Auror
16 Penseira
Notas iniciais
[Harry]
Retornei à casa dos Black completamente frustrado. Sentia-me ainda mais impotente depois do fiasco que fora meu diálogo com Lucius na prisão.
Quando apareci à lareira da casa, Ron e Hermione me esperavam atentos no sofá à frente. Estavam sentados encarando o espaço vazio como se esperassem ansiosamente que eu chegasse.
— Finalmente! – soltou Granger, já se levantando do móvel.
Nesse mesmo momento ela visualizou a minha expressão derrotada.
— Não deu certo, não foi?
Balancei a cabeça negativamente.
— Eu achei que você estaria no trabalho agora – comentei, sentando-me em uma poltrona próxima.
— Como eu trabalhei por muitas horas seguidas devido ao seu desaparecimento, me permiti ficar em casa hoje e atenderei apenas algumas demandas daqui mesmo – respondeu, passando a mão pelo meu cabelo bagunçado da viagem. – O que ele disse?
— Não muita coisa, para falar a verdade – dei de ombros. – Nada útil. Só deboche.
— Ele sequer pareceu preocupado com a esposa dele? – perguntou Ron, se aproximando também.
— Pra ser bem sincero, ele parecia na realidade bem satisfeito com a situação... Parece que, de alguma forma, ele sabia que Narcisa fugiria com o Draco. Não demonstrou o mínimo remorso. Pelo contrário.
— É óbvio que ele não ajudaria a gente – arfou Hermione – não sei porque não pensamos diretamente numa abordagem mais convincente.
— Que “abordagem” seria essa? – indaguei.
— Não sei, oras! Mas deve haver algum jeito que faça-o pelo menos falar onde está o objeto que usou para selar a maldição! – ela caminhou até o sofá onde Ron ainda estava sentado e se sentou ao seu lado, apoiando o rosto sobre as mãos. – Na verdade, eu pensei em algo que poderia dar certo, mas seria complicado demais executar.
— Eu acho que qualquer coisa que pudermos tentar é válida. Quer dizer, não temos muitas opções e o tempo de Narcisa está passando... – comentou o Weasley.
— Ron tem razão. Precisamos tentar qualquer coisa – concordei.
— Bem... – ela se levantou mais uma vez e começou a andar de um lado para o outro, impaciente – eu pensei que talvez pudéssemos usar oclumência.
— Essa é uma ótima ideia! – exclamei, sentindo-me ser tomado novamente por uma súbita esperança de resolver toda aquela situação.
— Eu também achei na primeira vez, mas depois pensei sobre a execução dela. Eu não sou muito boa com isso, pois nunca treinei direito. Lucius, por ter sido um comensal e não ser nada bobo, provavelmente não será uma mente fácil de se desvendar. Ele deve ter um treinamento sobre isso.
— E o Harry não poderia fazer isso? Ele treinou isso com o Snape – sugeriu o ruivo.
— Até poderia, mas seria complicado. Ninguém, além de mim e outros poucos aurores podem portar suas varinhas mágicas nas dependências de Azkaban.
— Já estou até vendo onde isso vai nos levar... Mais poções polissuco...
— Não, Harry. Dessa vez não é tão simples assim. Estamos falando de Azkaban, não da entrada de uma sala comunal ou um bar qualquer de um duende. Existem inúmeros feitiços para detecção de poção polissuco e outros feitiços para disfarce. Transfiguração ou qualquer coisa desse tipo não funciona por lá.
— E não existe possibilidade do Harry entrar lá usando a varinha? – instigou Ron.
— Até que existe. Só que ele precisaria dar entrada em um novo processo no Ministério. E dessa vez não seria tão simples, porque não depende apenas de mim. Precisaria, além disso, de ser uma visita “guiada”, já que precisariam garantir que a varinha não chegaria nas mãos do detento. E aí, teríamos menos privacidade. Ele provavelmente poderia dizer alguma coisa que daria a entender que estamos “juntos” com o Draco e a Narcisa... Enfim, muita coisa para complicar.
— Muita coisa para se pensar – repetiu Ron.
— Sim, muita coisa para se pensar – também repeti.
Ficamos em silêncio. Nós três parecíamos pensar sobre tudo o que estava acontecendo, como costumávamos fazer há pouco mais de dez anos. Aquele sentimento nostálgico fora menos prazeroso do que imaginei que poderia ser. Mais uma vez, estávamos responsáveis por tentar achar a solução para um problema de proporções muito maiores que nós.
Ronald se levantou do sofá e encarava o nada, andando de um lado para o outro e movimentava as mãos como se estivesse desenvolvendo algum raciocínio complexo. Eu e Hermione nos entreolhamos e demos uma leve risadinha. “Deixe-o pensar e vamos ver o que ele tem dizer” fora exatamente o que dissemos um para o outro através apenas do olhar.
Apesar de tudo, ainda sentia-me muito feliz por ter aqueles dois comigo depois de todos esses anos. Principalmente Hermione. Ela ainda era minha melhor amiga e poucas palavras eram necessárias para que pudéssemos entender perfeitamente o que um queria dizer para o outro.
Minha pequena divagação fora interrompida pelo ecoar da voz do outro grifinório:
— Já sei! – exclamou categoricamente – Eu já sei o que podemos fazer para conseguir descobrir qual objeto ele usou no feitiço – ele parecia realmente animado com o que quer que tenha pensado.
— Desembucha! – ordenou a bruxa.
— A Penseira de Dumbledore! – ele caminhou até o sofá e sentou novamente, sinalizando para que eu e ela nos aproximássemos – vejam só como tudo se encaixa: A Penseira continua em Hogwarts, provavelmente na Sala Precisa. Minerva é a diretora, se Harry conversar com ela, principalmente como auror, certamente ela deixaria que ele a usasse. Hermione é a única de nós que tem “livre acesso” ao Lucius e pode usar a varinha em Azkaban. Ela mesma poderia retirar as memórias dele para que Harry as usasse. Assim, teríamos como ver o que ele fez, e até mesmo entender o motivo.
— Por Merlin! Ron, isso foi brilhante! – comemorou Hermione, abraçando-o e dando diversos beijos em sua bochecha.
— Sim! – levantei-me, excitado – E ainda poderíamos usar as memórias do Lucius para tentar, de alguma forma, mostrar que Draco e Narcisa foram apenas vítimas de tudo que ele ambicionava. Mas ainda assim... Lucius poderia forjar algumas memórias para nós.
— Talvez o Draco conseguisse identificar as memórias corretas. Afinal de contas, Hermione teria que retirar um punhado delas e ainda teríamos que procurar.
— E você não acha arriscado demais leva-lo a Hogwarts nessas circunstâncias? Benjamin está possesso com o que aconteceu com você e quer a caveira do Draco mais do que nunca.
— É, pode ser que seja – dei de ombros – mas acho que vamos precisar arriscar. De outro modo, Narcisa estará morta em menos de uma semana.
— Tudo bem – ela se levantou e passou a mão sobre as vestes – vou me arrumar e irei à Azkaban hoje mesmo. Vou recuperar essas memórias o mais rápido possível. Você, Harry, vá até Draco e veja o que podem fazer para que ele tenha acesso a essas memórias.
—------------------------------------------------------
De volta à cabana, entrei pela porta principal e percebi que Draco se encontrava na cozinha preparando alguma coisa em um caldeirão velho aceso numa fogueira feita com lenha das árvores próximas. Ele estava completamente apático, como se já aceitasse o que viria a acontecer com Narcissa a qualquer momento.
Ele sequer percebeu quando me aproximei.
— Como ela está? – perguntei em um tom de voz mais brando, com a intenção de anunciar a minha chegada sem assustá-lo.
Ele virou os olhos na minha direção sem movimentar o pescoço e tornou a olhar para o líquido borbulhante na sua frente.
— Estável – respondeu quase que murmurando, enquanto movimentava uma colher de madeira em movimentos circulares – Luna precisou sair para voltar ao St. Mungus há algumas horas. Ela tinha outros pacientes para continuar prestando assistência. Deixou uma poção pronta para que eu continue administrando a cada doze horas. Gina foi para casa descansar um pouco. Elas devem voltar juntas a qualquer momento – ele retirou a colher do caldeirão e colocou-a sobre a mesa de madeira e se virou completamente para mim. – A julgar pelo modo como chegou e pela demora, acredito que não temos novidades também do seu lado.
Cocei a parte de trás da cabeça sem jeito.
— Hermione e Ron até que entenderam relativamente bem e reagiram melhor do que eu esperava. O problema não foi aí. Consegui aparecer no ministério depois de tudo isso e ainda tive autorização para interrogar Lucius. Tudo em menos de vinte e quatro horas, mas, infelizmente, você conhece o seu pai. Não quis falar nada para mim...
— Eu imaginei – ele deu de ombros e em seguida um longo suspiro – eu sabia que isso nunca daria certo. Eu conheço bem o velho Lucius Malfoy. Se isso está acontecendo e chegou no ponto que chegou, com certeza ele havia pensado sobre isso antes. Ele jamais dará o braço a torcer.
Definitivamente ele estava resignado. Era visível seu cansaço. Ele estava exausto de lutar contra o mundo todo. Exausto de ter que lutar contra seu próprio pai pela vida de sua mãe. Eu não suportava vê-lo daquele jeito. Eu ainda precisava ajuda-lo.
— Mas ainda há um jeito de conseguirmos salvar Narcissa – comentei, tentando fazer uma expressão amigável.
— O que você tem em mente? – questionou com certa incredulidade no olhar.
— Ron teve uma ideia que pode dar certo, mas vamos precisar da sua ajuda.
Ele sinalizou para que eu continuasse.
— Ele sugeriu usarmos A Penseira de Dumbledore para visitarmos as memórias do seu pai. Ela ainda está em Hogwarts. Eu consigo pedir à Minerva para usar. Eu poderia fazer isso sozinho, mas sei muito bem o quão ardiloso o seu pai é. Ele poderá forjar mil e uma lembranças para tentar me despistar e enganar. Apenas você, Draco, que esteve com ele todos esses anos saberá diferenciar o que foi criado do que de fato aconteceu.
— E como pretendem conseguir essas memórias? – agora ele parecia interessado e com certeza menos desanimado.
— Hermione é uma das únicas pessoas que podem entrar em Azkaban portando uma varinha e sem precisar se justificar demais. Ela, a uma hora dessas, provavelmente já está a caminho de lá.
Ele irrompeu uma gargalhada baixa, leve.
— O que foi? – indaguei, sem entender o que havia deixado passar.
— Você, os Weasley, Hermione... todo mundo se arriscando para me ajudar. Tá aí um cenário que eu nunca imaginei nem nos meus maios longínquos devaneios.
Correspondi a risada.
Mais uma vez, de maneira completamente abrupta, nossos lábios se encontraram. Não sei muito bem o motivo, mas ele me beijou.
Aquilo havia acontecido de novo. Só que dessa vez ele havia tomado a atitude. Senti-o menos travado do que da última vez também. Ele me puxou para perto de si pela minha cintura, fazendo com que nossos corpos ficassem mais unidos. Eu apenas correspondi o beijo, sentindo sua língua invadir a minha boca e ir de encontro à minha. Era leve. Era tranquilo. Mesmo no meio de toda aquela situação, nos movimentávamos com a harmonia e a sincronia de uma orquestra.
Isso mostrava que alguma coisa estava acontecendo. Talvez explicasse a minha interminável ânsia de querer ajuda-lo a qualquer custo. Havia sacrificado minha carreira, posto em xeque amizades... tudo para que pudesse deixa-lo feliz. Não sei bem quanto, como ou o porquê disso ter começado, mas começou. E parecia se tornar mais forte a cada momento que ficávamos juntos. Na minha cabeça, era possível que ele também estivesse sentindo a mesma coisa.
O frio na barriga que eu sentia enquanto nos beijávamos era semelhante como o nó na barriga que eu sentia toda vez que o via em Hogwarts. Desde nosso sexto ano parecia que alguma coisa havia mudado. Eu tinha certeza que todo aquele sentimento era oriundo de uma raiva. Raiva por ele ser quem ele era. Por falar com as pessoas como ele falava. Agora, percebo que talvez a minha raiva fosse por saber que, no fundo, ele não era daquele jeito. Eu tinha raiva por ele fingir ser alguém que não era. Agora, diferentemente de antes, eu sentia o verdadeiro Draco Malfoy na minha frente.
Do mesmo jeito que iniciou nosso beijo, ele o interrompeu.
Como se nada tivesse acontecido, puxou a varinha do bolso, apagou a chama que aquecia o caldeirão e a movimentou, a fim de fazer com parte do líquido caísse sobre uma tigela. Em seguida, ele pegou o objeto e apontou na minha direção.
— Você quer sopa? – ofereceu-me, sem olhar diretamente nos olhos.
O que estava acontecendo? “Você quer sopa?”?
Confuso, rejeitei a oferta com as mãos, um pouco frustrado pela atitude dele.
— Draco, eu acho que a gente precisa...
E mais uma interrupção. Dessa vez era Luna entrando pela porta principal da sala.
— Vim ver como Narcisa está – ela anunciou, se aproximando de nós dois na cozinha.
Ele me olhou com um certo alívio. Não queria falar sobre o que acabara de acontecer.
— Do mesmo jeito que você a deixou – ele respondeu, colocando a tigela sobre a pia – será que você consegue ficar com ela por algumas horas?
— É claro – respondeu, sorridente – não me importo de passar minhas horas de descanso aqui.
— Muito obrigado, Luna – agradeceu – eu entendo que são suas horas de descanso. Podemos dar um jeito.
— Não! Eu realmente não me importo em passar esse tempo aqui. Não tenho muitas coisas para fazer em casa, a não ser cuidar das ameixas dirigíveis. Não passo mais tempo no hospital porque não me permitem! Me obrigam a vir para casa “descansar”...
— Obrigado, Luna – agradeci também – vamos tentar usar a penseira de Dumbledore para reaver memórias do Lucius e descobrir o que ele usou para selar a maldição.
— Hm – ela murmurou – espero que dê tudo certo.
— Se precisar de alguma coisa...
— Não precisam se preocupar – respondeu, me interrompendo – a senhora Malfoy estará bem assistida aqui. Gina estará aqui em breve também. Se precisar de alguma coisa, posso pedir para ela – ela continuava assustadoramente sorridente.
— Certo. Draco, vamos primeiro dar um jeito de coloca-lo dentro de Hogwarts, depois vou até a Hermione e pegar as memórias com ela.
Ele caminhou até o quarto, ajoelhou-se próximo de Narcisa e segurou em sua mão. Encarou-a por alguns instantes, enquanto acariciava sua face gélida e sem expressão. Em seguida, beijou a mão que segurava. Eu e Luna apenas assistimos em silêncio, tentando demonstrar respeito.
— Nós vamos te salvar, mãe – prometeu.
E se levantou, caminhando na direção de um armário na cozinha. Ao abri-lo, três vassouras antigas e empoeiradas estavam guardadas.
— Não vamos conseguir aparatar para lá. Hogwarts é protegida. Acho que esse talvez seja o meio mais rápido de chegarmos por lá – comentou, apontando para os transporte mágicos.
— Tem razão.
—------------------------------------------------------
Voamos nas vassouras em silêncio até chegarmos nas redondezas do castelo de Hogwarts. Sabíamos que Draco não conseguiria entrar no castelo de maneira segura, sem que houvesse pelo menos qualquer ajuda. Por isso, decidimos que ele esperaria às margens do Lago Negro, escondido em algum lugar até que eu fosse busca-lo.
O pátio principal de Hogwarts estava exatamente como eu me lembrava – e provavelmente do mesmo jeito há vários séculos. Alunos de diversas casas estavam espalhados, sentados enquanto conversavam nos bancos de madeira. Conforme eu avançava pelo pátio, podia sentir comentários sobre a minha presença ali. Afinal de contas, eles estudavam sobre mim em História da Magia e, além disso, minha cara estampava os principais jornais nos últimos dias devido ao meu sequestro. Não havia sequer uma única pessoa que não soubesse exatamente quem eu era naquele momento. A sensação de ser apenas mais um na multidão já não pertencia mais a mim mais uma vez.
As grandes e imponentes portas duplas de madeira estavam abertas. Apertei o passo e me embrenhei pelo imenso grupo de alunos que se deslocava pela grande escadaria. Provavelmente aquele seria o horário de troca de aulas e os estudantes estavam a caminho de sua próxima aula.
Consegui alcançar a sala da diretora que era exatamente a mesma sala que há tempos atrás pertencera ao exímio Alvo Dumbledore.
— Gotas de limão!
A escadaria anteriormente escondida atrás da estátua começara a surgir na minha frente, abrindo meu caminho para que pudesse encontrar McGonagall. Após três batidas, a porta se abriu à minha frente. A diretora estava sentada em sua mesa, aparentemente tratando do envio de cartas e olhou-me por cima dos óculos redondos.
— Senhor Potter! – exclamou e levantou-se rapidamente, vindo em minha direção. – Fico muito feliz em vê-lo aqui. Soube do seu sequestro nos últimos dias e estava sinceramente muito preocupada com o que lhe pudera ter acontecido! Foi um alívio muito grande quando noticiaram que havia sido encontrado.
— Obrigado, professora. Estou bem – assenti.
— Por favor, sente-se – ela apontou para a cadeira à frente de sua mesa e voltou para onde estava sentada. – O que o traz de volta ao castelo de Hogwarts nessas circunstâncias?
— Professora, preciso ser objetivo com a senhora – disse, em um tom firme – não vim apenas fazer uma simples visita. Estou no meio de uma missão.
— Uma missão do Ministério da Magia? Como auror? – ela franziu o cenho.
Meu corpo travou. Eu tinha menos de um segundo para decidir se falaria a verdade ou não. Ela havia me ajudado inúmeras vezes enquanto eu era estudante e mais que ninguém sabia de tudo o que eu havia enfrentado ao longo de toda aquela década para derrotar o lorde das trevas. Eu sentia que, apesar do medo de trazer alguma encrenca a mais para Draco, minha intuição poderia me enganar novamente. Todos que achei que poderiam estar contra – Gina, Hermione, Ron – me ajudaram sem questionar. Talvez com Minerva não fosse diferente.
— Não exatamente – meu tom era menos firme e a voz notoriamente um pouco mais trêmula – é uma história um pouco complicada.
Ela nem se mexeu, apenas esperava que eu concluísse a história.
— Existe uma pessoa sob efeito da maldição Elum que eu preciso salvar.
— Elum?! Eu achei que esse tipo de feitiço poderia ser rastreado e imediatamente impedido pelo ministério...
— E é verdade – concordei – ainda não sabemos muito bem como essa pessoa foi enfeitiçada.
— E quem é essa pessoa? – ela retirou os óculos e colocou-os sobre a mesa. Estava demasiadamente atenta e as têmporas pulsavam.
Respirei fundo e fechei meus olhos. Eu falaria a verdade.
— Diga logo, Potter! Por Merlin! – implorou, impaciente.
— Narcissa Malfoy!
Nada.
Foi exatamente isso o que ela disse. Apenas continuou a me olhar, completamente embasbacada. Se recostou sobre a cadeira onde estava sentada e colocou a mão sobre o peito, encarando o vazio.
— Eu vou precisar que você me situe melhor em tudo o que está acontecendo, Potter.
— Professora, eu juro que te conto tudo que você quiser saber assim que eu tiver conseguido ajuda-la. Preciso trazer o Draco aqui para usarmos a Penseira de Dumbledore. Lucius foi quem a amaldiçoou. O único jeito de salva-la está acessando as memórias dele para descobrir com o que ele selou o encantamento.
Ela balançou a cabeça como se tentasse confirmar que tudo aquilo não se tratava de um sonho ou qualquer coisa do tipo.
— Mas, Potter, você havia sido sequestrado e... Malfoy é um foragido...
— Professora, eu sei disso tudo – segurei em sua mão por cima da mesa de madeira – mas preciso que você confie em mim. Pense em tudo o que já passei e já fiz nessa vida. Draco e Narcissa foram vítimas de Lucius. Ele é o verdadeiro vilão daquela família.
Ela observou minha mão tocar a sua e olhou-me com atenção, como se pensasse sobre o que eu havia acabado de lhe falar.
— A Penseira está na Sala Precisa – disse, olhando para o outro lado – e pode ser que as proteções de Hogwarts não percebam a entrada do senhor Malfoy nos seus limites. É o máximo que posso fazer.
— Muito obrigado! – exclamei, visivelmente animado.
— Eu não sei de nada, senhor Potter. Aliás, por gentileza, não faça eu me arrepender por não saber de nada.
— Pode deixar! Você vai ver que está do lado certo mais uma vez!
— Mais uma coisa: o senhor Draco Malfoy não pode ser visto por nenhum aluno ou funcionário, sob hipótese alguma. Estamos entendidos?
Eu assenti e virei-me na direção da porta rapidamente.
Corri o lance de escadas e segui rumo à margem do Lago Negro até encontrar com o ex-loiro.
— Finalmente! Aqui fora está fazendo muito frio!
— Draco, você pode entrar no castelo. Siga escondido até a Sala Precisa. A Penseira foi movida para lá. Vou ver se Hermione já conseguiu cumprir com a parte dela.
— Foi tão fácil assim? – perguntou, assustado.
— Podemos dizer que eu tenho algum crédito a mais por tudo que eu passei – dei uma leve risada – agora trate de procurar um jeito de subir de maneira imperceptível. Nos encontramos lá em breve.
Ele se virou para subir a encosta, mas parou e se virou novamente para mim.
— Obrigado mais uma vez, Potter – ele abriu um sorriso discreto e seguiu o seu caminho.
Peguei a minha vassoura segui na direção do Ministério da Magia.
—------------------------------------------------------
Cheguei ao ministério visivelmente transtornado. Era uma imensa corrida contra o tempo. Simplesmente ignorei todas as pessoas que passavam por mim e tentava puxar qualquer tipo de assunto.
“Está tudo bem?”. “Se recuperou do trauma?”. “Já voltou à ativa?”. “Eles têm algum plano para trazer Voldemort de volta?”.
Antes de entrar nas dependências do D.E.L.M., tentei recuperar um pouco do meu fôlego e me ajeitar para parecer menos afobado do que eu realmente estava. Não poderia correr o risco de ser interrompido por ninguém àquela altura. Principalmente Ben. Seu empenho em pegar Draco poderia colocar todos os nossos planos por água abaixo.
Enquanto caminhava pelo imenso corredor que terminava na porta do escritório de Hermione, senti meu braço ser puxado por alguém.
— Potter! Por onde você andou?
Sim. Era ele. Meu superior, Benjamin Morris havia conseguido, de alguma forma, saber que eu estava por ali.
— Ah, Morris – disse, tentando não demonstrar apreensão, soltando meu braço da sua mão – estive tentando pensar no que fazer a seguir.
— Conseguiu alguma coisa com o Malfoy? — ele me olhou de cima a baixo.
— Na verdade, não muita coisa – desviei o olhar.
— Hm – murmurou, desconfiado – você anda estranho desde que escapou das mãos do outro Malfoy. Tem certeza que não existe alguma coisa que você não queira contar para mim?
Eu engoli a seco.
— Tenho sim – dei de ombros – estou sob muita pressão. Todos tentando fazer com que eu me lembre do que aconteceu lá, eu não consigo, não tenho mais novas pistas... Fico um pouco frustrado e acho que estou apenas tentando compensar o tempo que fiquei “parado”.
— Você sabe que não precisa trabalhar nisso sozinho, né? Desde que você foi pego destinei mais aurores, além de você e Gina para rastreá-los...
— Obrigado, Morris – concordei, interrompendo-o de maneira sutil – mas a ministra Granger me chamou em seu gabinete neste instante e eu preciso mesmo ir para lá agora.
— Imagino que sim, soube que ela esteve em Azkaban com Lucius hoje também.
— Talvez ela tenha dado um jeito de conseguir alguma informação que seja útil para mim.
— É, talvez – ele disse, se afastando – pode ir. Saiba que sua equipe ainda está aqui para te dar suporte no que precisar.
— Mais uma vez, obrigado – e virei-me, seguindo na direção da sala de Hermione.
Com certa apressa, abri a porta sem sequer bater e entrei num só passo no cômodo. Deixei a porta entreaberta e corri em sua direção. Ela estava em pé, de costas para mim, atrás de sua mesa. Parecia encarar alguma coisa em suas mãos.
— Conseguiu? – perguntei, ansioso.
Ela se virou para mim e mostrou nas mãos um tubo transparente com uma luz branca emanando de dentro.
— Você não sabe como foi difícil, mas eu consegui – respondeu, entregando-me o frasco. – Conseguiu falar com a McGonagall?
— Deu tudo certo. Ela já sabe de tudo e está, de certa forma, ajudando. Ele já está dentro de Hogwarts.
Ela me abraçou forte e me deu um beijo na bochecha.
— Vai logo! – disse, se desvencilhando de mim e dando um leve empurrão. — Espero que dê certo. Eu dei o meu melhor para extrair o máximo de coisas relevantes que pudesse. Me mantenha informada sobre tudo.
— Pode deixar – assenti e sorri.
Novamente, a passos apertados, caminhei pelo Ministério até chegar onde havia deixado a vassoura para seguir de volta ao castelo de Hogwarts.
Fale com o autor