Auror
10 Adicta
Notas iniciais
[Harry]
Já era noite e eu ainda estava naquela situação deplorável. Estava preso naquele quartinho no meio do nada em uma cabana velha e mal cuidada. Como havia prometido, Malfoy não havia me deixado passar fome ou sede. Durante aquele dia, trouxera um pouco de sopa com pão a cada período: de manhã, de tarde e agora à noite. Sempre que reclamei de sede, sem transparecer qualquer má vontade, ele buscava um copo com água e me servia na boca. Não que aquilo tudo parecesse confortável – longe disso – mas, de alguma forma, eu ainda não parecia ser a maior preocupação dele com aquilo tudo.
Após repousar o copo no qual eu acabara de beber água pela milésima vez sobre a cômoda, ele se dirigiu até a janela do quarto e observava as árvores farfalharem na escuridão que tomava conta. Apenas uma única vela iluminava o ambiente.
— Você parece preocupado, Malfoy. Acha que eles já estão chegando? – provoquei-o.
Ele apenas me olhou e voltou a olhar pela janela.
— E agora não vai mais falar comigo. Seu interrogatório vai de vento em poupa! – dei de ombros.
Gostaria de provoca-lo mais, pois eu tinha certeza que seria questão de poucos dias até conseguirem me rastrear para me tirar dali. Só que alguma coisa mais... orgânica, me impediu. Eu precisava ir ao banheiro.
— Bom, nós temos uma situação aqui, Malfoy.
— O que foi, testa rachada? – questionou, ainda olhando para o lado de fora.
— Eu preciso ir ao banheiro e, bem, não dá para fazer muita coisa nessa situação – tentei movimentar meus membros imobilizados pelas cordas para ilustrar meu argumento.
Ele virou devagar para mim e riu.
— Qual é, Malfoy? Não estou entendendo onde você quer chegar com essa situação toda.
— Você sempre foi tão cheio de si, capaz de tudo, e agora tá aí, preso na cama, me pedindo para ir ao banheiro – e gargalhou de maneira mais expressiva agora.
— Olha quem vem querer me dizer alguma coisa sobre ter sido sempre “tão cheio de si”, né? – retruquei. – Enfim, eu preciso realmente fazer isso.
Ele se aproximou da cama e me olhou, com calma.
— Potter, como posso confiar em te soltar para ir ao banheiro, se você na primeira oportunidade vai tentar fugir daqui? – ele me encarava, sério.
— Então fique à vontade para me ajudar com isso – respondi de forma ríspida.
— Você me promete que eu posso confiar em você? – ele continuava a me olhar de forma séria.
Suspirei, irritado.
— Sai dessa! Não preciso prometer nada a você – virei para parede.
— Você é quem sabe – ele levantou as duas mãos – não sou eu quem quer ir ao banheiro. – E caminhou na direção da saída do quarto.
Na mudança de posição, senti a minha bexiga latejar de tanto segurar. Eu precisaria passar por aquela humilhação para não passar por uma outra humilhação, ainda pior.
— Espera – supliquei, virando-me de novo para ele – tudo bem, faremos como você achar melhor.
Ele parecia muito satisfeito. Virou-se quase que de forma automática, com um sorriso largo, de orelha a orelha. Certamente ele esperava que aquilo acontecesse. Maldito!
Ele se aproximou de novo da cama ao lado e se sentou. Apontou para as janelas.
— Tudo aqui está sob o efeito de muitos encantamentos, então não adianta você tentar fugir. Sua varinha está muito bem guardada, você não vai encontra-la sem que eu saiba disso – afirmou, ainda com um sorriso tranquilo no rosto – Você não sabe onde você está. Mesmo que você tente fugir, posso te afirmar: está muito longe de qualquer lugar que você conheça. Sem varinha, não vai aparatar. Teria que fugir a pé e, bem... Vou deixar que descubra sozinho, caso tente.
Assenti e não falei nada. Eu precisava ir.
— Outra coisa – disse, empunhando a varinha para retirar o feitiço – não estou te vigiando sozinho – ele apontou a varinha para a porta e fez um movimento para que esta se abrisse. Narcissa Malfoy estava esperando para ser anunciada, com sua varinha apontada na minha direção. – Vou te soltar e, mesmo que avance em mim, minha mãe tem sob a mira dela. Você é muito mais esperto que isso, Potter.
— Como quiser, Malfoy. Não farei nada.
Com um novo movimento, as finas e resistentes cordas conjuradas pelo bruxo foram se dissolvendo, até desaparecerem completamente. Movimentei meus membros na tentativa de retomar a circulação do sangue. Com alguma dificuldade, levantei-me e fiquei de pé, ao lado da cama, próximo dele. Ele apontou para a porta.
— A única porta que você vai ver, do lado esquerdo. A mansão não é muito grande.
Assenti e marchei, me apoiando sobre os móveis no caminho e na parede, até alcançar a porta do banheiro. Num movimento apressado, abri-a e pus-me adentro. Não demorei até abrir o fecho da calça e poder aliviar o meu corpo daquela sensação horrível. Foram segundos de intenso êxtase enquanto sentia meus sentidos voltarem um a um, sem aquela maldita vontade de desaguar um rio inteiro.
A descarga era excessivamente barulhenta. Provavelmente os canos já estavam enferrujados e deveriam levar os dejetos para alguma fossa não muito longe dali. Me aproximei da pia e abria. A água estava muito gelada. Não estava surpreso. Estranho seria se houvesse um aquecedor funcionando na pia nesse lugar. Olhei-me no espelho. Meus cabelos negros estavam mais bagunçados que o normal. Tentei ajeitá-los com as mãos, enquanto passava a mão pelo meu rosto com a barba um pouco mais crescida. Respirei fundo e pensei o que poderia fazer para sair dali ou não precisar ser amarrado novamente. Olhei para todos os lados e pude observar que o banheiro possuía apenas uma janela, pequena o suficiente apenas para um elfo doméstico passar – e eu era bem maior que isso. Suspirei. Não havia nada além de um vaso, uma pia, um espelho e uma banheira com uma ducha. E uma janela pequena. Caminhei até o pequeno vestíbulo e tentei manusear o vidro. Nada. Não se mexia. Aquilo parecia mais que emperrado. Draco havia caprichado naquele encantamento. Parece que todos esses anos como fugitivo o fez aprender, na marra, todos os conteúdos daquelas aulas que durante tantos anos ele julgou serem inúteis.
Vencido, abri a porta. Narcissa mantinha a postura, com a varinha apontada na minha direção. Draco ainda estava no quarto. Havia se esticado na cama, com as mãos atrás da cabeça e estava encarando o teto.
— Você parece muito tranquilo para alguém que mantém um auror como refém em casa – comentei, voltando para o quarto em passos lentos enquanto Narcissa se afastava e voltava para a sala.
— Nisso você tem razão – ele respondeu, sem me olhar nos olhos – eu também achei que estaria mais tenso agora. Fugi disso por tantos anos... e agora é assim que eu estou.
Sentei-me na cama em que eu estivera nas últimas horas.
— Sabe, Potter – ele se virou para mim — eu acho que você não quer me entregar.
Dei uma risada irônica.
— Nós nunca fomos amigos, você foi um comensal da morte, eu sou um auror – dei de ombros – você acha o que você quiser disso tudo aí.
— Nossa conversa mais cedo – ele se sentou na cama – você não disse que queria fazer isso em momento nenhum. Disse que estava fazendo o que foi mandado a fazer. Mais que isso, disse que sabia que eu e minha mãe não merecíamos o mesmo destino que o meu pai.
Eu não falei nada. De alguma forma, ele parecia ter captado alguma coisa. Eu lutava há semanas com a culpa de precisar dar a eles o mesmo destino que Lucius. Eu sabia, sim, que não teria conseguido vencer o lorde das trevas se não fosse pela ajuda de ambos. Lembrei-me do dia que recebera a missão do supervisor Morris.
Depois disso, a conversa que tive com Hermione no meu primeiro dia ecoou na minha cabeça. Revisitei suas palavras, lembrando do modo de como ela as articulou para tentar convencer não somente a mim, mas a ela mesma que aquilo precisava ser feito porque sim.
“- Harry, os Malfoy abrigaram Voldemort por muito tempo. Lucius estava presente naquele dia em que estivemos no ministério durante o quinto ano. Mais que isso, muitas coisas foram provadas que tinham envolvimento direto ou indireto de algum Malfoy – ela voltou a me olhar – O ministro da magia não quer e não deve correr esse risco.
— Você não acha que, em dez anos, eles já teriam feito alguma coisa, se assim o quisessem?
— Harry, não se trata de querer ou não e você sabe muito bem disso.”
— No momento, ser encontrado por você chegar e me dar algum tipo de alívio – ele prosseguiu, interrompendo minha divagação – eu tenho um problema mais sério nesse momento do que fugir dos aurores.
Fui pego de surpresa. É claro que garantir sua liberdade e uma vida fora de Azkaban deveria ser a sua preocupação número um. O que mais poderia ser tão importante a ponto de fazê-lo perder o foco e uma batalha travada há dez anos?
— Admito que agora estou surpreso – comentei, apoiando-me sobre o colchão atrás de mim – o que poderia ser tão preocupante pra você?
— Nada que você precise saber por agora – finalizou – apontando a varinha para mim novamente.
Encarei-o, sério. Aquele papo todo havia me deixo menos intimidado sobre a situação. Eu realmente não sentia que estava em perigo ali, ainda que eu fosse refém dos dois Malfoy.
Ele riu. De novo.
— Não vou te deixar preso de novo, Potter – falou, tirando a varinha de perto de mim e guardando-a na cintura – você está preso aqui e não tem como fugir.
— Obrigado, eu acho – disse, em tom irônico.
— Pelo menos agora você não vai precisar me pedir para ir ao banheiro – e riu mais uma vez.
Observei-o se divertir no seu pequeno momento, arfante, com todo o controle. Mesmo que tudo estivesse, de fato, diferente, ele ainda era um Malfoy e traços da sua personalidade deixavam isso bem claro para mim.
A partir daquele momento, eu tive a noção de que se eu queria mesmo tirar alguma coisa dele, precisaria dar alguma coisa em troca. Pensei nas informações que eu tinha sobre ele – que não eram muitas – e estudei, por alguns instantes, qual seria a melhor abordagem para usar.
— Então – disse, tirando as botas que me apertavam há mais de um dia – o que você fazia tanto naquele bar?
Ele me olhou desconfiado e tentou disfarçar, voltando a olhar para as rachaduras no teto.
— Você que é investigador, não é? Conte-me você.
— Tudo bem, tudo bem – eu disse, me dando por vencido e deitando de uma maneira mais confortável – eu sei que você compra destilado de veneno de fada mordente daquele duende.
— E vocês iriam me prender por isso também?
— Provavelmente isso seria adicionado nessa sua extensa ficha de processo.
Não falamos mais nada por alguns minutos. Eu senti que ele estava tão tranquilo que eu poderia quase afirmar que ele estava quase adormecido.
— Draco – chamei-o, com a voz calma.
— Potter – ele respondeu, com a voz baixa quase que num sussurro.
— Eu não sei como perguntar sem que isso soe ofensivo.
Ele retirou os braços de onde estavam, atrás da cabeça. Virou-se para mim e olhou.
— Eu sei o que você vai me perguntar e a resposta é: não.
— Você está me dizendo que compra, regularmente, destilado de veneno de fada mordente e não é viciado?
— Sim, Potter, é isso que eu estou te dizendo – respondeu cansado, jogando-se para trás e virando o corpo de volta para cima.
— É difícil tentar te entender ou ajudar se você não me fala a verdade.
— Eu estou te falando a verdade. Aliás, esperava um pouco mais das engrenagens da cabeça de um auror. Sei que vocês precisam estudar muito pra conseguir chegar até aí.
Olhei pela janela. Sua ironia provavelmente queria dizer alguma coisa. Destilado de veneno de fada mordente... Deveria ter alguma coisa sobre isso que eu deveria saber ou me lembrar.
— Slughorn estaria decepcionado com você – ele me encarava e eu só percebi isso quando retirei meu olhar perdido da janela e voltei para dentro do quarto – você era tão bom em Poções. Eu lembro – e deu dois toquinhos com o indicador na cabeça. – Boa noite, Potter. Não seja idiota e tente nada que vá se arrepender.
E virou para o outro lado, se ajeitando para dormir.
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Acordei sozinho no quarto. Uma brisa gélida entrava por uma fresta de vidro quebrado na janela daquele ambiente. Os raios de sol tentavam, quase sem sucesso, aquecer cada centímetro quadrado do meu corpo que tocavam. Ao virar-me para a cômoda, vislumbrei a silhueta dos meus óculos. Esfreguei os olhos e percebi que eles estavam lá de verdade. Draco, como um sinal de gentileza, havia dado um jeito de conjurar os meus óculos até a cabana. Coloquei-os e me deliciei por alguns segundos como era voltar a enxergar bem, apesar de não ter realmente muitas coisas para observar naquele lugar.
Draco já havia levantado e sua cama estava bagunçada. A porta do quarto havia sido deixada fechada. Talvez tivesse me deixado preso enquanto fora fazer alguma coisa do lado de fora. Caminhei até a porta, na intenção de confirmar o meu pensamento. Para a minha surpresa, ao girar a maçaneta, percebi que ela estava destrancada. No momento em que fiz o primeiro movimento para abri-la, à menor abertura, uma fria corrente de ar se estabeleceu e passou por mim, arrepiando-me a espinha. Dei o primeiro passo para a fora. Draco estava sentado na beira do sofá, com a expressão completamente rígida. Ele parecia preocupado. Com cautela, me aproximei e pude observar que ele segurava, com afinco, a mão de Narcissa.
Alguma coisa estava acontecendo.
Apoiei-me sobre o encosto do sofá e reclinei o corpo vagarosamente, na tentativa de captar mais informações sobre o que quer que estivesse se passando ali.
Narcissa parecia mais pálida que de costume. As pálpebras afundadas e arroxeadas lhe davam um aspecto cadavérico. Não lembrava em nada a face corada da noite anterior, quando apontava a varinha de maneira firme na minha direção. Os lábios ressecados completavam aquela cena. Definitivamente, parecia que ela estava morta e o seu algoz havia sido um dementador. Será?
Busquei processar um pouco melhor aquela cena e tentar descobrir por mim mesmo o que estava acontecendo, sem sucesso.
— O que aconteceu com ela? – perguntei, pisando em ovos.
Ele ainda encarava a face imóvel da genitora. De forma quase imperceptível, usou a varinha para fazer com que um livro flutuasse da mesa na minha direção e pairasse na frente do meu rosto. Era nosso antigo livro de Poções utilizado em Hogwarts. Novamente, numa ação discreta, abriu o livro na página 394.
Vitalum Vitalis.
Conforme eu avançava, no meio do silêncio, pelas frases da página, memórias retornavam aos poucos à minha mente. Aulas de História da Magia, Poções... Lá estava: destilado do veneno de fada mordente. Era isto. Draco não estava conseguindo aquilo para si, mas para a sua mãe.
Passei a mão pelo rosto, por debaixo dos óculos, e deixei-a parada sobre a minha barba, usando esses poucos instantes para raciocinar um pouco melhor. Narcissa era adicta daquela substância?
— Minha mãe tem alguma coisa – sibilou, ainda sem tirar os olhos da senhora Malfoy – desde que meu pai foi para a Azkaban isso piorou – e deslizou uma das mãos pelas bochechas geladas dela.
— Você faz essa poção para que ela fique bem – sugeri – mas ela não tem um efeito muito longo. Por isso você estava comprando o destilado do veneno da fada mordente.
— Isso – confirmou.
Seus olhos pesarosos agora estavam direcionados para mim. De alguma forma muito estranha, a melancolia no seu rosto encaixava muito bem com os círculos cinzentos. Pensei sobre o quanto seus olhos pareciam querer me dizer alguma coisa, mesmo que de forma despretensiosa, já naquele arquivo que me fizera chegar até aqui. Ele precisava de ajuda e já estava desesperado.
— Potter – ele pareceu fazer algum esforço para prosseguir – eu não tenho medo de ir para Azkaban, desde que você me garante que vão tratar e cuidar da minha mãe.
O rastro úmido de uma lágrima se desenhou em uma linha reta e vertical pelo seu rosto, até despencar sobre o vestido de sua mãe.
Terminantemente, eu não tinha como entregar Draco Malfoy para o Ministério da Magia. Pelo menos, não sem antes garantir que Narcissa Malfoy estivesse bem. Algo muito errado parecia estar acontecendo com ela, mas naquele momento, eu não sabia dizer se aquela aparência era devido à sua condição de saúde ou à poção.
Levei uma das mãos até as suas costas, em sinal de apoio.
— Tudo bem, Draco. Eu vou pensar no que posso fazer para ajudar a sua mãe.
Eu não tinha mãe. Quer dizer, eu tinha mãe, mas ela não estava comigo desde meu primeiro ano de vida. Eu sabia muito bem toda a dor e o sofrimento pelo qual ele estava passando. Sua dor era vívida e, de algum jeito, isso mexia de maneira muito pessoal comigo. Depois de tantos anos fazendo piadas comigo sobre a morte dos meus pais, eu sentia que agora o seu sofrimento era legítimo e ele certamente estava arrependido de tudo o que falara para mim. Não me sentiria bem sentenciando-o a esse sofrimento interminável no qual fui submetido a viver durante toda a minha vida. Ainda que eu tivesse estudado e lutado muito para me tornar um auror, eu lembrei de tudo o que aconteceu em toda a minha vida. Muitas vezes o ministério age de maneira completamente arbitrária. Aquele era mais um momento em que aquela prisão seria injusta. Era visível que Narcissa não duraria muito em Azkaban, sem os devidos cuidados de um medibruxo. Obviamente, o ministério não gastaria dinheiro, tempo e atenção em uma bruxa que provavelmente seria condenada à execução pelos dementadores. Ou talvez não. Lucius Malfoy ainda estava preso e vivo.
— Quando tudo isso começou? – perguntei, na busca de conseguir alguma informação que pudesse ser útil.
— Um pouco antes do meu pai ser preso. Uns dois anos atrás. Piorou depois de um ano e, de seis meses para cá, a situação parece que só se agrava.
— E o que exatamente ela tem?
— Ah – ele suspirou – parecia que ela estava sendo sugada por um dementador. Todo dia ficando mais fraca, quase sem poderes, mal conseguia se manter em pé – ele voltou a olhar para a mãe – ela praticamente vivia como uma trouxa. Sem conseguir levitar uma única pena. Na verdade, ela mal conseguia segurar a própria varinha.
Olhei para a bruxa também. Tentei juntar aquelas informações com alguma coisa que eu pudesse encontrar.
— Você conseguiu leva-la a algum medibruxo ou qualquer coisa do tipo?
Ele abriu um sorriso de canto, passando a mão pelo rastro seco da lágrima e espalhando-o pela barba por fazer.
— Não tivemos a oportunidade de marcar nenhum médico nessas circunstâncias.
— Tudo bem, minha pergunta foi idiota – murmurei, constrangido – ahn...
— Eu acho que meu pai fez isso com ela – irrompeu, com a cabeça baixa.
— Como assim? – indaguei, confuso.
— Não sei. Achei que assim que ele fosse embora isso se resolveria, mas não. Parece piorar.
Eu quis inferir algo daquilo e permaneci em silêncio.
— Potter – disse e parou.
Assenti com a cabeça.
— Eu te mantive aqui porque pensei que agora talvez você pudesse ser minha única esperança de salvar a vida dela. Aquele maldito duende fugiu no meio daquela bagunça toda. Ele não seria burro de voltar lá, sabendo que os aurores estariam de olho. Não sei mais onde conseguir esse maldito destilado.
Dei a volta no sofá e me agachei à sua frente, olhando-o fixamente nos olhos.
— Eu vou te ajudar, mas preciso que você confie em mim.
Ele retribuiu o olhar. A eletricidade formada pela nossa troca de olhares era palpável.
— Você vai precisar me deixar sair daqui. Eu acho que sei com quem falar.
Seu desespero era visível. Estava diante de um grande impasse. Me deixar sair dali significaria a vida ou a morte de sua mãe. Não haveria meio termo. Ele precisava decidir – e logo. O tempo estava passando e não era possível prever em quanto tempo a energia de Narcissa seria completamente drenada pela adicção.
Ele tateou o bolso da sua calça, aparentemente encantando com o feitiço extensor e retirou a minha varinha de lá. Levou-a à minha direção e recuou, virando-se para a mulher.
— Se você me trair, ela vai morrer – uma outra lágrima escorreu – e eu sei que você não vai deixar isso acontecer. Faça o que for preciso comigo, mas deixe-a viver.
Ele me entregou a varinha, sem voltar a olhar para mim. Peguei-a em minha mão.
— Não adianta tentar desaparatar daqui. Este lugar é protegido por muitos encantamentos. Além disso, estamos longe da Grã-Betanha. Você vai precisar passar por aquela porta – apontou – assim que atravessá-la, sairá por uma barraca velha de lona amarela no meio da floresta, a alguns quilômetros do Beco Diagonal. Só é possível entrar e sair daqui assim.
Ele realizou movimentos circulares com a varinha, na direção da porta, e pareceu desfazer uma série de feitiços que guardavam a entrada.
— Darei um jeito de ajudar.
Decidido, levantei-me e caminhei até a porta sem olhar para trás. Uma vida dependia de mim agora.
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