Notas iniciais
Espero que estejam gostando! Vocês quase não dão retorno e isso é um pouco desanimador, por isso a demora em escrever. Fico um pouco desmotivado e demoro um pouquinho mais para escrever :( De qualquer forma, obrigado a todos que acompanham a história, mesmo os fantasminhas :P Boa leitura!

[Harry]

Apesar das inúmeras coisas que tinham acontecido naquela noite, achamos prudente ir atrás de Hermione mesmo que fosse tarde. Ademais poderia até mesmo ser mais adequado, pois tínhamos certeza que ela estaria em casa e que o risco de sermos pegos por outra pessoa do ministério seria menor.

Aparatamos diretamente no quarto onde Gina estava hospedada e decidimos que o melhor a se fazer seria que ela acordasse a cunhada, a preparasse e a trouxesse até mim, para evitar um susto maior do que o que naturalmente teria quando me visse ali.

Eu me sentei na cama do quarto e voltei a pensar sobre tudo o que estava acontecendo comigo em um espaço tão pequeno de tempo. Havia me tornado auror, a profissão que por tanto tempo estudei e ansiei. Consegui. Minha primeira missão fora ir atrás de Draco Malfoy. Depois de semanas de árduo trabalho, encontro-o. Batalho com inúmeros bruxos das trevas. Sou sequestrado. Narcisa Malfoy está doente. De repente não sou mais prisioneiro, pelo contrário, estou ajudando a pessoa a qual fui ordenado a capturar. Pra finalizar, eu beijei a pessoa que eu deveria ter levado pra Azkaban há alguns dias.

Nós não falamos sobre o que aconteceu perto da mesa de jantar em nenhum momento depois do ocorrido. Isto é, se de fato existe alguma coisa que precisa ser conversada sobre isso. Eu percebi que ele estava completamente desconfortável com tudo aquilo e preferi manter tudo baixo. Foi só um beijo... Apesar de quase não ter sido exatamente só um beijo, não passou disso. Me sentia estranhamente confortável com aquela situação. Pra mim não passava de duas pessoas que responderam de uma maneira pouco típica a uma situação de estresse extremo.

Provavelmente aquilo não voltaria a acontecer e não teríamos a necessidade de falar nada sobre isso.

A porta do quarto se abriu de uma vez. Quando me dei por mim, Hermione vinha a mil por hora na minha direção e se jogou por cima de mim. Por causa da força com a qual se jogou em mim, caímos os dois para trás, na cama. Ela me apertava forte contra seu corpo. Eu sentia que, abafada pelo meu ombro, ela chorava baixinho. Correspondi e apertei-a contra mim com intensidade.

Naquele momento fui tomado pelo sentimento de culpa de uma forma completamente avassaladora. Eu sabia que estava causando sofrimento não somente a ela, mas a todos que gostavam e se preocupavam comigo de alguma forma. O D.E.L.M deveria estar uma loucura àquela altura! Quase uma semana inteira desaparecido e supostamente nas mãos de um ex-comensal da morte... Um prato cheio para todos os tipos de teorias da conspiração das mais mórbidas.

Ela se desvencilhou do abraço, saindo de cima de mim e ficando de pé na frente da cama, olhando eu me recompor. Hermione me examinava de cima a baixo, como se tentasse processar toda a informação que estava recebendo naquele momento.

— Como... Como... Como a Gina achou você? O que aconteceu? – perguntou, limpando as lágrimas do rosto e com a voz ainda bastante trêmula.

Enquanto procurava na minha cabeça a melhor combinação de palavras para responder àquela pergunta, percebi o vislumbre de outra pessoa, ao lado de Gina, se aproximando de mim.

Era Ron. Com sua característica expressão atônita, ele se aproximou e se sentou ao meu lado. Ele também me olhava como se estivesse vendo um fantasma à sua frente. Ele passou o braço pelo meu pescoço e me envolve num abraço meio torto. Não foi necessário que dissesse nada. Eu sabia muito bem que ele também estava preocupado e demonstrava certo alívio em me ver ali, bem, mesmo que fosse de uma maneira completamente inesperada.

— É uma história complicada – iniciei, ainda tentando pensar por onde seria melhor começar – mas eu preciso primeiramente que vocês saibam que eu estou bem. Não aconteceu nada de ruim comigo. Preciso que me ouçam antes de pensar em comunicar qualquer outra pessoa sobre eu ter aparecido.

O Weasley me soltou e ficou ao lado de sua namorada, abraçando-a como uma forma de tentar confortá-la. Ambos assentiram e sinalizaram para que eu prosseguisse com o meu discurso.

— Quando o maldito duende disparou o duelo entre todos os bruxos que estavam naquele bar do armazém, percebi que Draco estava tentando fugir. Pedi para Gina me dar cobertura enquanto tentava alcança-lo – eu olhei para ela, na tentativa de pedir para que não se culpasse novamente. – Ela insistiu para que eu não fosse, mas eu fui irredutível e fui atrás dele. Quando estava prestes a pegá-lo, fui atingido por um feitiço ricocheteante e caí duro em cima dele.

Granger levou uma das mãos sobre a boca, que já estava aberta em sinal de surpresa com a história.

— E aí que as coisas começaram a ficar... complicadas. Eu estava diferente porque havia tomado a poção polissuco, não é? Pois bem, Draco não sabia que eu era eu – levantei-me e me pus à frente dos dois – tudo o que eu vou falar daqui pra frente pode sobrecarregar um pouco a cabeça de vocês – sinalizei para a cama – é melhor que vocês fiquem sentados para ouvir o resto da história.

— Ele tem razão – proferiu Gina, que ainda estava próxima a porta e somente observava tudo aquilo acontecer.

Os dois se sentaram sem dizer absolutamente nada. Talvez realmente não tivessem nada a dizer.

— Bem... Draco sabia que eu poderia morrer se ficasse ali. Ele me levou para onde ele estava escondido. Ele sabia que estava levando um auror para casa, mas não sabia que era eu. Por mais absurdo que isso possa parecer, ele fez isso para me ajudar.

— Espera – interrompeu-me Ron – você está me dizendo que Draco Malfoy, foragido há cerca de dez anos por ser comensal da morte, aquele garoto insuportável com o qual estudamos, te ajudou porque ficou “com pena” de deixar um auror que queria leva-lo para AZKABAN morrer?

Esperei por uns cinco segundos.

— Sim.

— Tudo bem, pode continuar. É realmente muita informação pra processar mesmo – finalizou Ron, ainda mais pálido.

— E é aí que as coisas começam a ficar realmente diferentes. Quando acordei, um ou dois dias depois, a poção já havia perdido o efeito e, obviamente, ele já sabia que eu era Harry Potter. Resumo da ópera: começamos a conversar e, quando dei por mim, eu não era mais um prisioneiro. Ele pediu minha ajuda. Narcisa estava... Na verdade, ainda está, muito doente. Quer dizer, achávamos que ela estava doente, agora sabemos que ela está amaldiçoada... Enfim, conversamos muito. Sobre muita coisa. Sobre esse tempo todo.

Suspirei, passando a mão pelo rosto e tentando recuperar o fôlego para continuar a contar tudo o que havia acontecido, além de dar mais algum tempo para que o casal digerisse toda a informação.

— Hermione, eu preciso te pedir desculpas. Eu não sabia como ajudar e precisava da ajuda de mais alguém. Gina foi a primeira pessoa, depois de você, que passou pela minha cabeça. Não achei justo colocar a sua carreira tão brilhante em xeque por algo que você não tinha nada a ver. Foi aí que decidi procura-la. Ela também ficou meio receosa com tudo o que contei pra ela. Depois ela viu que era tudo verdade e que o Draco, de fato, havia mudado muito. Chamamos outra pessoa... A Luna é medibruxa no St. Mungus. Ela foi até lá, examinou a Narcisa e descobriu que na verdade ela não estava doente, estava sob o efeito de uma maldição que literalmente suga a vida dela aos poucos.

A ministra colocou o polegar e o indicador sobre a ponte do nariz, com o cenho franzido e respirou fundo, como se procurasse alguma força interior para me responder.

— Harry... – ela iniciou, mas pausou, dando um novo suspiro – eu me pergunto do que serviram todos esses quase vinte anos que temos de amizade. Você não me conhece mesmo – ela desceu a mão, olhou para mim e se levantou, se aproximando de mim. – De certa forma, fico tocada por ter pensado em mim – ela sorriu e, em seguida, me deu um empurrão com as duas mãos – MAS VOCÊ DEVERIA SABER – retomou, gritando – O TAMANHO DO DESESPERO QUE ME DEIXOU TODOS ESSES DIAS! Eu achei que você estava morto! – ela começou a bater no meu peito – morto! – e batia mais, chorando – morto!

Abracei-a, enquanto permiti com que chorasse sobre o meu peito.

— Você não tem ideia do inferno que está aquele ministério por sua causa – disse, de maneira abafada. – Você deveria ter me procurado. Você é praticamente meu irmão. Esse cargo não vale nada se eu não tiver vocês ao meu lado. Harry, você, mais do que ninguém, deveria saber que eu estaria do seu lado e acreditaria em tudo o que você me contou.

— Realmente, Harry, a gente não dormia há dias, preocupados com você... – concordou Ron.

— Eu sei que fui idiota. Deveria ter ido atrás de vocês antes de qualquer coisa, pelo menos para dizer que estava bem.

— E por que você está nos contando tudo isso só agora? – indagou Granger, desvencilhando-se de mim. – Alguma coisa mais séria deve ter acontecido.

— Pois é – retomei, ainda sem jeito pela bronca – desde que Lucius foi preso, Narcisa Malfoy vinha apresentando fraqueza, tontura, desmaios... Eles foram piorando com o tempo. É por isso que o Draco estava comprando destilado de veneno de fada mordente. Ele estava preparando Vitalum Vitalis, pois não sabia o que ela tinha e não tinha como ir atrás de assistência medibruxa visto que ambos eram foragidos... Quando Luna foi até lá, ela examinou a Narcisa e descobriu que ela está sob o efeito da maldição Elum.

— E vocês precisam do Lucius para quebra-la – completou Hermione com sagacidade.

— Exatamente – ratifiquei.

— Por Merlin! Como você sabia disso? – perguntou Ron com espanto.

— Eu não cheguei nesse cargo à toa não, Ronny. Precisei estudar muito sobre magia negra – respondeu a namorada – Elum é uma maldição que vincula o núcleo mágico de um bruxo a outro, sem autorização. É como se sugasse a vitalidade dele para si. Somente o bruxo que realizou a maldição consegue quebra-la, ou o objeto com o qual ele selou o encantamento. Como o Harry foi enfático ao dizer que os sintomas começaram logo após ele ser preso... Juntei dois mais dois.

— A saga das horcruxes novamente? – o ruivo parecia desanimado.

— Não se conseguirmos alguma coisa com o Lucius – apontei.

— O que me intriga, é... Por que ele fez isso com a própria esposa? – ela franziu o cenho novamente.

— O Draco contou pra gente que ele armou pra que o pai fosse preso – irrompeu Gina – talvez ele soubesse de alguma coisa e quis se precaver e usar Narcisa como moeda de troca, não se sabe.

— Uau! Tudo isso é muito mais confuso e surpreendente do que eu jamais poderia imaginar sozinha – ela sentou novamente na cama, olhando para o chão e tentando estabelecer conexões entre tudo. – Harry... – disse, levantando o indicador – não vou conseguir te esconder e vocês jamais conseguirão passar pela segurança de Azkaban escondidos. Mas eu pensei em alguma coisa que podemos fazer sobre isso. Podemos inclusive acalmar os ânimos do ministério sobre o assunto do seu desaparecimento.

— O quê?

— Você vai voltar ao ministério. Agora. Está todo mundo trabalhando em regime de plantão para tentar te localizar. Vou te levar comigo, dizer que você apareceu em casa sem saber como. Vamos dizer que você deve ter sido obliviado. Vai dizer que não se lembra de nada do que aconteceu depois do desmaio no bar.

— Agora? Você não acha...?

— Cada segundo aqui é um segundo a mais que eles têm de trabalho e mais chances de acabarem conseguindo encontrar o esconderijo do Draco. Aliás, onde é que eles estão?! Ah, isso não importa para mim agora. Depois você me mostra. Se acharem eles dois, os mandarão imediatamente para Azkaban, sem nem pestanejar ou pensar na condição física ou mágica deles. Quanto tempo a Narcisa tem?

— A Luna deu a ela até uns cincos dias, mas nós não sabemos...

— Tudo bem, tudo bem – ela parecia pensativa – Harry, vou precisar que fique. Gina, você volta para os Malfoy, veja se ainda estão precisando de algo. Avise também que Harry ficará por aqui até amanhã.

— Ok. E como farão com a questão do Lucius? — a ruiva se aproximou.

— Harry vai dizer que está tentando se lembrar de alguma coisa e acha que Lucius pode ter as respostas. Vai expedir um pedido para visita-lo para interrogatório e eu vou deferir.

— Você sempre pensa em tudo – comentou Ronald, olhando de maneira boba para ela e roubando um beijo de seu rosto. – Gostaria de poder ajudar.

— E você irá – ela completou, devolvendo o beijo com um sorriso malicioso – vai ficar aqui, na minha casa, na biblioteca, procurando e pensando em uma maneira de localizar o objeto que Lucius usou para selar a maldição caso ele se recuse a colaborar.

— Ah, livros?

— Ronald Weasley! Você já não é mais um adolescente de quinze anos! – esbravejou Gina – Isso é muito sério. Uma pessoa pode morrer se não fizermos tudo direito!

— Tudo bem, eu estava apenas brincando – ele levantou as mãos em sinal de trégua – você parece até pareceu a mamãe falando agora.

Gina revirou os olhos e deu de ombros, fazendo uma careta impaciente logo em seguida.

— Belo momento para piadas, não é mesmo? – Hermione concordou com a outra bruxa.

— Enfim – pigarreei, interrompendo o puxão de orelha – e o ministério continuará atrás deles dois? Dos Malfoy?

— Por enquanto, sim – respondeu a ministra – vamos precisar fazer tudo isso para ganhar algum tempo. Depois que salvarmos a vida de Narcisa a gente pensa em um jeito de tentar conseguir algum tipo de absolvição.

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Quando apareci por uma das lareiras no saguão principal do Ministério da Magia um alvoroço de formou. Estava tornando a vivenciar novamente toda a popularidade que tive na adolescência durante e após derrotar Voldemort. Inúmeros grupos de pessoas se amontoando umas sobre as outras para poderem me ver. Diversos jornalistas acampados que esperavam para anunciar o meu retorno – ou a minha morte – assim que soubessem da notícia. Incontáveis flashes de câmeras, penas voadoras... Todo o tipo de cacareco que possa imaginar.

Assim que conseguiu atravessar o mar de gente, meu superior, Benjamin Morris, me agarrou pelo braço e me carregou para uma parte de acesso restrito aos funcionários do D.E.L.M. Depois de chamar alguns medibruxos do próprio ministério e passar por diversos exames durante toda a madrugada, ele pediu para que eu fosse até a sua sala para conversar comigo pela manhã.

Ele parecia diferente do que costumava ser. Trajava apenas uma camiseta comum e uma calça jeans. Sem qualquer pose. Sem nada “engomadinho”. Isso demonstrava o tamanho do estrago que meu desaparecimento havia causado no departamento.

— Você não sabe o tamanho do alívio que eu sinto por você estar de volta – ele disse, andando por detrás da sua mesa e apoiando-se na cadeira, deixando seus músculos relaxarem.

— Eu sei que causei muita preocupação e peço desculpas por isso, se eu tivesse conseguido noticiar antes...

— Você foi sequestrado, Potter! – exclamou, transparecendo frustração na voz – E eu, como seu superior, não deveria ter deixado isso acontecer. Eu quem falhei com você e peço desculpas pelo meu erro.

— Eu estou bem, então acho que é isso o que importa agora.

Ele deu uma risada de lado.

— Você tem certeza que não sabe como fugiu? Ou onde estava? Ou o que aconteceu nesses últimos dias? – ele me fitava sério.

— Foi como eu disse aos médicos – tentei fingir um esforço para me lembrar de alguma coisa, que na realidade era nulo – eu apenas aparatei em casa ontem à noite. Eu acho que quando fugi, talvez ele tenha me acertado com um Obliviate. Tudo que consigo lembrar é até o momento que cai desmaiado no salão do bar. Nada entre isso e o meu quarto na mansão dos Black.

Ele parecia analisar cada palavra que saia da minha boca e assentiu.

— Tudo bem, é provável que consiga lembrar de alguma coisa nos próximos dias. Agora, estou curioso para saber por que você expediu um pedido para interrogar Lucius Malfoy em Azkaban ainda esta madrugada, entre um exame e outro.

— Morris, eu sinceramente não sei te dizer – tentei fazer uma expressão confusa e suficientemente convincente – mas alguma coisa me diz que ele tem informações importantes que podem me ajudar a voltar para onde eu estava.

— Entendo – ele desapoiou da cadeira e veio até mim – você se importaria que eu fosse com você até lá e participasse desse interrogatório?

Olhei de canto de olho.

— Na verdade, sim. Você foi um dos aurores que atuou na sua prisão de maneira direta. Não acho que ele vá querer falar muitas coisas com você por lá.

— E você acha que ele vai querer falar alguma coisa com você, Potter?! – ele cruzou os braços.

Benjamin não poderia estar comigo naquela sala sob hipótese alguma. A presença de qualquer pessoa que não soubesse exatamente o que estava acontecendo, poderia acabar com nossos planos de ajudar Narcisa.

— É provável que sim – tentei não demonstrar nervosismo. – Ele pode acabar soltando alguma coisa por causa daquele ego imenso dele. Confie em mim. É o melhor que podemos apostar agora.

Ele me olhou desconfiado.

— Tudo bem, Potter. Vou confiar no seu trabalho, mas peço que tome muito cuidado. Não quero correr o risco de perder você ou nenhum outro auror de novo – ele deu uns tapinhas sobre meu ombro e se virou de costas, mexendo sobre uns papéis sobre a sua mesa. – Está dispensado. Pode ir até lá.

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Já havia passado por toda a segurança até a entrada de Azkaban e já estava lá dentro. Minha varinha, por motivos óbvios, havia ficado na entrada. Depois de uma extensa revista e questionamentos, estava de frente a uma grossa porta feita de metal num imenso corredor de blocos de pedras cinzas. Aquela era a sala que Lucius Malfoy estaria me esperando para nosso derradeiro encontro após dez longos anos.

Assim que empurrei a porta com a mão, percebi uma densa e infindável escuridão. Apesar de parecer a entrada de um cômodo pequeno, não maior que uns dez metros quadrados, por dentro, parecia do tamanho de um campo de quadribol, porém completamente escuro, vazio e frio. Nada de janelas. Era tão escuro que sequer era possível ver as paredes ou o próprio chão. No centro do cômodo, iluminado por uma luz de um candelabro flutuante, Lucius Malfoy. Usando os nada sofisticados trajes dos prisioneiros de Azkaban, estava sentado em uma cadeira velha e mofada de madeira. Pesados grilhões nos calcanhares e nas mãos o mantinham exatamente onde deveria estar: quieto e parado. Era considerado de extrema periculosidade, por isso todo o cuidado era pouco.

Os longos cabelos, uma vez loiros, agora estavam castanhos assim como os de seu filho. Desgrenhados, mostrando que o tempo em reclusão realmente não lhe estava bem. Uma barba grossa crescia do seu rosto, um pouco grande, como jamais vira aquele Malfoy. A única coisa que não mudara foram os olhos cinzas penetrantes. Assim como o Draco. Apesar de tudo, era incrível como eles ainda se pareciam tanto. Mesmo sendo tão diferentes um do outro.

— Depois de tanto tempo, não achei que fosse você a pessoa a pedir para me tirarem da cela – ironizou, vendo eu me aproximar.

Sentei-me em outra cadeira velha de madeira, à sua frente. Estávamos separados por uma mesa também de madeira. Apenas nós dois, a mesa e aparente infinita escuridão em volta da gente.

— Você sabe muito bem que não vim aqui jogar conversa fora – afirme, incisivo.

— Como você teve autorização para vir até aqui e falar comigo... Suponho que O Grande Harry Potter, O Eleito, agora também seja um auror – sua postura continuava insuportavelmente arrogante. – O que um auror teria de tão importante para solicitar um bate papo com um encarcerado?

— Sim, eu sou. E eu não tenho tempo para joguinhos, vou ser direto ao ponto – apoiei-me sobre a mesa. – Acredite ou não, estou aqui pela Narcisa.

Agora sua postura havia reduzido um pouco. Ele parecia legitimamente surpreso.

— O que você tem a ver com a minha esposa? – ele perguntou, tentando miseravelmente disfarçar o interesse.

— Elum.

Sua expressão estava congelada. Ele sabia muito bem porque eu estava lá.

— Não sei do que você está falando – ele virou o rosto para o lado.

Apontei para fora, ainda que não tivesse muita noção de onde “o fora” ficava.

— É assim que você consegue estar tão bem mesmo tendo passado pelos dementadores. O núcleo mágico dela está vinculado ao seu e você está sugando a força vital dela.

— Supondo que seja verdade, ainda não entendo o que você possa ter a ver com isso.

Eu bati na mesa, irritado.

— Eu definitivamente não tenho tempo pra isso, Lucius. Muito menos ela. É o seguinte: você vai quebrar essa porcaria de maldição porque eu estou mandando.

— Não tem nem uma varinha para me ameaçar, Potter? – ele soltou um sorriso irônico.

Ele estava certo. Naquela situação, como eu poderia coagi-lo?

— Talvez eu não tenha uma varinha aqui, mas eu ainda posso mandar você namorar algum daqueles dementadores lá de fora novamente.

Ele pareceu desconfortável e perdeu brevemente a compostura ao se lembrar da sensação do beijo de um dementador, mas logo recuperou a pose e olhou sério para mim.

— Você sabe que me submeter a isso só traria piora para ela, não é mesmo? Isto é, se ela ainda estiver viva.

Apertei as mãos com força. Mais uma vez ele estava certo.

— Não vai dizer nada, Potter? Que tal você me contar o que você e o Draco estão aprontando dessa vez? Suponho que vocês tenham continuado amigos desde toda aquela palhaçada na Guerra...

— Calado! – vociferei.

— É o que eu já esperava. Não sei o que eu fiz para ter errado tanto na educação desse garoto. Fraco, manipulável, sem opinião alguma. Ele deveria ter morrido em Hogwarts quando teve a oportunidade...

— Eu disse CA-LA-DO! – e desferi um tapa em sua face.

Ambos ficamos atônitos. Eu estava desconsertado pela minha súbita ira e, ele, surpreso por eu ter reagido com tamanha violência.

— Tudo bem, pelo visto você são mesmo amigos – ele movimentava a face, como se tentasse amenizar a dor e a vermelhidão na bochecha. – Acontece, Potter, que não tem absolutamente nada que você possa fazer para que eu mude de ideia. É questão de sobrevivência. É ela ou eu. Ela fez as suas próprias escolhas e agora eu faço as minhas.

— O que quer dizer com isso?

— Nada que te importe. Eu não quero ter mais essa conversa com você. Segurança! Segurança! – gritou, esperando alguém aparecer.

Não demorou até que um dos aurores que guardava a porta apareceu.

— Meu assunto com o senhor Potter acabou. Quero voltar pra minha cela.

O segurança olhou para mim e eu assenti, sinalizando para que o levasse. O rapaz usou sua varinha para levanta-lo com a cadeira e os grilhões que o mantinham ali.

— Mande lembranças ao Draco e à Narcisa por mim – sussurrou ao passar por mim e deu uma gargalhada suave.

Senti minhas têmporas latejarem. Minha vontade naquele momento era de dar-lhe outro tapa, mas não me rebaixaria àquele nível mais uma vez. Precisava urgentemente pensar em como quebrar aquela maldição. Se ele se negara a fazer isso por si só, só havia uma saída: encontrar o objeto-selo e destruí-lo.

Notas finais
Será que teremos outra saga atrás de horcruxes por aqui? Ou será que eles darão um jeito de fazer isso de maneira mais fácil? :P