Auror
1 Dez anos depois
Notas iniciais
[Draco]
Eu não aguentava mais aquilo. Precisava parar. Há meses na mesma situação, nesse ciclo vicioso de gato e rato. Por que ele não me deixava em paz? Será que tudo que eu fizera quando A Segunda Grande Guerra acabou não fora suficiente para que ele pudesse vencer e eu ser redimido dos meus pecados?
Ninguém jamais viu minha dor. Ninguém jamais viu meu sofrimento. Ninguém jamais viu minhas lágrimas. Todos viram apenas os meus erros.
Ali, provavelmente eu recebi a minha sentença e fui julgado. Tudo ao mesmo tempo, sem qualquer chance de recurso ou defesa própria. A dor era lancinante e eu tinha certeza de que ele me deixaria ali para morrer. Era só o que eu queria e precisava. Já não tinha mais o apoio dos meus pais. Amigos? Muito menos. Eu simplesmente não aguentava mais fugir e viver me esgueirando por todas as sombras no caminho.
Olhei para o lado e pude ver meu sangue começar a inundar o rejunte do piso. Vermelho, forte. O cheiro de ferro oxidado sorrateiramente aumentava. A minha visão começava a querer escurecer, mas minha mente parecia não conseguir se desligar, tamanha a dor. Involuntariamente comecei a pressionar os meus graves ferimentos.
Ouvi seus sapatos se aproximarem de mim com passos lentos como o pêndulo de um relógio. Toc. Toc. Toc. Toc. Seus joelhos caíram ao meu lado. Com dificuldade, consegui virar para ele e podia ver apenas um rosto com cabelos pretos, desfocado. Ele colocou uma de suas mãos sobre as minhas. Com a outra, levantou um pouco a minha cabeça. Senti algumas lágrimas pingarem de seus olhos e escorrerem pela minha bochecha.
— Por favor, não vá – disse ele, com a voz frouxa pelo choro. – Eu preciso que você fique comigo.
Semicerrei os olhos e consegui focar nos seus. As esmeraldas estavam imersas em lágrimas e ele parecia arrependido por tudo o que aconteceu até que chegássemos aqui. Novamente.
— Potter – suspirei. – A culpa é sua. Você fez de novo.
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[Harry]
— Ronald, eu não acredito que até hoje você ainda não aprendeu a dar um nó numa gravata – disse Hermione, agoniada, enquanto fitava Ron tentando ajeitar a sua própria gravata.
Com um balançar de sua varinha, ela fez com que a gravata do ruivo ficasse perfeitamente ajustada ao seu traje. A bruxa, tida como uma das garotas mais inteligentes que passaram por Hogwarts, agora era uma mulher, estudante de medibruxaria.
— Em minha defesa – disse ele, desconsertado – não preciso ajeitar uma gravata desde a nossa formatura em Hogwarts.
— Ron, você é um bruxo – respondi, tentando segurar a risada – Essa é a graça de não ser trouxa, sabe? A varinha – balancei a minha.
— Ha-ha – disse, ironicamente. – Você não parece muito nervoso para quem está prestes a se formar de novo.
Ele estava certo. Por um momento, a distração daquele cômico momento me fez esquecer que um dos momentos mais importantes da minha vida estava prestes a acontecer. O momento pelo qual estudei e trabalhei muito duro ao longo dos últimos anos, desde que tudo sobre o Lorde das Trevas havia acabado.
Se passaram praticamente dez anos desde que a guerra acabou, a escola foi reconstruída e terminamos nossos estudos. Era incrível como eu ainda me divertia com aqueles dois como na época de nossa adolescência. Muita coisa aconteceu conosco e, quem diria, seguimos aqui, juntos, até hoje.
— Estou muito orgulhosa de você – disse Hermione, parada na minha frente e ajeitando a blusa da minha camisa.
— Meu melhor amigo agora será, oficialmente, um auror – completou Ron, arfante, enquanto parava ao lado de sua namorada e a abraçava pela cintura.
Assenti aos dois com um sorriso sem-graça.
Era isto. Harry Potter, depois de todo o estardalhaço que fora minha infância trouxa e minha adolescência enquanto O Eleito, agora seria Auror. Tantos anos de estudo e dedicação agora finalmente seriam recompensados. Depois de tantas coisas ruins pelas quais passei, agora finalmente poderia gozar de realizar um dos meus maiores sonhos desta vida.
— Era um sonho nosso, mas você não quis estar comigo – falei, olhando para Ronny enquanto dava de ombros.
Ele suspirou.
— Depois de toda aquela confusão que passamos nos anos 90, eu não tenho mais vontade nenhuma de perseguir bruxos das trevas – riu de leve – Além do mais, meu irmão precisa de ajuda pra cuidar do administrativo da loja. Desde que Fred se foi, só há ele para pensar no desenvolvimento dos produtos. Com o crescimento da loja, ele não está mais dando conta de fazer tudo sozinho. A vida inteira ele nunca precisou passar tanto tempo só...
Um silêncio desconfortável pairou sobre o cômodo. A dor da perda de entes queridos ainda era muito real para todos nós. Ainda que a vida nos tivesse obrigado a conviver com isso, sempre que o assunto era suscitado, o incômodo era igual.
— Vamos! – disse Hermione, pegando a pequena bolsa e colocando sob o braço – Tenho certeza justo hoje você não vai querer estampar a capa d’O Profeta Diário como “O Eleito, o Auror e o Atrasado”.
Ron deu uma pequena risadinha e ela lhe retribuiu com uma pequena cotovelada nas costelas e um olhar sério. Mais esperto que ele, segurei a risada e marchei na direção da lareira da casa dos Black.
Em poucos instantes, estávamos saindo por uma das lareiras do Ministério da Magia. Muitas pessoas também chegavam ao local, arrumadas para o evento. Todas se guiavam pelo corredor de tijolos pretos a uma enorme porta dourada. Ali, parecia haver um portal conjurado que nos levava a um grande salão, tão imponente quanto o Grande Salão de Hogwarts. O padrão de construção parecia seguir o mesmo do ministério: pedras pretas brilhantes revestiam o chão e as paredes, com castiçais flutuantes iluminando todo o ambiente.
— Vou precisar deixar vocês agora. Ron, procure um local adequado para se sentar e assistir à cerimônia. Harry, você procure os outros formandos – ela disse, com firmeza – Falo com vocês mais tarde.
Ambos assentimos.
Não demorou muito até que fôssemos percebidos pela multidão de fotógrafos e repórteres d’O Profeta e outros jornais que já estavam no local para fazer a cobertura do evento.
“Deveria ter vindo com a minha capa da invisibilidade”, pensei comigo mesmo enquanto tentava me desvencilhar da concentração de sensacionalistas que não perdiam uma oportunidade de especular a minha vida desde a época de Voldemort.
Assim que consegui deixar os curiosos para trás, avancei na direção de onde provavelmente estariam todos os futuros aurores se aprontando para que pudéssemos nos formar.
Quando cheguei mais perto do grupo, pude vê-la. Estava com um vestido longo, de seda, rosa claro, que quase se misturava com o tom de sua pele. Calçava sandálias de salto, no mesmo tom de seu vestido. Pérolas nos brincos brilhavam ao longe. Os ombros, nus, pois o vestido tomara-que-caia não os alcançava. Os cabelos, soltos, ruivos, estavam ondulados. Ela estava linda.
Gina Weasley.
Namoramos durante dois anos. Mesmo com o assédio de muitas bruxas por conta da minha reputação de “o invencível” após a morte de Tom, não foi difícil ser fiel a ela. Gina era uma mulher de diversas qualidades e habilidades. Sua ajuda foi fundamental, desde os eventos da câmara secreta, para que o bem pudesse ter tido o êxito final. Éramos amigos, comparsas, companheiros. Era muito fácil amá-la e também receber esse amor. Éramos quase da mesma família, mesmo sem termos nos casado. Afinal de contas, Ron era meu melhor amigo, Molly e Arthur me tinham como um filho também. Não sei muito bem o que houve, nem quando isso aconteceu, mas nosso amor foi mudando. Não pareceu diminuir ou acabar, mas mudar. Em um dia, a ardência de nossa paixão quase poderia ser sentida na pele. No outro, eu quase podia vê-la como uma irmã mais nova. Terminamos. Sem briga, sem mal-entendidos, sem ressentimentos. Continuamos amigos. A proximidade foi naturalmente acabando e... Nos falávamos nas vezes em que ia até a casa dos Weasley para ver Ron ou em algum almoço de família que era convidado.
Eu já estava alguns meses sem ver ou falar com ela, até que nos descobrimos na mesma turma de formação de Bruxos Aurores pelo Ministério da Magia. Foi um pouco estranho, porque estávamos há algum tempo sem nos falar, mas nada completamente desconfortável. Era perceptível que ainda tínhamos um profundo respeito e carinho mútuos.
Vê-la tão bonita e arrumada daquele jeito me fez lembrar o porque de eu ter me apaixonado por ela há uma década, mas agora era tudo diferente.
— Oi, Harry – disse, colocando uma mexa no cabelo atrás da orelha.
— Oi, bonita – pigarreei – Gina, você está muito bonita.
Ela riu.
— Obrigada. Você também.
— Por favor, formandos, sentem-se naquela fileira ali – disse uma bruxa do cerimonial apontando para uma fileira de cadeiras demarcadas com flores coloridas.
Fiz sinal para que Gina passasse na minha frente. Ela assentiu e seguiu na minha frente até nossos assentos. Sentamos um ao lado do outro. O cerimonial pareceu conseguir acalmar toda a mídia e convidados presentes, pois não demorou até que todos estivessem sentados e o murmurinho das conversas fosse menor.
— Boa noite a todos os presentes – dizia outra bruxa responsável pela organização do evento – Daremos início à formatura da milésima ducentésima sexagésima terceira turma de aurores do Ministério da Magia com a palavra da Ministra de Execução das Leis da Magia, senhora Hermione Granger. Por favor, uma salva de palmas.
Todos se levantaram e Hermione subiu ao palco e se dirigiu ao púlpito imersa nas palmas de todos. Estava demasiadamente orgulhoso dela. Pelas notas excepcionalmente altas durante os seus anos em Hogwarts, após formada, conseguiu um emprego no Ministério da Magia. Preferiu deixar o casamento e os filhos para depois, já que pretendia trilhar e estabelecer uma brilhante carreira antes de constituir uma família. Ron soube compreende-la e, mais que isso, apoiou-a em todos os momentos e percalços desse caminho. Não demorou até que os frutos surgissem e ela estivesse no comando de um dos maiores departamentos de todo o Ministério da Magia.
— Boa noite a todos e obrigada, Veruschka. Gostaria de começar essa noite ressaltando a importância dessa profissão, de auror, que há anos, faz com que estejamos todos protegidos de bruxos e bruxas das trevas.
Granger continuou seu discurso e fomos chamados, um a um, ao palco, para recebermos nossos diplomas mágicos e sermos oficialmente condecorados como Aurores do Ministério da Magia. Ao fim da cerimônia, não tive como escapar e precisei dar inúmeras e cansativas entrevistas aos jornalistas presentes, que insistiam em saber quais eram meus planos para a carreira e todas as demais especulações costumeiras sobre minha vida pessoal – se eu estava namorando, se teria filhos, se o legado “Potter” estaria encerrado ali e todo tipo de baboseira que inventassem.
Depois disso tudo, aparatei por uma das lareiras e cheguei à sala da casa dos Black com Hermione. Estávamos mortos de cansados. Já havia alguns anos que ela aceitara morar comigo, pois estava sozinho e tinha muito espaço sobrando. Reformamos muitos cômodos, demos um novo “ar” para a casa e tentamos apagar toda a história ruim por trás de estarmos ali.
Cansado, fui para o meu quarto e procurei deitar para descansar. Dali dois dias seria o meu primeiro dia de trabalho como auror e mal podia esperar para começar a exercer a profissão que tanto almejei durante a minha vida e me custara anos de preparação.
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