Auror
14 Elum
Notas iniciais
[Harry]
As pupilas do sonserino se dilataram. Era possível ver um novo brilho no seu olhar. De repente, parecia que alguns raios de luz conseguiram passar por entre as nuvens que era toda aquela situação. Havia esperança para Narcisa!
— O que ela tem? – perguntou, Draco, ansioso.
Luna balançou a caneca com a poção que Gina havia feito que estava em sua mão e devolveu-a à ruiva. Caminhou até a cama onde Narcisa estava e se sentou do outro lado, passando a mão sobre seu corpo pálido e gelado.
— Elum— respondeu, sem tirar seus olhos dela.
— Elum? O que é isso? – indagou novamente, mais impaciente com a resposta por ter trazido mais dúvida que esclarecimento para ele.
— É um tipo de maldição – murmurei, inseguro do palpite – lembro de ter estudado algo sobre isso em Defesa Contra as Artes das Trevas quando retomamos nossas aulas em Hogwarts. Talvez por isso você não saiba do que se trata.
— Exatamente – concordou Luna – podemos dizer que isso é semelhante às Horcruxes que Voldemort criou na época em que estava arquitetando todos os seus planos.
— Então meu pai transformou minha mãe numa horcrux?! – ele passou a mão pelo rosto, atônito.
— De certa forma, sim, mas não – ela franziu o cenho – Tudo bem, acho que o que eu falei não faz muito sentido. Deixa eu tentar te explicar: no feitiço que Voldemort utilizou, você parte a sua alma em quantos pedaços “quiser”, desde que mate o mesmo número de pessoas. Aqui, as coisas se tornam um pouco mais mórbidas. Você não parte a sua alma, mas meio que fez a mesma coisa com o núcleo mágico de outra pessoa. A pessoa amaldiçoada fica vinculada ao conjurador.
O clima novamente ficou pesado dentro daquele quarto. Aquele assunto trazia à tona diversos sentimentos e lembranças ruins em todos nós. Parecia que aquele pesadelo nunca teria fim. Tanto tempo depois e parecia que a saga atrás de horcruxes iria reiniciar.
— O quadro dela está de acordo com todos os sinais dessa maldição – ela se levantou, parecendo escolher com mais cuidado as palavras que usaria – desde que se afastaram do seu pai ela começou a apresentar fraqueza, como se literalmente sua vida estivesse sendo sugada. Tudo isso só piora com o tempo.
— E por que ele faria isso? – Draco perguntou, tentando entender melhor tudo o que estava acontecendo com a Malfoy.
— Bom, o pedaço dela que ele dividiu está com ele. Ele pode ter tido vontade de criar uma dependência, para que ela não se afastasse dele, mesmo que quisesse. Ou talvez, de alguma forma, soubesse que iria preso. Assim, ele teria parte da vitalidade dela para “oferecer” aos dementadores quando fosse passar por eles.
— Eu acho que a motivação dele não faz muita diferença agora – afirmei, tentando não parecer indelicado –o mais importante nesse momento é tentar desfazer isso daí antes que seja tarde demais.
— Ele tem razão – corroborou Gina – como a gente reverte essa maldição?
— Só há duas maneiras de desfazer isso: a primeira, seria o bruxo que amaldiçoou desistir de bom grado da maldição e quebra-la por conta própria. A segunda seria nós descobrirmos o que ele usou para selar o encantamento e destruir, assim como tivemos que fazer com as horcruxes.
— Em ambos os casos precisaríamos ir até meu pai – ele soltou – tentar convence-lo a desfazer isso ou pelo menos tentar arrancar dele onde está o objeto que ele usou – concluiu com um longo e cansado suspiro. – Bom, vai ser complicado – ele suspirou de novo – como acabei de contar pra vocês, provavelmente eu sou uma das últimas pessoas do mundo que meu pai gostaria de ver.
— O problema maior talvez nem seja isso – sibilei, olhando pela janela – como iríamos chegar à Azkaban para interroga-lo? Duvido muito que ele falaria alguma coisa para a Gina sozinha.
— É, tem isso – concordou Gina – precisaríamos de ajuda de alguém do ministério... – ela pausou.
Todos se silenciaram. Sabíamos muito bem aonde aquela conversa nos levaria.
— Hermione. – Completei, tenso.
Por mais que eu tivesse tentado de todas as formas deixa-la fora disso, o cerco começava a ficar cada vez mais fechado. Não tínhamos muito tempo e precisaríamos solicitar sua ajuda. De qualquer modo, Narcisa estaria morta em pouco tempo se não fizéssemos nada. Era melhor do que nada.
— Eu não sei muito bem como vocês farão isso – disse a corvina, andando na direção da porta do quarto – eu vou precisar ir até o St. Mungus para pegar alguns ingredientes para outra poção que a manterão viva por mais algum tempo. – Ela passou a mão pelo ombro de Draco, tentado demonstrar alguma empatia – Apesar de não ter sido a melhor escolha, você a manteve viva usando o Vitalum Vitalis. Contudo, agora preciso também tratar a crise de abstinência em que ela se encontra por causa disso.
A Luna continuava sendo a “de lua”. Estava claro que ela não queria piorar o clima que havia se instaurado ali, mas claramente ainda não sabia medir muito bem suas palavras e corria o risco de se expressar um pouco mal às vezes.
Era isto. Narcisa Malfoy, além de estar sofrendo os males da maldição Elum, também estava no meio de uma severa crise de abstinência causada pelo uso crônico de Vitalum Vitalis.
— Gina, vou precisar de algumas coisas que não temos no hospital também. Eu mesma nunca tratei um dependente de Vitalum Vitalis, já que essa poção é proibida há tanto tempo.
Ambas seguiram para a sala. Gina deixou sobre a mesa da sala a poção que fizera anteriormente, já fria. Antes de alcançarem a porta, Lovegood se virou para nós dois:
— Enquanto eu estiver fora com a Gina, não há muito o que vocês possam fazer aqui por Narcisa. Então sugiro que pensem em algum jeito de falarmos com Lucius, com ou sem Hermione. Não sei quanto tempo ela vai aguentar nesse estado, longe de Lucius.
Assentimos.
As duas se viraram e saíram pela porta.
Desmoronamos no sofá. Cada um de um lado. Por muito tempo o estalar da brasa na lareira era a única coisa que fazia barulho na velha cabana de madeira.
Pensei sobre todas as coisas pelas quais havia passado junto com Hermione. Durante todos os nossos anos em Hogwarts fora uma excelente amiga, mais que isso, foi como uma irmã que eu nunca tive. Esteve do meu lado acima de toda e qualquer coisa. Jamais deixara que absolutamente nada abalasse nosso relacionamento. Viajou durante muitas semanas sozinha comigo, quando até mesmo Ron não estava lá. Eu ainda não achava justo correr o risco de tirar dela tudo o que demorou tantos anos de estudos à finco para conquistar.
Eu me sentia mal. Eu me sentia péssimo. Eu me sentia egoísta. Mais uma vez, Harry Potter, “querendo dar uma de herói” e causando problemas para todos os que estão à sua volta.
Por outro lado, eu também não conseguiria conviver com o peso da morte prematura de Narcisa Malfoy nas minhas costas. Aquela parecia a única solução viável e não havia possibilidade de qualquer outra pessoa dentro do Ministério querer nos ajudar. Benjamin? Provavelmente me mandaria para Azkaban juntamente com Draco e até mesmo Narcisa se soubesse que estou do lado deles agora. Se é que ainda existe essa coisa de lado. Pelo menos por aqui, acho que não.
Fui retirado dos meus devaneios quando percebi um som sutil vindo da direção de Draco.
Rapidamente virei-me em sua direção. Suas mãos cobriam o rosto. Os cotovelos estavam apoiados sobre os joelhos largos e marcados na calça que usava. O som saía da sua boca, como um murmúrio... Sua respiração estava pesada. De maneira delicada, me aproximei um pouco mais dele.
Ele estava chorando.
Em todos os anos em que nos conhecíamos, acho que não o havia visto chorar na frente de outra pessoa. A única lembrança clara que tenho de vê-lo chorando foi no fatídico dia, em nosso sexto ano, em que decidi experimentar o feitiço Sectumsempra. Tantas lágrimas, tanto sangue...
Eu não sabia muito bem o que falar ou fazer. Nunca fora muito bom com esse tipo de situação, principalmente sendo eu e ele protagonistas desse momento. Talvez falar alguma coisa devesse ser a última coisa a se fazer. Talvez o ideal fosse deixa-lo colocar para fora toda a angústia que estava sentindo.
Ele segurou o choro, se levantou e caminhou até a janela, parando logo a sua frente, encarando o nada do lado de fora. Era como se estivesse evitando com que eu visse sua fraqueza de forma direta. Sua pose não durou muito tempo. Pude escutá-lo engasgar no próprio choro mesmo de costas para mim.
Levantei-me, ainda incerto sobre o que faria a seguir, mas estava decidido a dar algum tipo de apoio. Caminhei até o castanho e parei na sua frente, observando os olhos cinzentos, agora avermelhados, cheios de água. Seu olhar clamava por compaixão. Ele estava exausto dar conta de tudo sozinho. Ele estava exausto de estar sozinho.
Numa atitude completamente impensada, abracei-o. Todos os músculos do seu corpo se enrijeceram na mesma hora e o chorou parou por alguns instantes. Um silêncio estranho se formou novamente naquela sala. Não sabia qual retorno teria daquele gesto, até que apertei-o um pouco mais contra mim. Senti sua cabeça afundar no meu ombro e o choro retornar, agora parecendo definitivamente menos contido. Era isto: ele havia deixado a represar se romper.
Enquanto sentia suas lágrimas deixarem meu ombro úmido, seus braços corresponderam ao meu abraço e também me envolveram. Os compridos braços dele se cruzavam por trás de mim e seus dedos apertavam levemente minhas costelas, como se implorassem por um cuidado que ele não tinha há muito tempo.
— Nós vamos resolver isso, eu juro – prometi, mesmo não tendo certeza daquilo que afirmava para ele, contudo, pareceu muito adequado para mim.
Ele assentiu, ainda com a cabeça apoiada sobre o meu ombro, com o choro abafado pela posição.
Ficamos durante muito tempo daquele jeito, até que senti, aos poucos, suas lágrimas cessarem o choro perder cada vez mais intensidade. Assim aconteceu até que ele estivesse calmo e o silêncio retornasse para o cômodo. Ele levantou a cabeça, ainda com o rastro úmido das lágrimas pela face e respirou fundo, olhando para cima.
— Obrigado – finalizou, começando a se desvencilhar de mim.
Tirei uma das mãos do seu corpo e a levei ao seu rosto, virando-o para mim. Encarei-o durante alguns breves segundos, observando a feição cansada, triste, porém levemente aliviada naquele momento.
Fechei os meus olhos. Em seguida, meus lábios foram, quase que sozinhos, de encontro aos seus. Fui tomado por um súbito frio na espinha porque não pensei um segundo sequer sobre aquilo. Já estava feito. Estava arrependido e pensei por milissegundos como me justificaria daquele papelão todo.
Abri meus olhos. Os dele ainda estavam fechados. Ele não parecia irritado ou surpreso, apenas atônito. Certamente também estava perdido e não sabia como agir.
Era melhor deixar tudo acontecer naturalmente, sem pensar muito sobre aquilo.
Fechei novamente meus olhos e lentamente abri seus lábios com os meus. Um mero encontro de lábios se transformou num beijo. Segurei-o com mais firmeza e colei mais ainda o seu corpo ao meu. Suas duas mãos que inicialmente parecia confusas, tornaram a me segurar pela cintura, pressionando-me contra ele também. Meu coração estava acelerado, sentia-me novamente como um adolescente.
Nosso beijo foi ganhando forma e aumentando a sua intensidade. A sensação era de que anos de desejo reprimido estava sendo colocado para fora naquele momento. Seus lábios se separaram dos meus e percorreram toda a extensão lateral do meu pescoço, distribuindo pequenos beijos por cada centímetro pelos quais passavam. Todos os pelos do meu corpo se eriçaram em resposta ao arrepio subsequente.
Joguei-o contra a parede e também deixei com que minha boca se sentisse a vontade para explorar o seu pescoço. Sua respiração estava mais pesada, completamente tomada pela euforia daquilo que estávamos fazendo. Voltamos a nos beijar e deixei com que uma das minhas mãos deslizasse até sua blusa e começasse a desabotoar os botões. Nesse momento senti algo a mais começar a se manifestar um pouco mais embaixo. Escorreguei a mão pela sua barriga, já desnuda, até o cós da calça e, em seguida, um pouco mais abaixo. Seu membro já estava rígido e pulsou em resposta ao meu toque. Senti-o sorrir constrangido entre o nosso beijo e ele lentamente virou o rosto, interrompendo aquele momento.
Eu dei alguns passos para trás e apoiei as minhas duas mãos sobre a mesa de jantar, ainda entorpecido por tudo o que tinha acabado de acontecer.
Não sabia muito bem como me sentir ou me portar depois daquilo tudo. Eu nunca havia tido aquele tipo de atitude, muito menos aquele tipo de sentimento, especificamente por ele. Todavia, aquilo aconteceu e pareceu ter vindo à tona. E foi recíproco. Ele correspondeu tudo o que eu havia feito momentos antes.
Ele ainda olhava para o lado, apoiado na parede, como se também tentasse processar todo o turbilhão pelo qual passamos. Ele passou a mão pela camiseta e começou a se abotoar novamente, ainda olhando para o lado. Ele olhou para o quarto de Narcisa, se virou e foi na direção da cozinha sem falar absolutamente nada.
Eu ainda não entendia muito bem o que tinha acabado de acontecer e nem o que viria a seguir. Decidi deixa-lo com seus pensamentos, seja lá quais fossem, naquele momento. Tentar conversar sobre isso agora poderia apenas nos deixar mais desconfortáveis com aquela situação. Por isso, sentei-me no sofá da sala e decidi encarar o fogo estalando até que as meninas voltassem.
Alguns minutos depois, ele veio da cozinha com duas canecas velhas de alumínio cheias de chá quente. Ele se sentou ao meu lado e, tomando um gole de uma delas, me ofereceu a outra. Ele ainda não havia tido coragem de olhar nos meus olhos. Peguei a caneca e olhei o líquido lá dentro por alguns instantes, até bebê-lo. Ficamos assim por alguns minutos.
— Como você conseguiu com que os aurores entrassem naquele hotel lá? – perguntei, tentando quebrar aquele silêncio ensurdecedor.
Ele tomou outro gole do chá.
— Eu literalmente só mandei uma carta anônima um dia antes – ele deu de ombros – sabia que mandariam alguém para averiguar se eu estava falando a verdade e, assim que tivessem certeza, invadiriam o hotel.
— Hum – murmurei em resposta. Tomei outro gole do chá. – E como foi para você ter entregado seu pai?
Pela primeira vez ele me olhou.
— Sabe, Harry... – ele bebeu mais um pouco – Eu acho que sempre fui um escravo das vontades do meu pai desde que nasci e só percebi quando era tarde demais.
Assenti.
— Ninguém, absolutamente ninguém, sabe como eu estava me sentindo quando Voldemort havia me escolhido para matar Dumbledore. Mesmo tendo sido Snape a fazê-lo, eu me sentia um lixo. Eu e minha mãe ajudamos vocês porque – ele pausou, olhou para o quarto novamente e pareceu pensar sobre o que estava falando — bom, ela, talvez porque soubesse que o jogo já estava perdido mesmo. Eu porque queria me sentir menos sujo com aquilo tudo que estava acontecendo.
— Não imagino como isso foi pra você – respondi, bebendo outro gole também.
— O ponto é que pra mim não foi difícil entrega-lo. A realidade é que eu me senti muito bem por fazer isso. Eu e minha mãe finalmente estávamos, de certa forma, livres. Ele era perigoso, sabe? Poderia estar planejando dar algum jeito de Voldemort voltar, sei lá.
— Sua mãe sabe que foi você? – indaguei, olhando-a adormecida no quarto.
— Nunca contei, mas ela deve desconfiar – tornou, olhando-o novamente para a sua mãe.
E mais uma vez, o silêncio se seguiu. Até que foi interrompido pelo barulho da porta se abrindo. Gina e Luna estavam de volta. Draco se levantou imediatamente e caminhou até as meninas.
— Conseguiram? – ele parecia um pouco animado.
— Sim! – exclamou Luna, também animada – Vamos ganhar algum tempo tratando a dependência da sua mãe com essa poção que faremos aqui. Ela estando desacordada tornará isso tudo menos doloroso para ela, acredite: qualquer tratamento de dependência mágica não é algo bonito de se ver.
Caminhei até a Gina, ajudando-a com algumas sacolas de papel que trazia consigo.
— Nós vamos conversar com a Hermione. Teremos que dar um jeito de ir até Azkaban – afirmei, assertivo, olhando para Gina com atenção.
Ela concordou com a cabeça.
— Quanto tempo temos? – virei-me para a loira.
— Não sei dizer ao certo – ela olhou para a Narcisa – talvez uns três, quatro ou cinco dias, no máximo.
— Então vamos hoje.
— Mas, Harry, você não acha melhor que eu tente prepara-la de alguma forma? – sugeriu Gina, um pouco assustada pela minha motivação repentina.
Olhei para Narcisa, depois para Draco, até retornar o olhar para a grifinória.
— Duas vidas dependem da gente agora.
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