Aurora Luz - O Comandante
7 As últimas forças internas.
A determinação de Bóreas de reencontrar o capitão Joaquim, seu porto seguro, reacendeu sua vontade de sobreviver. Os sentimentos de culpa e inutilidade, provocados pelas mortes de seus dois colegas, foram empurrados para o fundo de sua alma. O pensamento de que em breve eles escapariam daquele planeta caótico se tornou o mais importante.
Abaixo da teia de vigas da caverna, cercado pela poeira rala e pela umidade confinada, o rapaz sabia que não precisava mais se preocupar em proteger outra pessoa. Sozinho, silenciou qualquer pensamento de empatia, fraqueza e luto, criando um plano.
No rádio barulhento em seu ouvido, as conversas buscavam informações dele, o último dentro da caverna. Bóreas engoliu em seco, preparando-se para falar, e avisou:
— Estou a caminho do ponto de encontro.
Depois de um curto silêncio, ouviu o retorno frio de Kai:
— Entendido. Quanta distância ainda falta?
— Toda. Ainda estou perto do último pilar...
A breve comunicação pareceu acalmá-los e um silêncio incômodo ocupou o rádio.
Bóreas inspirou, ajustando o gorro na cabeça, com um puxão brusco para baixo, e observou em volta com atenção. Várias silhuetas se espalharam na névoa poeirenta, atraídas pelas mortes de seus companheiros e disparos. Dois inimigos grandes estavam próximos e outros o cercavam lentamente. Mesmo tendo uma mira excepcional ao se concentrar, ele não teria munição suficiente para enfrentar todos.
O brilho do sinalizador sumia e a escuridão profunda estava retornando. Ficar no solo não traria vantagem para Bóreas sobreviver. Com cuidado e rapidez, ele buscou o par de dispositivos de escalada de Lucca que estavam no chão, testou o funcionamento e subiu no pilar mais próximo, como havia visto a colega fazer. No alto, usando as vigas que cruzavam para todos os lados, parecia ser o caminho com menos inimigos, porém mais fatal com um escorregão inesperado.
Sobre a primeira viga de altura vertiginosa, o rapaz percebeu que seu percurso não seria reto para o túnel, pois aquela apontava para a esquerda. Tendo treinamento e experiência de navegação, Bóreas observou a sequência de passarelas até onde sua visão alcançava através do nevoeiro de poeira, focando o ponto de destino, e encontrou a rota mais rápida e segura, memorizando-a antes de a luz sumir por completo.
No meio da escuridão profunda, os sons dos passos abaixo pareceram mais altos; disparos e ruídos da batalha na superfície reviveram, apesar de distantes; o ambiente ficou mais frio e o ar mais pesado. Por mais que desejasse, não havia alternativa mais fácil para voltar à segurança, e Bóreas não conseguiu se mover. Quando pensava em dar um passo, seu corpo tremia involuntariamente, em vez de agir. Logo, a respiração estava rápida, o coração perdeu o controle e os músculos travaram.
Em sua mente, ele tinha certeza de que a viga era larga o suficiente para caminhar com segurança, mesmo sem enxergar, mas seus pés não obedeceram, ignorando sua determinação. Urros e grunhidos soaram próximos da base daquela pilastra. Ao olhar para baixo, via apenas manchas brilhantes se movendo e uma altura exagerada até o solo. Sozinho, ele não sabia como sair daquele estado em que seu corpo havia deixado de ser dele, traindo sua mente.
Um novo chiado ecoou na entrada do túnel e um sinalizador, dessa vez esverdeado, riscou a poeira que havia se espalhado no interior da caverna com um brilho forte.
Poder enxergar algo novamente trouxe alívio para Bóreas e seu corpo relaxou. Uma breve lembrança de Joaquim exigindo que ele fosse rápido passou em sua mente, então ele respirou forte algumas vezes, encarando seu caminho. Determinado, andou sobre a viga, acelerando na medida em que confiava mais em seus passos, focado na pilastra seguinte.
Em poucos minutos, que pareceram muitos mais, Bóreas caminhou por três vigas e passou quatro colunas distantes, sempre com o dispositivo de escalada nas mãos, para o caso de escorregar, e usando-o com frequência como apoio.
Enquanto se movia pelo alto, focado e em silêncio, o rapaz ouvia o constante bater de asas dos inimigos voadores ao seu redor. Às vezes, pareciam próximos, outras passavam por ele, mas não o encontravam. A névoa de poeira e seu avanço contínuo os confundiam.
O tempo, limitado desde o começo da missão, havia deixado de existir para o único rapaz perdido dentro da caverna. Avançando segundo a segundo, sem ser percebido.
Bóreas alcançou uma região mais iluminada pelo sinalizador, metade do caminho. Ele estava perto da segurança e vivo, e um sentimento esperançoso começou a animá-lo. Contudo, um zunido passou diante de seu rosto no mesmo instante. Ao ser surpreendido, ele pisou na beirada da passarela natural e escorregou. Sua reação foi rápida para ativar o dispositivo e golpear a viga com toda sua força.
O impacto ecoou chamativo aos trinta metros do solo. Ele não teve tempo de perceber sua pulsação apavorada ou a dor no pulso, que aguentou o tranco súbito. Diversos dardos vieram em sua direção, zunindo e cravando na viga de pedra com uma força assustadora e cuspindo poeira.
Enquanto se esforçava para sair da chuva ameaçadora e escalar para a segurança, um dos disparos atingiu seu rosto, atravessando a bochecha e arranhando de leve sua língua, mas a dor não foi sentida. Os sons de aplausos ficaram próximos, cercando-o de todas as direções. Bóreas sobreviveu até ali e decidiu, momentaneamente, que não ia desistir. Desesperado, sendo atingido em outros lugares e com as mãos ocupadas, ele chegou na passarela estreita. Ajoelhado, pôs os dispositivos nos bolsos e pegou a pistola o mais rápido que podia, atirando nas primeiras criaturas voadoras que viu e acertando-as até aquela arma falhar.
Determinado, Bóreas levantou-se e voltou ao seu plano, correndo sobre a viga. Logo, o gosto de sangue e um amargo incomum em sua boca o fizeram lembrar do espeto no rosto. Enojado e nervoso, puxou o dardo alienígena do rosto. Antes de jogá-lo para longe, por um segundo, notou que aquele tinha uma cor escura e diferente dos outros dardos, que eram mais grossos e brancos. Outros disparos vieram em sua direção; a maioria eram agulhas claras, ricocheteando na pedra da viga ou fincando em suas roupas como uma picada, mas, quando era atingido pelas escuras, a área ficava dormente.
Bóreas não tinha qualquer noção do tempo que restava para chegar ao ponto seguro, o túnel. Olhando em direção ao rastro do sinalizador, conseguia supor que faltavam apenas algumas dezenas de metros. Seus passos ecoavam, mesclando-se aos sons dos inimigos voadores, da própria caverna e da batalha que ainda acontecia na superfície.
Na suave penumbra, notou que a viga em que estava começava a se inclinar para baixo. A velocidade de sua corrida começou a fugir de seu controle na medida em que o declive aumentava. Não demorou para a sua passarela mergulhar em direção ao solo sombrio e Bóreas parar por um segundo, tendo certeza de que errou o caminho em algum momento.
A névoa e a sombra, que antes o protegiam, não permitiram que definisse a distância até o solo ou outra forma de sair dali. De repente, suas pernas pesaram e o mundo oscilou. Ele deu um passo torto e involuntário, como se estivesse embriagado. Sentiu o perigo, como se aquela queda o chamasse, então se abaixou, pondo um joelho na viga e desejando que a sensação fosse momentânea. Aquela reação não parecia natural. Os dardos não eram uma arma simples.
Sons das batidas de asas das criaturas surgiram próximos bruscamente. Eram como diversas palmas feitas por humanos ecoando perto e longe ao mesmo tempo, ocupando de forma tóxica seus pensamentos, pois não eram terráqueos. Instintivamente, puxou a segunda pistola e atirou numa silhueta que apareceu, mas ela se afastou sem ser morta. Outro som voador veio por trás e o atingiu rápido como um cometa, jogando-o em direção ao declive não medido e escuro antes que ele reagisse.
Bóreas caiu, rolando sem controle sobre a pedra íngreme da viga e perdendo os dispositivos de escalada dos bolsos e outros itens. Não tinha forças para tentar se segurar e evitar o acidente grave. Durante os giros, o silêncio veio junto com sua consciência oscilando. A névoa mais densa o envolveu e a escuridão tomou sua visão de uma vez. Ele desmaiou antes de perceber a viga acabar e caiu por cerca de quatro metros.
O impacto final foi um som molhado, solitário e ecoante, em uma poça densa de lama. Aquela camada espessa de resíduo, de aproximadamente um palmo de fundura, foi o suficiente para diminuir os danos e absorver parte do impacto.
✦✦✦
Um longo silêncio passou. A caverna e a superfície continuaram caóticas sem que Bóreas soubesse. Quando ele abriu os olhos de forma lenta, encarando o teto, a escuridão estava profunda e o sinalizador, que iluminava tudo, havia desaparecido. Confuso, ele sentiu dores em diversos lugares e uma dificuldade de respirar. Suas roupas estavam molhadas e frias, ajudando seu corpo a perder calor rapidamente.
O rapaz permaneceu deitado e anestesiado, sem lembrar onde estava, até os sons da batalha e inimigos voltarem a chegar em seus ouvidos. Um brilho branco, quase imperceptível, percorreu a névoa acima dele e ele se forçou a olhar em volta com movimentos lentos. Uma lanterna estava acesa distante, passando de um lado para o outro como se procurasse algo na escuridão da Caverna Bolsão. Era um sinal de que não devia estar longe do túnel.
Quando moveu a cabeça tentando reagir, a água grossa invadiu seu ouvido e pingou de seus cabelos platinados expostos e Bóreas voltou a ficar imóvel. Perturbado, ele só teve forças para entender que havia perdido seu amado gorro artesanal de abas e o ponto de rádio. Alguns grunhidos próximos chamaram a atenção dos ouvidos de Bóreas. Seu coração, ainda vivo, acelerou na medida em que seus pensamentos ficaram mais claros e conscientes para a realidade perigosa em que estava. Os inimigos ainda estavam à sua volta e ele precisava sobreviver para reencontrar seu capitão e amigo.
Logo, o pensamento de que a pessoa com a lanterna poderia ser Joaquim, chamando-o e o procurando, o fez ter mais forças. Precisava ir até ele.
Sem se mover, Bóreas sentiu os volumes de seus bolsos e localizou as armas que ainda estavam consigo. Encarando a escuridão, analisou os sons e reconheceu onde o inimigo mais próximo estava. Todas as possibilidades de reações foram calculadas em segundos, nenhuma com garantias de sucesso. Pelas dores de suas feridas, não dava para confiar plenamente no funcionamento de seu corpo. O medo de reagir lento demais e errar, morrendo ali, o deixou menos confiante.
Contudo, Bóreas visualizou Joaquim, criando em sua mente a cena do amigo o procurando e, quando se encontrarem, lhe dizendo da promessa de saírem daquele planeta juntos, cumprindo o plano dos pilares com sucesso.
A imagem lhe devolveu alguma força extra. Ele inspirou o máximo de ar que pôde e, num bote, puxou o rifle e atirou na direção do som mais próximo. Além do estopim, a aflição de cortes e ossos trincados ecoou em seu corpo no mesmo instante e o ricochete o fez largar a arma. Em seguida, um grande alienígena caiu sem vida e tão próximo que ficou lado a lado com ele na poça de lama.
Rápido, Bóreas buscou se levantar e continuar em direção ao ponto de encontro seguro, mesmo que fosse meio vivo, mas outro inimigo segurou sua perna, mantendo-o caído. Enquanto gritava de susto e raiva na escuridão profunda, debatendo-se para ser solto, pôde sentir os dedos largos e fortes pressionando sua canela. Logo, pressentiu um movimento entre eles e, por instinto, rolou para o lado. A ponta afiada de uma lança fincou exatamente onde ele estava segundos antes, ecoando o som molhado e espirrante da lama.
O movimento de fuga fez o toque do alienígena deslizar do tecido da calça até sua pele, abaixo da barra, revelando uma textura fria, lisa e áspera. Senti-lo tão claramente apavorou Bóreas e ele contra-atacou determinado, pegando o rifle e atirando. Apenas um único disparo ecoou; os dois seguintes foram apenas os cliques secos do gatilho. Havia sido sua última bala lançada contra o breu profundo daquele pesadelo. Felizmente, uma chuva morna e viscosa caiu sobre ele, o aperto na canela se desfez e pequenos pedaços daquela criatura decoraram o lugar.
Urros, passos pesados e aplausos ecoaram por todo o lugar. Nervoso e dolorido, Bóreas se arrastou até conseguir sair da lama, levantou-se aos tropeços e correu em direção ao túnel, sem se importar com nada além de chegar ao ponto de encontro.
No mesmo momento, a lanterna que se movia ansiosa parou, encontrando-o finalmente e iluminando o caminho. Logo, disparos vieram daquela direção, da entrada do túnel, atingindo silhuetas inimigas distantes e próximas em sequência e com precisão.
Faltavam menos de cinco metros até a lanterna quando o joelho de Bóreas teve um colapso, levando-o ao chão novamente. A dor e fraqueza súbita fizeram sua consciência oscilar. Ouviu uma voz chamando seu nome com intensidade, mas logo ela se afastou vertiginosamente e, mesmo que estivesse sendo gritada, se tornou distante.
Escutar aquele timbre estranho rasgou algo na alma de Bóreas, desaparecendo com suas últimas forças e esperança. Se não era Joaquim, tudo perdeu o sentido e a razão. Seus motivos para chegar meio vivo não existiam mais, estava cansado. Então, ele pensou que, talvez, fosse melhor ficar ali e parar de insistir em sobreviver. Quem estava correndo até ele com aquele foco de luz e necessidade urgente não lhe importava nada. Sua consciência, sem força, desapareceu finalmente.
✦✦✦
Recebendo um soco doloroso no peito, Bóreas acordou, confuso. Estava sendo apoiado abaixo do braço direito por Kai, que resmungava coisas incompreensíveis, e sendo arrastado para o interior seguro do túnel e para longe da caverna. Não era Joaquim.
Fale com o autor