Auror

13 Chez Sorcière


Notas iniciais
Ei, pessoal! Vou deixar esse capítulo aqui para vocês esse fds! :) Como vocês disseram que não se importam em ler capítulos grandes, eu mantive esse capítulo no formato original íntegro dele, pois eu iria fragmentá-lo em dois. Espero que gostem. Boa leitura!

[Draco]

Outono europeu de 2006

Andávamos os três por uma rua cinza de alvenaria. Era horário de pico e muitas pessoas trouxas andavam de um lado para o outro, saindo de seus locais de trabalho para ir para casa. O dia nublado compunha a paisagem excessivamente acinzentada e um estrondo no céu anunciava que uma chuva forte chegaria em breve. Havia prédios dos dois lados da rua, todos com um design moderno demais para serem construções antigas do mundo bruxo. Vidraças espelhadas e linhas curvas por todos os lados.

Olhava com atenção para cada detalhe daquela rua, tentando descobrir onde eu estava e o que meu pai queria fazer ali. Percebi algumas placas de lojas escritas em um idioma que eu ainda não dominava muito bem: o francês. Será que eu estava na França?

Meu pai deu alguns tapinhas nas minhas costas para que eu apertasse o passo. Olhei-o com um olhar agressivo como resposta, mas ele sequer percebeu meu contato visual. Estava demasiadamente preocupado em vigiar cada eventual olhar curioso sobre nós.

Ele estava muito diferente do que era de costume. Já fazia alguns anos que todos tivemos que mudar. Meu pai, anteriormente com uma postura extremamente altiva, longos e lisos cabelos prateados lhe conferiam a exata impressão que queria passar: um lorde inglês. Hoje, aquilo que apresentava não lembrava em nada o velho Lucius Malfoy de pelo menos oito anos atrás. Devido às nossas imagens terem sido veiculadas em absolutamente todos os tabloides do mundo bruxo, precisamos mudar um pouco nossa aparência para conseguirmos desviar de olhares curiosos que pudessem nos entregar. Meu pai cortara os longos cabelos e os tingira de uma tonalidade preto-azulada. Havia deixado a barba crescer e também a havia tingido da mesma tonalidade dos cabelos. Grandes e profundas olheiras se destacavam no rosto, contrastando com a pele anteriormente excessivamente alva e bem-cuidada. Muitos sinais de idade e cansaço agora eram visíveis na sua face. Rugas por toda a parte.

Ao seu lado, estava a minha mãe. Narcissa Malfoy, a fiel e subserviente esposa, agora parecia um pouco menos confortável com a sua posição. Ao contrário do meu pai, não fizera uma mudança completamente radical e, de certa forma, óbvia, como foi a do meu pai. Ela preferiu apenas escurecer os fios loiros e manter todo o cabelo numa tonalidade de loiro-escuro, quase cor de um caramelo meio queimado. A postura classuda também parecia estar diferente. Minha mãe agora se mostrava levemente curvada, como se andasse a tentar disfarçar alguma coisa – o seu próprio rosto. Assim como meu pai, vivia com medo de até mesmo olhar para os lados e se reconhecida por qualquer membro da comunidade internacional de aurores.

De maneira abrupta, meu pai dobrou à esquerda em meio à multidão de pessoas que ainda passavam por ali. Eu e minha mãe seguimos seus passos rapidamente. Acabamos entrando numa espécie de beco sem saída, mal iluminado e com uma quantidade bem menor de transeuntes. Demorou alguns segundos até que minhas pupilas conseguissem focar em alguma coisa com aquela diminuição repentina de iluminação. Ao longe, pude ver apenas a entrada simples do que parecia ser uma loja de alguma coisa. Um toldo listrado em branco e vermelho cobria a entrada do estabelecimento. Duas vidraças espelhadas, uma de cada lado da porta também de vidro e madeira. Acima disso tudo, uma placa onde estava escrito Chez Sorcière em letras clássicas. Olhando por fora, não conseguia fazer a mínima ideia do que aquilo poderia ser.

Meu pai tocou a porta com a ponta da varinha e sussurrou algum feitiço indistinguível em voz baixa. Ela pareceu dar uma pequena tremida: alguma coisa havia acontecido. Ele tocou o corrimão na porta e pressionou-o, fazendo com a porta se abrisse. Entramos num hall do que parecia ser algum tipo de hotel mágico. Carrinhos com bagagens andavam sozinhos de um lado para outro. Havia algumas poltronas de veluda dispostas em três grupos diferentes que lembravam pequenas salas de estar com uma pequena mesa de centro em cada uma. Ao contrário do que parecia pelo lado de fora, o interior parecia extremamente bem-iluminado e cheio de vida. Alguns bruxos caminhavam por esse hall de entrada conversando uns com os outros, parecendo não dar tanta importância para a nossa presença ali.

Alguma vantagem esse tempo todo que havia passado nos tinha dado: se mantivéssemos a discrição, conseguíamos passar praticamente imperceptíveis por qualquer lugar que quiséssemos. O quantitativo de aurores na nossa cola diminuía gradativamente com o passar dos meses, como se aos poucos esquecem da gente. O que não queria dizer que poderíamos ser descuidados e simplesmente sair por aí chamando atenção. Digamos podíamos sair à luz do dia sem o risco de sermos reconhecidos de maneira imediata.

Ao pé de uma imensa escadaria que levava a uma espécie de elevador, havia um balcão de madeira. Nele, entalhado em outro cravejado de pedras preciosas “Chez Sorcière”. Uma moça com cabelos vermelhos, ondulados e esvoaçantes se apoiava sobre ele com um sorriso singelo. Estava moderadamente maquiada. Seus grossos lábios estavam cobertos por um batom tão vermelho quando seus cabelos. Usava uma blusa de botões e uma saia relativamente formal. Um colete que combinava com as cores do hotel completava a vestimenta. Ao nos aproximarmos, nos cumprimentou.

— Bonsoir! Bienvenue à l’hôtel Chez Sorcière. Je m’apelle Lucille Laframboise.— sua voz era doce.

— Bonsoir — respondeu meu pai – parlez vous anglais?

— É claro, senhor! Boa noite. Sejam bem-vindos ao hotel Chez Sorcière. Me chamo Lucille Laframboise. Em que posso ajuda-los?

Meu pai apoiou sobre o balcão, olhando para os lados de maneira desconfiada. Ele jogou o corpo sobre o móvel recém polido e sussurrou, na direção da jovem atendente.

— “Quod autem serpens esuriit.”

A postura da moça mudou. Enrijeceu. Aquilo indicava que meu pai havia dito alguma coisa, que eu sinceramente não entendi do que se tratava, mas que havia um significado importante para ela. Aquilo era latim?

— Por favor, sigam-me – disse, tentando manter ainda um tom cordial conosco.

Ela deu a volta no balcão e nos guiou até a escadaria principal, forrada em um tapete vermelho cintilante, no centro daquele ambiente. Subimos por ela e entramos diretamente no elevador. Ela digitou algum código no painel analógico e o elevador rapidamente começou a se movimentar. Andou um pouco para trás e subiu vários andares. Talvez algo próximo de uns vinte. De fora, o prédio não parecia ser assim tão grande. Parecia ter, se muito, seis ou sete andares.

Quando a porta se abriu, nos deparamos com a entrada do que parecia ser um escritório principal. Duas portas de mogno com detalhes encravados com o mesmo ouro da entrada do estabelecimento.

“Chez” de um lado. “Sorcière” do outro.

Algumas plantas trepadeiras mágicas pareciam pender por cima do batente da porta. Pareciam dançar levemente seguindo o ritmo de uma melodia calma cantada por uma mulher em francês que soava de dentro das portas. Ninguém parecia realmente maravilhado pela decoração do ambiente. É como se meu pai e minha mãe já conhecessem aquele local muito bem. Eu, por outro lado, não. Durante todo esse tempo de fuga quase não tive a oportunidade de passar por lugares tão bonitos. Sempre lugares abandonados, vazios, escuros.

Lucille retirou a varinha do bolso do seu colete e movimentou de forma circular na frente da porta, que logo se abriu. Ela sinalizou para que entrássemos. Assim que o fizemos, a porta se fechou atrás de nós. De fato, estávamos no escritório do que parecia ser o dono do hotel.

Os móveis eram de qualidade superior. De coisa boa eu entendia. Mesmo que estivesse há alguns anos sem desfrutar do luxo, eu ainda saberia diferenciar coisas de quinta categoria de coisas com exímia qualidade. Uma grande mesa, também de mogno estava à nossa frente, perto da imensa janela que tinha vista para toda a cidade. Acima da mesa, algumas penas voadoras fazendo anotações, fotos em movimento, pilhas de papéis. Atrás dela, uma cadeira enorme, com o veludo na mesma tonalidade dos sofás da entrada do hotel. Assim que escutou a porta se fechar, a cadeira se virou e lá estava sentada uma mulher. Talvez fosse a dona do hotel.

Ela se levantou e veio em nossa direção, parecendo muito animada. Trajava um vestido que parecia de baile, feito em um tecido leve, porém inconfundivelmente costurado à mão. Preto, tinha mangas três-quartos e descia até um pouco além dos seus joelhos. Era coberto de lantejoulas brilhantes lhe davam um ar mais formal. Usava um chapéu de feltro, também preto, que não era muito grande e cobria praticamente apenas um lado da sua cabeça, deixando amostra os cabelos tão vermelhos quanto os da primeira moça que avistamos ao chegar. Usava sapatos de salto do tipo scarpin em uma textura que lembrava muito o vinil. Algumas pulseiras e um colar de ouro. Por fim, brincos com rubis encrustados no centro das joias.

Ela parou na nossa frente e colocou as mãos na sua cintura, olhando para meus pais e, em seguida, percebendo a minha presença ali.

— Bienvenue, mes amis! Achei que haviam desistido de vir aqui.

— Louise! – exclamou meu pai, com um sorriso conveniente no rosto – Precisamos esperar algum tempo até podermos voltar à Europa. Muitos aurores estavam atrás da gente.

— Ah! – ela arfou – Parece que esse pessoal não tem mais nada para fazer. – Seu sotaque era muito pesado ao pronunciar os fonemas com a letra “r”. – Voldemort já não está destruído? Já não conseguiram acabar com tudo que nós planejamos? É como se o Lord ainda tivesse alguma chance de voltar – ela levou os dedos à ponte do nariz, fechou os olhos e suspirou.

Olhei-a com atenção e ela não possuía qualquer sinal de uma Marca Negra. Não parecia que ela havia sido uma comensal. Talvez fosse apenas uma das milhares de simpatizantes das baboseiras fascistas de Voldemort.

— Imagino que este seja o Draco – comentou, olhando-me de cima à baixo – um belo rapaz. Pena que não tivemos a oportunidade de sermos devidamente apresentados devido às... circunstâncias – ela deu uma risada irônica e esticou a mão para me cumprimentar. Retribui de maneira mecânica, ainda sem entender o que fazíamos ali.

— Meus pais nunca comentaram ter uma amiga dona de um hotel na França.

— França?! – indagou, um pouco surpresa pela minha frase – Querido, você está na Bélgica!

— Tudo bem, tudo bem – disse meu pai, fazendo pouco caso da minha descoberta – você sabe porque viemos aqui. Sabe que, no momento, é o que nós temos.

Minha mãe parecia levemente incomodada com aquela situação toda. Alguma coisa parecia errada com ela. Sua postura que, até poucos minutos parecia defensiva, agora, parecia um pouco mais firme.

— Eu sei que precisam de abrigo. Jamais negaria isso a um aliado tão antigo – ela sorriu novamente e apontou para uma estante ao lado de sua mesa. Com a outra mão, gesticulou a varinha e a estante de madeira se mexeu rapidamente, mostrando detrás de si, um corredor que parecia uma continuação do hotel. – Podem usar qualquer um desses quartos. Essa parte do hotel é exclusiva para aqueles meus convidados especiais.

— Obrigado, Louise – agradeceu minha mãe, fitando-a séria – sabia que poderíamos contar com você mesmo após a queda do Lorde.

— É um prazer manter nossa rede de contatos ativa – ela disse, olhando para as suas unhas – espero que apareça novamente alguém corajoso o suficiente para enfrentar o ministério e juntar todo mundo nisso mais uma vez.

Após mais uma troca de sorrisos um pouco forçada entre os três, seguimos pelo corredor recém aberto e entramos no primeiro quarto à nossa esquerda. Um clarão tomou conta do espaço e o barulho de uma intensa começou a se formar do outro lado da janela.

O chão de carpete, coberto com tapetes persas deixava o ambiente extremamente aconchegante, assim como o seu papel de parede em tons de branco e vermelho. Havia uma cama de casal, no centro, e uma cama de solteiro perto da janela, no extremo oposto do quarto onde eu estava, na porta. Quadros, mas estes pareciam não ter qualquer tipo de movimento – talvez para preservar a privacidade dos hóspedes – e alguns enfeites com plantas. Tudo muito clássico, simples, porém com muito bom gosto e qualidade. Entre as camas havia uma cômoda em um tom de madeira clara. Havia também uma porta branca, de madeira, que levava a um banheiro.

— Podem tomar um banho e procurar por roupas novas na cômoda, ela é mágica, solicitei à Louise que providenciasse tudo para mim – afirmou meu pai – As refeições serão entregues no quarto pelos funcionários. Demais coisas que precisarmos, podemos falar diretamente com ela para que nos arranje – ele seguiu na direção da porta novamente e segurou a maçaneta – vou terminar de resolver algumas pendências sobre nossa estadia aqui com ela – e saiu pelo corredor novamente.

Eu e minha mãe nos sentamos na imensa cama de casal. O colchão era a coisa mais confortável que eu havia experimentado há muito tempo. Deitei-me, descansando as costas sobre o edredom macio, e permanecendo com as pernas para fora da cama. Narcissa permanecera sentada, como se estivesse a pensar em alguma coisa.

— Mãe? – chamei-a enquanto encarava o candelabro que pendia o teto.

— O que foi, meu filho? – ela respondeu, ainda pensativa.

Eu me levantei e olhei-a com mais atenção.

— Quem é essa mulher?

Ela respirou fundo e se virou para mim, passando as palmas das mãos nas coxas cobertas pelo vestido que usava.

— Louise Laframboise. É uma seguidora de Voldemort, apesar de não ter se tornado efetivamente uma comensal da morte. Ela é dona de uma rede de hotéis em países francófonos espalhados pelo mundo – ela suspirou. – Ela apoiava o lorde das trevas porque é especialistas em maldições, azarações e encantamentos de controle e persuasão, que usualmente costumam se proibidos, como a própria Maldição Imperio— minha mãe se levantou e caminhou até a janela, apoiando a mão sobre o vidro que escorria água da chuva. – Ela era uma bruxa muito pobre. Conseguiu todo o seu império utilizando de meio que hoje são considerados ilegais. Ela soube driblar muito bem a justiça bruxa para que não percebessem o que ela fazia. Ela não estava de fato interessada em tudo que Voldemort queria fazer, mas sabia que se ele triunfasse, sua influência chegaria a todos os cantos do mundo bruxo e, certamente, ela não precisaria mais esconder sua expertise.

Fiquei meio zonzo com aquele tanto de informações. Quer dizer que havia tanta gente importante ao redor do mundo bruxo que também compactuava com todas as loucuras de Tom Riddle?

— Tá, acho que entendi isso. E por que só viemos atrás de sua ajuda agora?

— Ah, Draco – ela se virou para mim – ela é uma mulher muito influente. Não poderia ser envolvida diretamente com esse tipo de coisa. Ela ajudou os comensais durante muito tempo fornecendo abrigo, dinheiro e o que mais nós precisássemos. Quando o lorde caiu, ela precisou sair de cena para que os aurores não vinculassem sua imagem com aquilo tudo que estava acontecendo. Eles já haviam percebido alguma coisa e estavam de vigia. Dessa forma, só pudemos procurar abrigo por aqui agora.

— Agora isso para fazer mais sentido – respondi, levantando-me e alcançando uma das toalhas que estavam dobradas sobre a cama de solteiro – vou tomar um banho.

Caminhei até o banheiro, entrei e fechei a porta, passando a chave logo em seguida. Lá dentro havia o mesmo padrão de papel de parede de listras brancas e vermelhas em vertical. O piso era de algum tipo de mármore claro, em uma cor entre o branco e o creme. Do meu lado direito, um box com um chuveiro. À minha frente, apenas um vaso sanitário branco com detalhes dourados na caixa de descarga. À esquerda, uma banheira imensa que provavelmente cabia 4 pessoas de maneira confortável com um vidro espelhado que tinha vista para o mesmo lado da cidade que a janela do quarto. Ao lado da banheira, uma pia com espelho e gabinete de madeira. Ambas a moldura do espelho e o gabinete acompanhavam o mesmo tipo de madeira classuda usada em todos os outros detalhes vistos anteriormente pelo hotel.

Joguei a toalha sobre o gabinete da pia me apoiei sobre ela. Olhei-me no grande espelho à minha frente e respirei fundo. Parecia cada vez mais acabado. Imagens de mim há cerca de nove, dez anos circundaram a minha mente e apareceram como se fosse um reflexo no espelho. Eu estava muito diferente. Sentia falta do aspecto saudável e jovial que eu tinha. Fora obrigado a escurecer os meus cabelos e deixa-los praticamente castanhos. Apesar de estar mais alto, não me sentia forte como imaginei que seria com essa idade. Já tinha barba e, àquela altura, ela me dizia que precisava ser feita com urgência. Estava grande e sem contorno. Mais que isso, as mesmas olheiras do meu pai também se faziam presentes em mim. Era incrível como até mesmo nossas olheiras se pareciam e aquilo me deixava incrivelmente irado. Desde que estávamos fugindo, ele se tornara mais tirano que de costume e o meu sentimento de frustração por ter perdido tudo por causa das escolhas dele só crescia.

Tudo já havia dado errado. Que moral ele ainda queria ter para dar ordens a mim e à minha mãe?

Bati com força a mão no mármore da pia. Outro estrondo e um novo clarão inundou o banheiro.

Mais um trovão.

Inverno europeu de 2006

Já havia passado pouco mais de um mês. Há pouco mais de um mês eu e minha mãe sequer saíamos na rua do hotel.

Meu pai nos mantinha quase que numa espécie de torre de isolamento. Segundo ele, caso eu e minha mãe saíssemos, estaríamos mais vulneráveis ao rastreio de qualquer auror belga do que ele. Por isso, quando era necessário sair para qualquer coisa, apenas ele “tinha autorização” para fazê-lo, autorização, esta, concedida por ele mesmo. De tudo, não era extremamente ruim ficar ali. Tudo era muito cômodo. Tínhamos, novamente, os melhores pratos que desejássemos e podíamos usufruir de todos os fricotes daquele hotel chique. Piscina, jardins internos e externos, salões de jogos... Graças à magia, mesmo que pela janela do quarto víssemos toda a cidade coberta pela neve, os ambientes abertos do hotel tinham um sol digno de verão tropical.

Foi muito bom ter pelo menos parte da minha vida de volta durante algum tempo. Novamente eu me sentia um Malfoy, tendo direito de consumir os melhores produtos de todos. Foi muito bom nas primeiras semanas. Ainda que fosse muito bom, tudo começou a ficar extremamente sufocante. Não podia falar ou sequer me comunicar com nenhuma outra pessoa, à exceção das funcionárias do hotel. Sim, funcionárias. Todas as pessoas que trabalhavam lá eram mulheres e tinham os cabelos vermelho cor de fogo, exatamente como Louise. Todas se pareciam demais.

Estava sentado numa poltrona, no quarto do hotel, lendo um livro meu antigo de Hogwarts sobre poções. Minha mãe estava sentada na cama de casal, tentando usar a varinha para conduzir agulhas de tricô e confeccionar alguma coisa. Jamais imaginaria minha mãe realizando alguma atividade desse tipo em outro momento da vida. Mais uma vez, meu pai havia saído para “cobrar algum favor” de mais alguém que lhe devia alguma coisa.

— Mãe, você não está cansada disso?

— Draco, você sabe que isso é o melhor que nós já tivemos em anos, não deveria reclamar – ela respondeu, sem deixar de ter atenção nas agulhas.

— E por quanto tempo? Vamos ficar aqui para sempre? E mesmo que ficássemos, vamos ficar escondidos também para sempre? – com a varinha, fiz o livro flutuar até a prateleira acima da cama.

— Draco – ela chamou meu nome novamente, agora parando as agulhas e olhano diretamente para mim – você sabe que não temos essa resposta.

Levantei-me da poltrona e caminhei até ela, ajoelhando-me no carpete à sua frente, onde estava sentada na cama e apoiando as mãos sobre suas pernas.

— Você também não está cansada disso tudo? E se a gente desse só uma volta fora daqui?

Ela me olhou, tristonha e com um sorriso piedoso.

— Nós não podemos, somos vigiados o tempo todo, por nossa própria segurança.

— Por quem? – indaguei, confuso.

— Todas as funcionárias desse hotel. Você não reparou nada estranho nelas? – ela parecia surpresa com minha incapacidade de perceber algo que aparentemente estava óbvio.

— Bem – franzi o cenho – elas parecem todas iguais, uma espécie de robô. Sei lá.

— Exatamente. São todas membras de um grupo de bruxas das trevas liderada por Louise. É como se todas se tornassem de uma única família. Até adotam o mesmo sobrenome dela. Elas se autointitulam Les dames rouges.

Uma corrente de ar frio se formou entre a porta entreaberta do quarto e a janela do banheiro. Ao passar por mim, senti um arrepio na minha espinha. Aquilo provavelmente significava que Louise era tão louca e megalomaníaca quanto Voldemort.

— E se a gente saísse e não voltasse nunca mais? – perguntei, segurando suas mãos com alguma esperança de resposta positiva. – Eu sei que você está tão cansada disso tudo, do meu pai e das ordens dele, quanto eu.

Ela pareceu relutante consigo mesmo. Hesitou antes de me responder.

— Como você acha que seria capaz de fazer isso? Passar por todas essas meninas se esgueirando pelos corredores...

— Você confia em mim, mãe? – apertei suas mãos com mais força.

Ela hesitou novamente, preocupada com o que quer que estivesse passando pela minha cabeça.

— Eu confio, Draco, mas não acho que seu pai vá concordar com isso.

— E é por isso que ele não está incluído nos meus planos para sair daqui.

Seus olhos se arregalaram em resposta à surpresa que ela visivelmente sentira. Ao contrário do que imaginei, ela não falou absolutamente nada. Apenas deslizou uma das mãos pelo meu rosto com a barba recém-feita e soltou um sorriso incrédulo.

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Alguns dias se passaram depois da conversa que eu tive com a minha mãe. Nossa rotina não havia mudado em absolutamente nada. Sequer havíamos tocado novamente no assunto.

Mas eu já havia pensado no que faria para que pudéssemos sair dali de maneira imperceptível.

Durante uma das minhas voltas pelo Chez Sorcière, pude perceber que nessa parte oculta do hotel onde nosso quarto se localizava, Laframboise tinha outros convidados especiais. Dezenas de bruxos que já havia visto cartazes espalhados por diversos locais por onde passei ao longe de todos esses anos. A maioria desses bruxos foram todos acusados de estarem ligados direta ou indiretamente à Voldemort ou ao uso de magias consideradas proibidas.

Outra coisa interessante que tomei nota, foi um objeto mágico no escritório da bruxa ruiva. Havia uma espécie de bola de cristal brilhante em uma outra estante na sala. Após investigar em livros da biblioteca do hotel por algumas horas, descobri que aquilo servia como uma “antena” que concentrava magia e protegia o hotel de bruxos para aparatarem de dentro. Aquilo é algo que eu precisaria me livrar se quisesse fugir sem ser pego por ninguém, todavia, era perceptível que havia alguns encantamentos que a protegiam. Se eu quisesse sair e tentasse desfaze-los, possivelmente alguém seria alertado. Precisaria de uma distração grande o suficiente para que ninguém fosse atrás de mim enquanto fizesse isso.

Meu plano estava traçado. Sabia muito bem o que tinha que fazer. Eu poderia me dar muito mal nessa empreitada, mas também poderia significar o preço da minha “liberdade”, mesmo que essa liberdade não significasse de fato, liberdade.

Aquele seria o dia. Nevava muito do lado de fora e fazia demasiado frio. Havia acabado de fazer a minha barba e estava me ajeitando na frente do espelho, quando escutei o barulho de algo caindo no chão. Rapidamente, saí do banheiro e percebi minha mãe se levantando do chão.

— O que houve? – perguntei, ajudando-a a e recompor.

— Não sei, fui tomada por uma súbita fraqueza. Acho que não me alimentei direito hoje – respondeu, tentando fazer pouco caso do que acabara de acontecer e demonstrando dificuldade para se recuperar.

— Você praticamente desfaleceu no chão – contrapus, preocupado.

— Não foi nada demais, Draco. Já estou bem.

Apesar de tudo, Narcissa Malfoy ainda continuava orgulhosa.

Meu pai entrou pela porta do quarto. Mais uma vez ele havia nos deixado “de molho” lá enquanto saía para resolver qualquer coisa. Ao entrar no recinto, percebeu o que estava acontecendo e nos olhou desconfiado.

— O que está acontecendo aqui? – perguntou, olhando-nos de cima.

— Não sei, acho que minha mãe está doente. Ela desmaiou.

— Para com isso – ela respondeu, irritada, se soltando de mim com força e agilidade que não condiziam com sua força há poucos segundos – eu acho que só estou com fome. Não se preocupe, Lucius, está tudo bem.

— A-ham – murmurou, calmamente e ainda mantendo o olhar desconfiado sobre nós dois.

Naquele momento, um tremor forte e um estrondo alto puderam se sentidos. As luzes piscaram. Silêncio. Nos entreolhamos assustados. Ninguém sabia o que tinha acabado de acontecer.

— Vou verificar o que acabou de acontecer – respondeu meu pai, já sacando a varinha do bolso.

— Vou com você – apontei o dedo para ele – e você não vai me obrigar a ficar aqui esperando alguma coisa acontecer. Mãe, espere a gente aqui.

Surpreso com a minha súbita coragem e autonomia, meu pai apenas assentiu. Não havia tempo para discutirmos qualquer coisa naquele momento.

No corredor do quarto, rouges e hóspedes correndo de maneira desordenada de um lado para o outro, como se uns estivessem fugindo de alguma coisa e outros indo exatamente na direção do problema.

Passamos pela sala de Louise, estava vazia. Parecia que ela havia saído dali às pressas, pois havia uma xícara derramada de chá ainda fumegante por cima da mesa. Aquilo era sinal de que o que quer que tenha acontecido, era algo urgente e que demandava sua atenção naquele exato instante. Saiu visivelmente apressada.

Ao chegarmos no saguão, pelo elevador, pudemos observar a loucura que acontecia.

Aurores e rouges batalhavam por todo o salão. Alguma coisa havia dado muito errado. No canto direito, perto de onde anteriormente haviam sofás de veludo, agora havia um enorme buraco no chão. Algum feitiço atingiu uma das encanações na parede, aumentando a pressão na caldeira do hotel, que a fez explodir sob o piso do salão principal. Talvez fosse essa a causa do enorme estrondo que ouvimos alguns minutos antes.

Aquilo parecia uma zona de guerra e eu e meu pai precisamos nos abaixar atrás do alambrado da grande escadaria para desviar das luzes voadoras com diversos feitiços.

Nenhum sinal de Louise por ali.

Aquilo era um sinal de que o meu plano havia dado certo.

Duas auras brancas pousaram exatamente ao nosso lado. Dois aurores se materializaram e começaram a nos atacar. Não sabia ao certo se eles tinham consciência de quem éramos ali, mas sei que começamos a devolver os ataques e começamos a fazer parte de todo aquele duelo que acontecia ali.

Enquanto duelávamos, fomos andando para atrás, até que esbarramos em uma porta. Rapidamente, alcancei a maçaneta, abri-a e passei, sem deixar que meu pai tivesse tempo hábil para reagir.

— Colloportus!

A porta dava para uma imensa escadaria. Sem ter muito tempo para pensar, comecei a correr e subir as escadas. Andar por andar. Lá em cima, estava exausto e completamente ofegante. Não sabia exatamente quantos andares havia subido a pé, mas havia conseguido chegar onde queria: na porta da sala de Louise.

Com a varinha ainda empunhada, abri a porta e me certifiquei de que ninguém havia chegado lá ainda. Caminhei até a bola de cristal e percebi que ela estava lá, intacta.

— Finite incantatem! — e passei a varinha sobre o campo de força que a envolvia. Precisei me concentrar bastante para ter energia o suficiente para quebrar aquelas encantamentos.

Assim que finalmente pude debruçar as mãos sobre o objeto, a porta estourou. Quando olhei em sua direção, havia um bruxo, negro, com o porte físico atlético me encarando naquele momento. Usava uma calça justa, uma blusa de botões branca e um colete cinza-prateado. Por cima, um belo sobretudo preto. Sua varinha estava apontada para mim.

Em reflexo, levantei as duas mãos.

— Draco Malfoy, você está preso – afirmou – não tente nada idiota agora – disse, de maneira incisiva.

Não respondi nada. Encarei-o de volta por alguns segundos até deixar o cristal cair de uma das minhas mãos levantadas. Não houve tempo para que ele reagisse. Ao escutar o objeto se espatifar no chão, aparatei até o meu quarto, segurei minha mãe e aparatei novamente para longe dali.

Aparecemos em algum beco escuro naquela mesma cidade. Ainda estávamos na zona de risco para sermos pegos.

— Draco! – exclamou a minha mãe, assustada com a rapidez que as coisas aconteceram. – O que houve? Como conseguiu aparatar? Cadê o seu pai?

— Aurores invadiram o hotel – respondi, ainda ofegante pela velocidade com a qual precisei pensar e agir até então.

— Você teve algo a ver com isso? – indagou, era possível perceber um tom de desespero na sua voz.

— Eu disse que a gente sairia de lá.

— E Lucius?

Fiz sinal negativo com a cabeça.

— Os aurores o pegaram.

— Merlim! Seu pai irá para Azkaban! Não me diga que você deixou isso acontecer com ele – ela começou a andar em círculos, preocupada.

Eu não podia dizer a verdade para ela. Pelo menos não agora. Havia feito o que precisava ser feito. Não havia como voltar atrás. Agora ele precisaria lidar com tudo que provocou para si mesmo.

— Oh, Draco – ela apoiou sobre os tijolos de uma das paredes do beco, colocando a mão sobre a testa – não estou me sentindo bem. Acho que vou desmaiar.

2008

— E foi assim que ela começou a apresentar os sintomas que te falei. Tudo começou naquele dia no quarto e começou a piorar a partir do dia que fugimos do hotel – conclui, arfante, passando a mão com preocupação pelo rosto.

— Draco – respondeu Luna, com um olhar um pouco mais otimista – eu acho que eu sei que sua mãe tem, mas vamos precisar da ajuda do seu pai ajuda-la.

Notas finais
Bom, vocês já viram que não se trata de uma Veela! Alguma coisa realmente aconteceu com ela. Vamos descobrir isso daí ao longo dos próximos capítulos. Quero saber se vocês têm mais alguma teoria do que pode ser que está acontecendo com ela. Já dei algumas dicas ao longo do capítulo anterior e desse... Façam suas apostas!