Auror
9 Cárcere
Notas iniciais
[Draco]
Virei-me de costas e percebi, que numa mesa próxima, dois homens me encaravam de maneira discreta. Não sabia se haviam acompanhado toda a transação ou o que queriam comigo. Como uma postura agressiva, caminhei até a lata de ervilhas, sem deixar de fazer contato visual com os dois. Não seria intimidado dessa maneira.
Estava decidido a ir embora dali, afinal de contas, minha mãe precisava que eu fizesse novamente a poção Vitalum Vitalis para que ela voltasse a se sentir bem. Enquanto realizava meu trajeto até a chave de portal, fiz questão de encarar os dois homens que anteriormente não paravam de me olhar. Não sei muito bem o que eu queria com aquilo, mas seja lá o que fosse, talvez demonstrasse que eu não tinha medo deles e nem de ninguém ali – se era isso que eles estavam tentando ver. Antes que eu pudesse concluir a minha rota até o objeto mágico, percebi um incômodo silêncio no local.
O barulho da música tocada pelo elfo no piano havia cessado. Por alguns segundos, ouvia-se apenas o murmurinho das conversas de todos que estavam ali presentes. Não demorou para que todos percebessem o que tinha acabado de acontecer. O mesmo elfo, poucos instantes depois, desaparatou. Seres não-bruxos aparentemente eram imunes ao encantamento que nos impedia de aparatar dali. Alguma coisa estava bem errada. No segundo em que pretendia me virar consultar o que havia acontecido, um grito irrompeu do duende:
— AURORES NO BAR! – em seguida, acompanhado por um deleite irônico expresso em sua face, ele escapou por uma pequena porta em um fundo falso atrás da estante onde guardava as bebidas.
Não demorou até que o caos estivesse perfeitamente instaurado naquele lugar. Luzes com todos os tipos de magias de duelo ricocheteavam por toda a estrutura, objetos e bruxos.
— Depulso! — o primeiro instinto que tive foi conjurar um feitiço em uma mesa que estava exatamente atrás de mim, fazendo com que ela caísse com o tampo virado para o outro lado e eu pudesse me abrigar de qualquer coisa que viesse na minha direção.
Eu tinha poucos segundos para pensar no que fazer. Primeiro: eu precisava sair dali; Segundo: eu precisava sair dali vivo; Terceiro: eu precisava sair dali vivo na posse do meu destilado do veneno de fada mordente. Muitas coisas precisavam ser administradas para que tudo desse certo. Experimentei espiar pela fresta da madeira machucada da mesa para ver de onde os feitiços pareciam vir. Eles vinham de absolutamente todos os lados. Aparentemente, ninguém sabia muito bem quem era quem e todos duelavam contra todos.
Eu precisava localizar a chave de portal. Era a minha única chance de fugir de toda aquela confusão para salvar a minha mãe. Caso eu fosse pego ou preso, certamente seria levado diretamente para Azkaban e isso poderia significar a morte da minha mãe, de maneira lenta e dolorosa. Isso não podia acontecer de forma alguma.
Semicerrei os olhos na direção de onde a chave de portal previamente estava e, por algum milagre, ela ainda estava lá, na beira do balcão. Eu ainda estava próximo dela. Só precisava me esgueirar por detrás daquela mesa e tentar alcança-la... Tão perto, mas tão longe. Espiei mais uma vez pela pequena fresta. Ninguém parecia muito preocupado com a minha presença ali enquanto tentavam não serem mortos ou terem suas barricadas destruídas. Aquele era o momento. Apoiei os cotovelos sob o chão de madeira empoeirada e iniciei meu movimento. Arrastei-me pela mesa, rente ao chão, tentando não ser acertado por nenhuma magia. Quando me dei conta, já havia passado mais da metade do caminho e estava intacto. Faltavam apenas alguns poucos centímetros até que minha mão pudesse pegá-la e eu estaria livre.
Uma luz, vinda de sabe-se-lá-onde, acertou em cheio a latinha, que por sua vez, voou para a direção oposta na qual eu estava indo. Dei um profundo suspiro irritado e rapidamente retornei à minha posição de início. “Justamente agora, né?” pensei comigo mesmo. Não havia jeito. Eu precisava tentar novamente. Os duelistas ainda pareciam terem esquecido da minha presença ali enquanto batalhavam por suas vidas. Seria uma questão de tempo muito breve até mais alguém ter a oportunidade de alcançar a lata para fugir rapidamente dali. Novamente, pus meu olhar no pequeno orifício da mesa e visualizei a bendita lata. Calculei meus passos e todos os movimentos. Seria mais arriscado, mas a opção de ficar ali e esperar ser pego não parecia muito atraente também. Se fosse pego ou morresse, pelo menos o faria tentando.
Respirei fundo mais uma vez. Debrucei-me pelo chão, próximo ao balcão, tentando me manter sempre atrás das cadeiras e mesas, para alcançar o objeto. Mais uma vez, quando estava próximo de atingir meu objetivo, escutei o ranger da madeira atrás de mim – alguém estava muito próximo. No momento em que virei a cabeça para verificar quem poderia ser, vi um dos bruxos que estavam me encarando previamente. A barba levemente grisalha e o rabo de cavalo não me pareciam familiares. De certo, ele não tinha uma aparência muito comum para um auror. Ainda assim, ele apontava sua varinha na minha direção. Quando pensei em empunhar a minha para me defender, antes que ele pudesse pensar em pronunciar algum feitiço, ele foi atingido por outro, caindo exatamente sobre o meu corpo. Não tive tempo de raciocinar. Percebi que a chave de portal estava a um palmo de mim.
— Accio!
Foi reconfortante o barulho do metal sendo arrastado por alguns centímetros até chegar à minha posse. Não demorou até que estivéssemos ambos caídos, um sobre o outro, no chão empoeirado e envelhecido do armazém. Alguns corvos crocitaram assustados com o estampido da nossa abrupta chegada ali. Com o movimento de um braço, empurrei-o para o lado, ficando livre para levantar. Passei a mão no meu bolso e pude sentir que a minha encomenda permanecia preservada. Eu podia sair dali, mas aquele homem não parecia bem.
Contei três segundos e soltei um novo suspiro profundo. Muita coisa errada havia acontecido desde a época da guerra. Talvez aquilo fosse a vida me dando uma oportunidade de fazer a coisa certa? Ou será que isso seria só mais um novo truque do destino pra acabar comigo? Eu não sabia qual era a resposta correta e, definitivamente, não haveria como saber ali. De qualquer forma, poderia usá-lo para obter informações e saber se o Ministério da Magia havia mandado, além dos aurores, grupos de caçadores de recompensas atrás de minha mãe e mim.
Mesmo com o risco de ser rastreado por ali, segurei-o pela gola da blusa e desaparatei até a entrada da velha barraca de lona amarela.
Ele não dava sinal algum. Parecia completamente desacordado. Coloquei o rosto próximo de seu nariz. Ele ainda respirava, de maneira fraca, mas respirava. Toquei seus pulsos: ainda existia algum esforço do coração para bater. Certamente, esse homem acabara de receber um feitiço da morte ricocheteado ou alguma outra magia daquele tipo. Ele precisaria de cuidados para não morrer, até porque deixa-lo ali o mataria, sem qualquer sombra de dúvida. Estava muito frio.
Palpei sua capa em busca de alguma coisa que pudesse me fornecer qualquer tipo de informação sobre quem ele era. Não havia muita coisa com ele, além da varinha que ele lutava para manter presa à sua mão de maneira inconsciente. Suspirei novamente. Precisava garantir que não havia mais nada com ele. Enfiei a mão por dentro de sua capa e encontrei alguns papéis.
“Robert Grimmleather”. Eu conhecia aquele nome de algum lugar. Antes de tentar me concentrar naquilo, olhei ao redor e garanti que ninguém havia nos seguido. Nada. Foquei-me novamente naqueles papéis. Robert Grimmleather... Grimmleather... Acho que havia o visto nos jornais. Era isto! Nos jornais! Mas o que eu havia visto sobre ele? Encarei-o novamente. As olheiras profundas pareciam reforçar o visual melancólico dele. Voltei a minha atenção para os papéis mais uma vez. Parecia um tipo de biografia, ou resumo... e lá estava. Ele era um famoso assassino de aluguel que estava sendo procurado pelo Ministério há alguns meses. Estranho. Havia até uma foto dele sendo preso. Por que esse cara estava atrás de mim? Como ele conseguiu fugir de Azkaban?
Tornei a palpar seus bolsos novamente. Um pequeno frasco estava no outro bolso da sua calça. Peguei-o e analisei. A coloração era em um roxo escuro, denso, que lembrava suco de uva integral. A textura parecia a de um líquido espesso. Abri o frasco e cheirei. O odor parecia curiosamente o de couro velho, mofado. Não parecia gostoso. Aquilo poderia ser, talvez... Polissuco? Justificaria toda aquela papelada com o homem que trouxera comigo.
Terminei de verificar os seus bolsos e não encontrei mais nada. Estava decidido. Ele iria comigo e me contaria tudo o que estava acontecendo. Ademais, não poderia perder mais tempo. Minha mãe ainda precisava que eu fizesse novamente a poção para que ela ficasse bem mais uma vez.
— Incarcerous! — conjurei sobre seu corpo, vendo-o ser envolvido por cordas finas, contudo, visivelmente fortes.
Retirei todos os efeitos de proteção que cercavam o esconderijo. Num movimento com a varinha, fiz seu corpo levitar calmamente. Passei pela entrada da barraca e fiz com que ele viesse logo atrás de mim. O barulho da maçaneta fez a minha mãe, que estava tentando cortar vegetais na mesa da cozinha, fixasse o olhar impaciente na porta.
— Você demorou hoje, Draco – disse, tentando poupar energia – eu fiquei muito preocupada com você.
— Eu tive alguns problemas – respondi, tentando aparentar alguma calma.
— O que houve? – ela pareceu tentar levantar, mas desistiu e esperou que viesse até onde estava.
Sem responder de forma direta, movimentei a varinha e fiz o corpo levitante aparecer atrás de mim, enquanto entrava pela porta da sala. Ela encarou aquilo, atônita. Mais uma vez, tentou se levantar e conseguiu. Apoiando-se com dificuldade sobre os móveis empoeirados, ela analisou com calma o rosto e as vestes do bruxo. Ela sabia quem ele era. Ela se lembrava melhor do que eu.
— O que esse homem está fazendo aqui? – indagou, dando as costas e indo na direção do sofá – Não quero mais confusão com o ministério, Draco.
Mexi no meu bolso e retirei todos os papéis que estavam previamente com ele. Eles flutuaram até seu colo.
— De certa forma, nosso amigo não é quem parece ser – retruquei, mostrando o frasco de polissuco na minha mão.
Ela leu os arquivos e franziu o cenho.
— Então quem é esse? – ela voltou os olhos novamente para ele.
— Vamos precisar esperar o efeito acabar pra descobrir. Vou deixa-lo preso, em uma das camas no quarto, até que acorde. Tenho muitas perguntas pra fazer, além de querer saber quem ele é. Parece que estava tentando me pegar.
Com mais um movimento da varinha, projetei-o até uma das camas no quarto e o deixei lá, ainda sem parecer ter qualquer tipo de resposta ou reflexo. Refiz os encantamentos de proteção da cabana, sentei-me no sofá e contei para a minha mãe tudo o que havia acontecido para que aquele homem estivesse ali comigo.
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Algumas horas depois, eu havia terminado o preparo da Vitalum Vitalis no velho caldeirão da cozinha. Minha mãe, já de posse de alguma força, estava na cozinha, ainda cortando vegetais. Eu estava sentado no chão da sala, passeando com o frasco de veneno de fada mordente vazio entre os meus dedos, enquanto encarava a fogueira estalando à minha frente. Não sabia o que seria de nós agora. Precisaria encontrar outro fornecedor desse maldito ingrediente e precisava ser logo. Em dois ou três dias minha mãe precisaria de um novo preparo e não haveria tempo para pensar só na hora em que isso acontecesse.
Meus devaneios foram interrompidos por um barulho. Parecia o som do borbulhar de alguma coisa. Olhei para a cozinha e a sopa da minha mãe parecia ainda não estar sobre o fogo. Ademais, o barulho parecia vir de outro lugar, outra direção... do quarto. Virei-me rapidamente e levantei de forma instantânea. Quando me aproximei do quarto, o corpo sobre a cama parecia estar em transformação. O efeito da poção havia sido finalmente cessado e eu poderia descobrir quem estava lá e o que queria comigo. Fiquei perto do final da cama, enquanto observava o corpo se contorcer, a barba diminuir de tamanho, assim como o cabelo. A pele, parecia adquirir uma nova elasticidade, mais jovem. As olheiras pareciam serem preenchidas até sumirem. As marcas de expressão no rosto sumiram... quase todas. Uma, no centro da testa começou tomar forma enquanto outras desapareciam. Não parecia exatamente uma marca de expressão. Parecia um machucado. Uma cicatriz.
E lá estava ele. Harry James Potter.
Não tive uma reação imediata. Ao passo que definitivamente eu não estava surpreso por ser justamente ele a estar atrás de mim, eu não acreditava que realmente ele estava atrás de mim. Um turbilhão de memórias passou pela minha mente e eu fiquei levemente atordoado. Sentei-me sobre a outra cama, deslizei as mãos pelo meu cabelo e posteriormente pelo rosto. Queria ter certeza de que a minha visão estava perfeita. Nada estava embaçado. Potter realmente estava lá. Dei uma leve risadinha tímida, contida, enquanto o observava ainda desmaiado sobre a cama.
Não demorou até que minha mãe viesse até o quarto. Ela se apoiou sobre o batente da porta e colocou uma das mãos sobre o peito, dando um passo pra trás.
— Draco... Você sabe que... Eles estarão atrás dele... Nós temos que... – ela parecia tentar formar frases, mas já estava hiperventilando. Minha mãe havia ficado muito nervosa e parecia tão incrédula quanto eu.
— Parece que vamos ter que espera-lo acordar para descobrir, afinal de contas, do que isso tudo se trata.
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Por segurança, minha mãe dormiu no sofá da sala, enquanto eu dormi na cama ao lado de onde nosso novo prisioneiro desfrutava de seu sono inocente. Acordamos pela manhã, cedo, como de costume, e o grifinório ainda não esboçava muita reação. Mais uma vez, conferi seus sinais vitais e eles pareciam um pouco mais fortes. O repouso estava conseguindo, de fato, recuperar o seu organismo. Me arrumei, bem como minha mãe, e segui na espera dele acordar.
Estava na mesa da cozinha, comendo uma espécie de biscoitos que minha mãe conseguira fazer com alguns ingredientes que trouxera em algum dia anterior, quando escutei algo se mexendo no quarto.
— Ele deve estar acordando – falei – fique aqui. Precisamos conversar — ela assentiu.
Caminhei, sendo cuidadoso para não fazer barulho, até a entrada do cômodo. Apoiei-me sobre o batente e observei-o recobrar os sentidos. Era até um pouco cômico. Definitivamente, ele não fazia ideia do que tinha acontecido com ele. Não demorou até que seus olhos, os mesmos olhos verdes que eu estava cansado de cruzar em Hogwarts, se encontraram com os meus. Percebi que ele precisou de alguns instantes até entender o que estava acontecendo. Ele franziu o cenho. Agora eu tinha certeza que ele sabia.
Em um tom debochado, cruzei um dos braços e levei o outro até o meu queixo, coçando-o levemente.
— Achei que você tinha morrido, testa rachada – soltei, mantendo o tom jocoso.
— Malfoy – esbravejou – agora, além de tudo, é sequestrador?
Sim. Não. Sim e não. Em parte, sim, porque carreguei um homem desacordado por aí e o amarrei num quarto em uma cabana no meio de uma floresta duvidosa. Por outro lado, não, porque eu havia salvado a sua vida de um bruxo qualquer que poderia ter tentado acabar o serviço.
— Você deveria ser mais agradecido – repliquei, dando um passo na direção da cama – eu salvei a sua vida.
Ele tentou se mexer, sem sucesso.
— Não me sinto muito salvo com todas essas amarras – comentou, incomodado.
— Olha, Potter – iniciei, sentando-me na cama ao lado e apoiando-me sobre os joelhos, enquanto o encarava – eu estou tão insatisfeito com tudo isso quanto você. Vamos lá: você, provavelmente como auror, bebeu uma poção polissuco pra tentar me matar, me prender, sei lá – dei de ombros – e você ainda quer que eu te receba com um café da manhã do Salão Principal de Hogwarts?
Ele pareceu querer iniciar alguma fala, mas eu o interrompi antes de começar:
— Aliás, você continua tão incompetente nisso tudo que quase morreu e caiu em cima de mim – falei, mostrando um sorriso irônico – e eu fiz a gentileza de te tirar de lá. Certamente, se tivesse te largado por ali, quem quer que seja que tenha lançado aquele feitiço em você, teria vindo terminar o serviço.
Seja lá o que fosse, ele desistiu da fala anterior. O rapaz fechou os olhos e respirou fundo. As memórias do que havia acontecido pareciam voltar de forma lenta para ele. Assim que os globos verdes se abriram novamente, encararam o teto por alguns segundos, antes de se tornarem para mim.
— E por que você me salvou? Digo, salvou um estranho que aparentemente iria te atacar? – perguntou, voltando a olhar o teto.
Hesitei. Eu não sabia exatamente o motivo de tê-lo salvado... ou até sabia. Eu acho que realmente só estava cansado de toda aquela violência e não queria mais alguma coisa pesando a minha cabeça no travesseiro a noite.
— Eu só não queria mais ninguém morrendo na minha conta – dei de ombros.
Eu queria ter dito aquilo de maneira despretensiosa, mas as palavras saíram com mais profundidade do que eu gostaria. Os olhos de Dumbledore perdendo o brilho. A torre de astronomia. 1997. Tudo aquilo passou como um flash por mim. Ele percebeu como aquilo tudo soou.
— Hum – murmurou e pausou, parecendo conformado com a sua posição no momento – você sabe que eles darão um jeito de me achar, não sabe? – perguntou Potter, ainda encarando o teto.
— Provavelmente sim – arfei, jogando o corpo para trás, contra o colchão – eu fiquei surpreso em saber que havia salvado justamente você.
Ele não disse nada.
— Eu te mantive aqui porque eu encontrei toda aquela papelada e a sua poção polissuco. Eu precisava saber quem estava atrás de mim e o porquê disso.
— Sou um auror. Como qualquer um deles, estou atrás de você para coloca-lo para fazer companhia a seu pai em Azkaban – seu olhar ainda parecia perdido em algum lugar do teto.
— Isso já parece bem óbvio para mim agora. Eu só descobri quem você era ontem a noite, quando a poção perdeu o efeito totalmente.
— E agora? Vai me torturar para tirar mais alguma coisa de mim? – ele falou, em tom debochado.
Levantei-me rapidamente e pressionei a minha varinha contra a pele da lateral do seu pescoço.
— Seria uma ótima ideia – falei, enquanto percebi ele engolir a seco. Retirei a varinha logo em seguida – mas não sou como o meu pai ou aquele pessoal tão simpático que ele andava.
— E o que vai fazer, então?
— Olha, Potter, eu só queria saber porque isso tudo ainda não acabou! – respondi em um tom mais enérgico – Já se passou tanto tempo. Vocês já têm meu pai. Eu e minha mãe ajudamos vocês pra pegarem Voldemort. Por que vocês não nos deixam em paz? Sabe, a minha... – suspirei, antes de continuar. Não deveria falar demais.
Percebi curiosidade em seu olhar. Ele esperava que eu concluísse a frase, mas eu não o faria. Não exporia a situação da minha mãe para ele, até porque eu nem sabia exatamente do que ele já sabia sobre toda a nossa situação ao longo desses últimos meses.
— Eu apenas sigo ordens do ministério, Malfoy – deu de ombros de uma maneira estranha – eu sei que você e sua mãe fizeram algumas coisas, mas... vocês foram comensais. Isso é imperdoável para o ministério. Gente como vocês representa um risco à democracia do nosso mundo.
Olhei a queimadura no meu braço. Havia feito aquilo comigo mesmo há alguns anos, numa tentativa desesperada de fingir que nada aquilo aconteceu e recomeçar. E também porque meu pai havia mandado. A marca negra denunciava quem nós éramos.
— Eu fui obrigado! Eu era apenas um garoto! Meu pai...
— Malfoy – interrompeu-me – não adianta tentar argumentar comigo. Eu não julgo ninguém. Apenas capturo aqueles que serão julgados. Eu passei tantas semanas atrás de você...
— Esse é um ponto muito bom – voltei-me em sua direção – como você me achou? O que sabe sobre mim?
— Já te disse que se quiser tirar alguma coisa de mim, vai precisar de mais do que isso – afirmou com uma expressão agressiva.
Ignorei aquela tentativa de intimidação. Peguei um copo de vidro com água que estava sobre a cômoda entre as duas camas e ofereci-o. Ele virou o rosto.
— É apenas água, eu juro – levantei as mãos em sinal de trégua.
— E desde quando um juramento seu vale alguma coisa? – bufou.
— Vai querer ou não? Você vai desidratar desse jeito. Está há quase vinte e quatro horas sem comer ou beber nada.
Relutante, ele abriu a boca e bebeu todo o líquido do copo de uma única vez. Estava com sede.
— Vai ser assim agora – iniciei, colocando novamente o copo sobre a cômoda e me sentando na outra cama – vou cuidar de você e garantir que não te falte de nada. Não vou poder oferecer muito luxo – apontei para o redor – mas posso te garantir o básico até decidir o que vou fazer com você.
— Você não deve ter muito tempo. O ministério jamais deixaria de buscar por um auror que sumiu com alguém como você.
— Mas, até lá, você vai ficar aqui – sorri de maneira simpática.
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