Auribus teneo lupum
10 The Tom and Jerry Show
Notas iniciais
Encarava a tela do notebook, lembrando-se das instruções de Rukia quanto a passar a filmagem daquele dia para um pen drive, como se alguma coisa pudesse realmente acontecer com a versão original que tinha no celular.
Resignado, Ichigo corria o cursor sobre o ícone de "mais detalhes", acompanhando a barrinha verde que indicava o andamento do processo de cópia do arquivo para o dispositivo móvel. Aquele computador andava numa lentidão sem condições – Pensava, aguardando com certa impaciência a movimentação dos dados, minimizando e maximizando a janela a intervalos curtos, mesmo sabendo que isso não serviria para acelerar a transferência de dados.
Inquietas, as pernas balançavam num ritmo acelerado por debaixo da escrivaninha acinzentada, fazendo com que vez ou outra a cadeira de rodinhas girasse um pouco para algum dos lados, acompanhando a inconstância dos pensamentos do ruivo, voltados para toda a confusão recente.
Era estranho saber que uma situação daquelas, entre Sayuri e o professor, estava ocorrendo de verdade, fora de um mangá ou algo do gênero. Entretanto, não era a única coisa estranha em sua vida para que fosse tão surpreendente assim. Bastava lembrar que dentre os melhores amigos tinha a irmã de um multimilionário; um garoto que sempre saía com mulheres mais velhas; uma moça que conseguia comer pão com aipo e banana... Nada no mundo poderia ser mais surpreendente do que o apetite da Inoue, a propósito – Constatava, sentindo o estômago revirar ao imaginar as refeições da colega.
O próprio Grimmjow não era lá uma figura comum e talvez por isso lhe chamasse tanto a atenção. Vai que de alguma forma era atraído por pessoas peculiares? – Ria consigo mesmo, cada vez mais ciente de estar interessado no professor. Havia chegado ao angustiante ponto em que parecia infantil negar para si mesmo os próprios sentimentos... Ou algo assim.
Achava muito legal o fato de o homem ter permanecido firme e se recusado a ter algo com uma garota visivelmente problemática. Aquilo fora uma inesperada demonstração de caráter, mas e quanto ao seu caso? Será que de alguma forma as coisas poderiam ser diferentes?
Os questionamentos surgiam quase que espontaneamente, fazendo com que o garoto sacudisse a cabeça em busca de afastá-los, corando inconscientemente. Queria saber mais sobre Grimmjow e talvez vê-lo fora da escola, mas pensar em um relacionamento com ele certamente não renderia nada naquela situação. Que merda acabar numa paixonite dessas pelo professor! Sem contar o tanto que aquele babaca iria encher o saco se soubesse. Com toda certeza levaria na brincadeira uma confissão, por exemplo – Concluía, levando uma das mãos aos cabelos, tirando-os do lugar em um movimento agoniado.
Irritava-se consigo mesmo por deixar os próprios sentimentos tomarem rumos tão inapropriados, gostando de outro homem e pra completar um que estava em uma posição tão diferente. No entanto, talvez fosse mais fácil simplesmente não pensar muito nisso e tentar "deixar pra lá". Talvez pudesse se tornar amigo de Grimmjow e essa hipótese, além de mais acertada, parecia bem mais produtiva de todas as formas.
Num suspiro cansado, voltou a passear pelas abas do computador, lendo qualquer notícia Internet afora até notar que o arquivo já havia sido enviado para o pen drive. Antes de retirá-lo, contudo, checou mais uma vez a pasta, acabando por clicar no vídeo para conferi-lo.
Aumentando o volume dos fones, escutava as falas que presenciara no estacionamento, dessa vez atendo-se mais ao que a colega dizia do que às reações do homem de cabelos azuis. Era uma prova e tanto o que tinham ali – Refletia, imerso em pensamentos conforme os poucos minutos transcorriam. Todavia, findou puxado de volta a realidade pelo baque da porta sendo aberta.
— Ichigooo! – Berrava Isshin, invadindo o quarto sem cerimônias, seguido de perto por Yuzu e Karin – Viemos ter uma... – Começou a explicação, mas refreou-se em virtude da cena que encontrou.
Pego de surpresa, o primogênito da família Kurosaki arrancara os fones dos ouvidos num gesto rápido, abaixando a tampa do notebook como se sua vida dependesse disso e virando o tronco em direção aos recém-chegados, encarando-os com uma careta esquisita, a qual pretendia que fosse uma expressão natural. Os ombros rígidos, bem como a postura tensa, deixavam o nervosismo tão evidente que o pai quase teve pena. Quase.
— Meninas, fechem os olhos. Chegamos na hora errada – Avisava, cobrindo com as mãos os rostos de ambas as filhas – Pode ir se limpar no banheiro, Ichigo. A gente te espera – Comentava, correndo os olhos pelo ambiente, indicando que pretendia fazer vista grossa para a situação.
— Eca, Ichigo! – Exclamara Karin, virando-se imediatamente para sair do quarto e encostar-se a parede do lado de fora, perto da porta.
— Pai, o que o Ichi-nii tem? – Perguntava Yuzu, levando inocentemente as mãozinhas até a do pai, ainda sem enxergar qualquer coisa.
— Quantas vezes eu tenho que pedir pra bater na porta, hein? – Reclamou o jovem, levantando da cadeira como forma de esclarecer visualmente o mal entendido, as sobrancelhas mais franzidas do que o habitual, acompanhando o rubor das bochechas numa expressão constrangida e irritada. – Não tem nada, Yuzu – Continuou, aproximando-se da menina na intenção de afagar-lhe os cabelos.
— Hm... Sei – Dizia o pai, estendendo o braço para afastar a filha do toque do garoto – Mas por via das dúvidas, vai lavar as mãos antes de encostar nelas, tudo bem, filhão? – Pedia, ostentando seu melhor sorriso de compreensão – Eu também já fui jovem, sei como é.
— Vai à merda, pai – Retrucou, sentando-se na cama, as mãos apoiadas sobre o colchão – Não foi nada disso. – Terminava, virando o rosto para o lado, um pouco curvado para baixo, na tentativa de disfarçar a vergonha.
— Isso é jeito de falar, mocinho? – Reclamou, finalmente soltando Yuzu e fazendo um sinal para que Karin entrasse – Eu vinha trazer notícias maravilhosas para a nossa linda família... – Prosseguia em tom falsamente indignado.
— Hm, e o que é? – Perguntou já impaciente, observando enquanto as irmãs sentavam-se também. Yuzu aproximou-se mais, aconchegando-se no irmão e recebendo um carinho nos cabelos cor de palha. Já Karin mantinham-se na ponta da cama, do outro lado do garoto, de modo a apoiar os pés no chão ao passo que observava os demais.
— Eu já preparei uma série de atividades super divertidas para a família Kurosaki no Bunka no hi — Anunciava empolgado, como se propagandeasse um produto ou o próprio evento – A lista está na porta da geladeira para que todos se lembrem.
— Ficou uma porcaria, nii-san – Cortava a menina de cabelos escuros, num tom de reclamação que fazia a voz subir uma oitava – Ele quer inscrever a gente em todos os eventos do dia!
— A nossa família sempre se destacou nos esportes e em tudo mais, filha. – Argumentava o Kurosaki – Vamos ter que chegar pra ganhar em tudo. Você não quer levar medalhas pra casa?
— Eu quero, mas a gente não precisa passar o dia todo nisso, que saco – Replicara, olhando para os outros irmãos em busca de apoio.
— Eu quero aproveitar as comidas – Compartilhava Yuzu com um semblante gentil – E quero usar um kimono bem bonito. O Ichi-nii e a Karin-chan vão escolher uns também, né? Assim ficaremos todos combinando!
— Hn. Vamos todos assim, então – Concordou o irmão mais velho, a expressão tomando um ar doce enquanto conversava com as pequenas de maneira visivelmente afetuosa.
— Por que vocês sempre se esquecem de mim? – Intrometeu-se Isshin, enfiando-se na cama de solteiro junto aos demais, gerando protestos em virtude do excesso de pessoas no móvel – Fui eu quem fez os super planos super legais – Continuava em voz de falso choro, tentando em vão abraçar as filhas que se debatiam, voltando para mais perto do ruivo.
Como de costume naquela casa, a noite transcorreu num clima familiar, recheada por cômicas briguinhas infantis, gritos empolgados e manifestações de afeto entre os três. Não importa como olhasse, Ichigo só podia supor que tinha a família mais engraçada de Karakura. Às vezes até procurava em volta esperando ver as câmeras de um show de humor ou receber os aplausos após as piadas.
É bem verdade que já passara por constrangimentos homéricos graças ao pai, no entanto, provavelmente tudo valia a diversão, no fim das contas.
Quando finalmente foi deixado sozinho, o jovem retornou ao notebook, conferindo novamente se os arquivos permaneciam funcionais e desligando tudo após os procedimentos de segurança.
O rosto adquiria certo rubor ao relembrar o constrangimento quando o pai entrara, mas forçou-se a esquecer o mal-entendido, jogando-se sobre a cama após guardar o pen drive na mochila, junto à outros pequenos objetos deixados em um estojo.
De olhos fechados, a mente voltava a ser preenchida com todas as preocupações sentimentais e inseguranças que um rapaz de 17 anos poderia ter. Já fora maduro o suficiente para pelo menos admitir que gostava de Grimmjow, mas daí a aceitar essas circunstâncias eram outros quinhentos. Sobretudo, estava decidido a esquecer as inquietações e, no máximo, se tornar amigo do professor. Mais cedo ou mais tarde, esse amor teria de desaparecer de alguma forma, não é mesmo?
...............................................................................................................
Apreensiva, Rukia observava a sala de aula, aguardando a chegada do professor. Os olhos violeta vagavam de um ponto a outro, percorrendo o cômodo iluminado pelo sol da tarde, analisando os amigos, colegas, e em especial certa garota de longos cabelos negros.
Sayuri permanecera o dia todo quieta, ostentando um semblante abatido, a ponto de as amigas mais íntimas mostrarem preocupação, perguntando-lhe, uma após a outra, se estava tudo bem ou se algo havia ocorrido. Do pouco que conseguira escutar, a Kuchiki entendeu que a menina seguia dizendo que "estava passando por problemas sobre os quais não poderia falar", sempre acompanhando as palavras por um tom triste.
Tinha ciência de que ela não demoraria a seguir com os planos citados cerca de dois dias antes, portanto aquele teatrinho todo certamente devia ter relação com o ocorrido durante o episódio da gravação. A pequena investigadora conseguia discernir facilmente a linha de raciocínio da garota: Pretendia demonstrar estar com problemas para aumentar a credibilidade quando fizesse a falsa denúncia à direção. Seria um bom plano se a menina atuasse um pouco melhor – Pensava Rukia, comparando mentalmente as próprias habilidades de atuação com as de Sayuri e concluindo sem modéstia que ganharia facilmente.
Bem, já confirmara que Ichigo permanecia com o pen drive, além do vídeo originalmente salvo no celular, então só teriam de aguardar que alguma coisa ocorresse. Ainda havia a chance de a menina retroceder, afinal. Talvez o descaramento acabasse não chegando aos extremos esperados.
Poucos minutos depois, Grimmjow chegava ao local com sua carranca habitual. Só de olhar, não poderia dizer ao certo como ele estava psicologicamente, mas o semblante pareceu à pequena Kuchiki um tanto abatido, carregado por uma incomum aura de inquietação.
Durante os 50 minutos de aula, o professor de matemática não encarou Sayuri nenhuma vez, brincando com a turma muito menos do que o habitual, sempre evitando qualquer interação com a responsável por suas dores de cabeça. Vez ou outra, Rukia notava a satisfação no rosto da menina, os olhos brilhando como quem está prestes a conseguir uma boa vingança – Supunha.
Era evidente que a garota era extremamente mimada, além de bastante orgulhosa. Certamente eram a sensação de orgulho ferido e o ódio por não conseguir algo, ou nesse caso alguém, que desejasse o que a impulsionava a agir de forma tão cretina – Considerava, as memórias dos acontecimentos passados vindo à mente em flashes – Quando Ichigo a rejeitara, a princesinha tivera uma conduta muito semelhante – lembrava. – E se naquela ocasião Rukia conseguira evitar quaisquer transtornos com certa facilidade, devia isso ao irmão, mesmo que indiretamente.
O pai de Sayuri era um grande empresário, que à época, por acaso, mantinha relação com a Kuchiki CO. LTD. Numa conversa casual, Byakuya comentara sobre problemas causados por desfalques financeiros com relação às empresas do homem, o que o levaria a romper a parceria. Profissional como sempre, não dera qualquer detalhe significativo sobre os assuntos sigilosos mesmo para a irmã, todavia, fora o suficiente para que a menina arquitetasse o seu plano. Bastou que Rukia fingisse saber tudo acerca do caso e ameaçasse espalhar aos quatro ventos os escândalos de corrupção envolvendo o pai da colega, para que Sayuri prometesse nunca mais importunar Ichigo em troca de silêncio sobre os fatos.
Fora uma mentira bem descarada, mas por sorte havia funcionado – Refletia, ouvindo o professor passar as últimas instruções do dia – Entretanto, não pudera contar com o mesmo argumento nessa situação justamente porque forçar a mesma mentira duas vezes, em ocasiões distintas, tinha pouquíssimas chances de dar certo.
Terminado o horário, Grimmjow encaminhou-se sem demora para a sala dos professores, parando somente para lembrar aos alunos acerca das tarefas as quais deveriam entregar na aula seguinte, já após o feriado do dia 3 de novembro. Imaginava que algo poderia acontecer naquele dia, então decidira dar um tempo por lá antes de ir embora definitivamente. Quem sabe assim conseguiria estar por perto para articular uma defesa caso possível...
A sala foi esvaziando-se rapidamente e tão logo notou o semblante aflito de Sayuri ao sair da sala, Rukia jogou a mochila nas costas, correndo até a carteira de Ichigo e puxando-o pelo braço, despejando as palavras com seu tom urgente, como se o mundo precisasse ser salvo pelo ruivo naquele exato momento.
— Está na hora, Ichigo. Eu acho que ela vai pra direção agora – Anunciava, juntando os materiais do garoto de modo a deixá-lo pronto para sair.
— Como você sabe? – Questionou, tentando sem sucesso disfarçar o fato de ter passado o dia tão preocupado com Grimmjow quanto a amiga, ou até mais.
— Pela cara dela. – Respondeu, forçando o garoto a levantar-se e segui-la enquanto continuavam o diálogo – Não é difícil saber quando ela está fingindo tristeza. Aposto que trouxe até cebola na bolsa pra conseguir chorar na hora – Comentava numa risadinha baixa.
— Mas o que você pretende fazer? Invadir a sala da diretora?
— Não sei, Ichigo. Na hora eu descubro. Só anda – Ordenou, arrastando-o pelos corredores até que estivessem no encalço da colega.
Relativamente separada dos demais blocos, a área da direção aglomerava todas as salas da administração, incluindo secretarias, tesouraria, sala de professores, dentre outros locais relacionados à manutenção dos serviços do colégio. A sala da diretora, já bastante conhecida pelos dois amigos, era a última de um corredor longo e bem iluminado, a grande porta marrom, adornada pela placa dourada com o nome "Diretoria", trazendo um aspecto rigoroso, um tanto quanto intimidador.
Esgueirando-se no início do corredor, os dois tiveram um vislumbre da jovem de cabelos negros parada em frente ao local, tomando fôlego e espantando o nervosismo antes de prosseguir com seu plano. Após algumas leves batidas na porta, a menina entrou, fechando-a atrás de si.
Poucos segundos depois, a dupla e investigadores já encarava a mesma porta, estando Rukia de lado, colando o ouvido na madeira na tentativa de captar algo.
— Fique vigiando se ninguém está vindo – Pediu ao amigo num sussurro – Eu quero ouvir em que ponto ela está.
— E se alguém chegar, o que eu faço? – Perguntou, os olhos passando nervosamente pelo corredor.
— Tem uma pilastra de cada lado desse corredor – Explicou, apontando para os relevos criados pelas estruturas ao longo das paredes. – É só cada um de nós se esconder atrás de uma e ninguém que venha de lá vai nos enxergar. Na pior das hipóteses a gente fica parado aqui e finge que tem algo pra conversar com a diretora. Eu invento na hora.
Pra ela era fácil. Esconder uma menina de 1,44 atrás de uma pilastra seria simples, já ele talvez não acabasse tão disfarçado assim. – Pensava Ichigo, voltando a atenção para longe em seguida, buscando identificar qualquer aproximação antes que precisassem recorrer à algum desses planos duvidosos.
Os minutos seguintes foram de pura angústia, com Rukia narrando aos sussurros o que conseguia discernir da conversa, olhando aflita para o relógio a cada instante, os olhos violeta cintilando de agitação. Quando finalmente, virou-se para Ichigo, ostentava uma expressão que, o ruivo sabia por experiência própria, significava problemas. Era a cara que ela sempre fazia antes de metê-lo nas mais complicadas enrascadas, os lábios crispados acompanhando olhos bem abertos, como se nem ela quisesse prosseguir com algo.
— A diretora acreditou. Disse algo sobre a Sayuri ir pra sala da psicóloga, enquanto isso ela vai chamar o Grimmjow-sensei. – Colocou as duas mãos sobre as de Ichigo antes de continuar – Eu sei que não vai ser fácil, mas estou contando com você.
— O quê? – Exclamou de maneira confusa, sem entender porque a amiga falava como se tudo dependesse dele.
— Meu irmão já deve ter chegado a essa hora. Não posso demorar mais – Explicou, soltando as mãos do rapaz – Sem falar que eu estou com a corda no pescoço, então não posso me envolver com nada.
— Espera, você está indo embora agora? – Questionou, vendo a garota fazer menção de sair.
— Calma. É só fazer o que eu disser. – Explicou, segurando-o novamente e cuspindo as palavras antes que a menina acabasse saindo da sala. – Quando a diretora aparecer, você diz que tem um assunto urgente pra tratar. Ela vai dizer que está ocupada, mas insista até que ela te deixe entrar. Você mostra o vídeo e salva a pele do Grimmjow-sensei. Sei que você consegue.
— Rukia, eu... – Ainda tentou dizer algo, mas calou-se ao ver a pequena batendo na grande porta de madeira, obrigando-o a seguir com o plano.
— Boa sorte, Ichigo – Soltou numa expressão de pesar, levantando o punho em sinal de incentivo antes de afastar-se rápido, a passos leves.
Odiava ter que deixar o amigo sozinho nessa empreitada, porém não tinha possibilidade de continuar ali por mais tempo sem gerar outra revolução em casa. Além disso, acreditava que sua presença naquele momento talvez gerasse mais problemas. Se Sayuri soubesse de seu envolvimento, tendo em mente as falsas ameaças as quais usara contra ela no passado, isso talvez servisse de material para a garota se safar de alguma forma, ou tragá-los para o meio do fogo cruzado. Não poderia correr o risco de deixar qualquer brecha, então Ichigo era o mais capaz naquele momento. Sabia que daria tudo certo, só precisava esperar pra ver.
Deixado para trás, ainda em bocado atônito, o Kurosaki praguejava mentalmente, dissipando com esforço a descarga de adrenalina a qual se apossara de seu corpo. Puxou o ar com força, repetindo para si mesmo que a amiga devia ter seus motivos e não deixaria de ajudá-lo posteriormente se preciso. Cobraria todas as explicações mais tarde; naquele momento, só precisava manter a coragem que lhe era característica para encarar a situação em que se encontrava. O professor dependia dele; nunca fugiria ou o deixaria na mão.
Devagar, o som da porta sendo aberta invadiu-lhe os ouvidos, o rangido baixo reverberando longamente. De dentro da sala, a diretora surgiu tensa, a postura ainda mais rígida do que o habitual, acompanhada pela menina de semblante aparentemente transtornado.
— A sala é essa terceira à direita no corredor, querida – Informava a mulher, indicando que a garota seguisse até lá – Já avisei pelo ramal para que a doutora lhe receba. – Dito isso, virou-se para o rapaz, dirigindo-lhe a palavra – Algum problema, Kurosaki?
— Na verdade, sim – Comentou, aproximando-se um pouco. – Precisava discutir um assunto urgente com a senhora.
Após ver a moça caminhar até a sala indicada, a diretora voltou totalmente a atenção ao ruivo, respondendo-lhe rapidamente:
— Eu sinto muito, mas no momento estou realmente ocupada. É algo que possa conversar com alguma das secretarias ou apenas comigo?
— É um assunto muito sério, e só com a senhora. Não posso esperar.
Diante da postura firme do rapaz, a diretora acabou por ceder. Considerando que se tratava do Kurosaki, poderia estar lidando até mesmo com alguém em coma dentro das dependências do Colégio após alguma briga – Pensava a mulher num calafrio, pedindo que o jovem entrasse, mas fosse breve.
Após sentar-se diante da escrivaninha da diretora, resolveu ir direto ao ponto. Quanto mais rápido soltasse tudo, melhor seria. – Concluía, puxando o pen drive de dentro do estojo enquanto dava início ao seu relato. Explicou que presenciara uma cena entre o professor e a colega, detalhando os acontecimentos sem mencionar a presença de Rukia, por via das dúvidas. Narrou com detalhes as falas, gestos e o fato de o professor sequer saber que o tinha como testemunha.
Por fim, recebeu como resposta o semblante incrédulo da educadora, até estender-lhe o dispositivo móvel, explicando que uma simples olhada no vídeo seria suficiente para provar tudo o que dissera.
Consternada, a mulher encaixou o objeto no notebook, abrindo o reprodutor para comprovar com clareza tudo o que havia escutado. Era difícil acreditar que uma aluna tão aplicada inventaria tudo aquilo, mas tinha diante de si uma prova irrefutável. Perdeu alguns instantes massageando as têmporas, o olhar vago ao passo que a mente digeria o ocorrido. Provavelmente era uma das circunstâncias mais complicadas com as quais já se deparara em sua carreira.
De toda forma, precisava chamar o professor até lá para cientificá-lo e confirmar-lhe a versão; ligou pelo ramal interno para uma das secretarias e ao saber que o homem ainda permanecia no prédio, solicitou que o chamassem com urgência até o local.
...............................................................................................................
Num sobressalto, o professor de matemática levantou-se da cadeira na qual passara os últimos minutos, retirado das pesadas reflexões nas quais estivera inserido pela voz paciente da secretaria. Estava sendo chamado na diretoria, o que confirmava todas as suas piores previsões.
Resignado, recolheu os livros que espalhara pela mesa na falha tentativa de distrair-se, fechando tudo em sua já surrada pasta marrom e caminhando porta afora, repassando mentalmente uma conversa que tivera com Renji no dia anterior.
Depois da destruição estúpida que fizera na própria casa, e sabe-se lá quando substituiria as coisas que quebrara, perdera a noite perambulando por bares, seguindo sem rumo até terminar às portas do amigo tatuado, já bastante alcoolizado e sentindo-se sufocado por toda aquela situação. Por sorte, o Abarai era uma das melhores pessoas para administrar suas crises, e lhe dera uma tapa metafórica da qual estava precisando.
"Você não fez nada, Grimmjow. Não importa o que digam, a sua consciência limpa sempre vai valer muito mais. Encare as coisas, porque não tem melhor remédio pra mentira do que o tempo." – Repetia mentalmente as palavras, recordando-se da disposição do amigo quanto a depor em seu favor, ajudá-lo a encontrar bons advogados, e tudo o que fosse necessário.
Era um consolo saber que tinha com quem contar, pelo menos.
Pouco depois, batia na porta da sala da diretora, respirando fundo numa tentativa de manter a calma que cultivara a tanto custo. Caminhou para dentro ao receber permissão para isso, surpreendendo-se ao encontra-la acompanhada do Kurosaki. Qual o significado daquilo?
— Grimmjow-san – Começou a mulher, pedindo que tomasse um lugar ao lado do aluno – Eu o chamei após uma denúncia bastante grave, por assédio, da qual eu imagino que o senhor tenha ciência.
Estupefato, o homem de cabelos azuis encarou o rosto de Ichigo, tentando compreender o que ele teria a ver com a situação. Havia sido denunciado por ele, por acaso? Eram dois o perseguindo, então?
— E o que o Kurosaki faz aqui? – Questionou indignado, voltando o olhar para a diretora.
Irritado pelo modo como o professor parecia desconfiado, Ichigo apontou para o computador, pronunciando-se num revirar de olhos:
— Eu não tenho nada a ver com isso. Só por acaso salvei a sua pele.
— O quê? – Replicou, mas foi interrompido pela diretora, que tomava a palavra para fornecer as devidas explicações.
Em poucos minutos, a mulher descreveu o que ouvira de Sayuri e depois de Ichigo, mostrando a gravação e fazendo perguntas a um Grimmy completamente atônito. Tudo deixava muito clara a inocência do professor, fazendo com que a diretora não tivesse opção, a não ser acusar a aluna envolvida.
Por fim, pediu que os dois se retirassem, agradecendo à Ichigo pela intervenção e avisando que o garoto poderia ir para casa tão logo ela salvasse o arquivo e lhe devolvesse o pen drive. Já Grimmjow deveria permanecer no colégio até segunda ordem, aguardando mais comunicados depois que ela ouvisse Sayuri novamente.
...............................................................................................................
— Por que você estava me seguindo naquele dia? – Perguntou o professor assim que ele e Ichigo afastaram-se da sala da diretora, parando no corredor que levava para fora do bloco da administração.
— Por que a pergunta? – Retrucou, extremamente constrangido pelo questionamento inesperado.
— Escuta, Kurosaki – Começou, ainda bastante abalado por toda a sequência de acontecimentos até então – Eu não tenho cabeça pra mais um aluno correndo atrás de mim. Essa garota já ultrapassou todos os limites da minha paciência. Então espero que você não ande me perseguindo pelos corredores com as mesmas intenções.
— Só me faltava essa – Soltou, franzindo mais as sobrancelhas, a irritação tornando-se palpável conforme o tom de voz se elevava – Se não fosse esse vídeo você nem teria como provar que não fez nada. Eu te ajudo e o senhor vem falar como se eu tivesse feito algo contra você?
— Quando foi que eu pedi sua ajuda? – Replicou, a personalidade forte cegando-lhe a racionalidade como em tantas ocasiões – Agradeço por ter mostrado a filmagem, mas não pense que vai conseguir algo comigo por causa disso.
— Sabe o que você precisa, sensei? – Perguntou, odiando-se por ter, em algum momento, gostado daquele cara – Engolir esse teu ego todo! – respondeu em seguida, virando-se em direção à saída – Vê se engole teu agradecimento também e pro inferno se você acha que eu fiz qualquer coisa querendo te cobrar depois.
Só após observar as costas do ruivo, notando que o garoto já não estava mais ao seu alcance, Grimmjow sentiu a pancada da estupidez que tinha acabado de fazer.
Era óbvio que o rapaz estava interessado nele, e não havia negado o interesse naquele momento, então seria natural querer cortar qualquer coisa pela raiz depois de toda aquela situação traumática. Todavia, refletindo sobre como se deixara dominar pela emoção, percebia que acabara de descontar sua frustração dos últimos dias em alguém que só o tinha ajudado.
Mas que merda...
Sentando-se num dos bancos de madeira que se espalhavam pelos corredores da escola, levou as mãos às têmporas, massageando-as ao passo que tentava imaginar uma maneira de se redimir com o Kurosaki. Contudo, tinha cansaço mental demais acumulado para chegar a qualquer conclusão plausível.
Pelo menos era um progresso, tendo em conta o seu perfil, reconhecer um erro tão rapidamente, mesmo que apenas para si mesmo. Sabia que havia falado aquelas besteiras por estar alterado e, talvez, levado pelo próprio ego também, tinha mesmo de concordar. Ainda assim, começar pedindo desculpas sequer lhe passava pela cabeça. Esperava conseguir algo para suavizar o clima entre os dois posteriormente, entretanto, seria melhor resolver definitivamente o problema com a Sayuri antes de acabar atolado em reflexões sobre Ichigo.
Certamente ainda teria muito que esclarecer até que tudo se resolvesse por completo.
Fale com o autor