não gostava de desconhecer algo que, pela expressão imediata, o soldado havia compreendido.
— Tá bom! Existem famílias que cultivam sua linhagem para preservar uma cultura, uma tradição, a aparência... até uma personalidade. Essas pessoas, com características definidas, acabam sendo vistas como confiáveis e são mais influentes na sociedade.
— Como criadores de cães de função? Os de raça? — Joaquim arqueou uma sobrancelha, confuso, mas compreendendo.
O navegador esboçou uma leve repulsa, franzindo os lábios. Os integrantes dessas famílias não gostavam dessa comparação e soava desrespeitoso com o soldado. Então ele voltou a focar a frente e completou:
— Os descendentes são chamados de legado pelas pessoas. E eu acho que você é de um deles, não é?
O soldado virou-se, franzindo as sobrancelhas escuras enquanto analisava Bóreas de volta e com atenção. Era curioso, e bastante incomum, que um simples trabalhador de um cargueiro fosse tão bem-informado.
A história sobre as linhagens só tinha alguma importância na classe alta, em que um sobrenome carregava todas as conquistas e valores de seus antepassados. Vir de uma família assim era um símbolo inegável de confiança, prestígio e poder. Todas as pessoas consideradas ricas, de cargos superiores no governo ou de círculos fechados de indivíduos influentes eram marcadas e precedidas pelo sobrenome.
— Quem são vocês? — o soldado perguntou em tom casual, tentando, na verdade, decifrar algo sobre o jovem de gorro esquisito enquanto os conduzia pelo labirinto de corredores.
— Sou Joaquim Procyon. O comandante e piloto do cargueiro 089-A17 — respondeu o mais velho, acentuando sua expressão cativante que marcava mais as linhas de seu rosto e sorriso há anos.
— Procyon, como a estrela de Cão Menor?
— Exatamente.
— Hm — o soldado soltou, sem mais interesse em alguém de origem comum. — E você? — quis saber sem nem olhar para trás.
— Sou um assistente de navegação e aprendiz de pilotagem. Pode me chamar apenas de Bóreas — completou o outro com uma simpatia que não combinava com o cenário de sobrevivência e batalha.
O soldado olhou-o, divertindo-se levemente ao perceber o orgulho escondido na forma animada com que o navegador falou, mas também entendeu a fuga que cortou sua tentativa de obter um sobrenome.
— Então... Você é apenas um estagiário?
— Em metade das minhas funções, sim — respondeu Bóreas, evitando se estender. O loiro de gorro ainda observava o soldado com atenção sempre que era encarado, avaliando os traços raros da descendência dele. E era analisado de volta.
— Você ainda nem se formou na academia espacial? Não está ficando um pouco velho para isso?
Bóreas deu de ombros, evitando dar alguma informação e deixando o assunto morrer ao se calar definitivamente. Foi o soldado que havia começado aquele jogo ao evitar responder sua primeira pergunta. Sendo alguém de uma família importante ou não, o desconhecido desconfiava dele e seria mútuo. Além disso, naquele momento, não tinha importância explicar os motivos que o distanciaram da formatura na academia e conseguir apenas uma licença parcial para viajar entre uma tripulação.
Apesar de serem setores diferentes, as paredes cinzas, pisos de tons mais escuros e tetos brancos eram idênticos. Somente inscrições pintadas nos acabamentos e em quadros de avisos sinalizavam que estavam em outro lugar.
O percurso foi percorrido sem outra conversa até que sussurros de vozes começaram a se espalhar no corredor, mas indefinidos entre os incessantes sons de conflito da superfície. De repente, o soldado abriu uma porta que se parecia com as anteriores e os três chegaram à sala de controle e comunicação do setor Oeste. Felizmente, o cenário era diferente do anterior. Havia as mesmas telas de tamanhos variados, cabos escapando por trás, painéis com medidores, aparelhos e botões. Tudo distribuído nas laterais e ao redor de uma mesa. O diferencial era que ali havia pessoas vivas e ativas trabalhando.
Os forasteiros seguiram seu guia por hábito, absorvendo as informações do lugar mais cheio.
— Senhor Reynald, trouxe os homens que estavam no setor Sul. São Joaquim e Bóreas — disse o asiático, parando ao lado de um homem grande, grisalho e com expressão séria.
Joaquim rapidamente o reconheceu das telas da outra sala de controle; era o homem com quem eles já haviam falado e que forneceu o mapa de saída.
— Bom trabalho, Kai — Reynald sorriu, analisando os dois de cima a baixo, avaliando a integridade de seus corpos. — Agora, por favor, busque kits de proteção para que vistam e os coloque em nossos registros.
O soldado assentiu e se apressou para cumprir a nova ordem, sem nenhuma despedida.
Na sala, todos estavam igualmente agitados em suas centrais ou trocando informações. As telas do alto mostravam vários ângulos do que acontecia na superfície, mas apenas diante da construção externa, onde estavam as câmeras. Era exibido um grande pátio de terra vermelha compacta e com algumas rochas despontando no solo. Alguns soldados passavam nas imagens, reunindo armas e criando barricadas improvisadas com veículos de mineração.
A batalha mais densa acontecia na distante borda do escudo de energia, com clarões, chamas, fumaça e poeira que se erguiam de tempo em tempo. Quando a proteção era atingida por disparos dos caças inimigos ou bombas lançadas do solo, uma onda brilhante percorria toda a cúpula e logo a vibração alcançava o subsolo.
— Você é o responsável pelo cargueiro, certo? — Reynald o encarou e estendeu uma mão em cumprimento.
— Sim— Joaquim apertou-a firme, mas logo se distraiu com uma tela atrás do velho homem, que mostrava um corredor com luzes piscando e apagadas, igual às do setor Sul.
— É um prejuízo e tanto perder um cargueiro de serviços daqueles.
— Ia fazer dez anos que eu trabalho com ele — o capitão assentiu com pesar, olhando para o homem.
— E esse garoto?
— Meu assistente de navegação, Bóreas. Bem versátil, mas ainda está aprendendo.
— Vocês são parentes? — O oficial perguntou, curioso, ao notar que eles tinham a mesma altura e olhos azuis, apesar de tons diferentes.
Joaquim riu e negou:
— Apenas de consideração. O achamos na rua um dia desses.
Reynald riu e foi interrompido por uma moça de uniforme que lhe entregou papéis para analisar. Depois de um momento, o homem explicou que eles conversaram com Muvick até a conexão cair. O companheiro deles havia ajudado com algumas dúvidas e enfatizado que os dois poderiam ajudá-los, que Joaquim tinha certificação de engenheiro e que Bóreas era jovem e resistente fisicamente.
— Tudo o que tenho são oito soldados — Reynald assumiu um tom mais sério e apressado, indicando os homens de farda. Em seguida, olhou para as poucas pessoas com roupas comuns. — Alguns técnicos da empresa de extração de minerais ficaram para nos ajudar a ter informações por meio desses computadores. Estamos perto de finalizar o plano de contra-ataque.
Bóreas e Joaquim tiveram seus pensamentos inundados com as informações sobre o que estava acontecendo e o que ia acontecer, já que a ajuda deles seria necessária.
O grupo de militares enfrentava um desafio que só um bom matemático poderia resolver de forma rápida. Precisavam definir, com exatidão e sem desperdício do pouco material que reuniram, a potência de um conjunto de bombas que derrubaria alguns pilares de diferentes diâmetros, que sustentavam o teto de uma gigantesca caverna subterrânea. As implosões causariam o desabamento estratégico de uma área da superfície onde o inimigo se concentrava, dando uma vantagem para os terráqueos.
Em algumas dezenas de minutos, com a colaboração determinada de Joaquim e de Bóreas, tiveram uma resposta para cada um dos vinte pilares que eram alvos e os conjuntos de bombas recém-montadas e calibradas.
Reynald reuniu todos uma última vez e apresentou um resumo do plano rapidamente. Enquanto dava um tempo para pensarem e alguém encontrar alguma falha para resolver, as luzes enfraqueceram, como se soubessem que haviam terminado.
— Droga! Não temos muito tempo — o líder engrossou seu tom, transmitindo a urgência. — A energia vai ser toda consumida pelo escudo e os ataques vão derrubá-lo.
Um segundo depois, um poderoso estalo do escudo ecoou. Mensagens nervosas surgiram do rádio, cheias de interferências, e dos monitores.
— Vamos começar agora! — Reynald ordenou.
Rapidamente, dois soldados organizaram as bombas em dez bolsas e seguiram o homem para fora da sala, com passos apressados e altos. Joaquim e Bóreas tinham as mesmas roupas e armamentos e os acompanharam, conscientes do plano. Os técnicos ficaram para atualizar Reynald sobre a posição do inimigo no lado externo e transmitir outras informações.
Ao som da marcha ritmada de suas botas, o esquadrão improvisado caminhou pelos corredores. Reynald conhecia o lugar perfeitamente e seguiu à frente, levando-os por uma sequência de esquinas e passagens. Mesmo nos caminhos com luzes apagadas ou quando outro golpe no escudo tremia tudo, seguiram em frente sem hesitação.
Virando à direita uma última vez, chegaram a um corredor mais largo. No final dele, depois de algumas passagens, encontraram uma porta dupla. O grupo escancarou-a de forma súbita. O salão amplo, cheio de mesas de refeição e alguns colchões no chão, estava com parte das luzes apagadas, criando um ambiente suavemente sombrio. Entre os espaços, havia uma coleção de civis. A maioria era composta por mulheres e havia algumas crianças pequenas que encaravam o grupo de soldados com olhos arregalados e mudos.
Ao entrar na sala, um passo de Bóreas falhou com a surpresa de ver tantas pessoas. Enquanto se alinhava ao lado dos outros de uniforme, bem diante de todos, observou cada rosto com atenção. Ele sabia que famílias inteiras viviam e trabalhavam na base terráquea, mas só naquele instante tinha os encontrado e pôde entender que eram civis inocentes e completamente despreparados para o ataque.
Ao ver um bebê de apenas alguns meses sendo balançado pela jovem mãe, uma nova aflição brotou e entorpeceu a mente de Bóreas. Era uma realidade da qual não havia se dado conta antes, enquanto pensava apenas em fugir do conflito daquele planeta ou acordar do pesadelo. Naquele espaço encurralado de um refeitório, havia diversas histórias e pessoas reais, todas assustadas por estar naquela situação imprevista e vulneráveis.
Encarando um ponto do piso, sem ver e nem ouvir o discurso de Reynald sobre o plano e o que iria acontecer, Bóreas questionou mentalmente o que faria se fosse um morador daquele lugar. Imaginou-se vivendo em paz por anos, com sua carreira e vida estável, confiando que nada ameaçava o complexo terráqueo. No entanto, em um dia qualquer, foi surpreendido pela invasão hostil de seres de outro planeta. Refletiu sobre quais seriam suas outras reações na situação hipotética, mudando suavemente seu ponto de observação.
—... Precisamos de voluntários para aumentar nossos grupos. — O líder dos soldados finalizou, incisivo, observando as pessoas na frente dele com uma constante expressão séria.
Duas pessoas levantaram suas mãos rapidamente, dispostas a lutar. Outros pensaram cuidadosamente e com medo, encolhidos em seus cantos diante do silêncio carregado. Mães, filhos, irmãos, tios e sobrinhos se entreolharam, esperando um ato de coragem alheio que não surgia. Todos sabiam que mais alguém teria que fazer o sacrifício de se juntar aos soldados para os outros terem a chance de sobreviver. Então, entre breves discussões particulares resolvidas em segundos, mais pessoas se ofereceram.
Vinte voluntários, vestidos desde macacões de trabalho a camisas sociais amassadas e moletons, uniram-se ao grupo de nove soldados. Enquanto o restante dos civis juntava seus pertences para uma mudança de abrigo.
Reynald encarou cada um deles respeitosamente, memorizando brevemente seus rostos, reconhecendo a importância de suas coragens e sendo grato por confiarem em seu plano e liderança.
— Eu não tenho agilidade para a missão de instalação das bombas, então serei a central de comunicação de vocês — balançou um radiotransmissor portátil em sua mão direita. — Ficarei na sala de controle, observando toda a operação pelas câmeras da caverna Bolsão e orquestrando tudo para que todos estejam fora do perigo quando detonarmos tudo.
Diante dele, todos estavam atentos, incluindo Bóreas. Olhando-o fixamente, como se a qualquer momento fosse dizer um segredo crucial do universo.
— Os irmãos Bellatrix ficarão com os civis restantes — apontou para uma dupla de soldados, que concordaram. — Irão protegê-los e levá-los para a saída do subsolo quando tiverem minha ordem.
Joaquim, ao fundo e ao lado de seu navegador, observou o homem e a mulher de macacão afastarem-se e começarem a dar orientações ao grupo deles. Desconsiderando o líder oficial Reynald, o capitão de cargueiro notou que restavam apenas seis soldados treinados para proteger as equipes da missão de destruição dos pilares. Ele próprio poderia ser o sétimo segurança. Mesmo assim, estavam em número ímpar e não funcionava bem na divisão dos vinte pilares para instalar os explosivos.
— Quem de vocês sabe atirar?
A pergunta de Reynald fez Joaquim voltar a ficar atento. Ambos observaram o grupo de voluntários por um segundo até um homem levantar a mão.
— Somos apenas operários, mas temos alguma experiência por diversão — ele disse, olhando em um momento para a mulher robusta ao seu lado, que concordou confiante.
— Cada um terá que proteger um grupo. Alguém mais?
Joaquim lembrou que não havia conversado com Reynald sobre seus treinamentos, então levantou a mão. O comandante lhe deu um aceno de confirmação e ele a abaixou.
A distribuição pela segurança das equipes estava melhorando. Cada grupo ficaria com duas pilastras e dois com uma terceira. Porém, o ideal seria dez grupos. De repente, o capitão teve um estalo em seus pensamentos analíticos e olhou para seu lado, confuso. Bóreas também tinha treinamento, mas estava imóvel e mudo, encarando o chão fixamente enquanto seus pensamentos estavam em outro lugar, exatamente como uma criança que não queria ser notada.
O rapaz foi surpreendido por um cutucão nas costelas. Olhando para Joaquim, ele ouviu, sem que uma palavra fosse dita, um aviso para informar Reynald de que poderia ser mais um segurança. Bóreas ficou angustiado, fechando as mãos com força e fincando os pés no lugar. Não podia admitir, mas a razão de ter chegado até ali foi porque o capitão estava o levando e puxando. Sem a companhia dele, Bóreas já teria desistido e ficado lá com Muvick, esperando ser resgatado. Balançou a cabeça em negação, as abas do gorro balançando nervosas com o movimento. Apesar do silêncio entre eles naqueles segundos, o jovem assistente de navegação soube todas as palavras decepcionadas que o olhar sério, questionador e contrariado que recebeu queria dizer.
Um estrondo distante veio da batalha na superfície e a luz enfraqueceu, acompanhada dos resmungos de algumas das crianças. Logo ela voltou ao normal.
Dando um suspiro final e decepcionado, Joaquim avisou:
— Bóreas sabe usar armas. Diferentes calibres. De fogo ou brancas. Até mesmo tentou ensinar golpes de luta para Muvick. Eu até posso dizer que ele tem mais habilidades do que eu em combate.
O navegador reagiu imediatamente, segurou o antebraço de Joaquim, chateado com a denúncia e com a tensão espalhando-se velozmente pelo seu corpo. Ele tinha toda a intenção de ficar no grupo de seu capitão e sair daquele mundo junto. Não queria ser visto como alguém útil para uma luta que não era dele. Não era um guerreiro pronto para atuar sozinho. Sua confiança ainda estava fraca e distante. Ele se escondia atrás de Joaquim e admitia. Mas, naquele momento, seu amigo o arrancou de sua sombra sem nenhuma consideração.
— Ótimo! — Reynald disse, fingindo não notar que o mais jovem estava tentando evitar responder seu chamado, e rapidamente indicou uma dupla de civis: — Garoto, junte-se a eles, por favor.
Revoltado e nervoso, Bóreas encarou o líder de todos os soldados de volta, permanecendo imóvel e com as sobrancelhas franzidas. Era um misto de extrema coragem, força, objeção e medo mortal, uma reação confusa, mas determinada.
Joaquim sabia que não tinham tempo e interveio, fazendo alguns gestos para Reynald, que concordou. Com um puxão, soltou o braço da mão do colega e foi na direção da equipe que estava sendo formada.
Naquele momento, Bóreas se perdeu. Sentiu o abandono, sem acreditar que sua pessoa mais importante estava decidindo fazê-lo passar por aquele pesadelo sozinho, mesmo sabendo que ele estava inseguro, que era alguém emotivo e que desconfiava dos estranhos. O capitão era a âncora que mantinha a coragem presente no corpo de Bóreas. Era seu motivo para seguir em frente e se manter vivo, pois, além daquele homem que se tornou sua única família, nada esperava o jovem navegador, em nenhum canto da enorme Via Láctea.
Enquanto Reynald prosseguia com suas orientações, Joaquim não o olhou de volta. Aquela atitude fria acentuou o aperto no peito do rapaz, alimentando seu medo crescente de estar sozinho no desconhecido. Era como estar solto na correnteza caótica e mortal do planeta 49-OS, sem escapatória.
Seu ponto de referência o havia deixado à própria sorte e decisões. E ele não estava preparado. A separação era chocante, como um tiro de amigo a pouca distância. Sua mente deixou de tentar entender o que realmente era importante naquilo tudo. E o medo, sufocado durante todo aquele tempo, se amontoou atrás das últimas contenções mentais. Já não tinha motivo para resistir mais.
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