Notas iniciais
Estamos aqui quase do fim do arco, só mais um pouco e fim. Obrigada demais a quem leu e acompanhou esse drama! Essa historia completa tem 7 arcos planejados que planejei ao longo dos meses em um resumão, ainda tenho mais definições para criar e pesquisa para fazer. Esse é apenas o começo. Boa leitura!


A última porta do túnel que levava à Caverna Bolsão foi trancada com um som seco, metálico e pesado, seguido das trincas poderosas que ecoaram no interior da barreira de aço. Os disparos das armas dos soldados pararam e um silêncio bruto tomou o corredor de serviço e de máquinas. Restava apenas o eco fraco do motor de um veículo muito distante, mudando de marcha como um som que não parecia real.

Bóreas continuava sendo arrastado, confuso sobre o que estava acontecendo e sentindo o corpo muito pesado. Kai o colocou em um canto, sobre o chão de concreto, e logo outros três soldados apareceram atrás dele.

O líder da missão de instalação de bombas, Kai, pegou um cantil de um dos colegas e virou toda a água sobre os cabelos compridos do antigo navegador, fazendo a camada de lama diluir e escorrer.

— Você está irreconhecível — avisou ao fazer isso, com suave irritação e encarando Bóreas fixamente.

Em seguida, uma mulher de uniforme se agachou e começou a limpar o rosto do rapaz resgatado com um pano molhado, falando:

— Em comparação aos outros, parece que você voltou pelo pior caminho — seus toques não tinham muito cuidado, fazendo os hematomas recentes doerem. Depois moveu o rosto e o corpo dele conforme queria, avaliando os danos e jogando mais água onde achou necessário, até concluir: — Não há nada grave, senhor.

— Ótimo! Obrigado, Kitty — Kai tomou o lugar dela, ficando na altura dos olhos claros de Bóreas, observando-o com intensidade, franzindo as sobrancelhas com seriedade. — Ei, sua equipe conseguiu colocar todos os explosivos?

Ao ouvir isso, todas as lembranças passaram velozes e dolorosas na mente de Bóreas, seu estômago se retorceu, criando um enjoo brusco. Ele balançou a cabeça positivamente e, sem que ele próprio esperasse, a realidade se apagou novamente.

... O odor pungente e irritante de amônia tomou seu olfato, trazendo-o imediatamente de volta à realidade. Kai não demonstrou nenhum arrependimento ao afastar o frasco e passear os olhos pelo rosto de Bóreas, analisando-o com atenção. Os outros soldados estavam ao fundo, mexendo nas mochilas ou conversando no rádio.

— É ridículo que, mesmo nesse estado, você pareça bonito. Sua aparência realmente faz todo mundo acreditar que é mais novo e ingênuo do que a idade em seus registros oficiais — Kai riu, descrente. — Conhecendo a fama da família Êsther, eu não acreditava que era possível um padrão de beleza ser tão natural, mas olha só para você.

Um arrepio percorreu a espinha de Bóreas e sua consciência ficou completamente atenta com aquele sobrenome. Assustado, encarou de volta aqueles olhos escuros e estreitos, sem marcação de pálpebras, e perguntou baixo, fazendo-se de confuso:

— Q-que conversa é essa? — passou a mão nos cabelos encharcados e não encontrou seu costumeiro gorro, logo um tremor passou por seu corpo, compreendendo que não estava mais camuflado.

Kai riu, ainda agachado perto dele, como se estivesse se divertindo com aquela reação fingida.

— Calma. Não vou usar isso para te fazer mal... Bom, apenas se for necessário.

— Não sei do que está falando.

— Claro que não — disse, irônico, e suspirou, encarando-o mais sério. — Talentos acima da média, cabelos loiros claros platinados, aparência de modelo, físico proporcional e bem desenvolvido sem esforço ou intervenção... Mesmo que esconda, você tem os sinais de ser um legado. Um herdeiro de uma família que cultiva a genética e a cultura por uma razão antiga. As pessoas comuns não percebem esses sutis detalhes, mas... você estava certo quando me encontrou e disse que sou um legado da Ásia. Minha família é uma dessas. Assim como a sua, Lyzei Êsther.

Era como estar em uma sala sem saída e sufocante, diante de Kai e seu olhar fixo que se deliciava em trazer aquilo à tona entre eles. Uma revelação tão pesada que tudo o que acontecia no planeta 49-OS ficou a milhares de quilômetros de distância. Os batimentos de Bóreas ressoavam altos em seu peito dolorido e o ar logo ficou denso demais para seus pulmões. Seu corpo reagiu por instinto, ficando tenso e imóvel, como se, com apenas um movimento a mais, ele fosse ser rasgado em pedaços irreparáveis.

— ... Lyzei? — A expressão de Kai ficou preocupada, franzindo as sobrancelhas escuras enquanto vinha segurá-lo, antes de ele ser engolido pela escuridão de mais um desmaio.

Foram poucos segundos de paz antes de que tudo o que Bóreas era até ali começasse a se romper e afastar definitivamente.

De repente, um líquido viscoso escorria para dentro de sua boca, forçando o rapaz a engolir pela quantidade exagerada. Tossindo e afastando o rosto das mãos que seguravam seu queixo com firmeza, ele despertou por completo.

— Idiota! — foi xingado por Kai, de pé e atrás da mulher soldado, Kitty, que estava bem próxima e segurava o pequeno vidro vitamínico. — Há quanto tempo não come?! É uma exaustão exagerada e muito precoce! Ainda não terminamos o que devemos fazer! Dê as quatro para ele, Kitty.

Ela obedeceu de forma séria, virando mais uma garrafa na boca do navegador e dizendo:

— Garoto, sou uma enfermeira militar e, é sério, quando comeu algo decente?

— Na nave... — Bóreas aproveitou para ter um respiro da bebida espessa como um iogurte.

— Que nave? — Ela estranhou, erguendo a próxima garrafa.

— O meu cargueiro — e, mais alerta, pegou o frasco e deu um gole sozinho. Seu estômago pesava com o líquido e ele nem sentia o gosto daquilo, graças ao ferimento na língua.

— Está falando sério?! — Kai perguntou, descrente. — Já deve fazer vinte e quatro horas que vocês chegaram na base e nem mesmo pensou em consumir algo do kit que recebeu?

Bóreas o encarou sem expressão; agora olhá-lo gerava uma sensação de instabilidade incômoda. Perguntava-se como aquele desconhecido poderia ter descoberto seu passado estando em um planeta tão distante da Terra. Até onde Kai iria manipulá-lo, sabendo daquela informação? E o que exigiria para manter o segredo?

Todos os soldados pararam e, pelas suas expressões, se distraíram com algo que ouviam no ponto de rádio, objeto que Bóreas não tinha mais.

Kai logo ficou mais sério e respondeu:

— Entendido, senhor. Vamos continuar com o plano.

— Levante-se — Kitty segurou Bóreas pelo braço e o colocou de pé. — Depois das injeções que lhe dei e dessas vitaminas, você deve ficar bem por um tempo. E já me desculpe pelo estado de desgaste que você vai ficar depois que o efeito passar, mas é necessário que você reaja e fique acordado agora.

Os outros soldados se aproximaram de Bóreas, ajudando-a a verificar todos os bolsos da roupa suja dele, tirando as armas descarregadas e materiais imprestáveis, substituindo-os por outros.

— Vamos andando! Encontraremos o carro no caminho e sairemos daqui. — Kai segurou o braço de Bóreas e o puxou, iniciando a caminhada. — Lembrem-se, equipe, que esse rapaz é a nossa prioridade do momento.

Bóreas deu um leve tropeço, sem compreender o que estava acontecendo, mas os seguiu. Então recordou o que devia acontecer depois da conclusão da missão de instalação das bombas nos pilares: todos iriam se reunir e subir à superfície para encontrar os sobreviventes civis na velha nave. Depois desses passos, os explosivos poderiam ser ativados.

— Espera! Onde estão os outros? — Bóreas quis saber dos outros trios, preocupado e virando-se para Kai.

— Já foram na frente enquanto você brincava de pega-pega nas vigas da caverna.

— Estou falando sério! — Ele travou seus passos, parando de forma rebelde e com uma sensação ruim se aproximando. — Conte o que está acontecendo.

Kai também ficou irritado ao encará-lo de volta friamente.

Os outros três soldados observaram o loiro e depois o líder, curiosos sobre como as coisas iam se resolver. Eles ainda se lembravam de que Bóreas, o rapaz do qual estavam dependendo, havia causado uma cena inesquecível de covardia no refeitório e tinha uma emocional um pouco sensível.

— Você não tem escolha diante do que vou te informar — o líder disse, incisivo.

Seu tom sério deixou Bóreas nervoso, tremendo rapidamente, mas ele escondeu seu medo crescente atrás de uma expressão igualmente focada.

— Você vai ser o piloto da nossa fuga — Kai revelou.

— Quê?!

— Sendo um navegador com experiência e aprendiz de pilotagem, você se tornou o único entre qualquer um dos nossos sobreviventes com mais capacidade e melhores chances de tirar aquela coisa velha do atoleiro e levá-la para o espaço até que o Comando Central venha nos resgatar.

— Não! O capitão Joaquim Procyon, do cargueiro 089-A17, é quem vai ser o piloto de vocês! Ele sabe o que fazer. Foram vocês que decidiram!

Os soldados moveram-se preocupados e nervosos com a recusa e reação opositora.

Kai puxou Bóreas para a frente, fazendo-o seguir adiante pelo túnel, enquanto explicava:

— Lembra-se da explosão antes da hora dentro da caverna? Do caos de desmoronamentos e a nuvem de poeira? — As memórias passaram pela mente de Bóreas em um segundo, fazendo um sangue frio subir pela espinha e deixando-o preocupado. — Ninguém daquela equipe voltou e seus rádios ficaram mudos. Por isso, acreditamos que seus corpos foram enterrados na caverna e você vai assumir o lugar de Joaquim.

O corpo de Bóreas parou. Sua mente soube o que aquilo significava, mas, ao mesmo tempo, não aceitava. Apavorado, tentou se convencer de que havia entendido errado. Não podia estar ouvindo que a explosão foi causada pela equipe de Joaquim e eles não escaparam.

Kai apertou o braço dele com força e deu-lhe um tranco, para acompanhar a velocidade da caminhada, pois absolutamente todos não tinham mais tempo a perder:

— Nesse momento, nossos esforços e sacrifícios pelos que sobreviveram, toda a nossa esperança, dependem e estão sobre você.

Cambaleando para a lateral do corredor, Bóreas fugiu do soldado e escorou-se na parede com a sensação de que o piso se tornava líquido e gelatinoso. As luzes fixas na parede giravam e se moviam em ondas nauseantes. Até as vozes que tentaram chamá-lo ficaram estranhas, destoando e desafinadas. Naquele momento, o peso de um mundo e muita expectativa caíam sobre seus ombros, enquanto seu coração se esmagava, e seus joelhos cederam.

A situação séria de ser responsável pela vida de tantos desconhecidos foi abafada e trincada quando finalmente percebeu que seu capitão Joaquim não voltaria em nenhum momento. A promessa de se encontrarem novamente havia se tornado vazia e ficaria em aberto pela eternidade.

Com sofrimento, Bóreas entendeu que se tornou o único sobrevivente da tripulação daquele cargueiro simples e aconchegante, onde viveu por quatro anos incríveis. Em poucas horas, cada pessoa daquela família sem laço de sangue foi tirada dele naquele planeta. Era como uma punição cruel do destino pelo terrível pecado de ter fugido de seu berço privilegiado na Terra.

Com a mão dura, fechada firmemente sobre o coração dilacerado, ele sentiu a dor aguda ao redor do anel em sua mão. Ao olhar para o objeto, que prendia a circulação do dedo, o rapaz sufocou-se com mais lembranças. Joaquim era a pessoa que compreendia que Bóreas era naturalmente sensível e pacífico demais para aquela batalha e o ajudou, motivando-o e tirando-o das crises alimentadas pelo medo constante. Sem ele, todos os outros eram estranhos que o julgavam e determinavam que era um incapaz, desde o começo. Aquelas pessoas não reconheceram seu esforço para reagir e ser útil durante aquelas horas. Eles não viram que a coragem dele teve que ser maior que o medo para cumprir a missão dos explosivos. Apenas aqueles que confiaram no potencial de Bóreas viram-no atingir as expectativas impostas com excelência, apesar de não saírem vivos.

— Ei, respira! — e Kai lhe deu um tapa forte no rosto.

Além da pele ardendo, o ferimento do dardo sangrou dentro e fora de sua boca com o golpe, e, de fato, uma inspiração urgente encheu os pulmões de Bóreas de ar, como se ele estivesse se afogando e conseguisse voltar à superfície com o gesto bruto.

— Vamos! — O líder puxou-o e o pôs para cima da caçamba de um jipe, que havia surgido no corredor e estava de frente para o caminho para o qual estavam indo.

— Escute, Bóreas. Todos nós ficamos sem alternativa — Kitty disse, compadecida, sentando-se ao lado dele no estreito banco da traseira do carro enquanto partiam. — Por favor, seja o herói que precisamos e faça-nos ter orgulho de ainda ter você conosco! Pense que todos aqueles que perdemos nessa batalha fariam de tudo para salvar o máximo de pessoas possíveis, se estivessem no seu lugar.

— É o papel perfeito para um Êsther — Kai o encarou audacioso, transmitindo confiança em suas palavras, como se esse detalhe já lhes desse uma chance de vitória. Os outros soldados estranharam o sobrenome, sabiam que era igual ao de uma mulher influente da terra e era bastante inesperado surgir naquela conversa. — É hora de mostrar como as habilidades e talentos herdados de uma família de legados podem realmente ser úteis em uma situação real. Deixe seu capitão Joaquim orgulhoso antes de sair desse planeta.

Bóreas suspirou forte e afundou o rosto nas mãos, ignorando-o. Pressionando-se fisicamente e tomando fôlego, absorvia o incentivo daqueles companheiros desconhecidos e tentava manter o controle de seus pensamentos.

— Nós devíamos ir confirmar... — murmurou, pensando em seu capitão e na caverna bolsão. — Ver se ele sobreviveu entre as pedras — e levantou o rosto para ver Kai.

Apesar da expressão triste, a fala de Bóreas fazia uma tentativa de ter esperança, deixando o líder soldado levemente afetado com empatia.

— A proporção foi grande demais para ter restado algo.

— Talvez eles estivessem longe! — o rapaz se levantou, apesar do veículo em movimento, e imediatamente foi puxado de volta pela mulher ao lado.

— Não tiveram tempo para isso! — rebateu Kai, também segurando a calça do rapaz para o caso de uma nova tentativa de pular do carro. — E tempo é o que nós não temos! Aceite de uma vez, Lyzei Êsther! Qualquer segundo perdido, sem resultado, sem avanço, diminui nossas chances e mais gente vai morrer! Você vai sair daqui e pilotar aquela nave. Sem olhar para trás. Sem travar. Sem pensar em mais nada do seu passado! Entendeu?!

Mais uma vez, seu nome verdadeiro e completo saindo da boca de Kai silenciou tudo, trazendo Bóreas de frente ao passado que ele fez de tudo para enterrar. A identidade esculpida e perfeccionista imposta por aquele sobrenome, em que todos criavam expectativas preliminares, se confrontava com a humilde de Bóreas, que estava fraca após ter perdido tudo que a ancorava, resultando em silêncio e aceitação forçada naquele momento.

— AH! — o outro soldado reagiu espantado, sentado ao lado de Kai. — Você realmente se parece com alguém da família Êsther! Eles são incríveis em tudo que fazem. Estão no meio de vários acontecimentos históricos importantes e na política há muito tempo, não é?

— Talvez isso nos dê sorte! — disse o terceiro soldado, animado e perto do fim da carroceria. — Se é o momento de esse Êsther ter sucesso e marcar a história com algum feito, vai dar tudo certo no final.

Os homens sorriam, esperançosos.

— Lyzei é um nome bonito. Onde já o ouvi? — Kitty se juntou à conversa, tentando lembrar e até encarou Bóreas.

— É o nome técnico de uma estrela que tem luz intensa, mas que não gera radiação ou calor...

— Uma estrela fria? Isso existe?

— Sim. Mas é muito raro achá-las no espaço... E ninguém descobriu como elas brilham sem consumir algo ou causar destruição, então não ficou popular por muito tempo e o nome se tornou esquecível.

Kai permaneceu sem expressar nada com os comentários que distraíam seus colegas da verdadeira batalha, mas, discretamente, observou Bóreas encará-los, visivelmente mais tenso, e depois suspirar, virando o rosto para o outro lado. Pequenos gestos que diziam que, assim como ele, um legado da Ásia, todas as pessoas que ouviam seu nome lhe davam um valor imediato e criavam expectativas apenas por causa do sobrenome da família restrita e do histórico dos antepassados.

Contudo, naquele momento, e apesar de compreender a frustração de Bóreas, era uma vantagem seus soldados de classe baixa pensarem com alguma esperança. Assim, eles ficariam mais confiantes e concentrados para o final do plano dar certo.

...

O túnel largo gradativamente se inclinava em direção à superfície e parecia mais silencioso e frio do que os outros lugares em que Bóreas esteve.

A batalha da superfície ainda chiava e vibrava, fazendo pó cair das rachaduras do teto. O ar estava ficando mais quente e ácido pelo cheiro de fumaça espalhado pelos caminhos dos dutos que não funcionavam. As luzes logo se tornaram mais fracas. Mas nenhuma dessas alterações era sentida pelo jovem navegador.

Sem que percebesse, Bóreas segurou o anel de cisnes de Joaquim, cobrindo-o dos olhares, sentindo o material firme e resistente no dedo macio, girando-o enquanto se concentrava nos quase insignificantes entalhes. Sua mente voltou às cenas dos últimos momentos com seu capitão, memorizando as palavras, o sotaque, o tom de voz, as expressões, cada detalhe daquela última conversa antes que se esquecesse de algo. Ao fazer isso, uma pressão surgiu no seu peito, abrindo lentamente um buraco invisível que começou a roubar seu ar e tudo mais que pudesse. Diante dessa sensação, seu coração não pulsava, não reagia, perdido naquela escuridão densa instalada em seu interior. Aquela sensação não era física.

Muvick e Joaquim passaram anos ensinando tudo de uma vida normal para o novato Bóreas, reabilitando suas emoções exageradas e seus receios que vieram da criação controlada e protetora da classe alta que eles desconheciam. Os dois homens nem sabiam do abismo social entre eles, mas o trataram como um igual até o último momento, sem questionar sobre o passado. Logo, o rapaz sentiu um aperto na garganta ao perceber que não teria a oportunidade de dizer a verdade aos dois e se culpou por esconder e mentir sua verdadeira identidade, mesmo quando eles suspeitaram. Ele, o último sobrevivente do cargueiro, não se sentiu digno da confiança das pessoas, nem no passado e nem no presente.

"Essas sensações e pensamentos estão bloqueando seu potencial gigante." A lembrança da fala de Joaquim soou nítida entre seus pensamentos sufocantes, dissolvendo as emoções que borbulhavam corrosivas. "Mostre-me sua coragem. Seja "O herói" inesquecível dentre todos nós."

Por um momento, Bóreas levantou o olhar e vasculhou ao redor; parecia que seu capitão estava ali, mas não o encontrou. Seus olhos azuis e úmidos pelas lágrimas contidas encontraram os de Kai, que o observava de volta sem dizer nada e atento a qualquer sinal de uma crise. O loiro desviou o rosto, envergonhado.

O motor do jeep rugia alto. O vento do movimento passava pelos passageiros, gerando um chiado em seus ouvidos, junto ao som ritmado do atrito das rodas no piso. Mas, por trás de tudo isso, havia um som que sinalizava ameaça, e apenas aquele que sobreviveu ao confronto pessoal com os inimigos de fora do planeta poderia reconhecer.

Kai estranhou ser encarado de súbito, assistiu à mudança da expressão de Bóreas para uma atenta e preocupada.

— Eles estão aqui — o navegador avisou friamente e, em seguida, as luzes apagaram.

O pequeno grupo permaneceu em um silêncio tenso, mesmo quando o motorista acendeu os faróis, trazendo luminosidade, e o rádio, cheio de interferência no ouvido de Kai, confirmou que a energia do setor onde estavam havia sido cortada.

Era como se o show do subsolo estivesse se encerrando naqueles próximos minutos, ao som de

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.