Auror

11 Sussurrador


Notas iniciais
Oi, pessoal! Perdão pela demora em postar esse capítulo. Muita coisa diferente aconteceu comigo nesses últimos dias. Dessa vez, mesmo que o capítulo possa ter ficado ligeiramente maior que os outros, decidi não separar pra tentar não fragmentar tanto a história! De certa forma, existem "três capítulos" dentro desse aqui. Boa leitura!

O homem negro caminhava impaciente de um lado para o outro da sala de reuniões do D.E.L.M. com todos os aurores disponíveis que ele possuía. Os músculos de seu corpo estavam notoriamente tensos, visto a protuberância de cada um deles na blusa de botões e calça de linho, ambos extremamente justos. O suspensório estava caído, de lado, e ele parecia não se importar muito com nada daquilo. Seu olhar estava compenetrado, acompanhando o ritmo de suas fortes pisadas sobre o chão escuro daquele ambiente. Um bruxo meio loiro o acompanhava com o olhar, sentado no canto da mesa.

Granger parecia tão tensa quanto o outro. Estava sentada na cabeceira da grande mesa e fitava uma pena flutuante sobre um pedaço de papel à sua frente. Os cabelos presos em um coque, apesar de tantas horas ali, ainda pareciam impecáveis e ainda lhe forneciam algum ar de elegância. Discretamente, ela olhou para a Weasley, que não percebeu, com o olhar completamente perdido em algum lugar.

Ninguém falava nada.

— Já fazem dois – disse Morris, pausando para enfatizar – dois dias que temos um de nossos aurores sequestrados por um dos mais perigosos e procurados foragidos – ele parou de andar e apoiou ambas as mãos entre dois outros bruxos que também estavam presentes. Antes de prosseguir, suspirou – Ninguém conseguiu informação nenhuma, sobre absolutamente NADA!

— Senhorita Weasley – iniciou Hermione, pigarreando – você pode repetir, mais uma vez, como tudo aconteceu? Será que o senhor Potter não lhe disse nada que pudesse ajudar a encontrar seu paradeiro?

A ruiva se endireitou na cadeira. Estava exausta. Não dormia há praticamente quarenta e oito horas. Sentia um enorme pesar por tudo aquilo que estava acontecendo, afinal de contas, havia falhado miseravelmente em proteger o seu parceiro. Àquela altura, Harry poderia estar até mesmo morto. Mesmo que todos estivessem sob a tutela de Benjamin naquela missão, o grifinório havia solicitado a ela, de forma direta, que o cobrisse para que executasse a captura do antigo loiro.

Gina apoiou as duas mãos sobre a mesa, à sua frente e concentrou o olhar sobre as mesmas. Pareceu forçar a mente um pouco, arfou e finalmente começou:

— Foi como eu disse – ela gesticulou – tudo o que ele sabia, ele havia compartilhado conosco para que pudéssemos planejar a captura do Malfoy – ela pausou, constrangida por ser obrigada a repetir a sua falha em voz alta pela milésima vez. – Nós vimos o Draco rastejando ao lado de uma mesa próxima à nossa. Ele ia fugir, mas a chave de portal foi atingida por um feitiço que a fez voar para o outro lado. – Ela pausou novamente, dessa vez ficando com as alvas bochechas ruborizadas. Sentia raiva de si mesma por ter deixado que ele fosse. – Então, ele decidiu se arrastar na direção pra onde a lata havia ido. Harry quis alcança-lo. Eu disse para que não fizesse isso – ela mudou a entonação para algo mais incisivo – mas ele não me ouviu. Insistiu e me pediu cobertura no meio de toda aquela confusão. Quando ele estava prestes a imobilizá-lo, foi atingido por um feitiço ricocheteante. – Ela bateu na mesa, irritada. – Me lançaram um expelliarmus neste exato instante. Antes que eu pudesse pensar em recuperar a minha varinha caída, Draco alcançou a lata e fugiu com o Harry caído por cima dele. – Sua postura relaxou novamente. – O resto vocês sabem... Demorou um pouco até conseguirmos conter os bruxos que estavam lá e, quando conseguimos sair, nem Draco e nem Harry estavam no armazém abandonado.

Concluiu com mais um suspiro. Sua derrota estava estampada.

Todos repassaram mentalmente tudo o que a mulher havia dito. Era visível o esforço de cada um para pegar, na menor das minúcias, alguma informação ou lembrança que pudesse dar alguma orientação sobre onde Potter poderia estar.

— Charles – disse Granger, olhando para o bruxo loiro no canto da mesa que ainda encarava os movimentos de seu superior – você e o sr. Yurble conseguiram alguma informação sobre o tal “duende”?

— Nada ainda, senhorita Granger – respondeu o auror – aparentemente nenhum lojista próximo sabia do bar, ou pelo menos não queria se comprometer com alguma informação.

— Senhorita Ministra – interrompeu Morris – eu acho que precisamos informar sobre o novo protocolo que precisaremos assumir para essa missão.

As têmporas de Hermione latejavam. Ela parecia definitivamente incomodada com o que quer que fosse aquele “novo protocolo”.

— Benjamin – pigarreou, nervosa – talvez devêssemos pensar em outros modos mais efetivos de...

— Senhorita Ministra – interrompeu, novamente – sabe que é protocolo próprio e antigo do Ministério da Magia. A situação é tão grave tal qual foi na época da Segunda Grande Guerra Bruxa.

Hesitante, ela assentiu com a cabeça. Estava muito contrariada com aquela ideia.

— Por favor, senhor Morris, apresente o novo protocolo para nossos aurores – ela apoiou os cotovelos sobre a mesa e apoiou a testa sobre os dedos, como se tentasse esconder sua feição de todos ali. Era um claro sinal de exaustão.

— Aurores – disse Ben, sacando sua varinha e apontando para uma pilha de pergaminhos em uma outra mesa e fazendo-os irem até a mesa de reuniões – como vocês bem sabem, o trabalho dos aurores durante a época de Voldemort fora extremamente difícil. Dessa forma, muitas decisões complexas precisaram ser tomadas.

Todos puderam alcançar pelo menos um dos pergaminhos colocados ali.

— Como precisaram estudar muito para poderem ocupar estas cadeiras, imagino que saibam que os aurores, todos funcionários do D.E.L.M e, por consequência, do Ministério da Magia, tiveram autorizações especiais durante a captura de Comensais de Morte.

Hermione ainda parecia muito incomodada com tudo aquilo que estava acontecendo na sala. Benjamin estava prestes a garantir que os aurores pudessem realizar práticas que ela lutava há anos para tentar banir do Ministério.

— Portanto, senhores aurores, para que a nossa aquisição de informações e recuperação do nosso auror sumido sejam mais eficientes, todos estão autorizados a conjurar algumas das magias proibidas.

Todos se entreolharam muito assustados. Fazia parte do escopo de conteúdos dos estudos de preparação para auror como foi o seu papel na guerra bruxa, mas aquilo parecia muito distante. Nem de longe aquela situação parecia ser crítica o suficiente para que essa decisão pudesse ser tomada... mas era real. Um Comensal estava à solta. Na verdade, dois deles. Em sua posse, um dos mais estimados bruxos da comunidade e, além disso, um funcionário do Ministério. Ainda que não parecesse tão grave, era tão grave. Cada segundo que se passava era uma chance a menos de encontrar Harry Potter vivo.

— Gostaria de enfatizar que não é qualquer magia proibida que poderá ser executada – reiniciou Hermione, parecendo recuperar a postura — vocês precisam, antes de tudo, assinar esses termos de responsabilidade que estão à frente de vocês. Com apenas um toque da sua varinha, juram, para o Ministério, que utilizarão apenas a maldição Cruciato e o encantamento Sectumsempra. Ambos em caso de extrema necessidade.

Hermione realizou um movimento circular com a sua varinha e os pergaminhos se abriram, flutuantes, na frente de cada auror ali.

— Preciso reforçar que são somente essas duas magias. Qualquer coisa fora disso, ainda é crime. Logo, seu praticante ganhará uma passagem só de ida para Azkaban, a despeito de ser auror, comensal, estudante, hipogrifo, elfo ou qualquer coisa.

Gina Weasley ergueu a sua varinha e parecia ser a primeira a ter coragem de assinar sua marca mágica no pergaminho. Ela iniciou o movimento, mas parou alguns centímetros antes de finalizá-lo. Ela olhou para Hermione.

— O que esse termo de responsabilidade garante? – indagou.

— Ele garante que, caso alguém quebre a promessa de usar apenas aquelas duas magias – suspirou – a varinha transporte o bruxo diretamente para um de nossas celas aqui, até o julgamento. Ela também se quebra, logo após isso.

— Parece sério – comentou Gina.

— E é muito sério – respondeu Hermione, com a expressão gélida.

A mão da ruiva avançou na direção do papel e a ponta de sua varinha tocou o instrumento mágico. Nesse momento, uma luz surgiu na ponta do instrumento, que em seguida pareceu ter passado por todo o pergaminho, formando, por fim, seu nome: “Ginevra Molly Weasley”. Um brilho vermelho percorreu a varinha da extremidade em contato com o papel até a mão da bruxa, acabando em uma forma de corda amarrada em seu pulso e desaparecendo alguns segundos depois. Parecia alguma espécie de Voto Perpétuo.

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[Harry]

Apesar de parecer extremamente convicto do que iria fazer, na realidade, eu não tinha traçado muito bem um plano que pudesse ajudar Narcissa Malfoy. Havia muita coisa acontecendo e muita informação para se processada por mim e para todos os que estavam envolvidos nisso – direta ou indiretamente.

Draco estava muito diferente do que eu conhecia há dez anos. De maneira suficientemente clara, eu tinha plena noção de que ele não representava nenhum risco à comunidade bruxa. Era visível que ele já estava cansado dessa brincadeira de gato e rato com o Ministério que fora submetido por causa das coisas que o seu pai o obrigou a fazer. Narcissa, por outro lado, ainda aparenta certo desconforto com a minha presença. Não sei se é culpa da situação em que acabamos nos “reencontrando” ou algum medo por estar excessivamente frágil nesse momento.

De qualquer forma, esses pensamentos, agora, serviriam apenas a mim. Eu precisava determinar logo o que faria, com quem falaria e como faria tudo isso sem provocar um enorme estardalhaço.

Primeiro: nenhum funcionário do D.E.L.M. pode saber que estou livre por agora.

Caso eu seja visto, farão de tudo para descobrir como eu “fugi” do cativeiro e tentarão usar até mesmo de força bruta para retirar alguma informação de mim. Se eu me negar a ajudar, podem até mesmo me acusar de estar mancomunado com feiticeiros das trevas. Passagem direta para Azkaban sem questionamento. Tenho certeza que Morris não medirá esforços para pegar o Draco sem sequer ouvir sobre a sua mãe.

Segundo: Narcissa Malfoy precisa de ajuda médica.

Preciso encontrar uma maneira de fazê-la encontrar um medibruxo, ou pelo menos levar algum até ela. Quem? Como? É complicado querer pedir a um médico qualquer que viaje comigo até uma floresta estranha para atender alguém que não posso dizer quem é. E se ele decidir correr para o ministério e dar com a língua nos dentes?

Terceiro: Certamente, não vou conseguir fazer tudo isso sozinho.

Vai ser necessária muita ajuda pra dar conta disso tudo. Arranjar ajuda médica, esconder-me do ministério... Ron?

Hermione...?

Não gostaria de coloca-la nessa situação. Ela trabalhou duro durante tantos anos para conseguir assumir esse cargo de ministra do D.E.L.M. que seria completamente injusto pedir-lhe que fosse contra a instituição que gere. Eu sei que ela me ajudaria, mas a qual custo? Não me perdoaria nunca se alguma coisa desse errado e sua brilhante carreira fosse varrida para baixo do tapete de maneira abrupta.

Eu tinha poucas opções e precisaria colocar tudo em risco para tentar.

Respirei fundo e olhei para cima. A copa das árvores servia como um escudo que impedia que grande parte dos raios de sol chegassem de maneira suficiente até o solo. Estava frio. Virei-me para trás e a velha barraca de lona amarela parecia esquecida e completamente camuflada nos arbustos amarelados e folhas secas caídas pelo chão.

Ajeitei a capa no corpo e atritei minhas duas mãos, soprando um bafo quente nas duas ao mesmo tempo. Deslizei a mão pela lateral do meu corpo até alcançar a minha varinha e desaparatar.

Consegui aparecer bem no meio do meu quarto na casa dos Black. Meu quarto parecia intocado. Permanecia do mesmo jeito que eu o havia deixado há dois dias, antes de ser sequestrado e passar por tudo aquilo. Tirei a capa e deixei-a sobre a cadeira de madeira da escrivaninha clássica que eu possuía. Caminhei até a porta do quarto e abri-a lentamente, esforçando-me para não permiti-la ranger e continuar desapercebido. Pela pequena fresta formada, tentei ouvir algum barulho. Qualquer som que pudesse indicar que havia alguém em casa.

Nada.

Caminhei até o quarto de Hermione. Vazio. Provavelmente estava no trabalho. Talvez não tivesse nem voltado em casa depois do meu sumiço. Caminhei até o quarto onde Gina estava hospedada desde o dia da missão e abri a porta. Nada também.

Gina. Assim como eu, alguém que estudou muito para poder estar onde está. Uma mulher muito forte. Deveria estar sofrendo muito com tudo o que estava acontecendo. Era possível imaginar a sua culpa por ter deixado que Draco me levasse com ele.

Deslizei a mão pela maçaneta e comecei a fechar a porta. Gostaria muito de poder falar com ela e dizer que estava bem.

Talvez eu pudesse.

Parei de executar o movimento e, de repente, fui tomado por uma lembrança de algumas semanas atrás.

“- Harry, eu estive pensando sobre tudo isso e... – a ruiva iniciou sua fala, sem me olhar de maneira direta.

— Você não sabe se isso é o correto – interrompi-a e dei um longo suspirou após me ajeitar na cadeira de madeira escura. – Eles não sabem de muita coisa que aconteceu por baixo dos panos, Gina – bati com a varinha em uma das pastas e fiz com que as fotos de Lucius se espalhassem pela mesa – nós sabemos que ele foi o culpado por toda a lástima da família Malfoy e ele já está preso.

— Sim, mas também pensei na memória de Moody, Tonks... e todos os outros aurores que morreram por causa de Voldemort. Não sei se seria justo com eles a gente deixar passar esse tipo de erro – seu olhar parecia perdido nas imagens de Lucius sendo recebido em Azkaban.

— E o que você sugere? – indaguei-a.

— Vamos atrás do Draco e da Narcissa. Vamos tentar nos aproximar e observá-los de longe. Sei lá, tentar determinar de ainda representam algum tipo de perigo.”

Ela foi hesitante no começo. Assim como eu. No fundo, Gina também estava um pouco incomodada com o que nos fora designado. Tudo bem, visivelmente Hermione também estava, mas... Não sei, algo me dizia que Gina poderia ajudar. De alguma forma. Ela estaria menos suscetível a pressões do trabalho.

Foi aí que tive uma ideia.

Ao contrário do que sua família estava acostumada, ao invés de mandar um Berrador, decidi deixar um Sussurrador embaixo de seu travesseiro. O princípio de funcionamento era basicamente o mesmo: uma carta que pudesse ser ouvida. A principal diferença é que, na segunda, diante da presença do destinatário, a carta diminui a um tamanho praticamente invisível e sussurra a mensagem diretamente no seu canal auditivo. A autenticidade da mensagem poderia ser garantida pela minha voz. Eu só precisaria ser claro e persuasivo o suficiente na mensagem. Ela precisaria acreditar em mim.

“Gina, aqui é o Harry. Não! Não chame ninguém ainda. Preciso falar com você de maneira isolada antes de qualquer coisa. Primeiro, gostaria que soubesse que estou bem. Você não precisa se preocupar com a minha saúde. Contudo, ninguém pode saber ainda que eu estou livre. Não tenho como explicar agora, mas... O Draco está com um problema muito sério e nós precisamos ajudar. Você me conhece e sabe que eu não estaria te dizendo isso se não tivesse certeza de que isso é o correto a se fazer. Eu não posso contar com mais ninguém pra isso. Gostaria de te encontrar para te mostrar sobre o que eu estou falando. No meu quarto, na cabeceira da cama, haverá uma xícara vazia de chá, que será uma chave de portal, para que nos encontremos no momento em que você ouvir isso. Não se preocupe, vou saber quando esse Sussurrador for aberto.

Ah, e por favor, não conte para ninguém e vá sozinha. Preciso que confie em mim.”

Aquilo teria que ser suficiente para que ela fosse ao meu encontro. Precisaria providenciar a chave de portal, arrumar algumas coisas rapidamente e sair logo dali.

Aproveitei aquele momento, depois que arrumei a chave de portal, para tomar um banho rápido, aparar e barba e separar uma trouxa de roupas limpas para mim e algumas que pudessem ser úteis e servir no Draco. Já que ainda não tinha como ajuda-lo de uma maneira mais efetiva, imaginava que aquilo poderia ser um começo. Além do mais, sabia que as chances de alguém aparecer naquele horário ali eram remotas, apesar de existirem.

De posse de tudo que separei para levar, testei a xícara e parei exatamente a cem metros da barraca, que ficava perfeitamente disfarçada na vegetação.

Entrei pela diminuta entrada desbotada e apareci de frente à porta da velha cabana. Bati na porta algumas vezes, até ver vários feitiços sendo retirados da mesma. Quando a porta se abriu, Draco estava com sua varinha apontada exatamente na direção da minha cicatriz.

Larguei a muda de roupas no chão e levantei as mãos em sinal de paz.

— Estou sozinho.

Ele pareceu olhar atrás de mim. Depois disso, ainda analisou-me de cima à baixo por alguns segundos. Não demorou até que seu braço relaxasse.

— Potter – cumprimentou-me, virando-se para a direção do quarto.

— Malfoy – respondi de maneira automática, pegando a trouxinha do chão e entrando pela porta.

— Conseguiu alguma coisa? – perguntou, olhando-me por cima do ombro.

— Draco, nossa situação é um pouco complicada – lancei, tentando não demonstrar a preocupação pelo meu olhar – eu já tentei fazer algum contato. Preciso esperar o retorno. Ninguém pode saber que estou solto.

— Então você não conseguiu nem mais veneno de fada mordente? – questionou, já com a mão na maçaneta do quarto.

— A porta – falei.

Ele não girou a mão.

— O que tem a porta?

— Você não... encantou – conclui.

— Ah – murmurou, virando-se na direção da porta e indo até a mesma, passando por mim se parecer se importar muito.

Sua expressão ainda era completamente tensa. Narcissa não deveria ter melhorado em absolutamente nada desde que eu saira há algumas horas.

Ele se virou para mim e comentou, me olhando novamente de cima a baixo.

— Você se arrumou. Pelo menos isso você teve como fazer, né? – ele cruzou os braços.

— Não seja irônico. Se eu não fosse te ajudar nem teria voltado aqui. Ou até poderia ter voltado... com aurores.

— Eu suponho que deveria te agradecer, então – deu uma risada irônica praticamente imperceptível pela face rígida. – Está de mudança pra cá? – apontou para a muda na minha mão.

Lembrei-me da muda.

— Toma – estendi a mão, entregando para ele – eu sei que não é muita coisa e provavelmente não é o que você mais precisa agora. Separei algumas roupas que podem servir em você. Suas roupas parecem... – comecei a gaguejar, receoso em ofendê-lo de alguma forma.

— Velhas – ele me interrompeu – pode falar. Eu sei – ele estendeu o braço e pegou a sacolinha com as roupas, olhando-as por alto. – Nunca imaginei que, eu, Draco Malfoy, estaria recebendo uma doação de roupas do testa rachada que morava no armário de vassouras debaixo da escada.

Novamente ele deu uma risada irônica. Desta vez, ela pareceu durar um pouco mais enquanto analisava as roupas. A risada durou até que nosso olhar se encontrasse novamente. As nuvens cinzentas de um dia chuvoso de seus olhos congelaram em mim e travaram.

— Obrigado, Potter – sussurrou, colocando a roupa de lado – Desculpa se às vezes eu pareço arrogante. Eu ainda não estou acostumado com toda essa coisa de ter ajuda, amigos... Bem, vivo assim há dez anos – gesticulou com as mãos ao redor.

— Não precisa agradecer – respondi, tentando fazer aquilo menos importante do que realmente era – eu preciso ficar atento porque a qualquer momento nossa ajuda pode aparecer.

— Com quem você falou, exatamente? – ele colocou a trouxa sobre uma das poltronas empoeiradas ali perto.

— Pra que você entenda, vou te resumir a história – caminhei até o sofá e me sentei sobre ele – eu e Gina éramos uma dupla de aurores. Fomos encarregados de caçar você e sua mãe. No começo, nenhum de nós estava muito à vontade com essa ideia.

Percebi seus músculos travarem. Ele parecia surpreso com o que acabara de ouvir. Eu vi seu esforço para soltar algum comentário sarcástico, mas ele simplesmente não conseguia. O sonserino mal abria a boca. Decidi continuar.

— Mandei uma mensagem para ela me encontrar perto da barraca amarela assim que recebesse-a. Ela é a minha única esperança de conseguir ajudar a sua mãe de alguma forma.

— E se ela não quiser ajudar...? – ele parecia preocupado agora.

— Não pensei nisso porque acho que não será necessário – tentei transparecer alguma segurança – ela conhece muita gente... Vai saber de alguma coisa que ajude. Ela vai saber o que é o certo a se fazer.

Ele deu de ombros e voltou a seguir para o quarto.

— Não tenho outra opção... Agora, se me dá licença, preciso tentar ver se ainda tenho algum resto de destilado de veneno de fada mordente para deixar a minha mãe viva.

Olhei-o pesaroso. Estava de mãos completamente atadas naquele momento. Precisava que Gina aparecesse logo.

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Já era fim da tarde e eu sol começara a se por. Havia visitado Narcissa na cama do quarto e sua aparência era cada vez mais cadavérica e gélida. Eu sabia que se não agíssemos logo, ela estaria morta em pouco tempo. A ansiedade só aumentava e eu podia sentir de maneira clara cada veia e artéria pulsante pelo meu corpo com todo o estresse ao qual estava submetido.

Estava olhando a vegetação pela janela da sala de estar, na parede oposta à lareira, quando um pássaro de papel voou do bolso da minha calça até a altura dos meus olhos e se abriu, mostrando a seguinte inscrição: “A srta. Weasley recebeu a sua mensagem.”

No mesmo instante, corri para o quarto e anunciei:

— Ela está a caminho. Preciso que desfaça os encantamentos de proteção.

— Potter... Espero que não decepcione – ele disse, fitando-me sério. Movimentou a varinha e de repente toda a casa parecia ter sido retirada de vários encantamentos.

Assenti e sai diretamente pela porta. Caminhei alguns metros e esperei que ela aparecesse.

Alguns poucos minutos depois, Gina aparecera no meio da floresta que já estava mais escura que o resto dos lugares àquela hora.

Assim que me viu, a bruxa correu na minha direção e abraçou-me forte. Acho que a última vez que sentira aquele abraço da Gina havia sido quando nos encontramos depois da Segunda Grande Guerra. Percebi lágrimas deslizarem pelas suas bochechas e molharem a minha blusa.

— Você está bem! – gritou – Eu achei que estivesse morto. Eu achei que a culpa fosse minha!

Retribui o seu abraço e confortei-a no meu peito. Sentia-me feliz por saber que havia cessado sua preocupação naquele momento.

— Gina – chamei-a, separando nosso abraço de maneira delicada – eu posso te explicar tudo com calma depois. Precisamos agir agora.

Ela assentiu, limpando as lágrimas do rosto. Acenei com a cabeça para que ela me seguisse. Demos alguns passos até entramos pela lona velha. Não demorou até que estivéssemos dentro da casa, no quarto.

Gina e Draco trocaram olhares curiosos. Ambos pareciam extremamente confusos com o que estava acontecendo e se de fato, poderiam confiar um no outro.

Aproximei-me da cama e puxei-a pela mão, trazendo-a para próximo de Narcissa.

— Ela está...?

— Não – interrompi, já sabendo o que queria saber – mas corre o risco. Não sabemos o que ela tem. Parece grave. Precisamos de um medibruxo que se disponha a ajudar essa situação... diferente.

— Sei que nunca fomos muito amigos – comentou o Malfoy – mas Potter disse que você poderia ajudar. Disse que você conhece muita gente... Ah! Eu odeio parecer um pedinte. Mas, por favor... Ajude a minha mãe.

— Tudo bem, tudo bem. Se o Harry quer te ajudar, é porque deve haver um motivo muito bom pra isso – ela respondeu, encarando-me, dando a entender que eu havia conquistado seu voto de confiança.

Em seguida, ela fechou os olhos e massageou as têmporas. Após alguns instantes, abriu os olhos e intercalou o olhar entre nós dois.

— Eu acho que sei quem pode nos ajudar. Existe uma pessoa com conhecimento medibruxo e louca o suficiente para nos ajudar agora. Vou dar um jeito de trazê-la aqui.

Dizendo isso, virou-se de costas e saiu sem dar mais qualquer explicação sobre o que aconteceria.

Notas finais
Eu meio que juntei um conteúdo pra esse capítulo que seria passível de ser fragmentado em até três capítulos, mas achei que isso daria uma sensação de que a história estaria se "arrastando" um pouco, porque demoraria alguns capítulos para que alguma coisa mais emocionante acontecesse. O que vocês preferem? O tamanho dos capítulos está bom? Preferem que eu fragmente um pouco mais?