Notas iniciais
Olá, meus amores! Mil perdões pelo atraso, mas foi por motivos de "não está sendo fácil". Estou em processo de mudança de apartamento e bem atribulada com a faculdade, então minha vida está meio tensa ~Drama. Apesar das turbulências, vou tentar postar o 7 até a próxima terça Ficou enorme, mas não dava para dividir sem estragar a continuidade do texto, então torço para que gostem mesmo assim. Aqui as primeiras nuances da história principal começam a aparecer, então acho esse capítulo importante nos detalhes. Ele tem glossário com referências nas notas finais. Sei que o último foi um choque e tanto, mas espero que ninguém esteja querendo a minha cabeça ainda USHUHAUSHA Obrigada aos que comentaram, favoritaram e estão acompanhando ♥

Nii-sama...?

A voz baixa de Rukia saiu vacilante, cortando o silêncio que se mantivera durante quase todo o jantar, entretanto, não obteve qualquer resposta do homem sentado à sua frente.

Era costume que fizessem juntos as refeições, e em geral estes eram os momentos nos quais mais conversavam, principalmente sobre a rotina diária de Rukia e o andamento de suas obrigações, todavia, durante as últimas semanas, as palavras do irmão eram ainda mais escassas que de costume, sendo constantes os momentos em que se mantinha absorto em reflexões tão pesadas que o distanciavam da realidade.

Decerto não a ouvira chama-lo, e ela sabia bem o motivo. Tinha nome, sobrenome e uma série de tatuagens tribais pelo corpo.

Normalmente associaria qualquer alteração no comportamento do irmão a problemas com o trabalho, contudo, dessa vez tinha certeza de que a causa era Renji. Obviamente, estava fora de questão tentar ajudar dizendo algo à Byakuya, mas sob as rigorosas condições de seu castigo também não teria como contatar o ruivo. Por sorte, a garota sabia armar bons planos quando necessário, e daria seu jeito de interferir.

Seria tão mais fácil se ele fosse menos teimoso! – Pensava enquanto fitava o moreno de soslaio. – Tinham lá seus problemas e às vezes todo o rigor dele sufocava-a, ainda assim, amava o irmão. Era angustiante vê-lo mais atormentado do que nunca, amargando arrependimentos, cultivando com afinco a própria dor e escondendo-se por detrás de sua muralha de orgulho e medo. Definitivamente, precisava agir antes que a convivência se tornasse insuportável e aquele homem se fechasse em seu casulo de amargura para sempre.

"Operação cupido: Fase 1". Anotou mentalmente, rindo consigo mesma enquanto movia com mais força os hashis, riscando-os na tigela de porcelana e deixando escapar alguns ruídos estridentes.

Como esperado, foi o suficiente para despertar Byakuya de seu transe. Ele voltava ao mundo real somente para lançar-lhe seu olhar de reprovação com relação aos modos à mesa. Bem típico dele, mas era o que a morena desejava.

Fitou-o com uma expressão suave, tomando a palavra no tom mais respeitoso que conseguia.

Nii-sama, – Começou, deixando os hashis no descanso enquanto falava – Estive pensando em formas de tornar os meus dias mais produtivos, mas confesso que também gostaria de respirar um pouco o ar fora de casa ou da escola – Soltava cada frase de modo preciso, medindo cuidadosamente o peso de suas sentenças – Sendo assim, será que eu teria a sua permissão para acompanhá-lo a empresa durante os sábados nos quais eu não tiver aula?

Byakuya ponderou por alguns instantes, recordando-se daquela conversa com Renji. Sabia que mais cedo ou mais tarde a menina desejaria relaxar de alguma forma, entretanto, não esperava por um pedido que aumentasse a sua carga de afazeres. Será que a irmã estava se sentindo tão pressionada, a ponto de apelar para qualquer chance de deixar o lar por algumas horas?

— Compreendo – Iniciou, partindo sem muitos rodeios para a resposta – Tem a minha permissão, desde que isso melhore o seu rendimento, em lugar de piorá-lo.

A jovem assentiu, prometendo-lhe que se comportaria e na manhã seguinte compareceria à sede da Kuchiki Co., Ltd. como uma aprendiz exemplar.

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O som da água fluía ritmado, preenchendo o ambiente, reverberando nas paredes revestidas por cerâmicas de altíssima qualidade, feitas sob encomenda para o cômodo e ornando-o com a elegância das delicadas pétalas de cerejeira que as caracterizavam. Quando a banheira já quase transbordava, o rangido trêmulo da torneira substituiu o som anterior por breves instantes, colocando fim ao movimento do líquido para que o banheiro caísse novamente em seu pesado silêncio.

Deixando que os pés tocassem a água quente, Byakuya adentrava no que deveria ser um banho relaxante, entretanto, via frustradas as suas expectativas.

O tempo passado sozinho, entregue aos próprios devaneios, que antes lhe era tão precioso, agora se convertera em intragável tortura. Somente entregar-se de corpo e alma ao trabalho e a quaisquer outros deveres lhe era de algum alívio diante da situação emocional na qual mergulhara, onde mesmo suas caminhadas noturnas tornaram-se um martírio.

Dizem que "mente ociosa é oficina do diabo". O seu diabo, de longos cabelos vermelhos e corpo sensual, lhe aparecia em todas as horas de ócio. qualquer descuido, qualquer instante de desocupação nas últimas semanas, era suficiente para que o seu pecado viesse à tona, lembrando-o de sua luxúria, de sua entrega, de seu desejo. Renji o retirara de seu pedestal. O fizera homem, como qualquer outro. Isso era o que mais lhe assustava.

Sim, o motivo de sua rejeição não poderia ser outro além de medo, e sua covardia lhe dilacerava as entranhas a todo instante. Não era simplesmente o medo da sociedade, da reação dos escassos entes queridos e amigos, ou de qualquer outro ponto relacionado à sexualidade que agora descobria. Seu medo era mais pessoal, mais interno.

Somente Kuchiki Byakuya poderia temer o que Kuchiki Byakuya temia, pois ele temia a si mesmo. Tinha medo do que poderia se tornar; de depender de alguém e deixar escapar tudo o que construíra. Tinha medo de perder, medo de se decepcionar. Medo de deixar de ser quem era e "amolecer" por precisar de alguém além de si mesmo.

Desde jovem, aprendera a domar sua personalidade e transmuta-la em uma máscara impassível. Passara incólume pela dor e reprovação de cada uma de suas decisões levianas, e em todas as situações, sua tábua de salvação era o seu orgulho, sua autossuficiência.

Como o Abarai poderia esperar que ele se desfizesse de seu orgulho? De suas defesas?

Sabia que não conseguiria manter a compostura diante dele. Cada passo em direção ao ruivo era um passo para a sua perdição. Não poderia começar nada, ou deixar acontecer mais nada sem estar preparado para voltar a ser um homem qualquer; voltar a temer a perda; a desejar sem racionalidade; a sofrer por amor. Céus, como alguém poderia querer isso para si mesmo?

Não obstante, pior do que o medo, pior do que suas angústias, era encarar todos os dias nas últimas semanas o semblante furioso de Renji. O ferira com a deliberada intenção de afastá-lo, mas por que sentir-se odiado era tão insuportável? Porque encarar aqueles olhos castanhos pesava tanto?

Os braços finos moviam-se devagar, criando ondas de água e espuma que eram atentamente observadas, como se revelassem respostas ou previsões para um futuro menos desagradável. Quem dera algo assim fosse possível... Tudo o que tinha a fazer, era resignar-se e encarar o destino amargo que lhe aguardava.

A princípio, julgara as suas ações as mais acertadas, ainda que severas. Contudo, diante do lento passar dos dias, sentindo a cada manhã a ausência do sorriso quente do subordinado; da conversa tola e refrescante; das atenções carinhosas; do olhar firme; de tudo o que o Abarai representava em seu subconsciente, percebia as proporções de seu erro. Independente de sua decisão quanto ao relacionamento dos dois, deveria tê-lo escutado, considerado-lhe os sentimentos... Todavia, já era tarde demais. Afastara Renji por medo, e pelo orgulho seria incapaz de puxa-lo de volta, de correr atrás de uma centelha viva de felicidade que jamais poderia pertencê-lo.

Seu papel era ser Kuchiki Byakuya, o empresário renomado e infalível; o homem racional pronto a cumprir todos os deveres. Se o que sentia pelo seu funcionário era tão forte a ponto de, em lugar de desaparecer, sobrepujar as decisões de sua mente, seria obrigado a enterrar esse desejo tão fundo quanto possível, como fizera há anos com suas demais emoções turbulentas.

Sempre aceitara sofrer em silêncio, em nome do orgulho e em nome de si mesmo, no entanto, porque dessa vez a dor era tão mais pungente?

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— Renji, onde você pensa que está? Num funeral? – A voz de Rangiku chegava incômoda aos ouvidos de um Abarai absorto em pensamentos, mais descontente do que nunca por estar na empresa em um sábado de manhã.

— Algum problema? – Questionou, uma sobrancelha arqueada, a voz saindo em notas mais agudas, como sempre fazia quando se sentia contrariado.

— Absolutamente nenhum – Soltava a loira, deixando um bolo de pastas à frente do tatuado – Tirando o fato de alienígenas terem abduzido o Renji que eu conhecia e deixado um esquisitão no lugar – Adicionou, afastando-se enquanto terminava – Me avise quando ele voltar, senhor Alien.

O choque de realidade criado pelo comentário da amiga foi doloroso, entretanto, pouco eficiente.

Sim, estava diferente e irritava-se consigo mesmo também, mas o que fazer? Enquanto seguisse com aquele irritante aperto no peito, não poderia voltar ao estado normal, principalmente durante o horário de trabalho. Tinha de realizar esforços descomunais para manter-se frio diante do chefe, sem esmurrá-lo, beijá-lo, ou fazer as duas coisas, e isso acabava por deixar-lhe tenso em todo o horário de serviço.

Sinceramente, queria muito conversar novamente. Ou melhor, queria conseguir dizer algo dessa vez, porque o que tivera antes fora apenas um repúdio fustigante por parte do outro. Não recebera motivos satisfatórios para a rejeição e a sensação que tinha, sob todos os aspectos, era uma mistura de incompreensão e rancor. Este último, não em seu sentido de todo negativo, mas na acepção de um ressentimento gerado pelo orgulho ferido.

Bom, vendo o ângulo positivo, ele pelo menos não era tão orgulhoso quanto o moreno. Afastava-se agora, porém conhecia-se o suficiente para saber que tentaria uma reconciliação tão logo visualizasse uma oportunidade. Isso, claro, na remota hipótese de alguma surgir.

Em meio aos pensamentos, acabou surpreendido pela voz grave do patrão, que em momentos como aquele dava a impressão de mover-se através de alguma técnica oculta que lhe velasse os movimentos, aparecendo por perto sem qualquer aviso.

O homem atravessara o cômodo até ali sem deixar-se notar durante o trajeto, estando agora em pé, ao lado da cadeira do tatuado, chamando-lhe o nome e introduzindo polidamente algum pedido.

— Como nas outras vezes, deixarei Rukia em sua companhia hoje. Peço que avise-me caso ela venha a criar-lhe problemas – Instruía o mais velho, desviando um pouco o corpo e permitindo que a irmã, até então sequer notada, lhe tomasse a frente, aproximando-se do funcionário.

— Sim, senhor – Foi a resposta do maior, automaticamente pronunciada, num tom seco e ausente de quaisquer dos usuais lampejos de empolgação.

Os papéis até pareciam trocados ali! Constatava Rukia, analisando a frieza do ruivo, comparada às notas de apreensão que conseguia identificar no semblante do irmão. No entanto, aquilo parecia estar sendo efetivo para obrigar Byakuya a "sentir falta" do tatuado. Agora entendia perfeitamente o motivo de toda a melancolia que o vira manifestar ao longo das últimas semanas. Quem não se abateria depois de ser tratado com indiferença e frieza por Abarai Renji? Nem mesmo o herdeiro dos Kuchiki seria capaz de manter a impassibilidade em tal situação!

— Estarei em suas mãos, Abarai-san – pronunciou a garota em uma mesura, antes de ouvir o irmão despedir-se e deixar os dois a sós.

O funcionário surpreendera-se por ver a garota na empresa, perguntando-se como estariam as condições de seu castigo naquele momento. Pensando nisso, talvez o moreno houvesse dado alguma consideração aos seus conselhos e cogitado abrandar as coisas após 3 semanas.

— Há quanto tempo, hein baixinha? – Cumprimentou-a, dessa vez mais amavelmente, afagando os cabelos de azeviche. Cogitar a hipótese de ter exercido qualquer influência sobre as decisões tomadas pelo patrão em família desanuviara-lhe momentaneamente o semblante, devolvendo-lhe o ar relaxado.

— Um bocado, mesmo! – Exclamava a pequena, puxando uma cadeira a fim de sentar-se ao lado do homem – Ando incomunicável graças a um castigo em casa, mas dizendo as palavras certas pude conseguir permissão para estar aqui hoje – Contava, as palavras saindo em um tom estranhamente grave, que Renji sempre considerava cômico quando saía dos lábios finos da menina.

— Eu imagino – Soltava, tentando visualizá-la negociar qualquer coisa. – Mas se é assim, use essa disposição toda para barganhas e me acompanhe por hoje, jovem gafanhoto – Brincou, aproveitando a companhia da jovem amiga para esquecer um pouco a aura tensa que carregava até então.

Não mais do que duas horas transcorreram enquanto os dois observavam planilhas, descrições de projetos e imagens de portfólios variados no computador do Abarai.

Apesar de não ter uma sala para si, a escrivaninha do ruivo ficava no cômodo anterior ao do chefe, dividindo espaço somente com a mesa de Rangiku, no lado oposto do local. A decoração assemelhava-se à do escritório do moreno quanto aos tons e estilo dos móveis, bem como as cores das paredes. Todavia, tinha a iluminação mais fria e a presença de plantas enfeitando algumas laterais, que ao serem combinadas com estantes de design curvilíneo conferiam-lhe um conceito mais moderno, substituindo a atmosfera aconchegante por um ar Clean sem perder a elegância.

Como uma empresa multinacional especializada no ramo da construção Civil, tudo nos escritórios da sede da Kuchiki Co., Ltd. era meticulosamente planejado, sendo os detalhes de cada espaço pensados de acordo com suas funcionalidades e as tendências mais adequadas quanto a design de interiores.

Naquele meio tempo, Rangiku já fornecera à menina seus cumprimentos, através de abraços aconchegantes e apertados, acompanhados por chá e biscoitos cobertos de açúcar. Finalmente, o "tutor" da jovem aprendiz decidira levá-la consigo até uma sala de multimeios, onde desejava revisar o vídeo de apresentação de produtos enviado pela Kyõka Holdings Co., Ltd, principal fornecedora do mais recente projeto. Aizen Sousuke, dono desta empresa, entrara como sócio durante a empreitada, apesar de não tomar parte nas ações do grupo Kuchiki, como no caso de Urahara. Era uma figura com a qual Byakuya tinha especiais ressalvas, cuja motivação permanecia um mistério para o ruivo.

De qualquer forma, mesmo com os trabalhos tão avançados quanto no presente momento, o tatuado tinha ordens de revisar várias vezes qualquer material advindo da Kyõka, e era o que fazia com redobrado cuidado.

— O trabalho aqui parece infinito às vezes – Comentava Rukia após o fim da exibição, fitando o ruivo terminar de preencher alguns relatórios sobre o que viram.

— Ah, você não viu nada – Replicava, com os olhos ainda voltados para os papéis – Trabalho em campo consegue ser ainda mais corrido.

A menina passeou os olhos pela sala onde encontravam-se, muito menos atenta às palavras do homem do que deixava transparecer. No momento, apenas os dois conversavam naquela espécie de cinema, com inúmeras cadeiras voltadas para a imagem saída do retroprojetor. Pensando bem no que diria, julgou que aquela era a ocasião apropriada para uma conversa particular sem interrupções, tomando a palavra com cautela:

— Eu imagino, Renji. E o trabalho em campo com o meu irmão certamente é o mais complicado – Iniciou, preparando o terreno.

— Bom, o Kuchiki-sama é mesmo bem exigente, mas a gente se acostuma.

— Fico feliz que você tenha se habituado a ele. É muito importante ter você para apoiá-lo.

O mais velho corou com o comentário, deixando-se em seguida mergulhar em uma atmosfera um pouco mais amarga. Ficava lisonjeado com a observação, mas lhe trazia lembranças dolorosas, ainda vivas no peito machucado.

— Me agrada ser um bom funcionário – Respondeu finalmente, tentando desviar-se.

— Mas você pode ser bem mais do que isso – Sugeriu a garota, recebendo os olhos arregalados do ruivo como resposta.

— O que quer dizer? – Questionou, incrédulo. Considerando que ela não teria como saber da pseudo-relação com o Kuchiki, a garota só poderia estar se referindo à outra coisa, certo?

— Bom, há algum tempo eu tenho notado o meu irmão um tanto diferente – Começou, optando por omitir o fato de ter presenciado as cenas comprometedoras após a bebedeira do ruivo com o patrão. – E percebi que isso tinha relação com você.

— Comigo? – Boquiaberto, o homem conseguiu apenas repetir-lhe a expressão.

— Sim – Recomeçava, fitando-o atentamente – Primeiro notei que ele estava se aproximando mais de você, coisa que nunca havia feito com ninguém, mas depois, nas últimas semanas, o senti muito mais fechado do que antes, de uma maneira bem melancólica. Por acaso vocês brigaram de alguma forma?

A revelação surpreendeu o mais velho, incapaz de cogitar que o moreno se sentiria mal após rejeita-lo. Sequer havia sentido nisso! Ainda assim, respondeu à pequena com tanta sinceridade quanto a situação lhe permitia.

— Pensei que o tivesse entendido, mas talvez não sejamos exatamente compatíveis. – As palavras doíam, saindo empurradas garganta afora – Não adianta nada ir atrás de alguém que não quer contato comigo.

— Sabe, Renji – Explicou, aproximando-se mais, estancado ao lado do amigo – O meu irmão tem uma personalidade um tanto complicada... É sempre difícil entender os motivos dele, mas o principal problema é o fato de ele reprimir os próprios sentimentos.

Diante de um Abarai cada vez mais confuso, a menina puxou um papel em branco da agenda que o homem deixara repousando sobre a mesinha do assento, arrancando da mão alheia a caneta e começando a rascunhar para ilustrar sua fala.

— Quando o meu irmão sente uma coisa que lhe parece errada, ele tenta negar, e guarda pra si mesmo – Explanava, apontando para os rabiscos apressados, representando o irmão como uma alga estranha – Como ele acha que depender das pessoas é errado, ele sempre evita isso, e assim afasta as pessoas de quem ele gosta – Continuava, inserindo um abacaxi empurrado pela alga, que deveria representar Renji.

— Porque eu sou um abacaxi? – Não pôde evitar interrompê-la. Nunca consideraria normal essa mania da menina de rabiscar sempre que precisava explicar algo.

— Não é óbvio? – Retrucou rapidamente, voltando à sua tese – A questão é que se você continua insistindo, sempre e sempre, ele acaba desistindo de mentir pra si mesmo e te dando espaço. – Concluía, colocando os seus dois personagens de mãos dadas – É só não esmorecer nas primeiras negativas.

— Faz sentido, mas não sei se eu seria tão persistente para fazer amizade – Tentou escusar-se, ignorando os desenhos infantis e focando-se nas palavras da pequena.

— Tudo bem – Soltou num suspiro pesado – Só que tem sido doloroso ver meu irmão tão depressivo nessas 3 semanas, então não posso deixar de te pedir para tentar ajudá-lo. Você é muito importante pra ele, ou não o deixaria abalado assim brigar contigo.

O funcionário estancou por um instante, avaliando tudo aquilo.

Ainda permanecia irritado por todas as atitudes do empresário, mas ouvir da boca de Rukia que ele estava sofrendo tanto assim o fazia esquecer imediatamente qualquer sensação negativa.

Claro que o moreno era o culpado pelo sofrimento de ambos naquele quase-relacionamento, mas a vontade de doar-se de Renji ia muito além do desejo de apontar culpados. Se o que a menina dizia era verdade e o homem apegava-se tanto a condutas rigorosas, a ponto de considerar depender de alguém uma falha, então o ruivo não poderia deixar de estender-lhe a mão e dar o melhor para mostrar-lhe o contrário, poderia?

— Acha mesmo que ele se importa comigo? – Tentou confirmar, ainda vacilando em suas convicções.

— Eu tenho certeza – Garantiu-lhe a moça, rejubilando-se pelo aparente sucesso de seu planejamento. Agora só precisaria esperar para ver como o ruivo agiria dali em diante.

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Assoprando o café quente, Renji só conseguia pensar nas palavras incentivadoras da jovem Kuchiki no dia anterior. Firmemente apertada entre os dedos, a xícara de porcelana barata conferia-lhe calor naquele domingo gelado de outubro, a fumacinha suave de seu conteúdo desfazendo-se em linhas esbranquiçadas.

Quem poderia imaginar que Byakuya se deixaria abalar por sua recente mudança de atitude a ponto de parecer depressivo à irmã? – Considerava, não felicitando-se por entristecer o homem, mas esperançoso por supor que o comportamento negativo do outro após sua primeira investida poderia ser pura fachada – Além disso, por mais machucado que estivesse com toda a confusão, aquilo não deveria ser o suficiente para freá-lo, certo?

Sorvendo a bebida em golinhos curtos, deixava-se mergulhar nas reflexões, revivendo não só os recentes acontecimentos, mas todo o tempo que passara com o patrão desde que o conhecera. Nunca fora fácil conviver com ele, e o Abarai conhecia muito bem o gênio forte escondido por detrás daquela carranca. Talvez amasse isso nele também. Talvez amasse a seriedade e as frases ferinas que despontaram de seus lábios. E devia admitir que o homem era um expert em "frases desmotivacionais " as vezes, chegava a ser cômico.

Tinha também o seu orgulho, e permanecia incerto quanto a atropelá-lo ao continuar correndo atrás de uma pessoa que o rejeitara daquela maneira. Ainda assim, por que não?

Tomando de um gole o que lhe restava na xícara, levantou-se da cadeira metálica, os ouvidos protestando diante do som agudo que ela emitiu ao ser arrastada no chão. Durante a caminhada em direção a pia, sentia o frio das cerâmicas, de um xadrez um tanto amarelado, que compunham o piso da pequena cozinha.

Mas como convencer o patrão a entregar-se, a confiar em alguém? –Perguntava-se, abrindo a torneira e começando a lavar a pouca louça acumulada. – Mesmo se decidisse tentar novamente, o que faria? Será que tentar conversar novamente seria o suficiente para desarmá-lo? Senhor, como estar apaixonado por aquele cara era difícil... Constatava ao passo que terminava sua tarefa.

Finalmente, secou apenas as mãos, deixando tudo o que lavara no escorredor e tomando o rumo da sala.

Por pouco, desviou da quina da mesa de centro – Até parece que tinha um problema com móveis baixos! – e largou o corpo no sofá, já cansado do esforço mental de procurar soluções para os próprios dilemas.

Aos poucos, deixou-se afundar em um sono ansioso, porém muito menos turbulento do que os momentos de descanso que vinha tendo nos últimos dias.

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— Ei, cuzão! Por quanto tempo pretende me deixar na porta?

A voz irritada, acompanhada por batidas insistentes vindas da entrada, despertou o dono do apartamento em um sobressalto.

Renji pulou do sofá verde-escuro onde estivera dormindo durante as últimas horas, colocando-se de pé em um único movimento, os olhos percorrendo o cômodo em surpresa enquanto situava-se. A campainha soou por tempo demais, apertada impacientemente pelo homem do lado de fora.

— Já vai, caralho – Gritou da sala, os passos pesados sendo direcionados à entrada apesar de a mente ainda não se ter recuperado totalmente do despertar abrupto.

— Tava dando o cu, pra demorar desse tanto? – Questionou o homem de cabelos azuis tão logo a porta foi aberta. Uma das sobrancelhas permanecia arqueada, adicionando ironia à expressão naturalmente agressiva.

— Vai à merda, Grimmjow – Respondeu, largando a porta com desdém para ir novamente em direção à sala, deixando que o visitante entrasse e a fechasse por si mesmo. – Eu tava dormindo, pô – Adicionou, elevando a voz devido à distância.

— A noite ontem foi boa assim, pra estar apagado às duas da tarde? – Tirou os tênis brancos, deixando-os no pequeno Genkan ao replicar em tom malicioso, ainda que soubesse muito bem que o ruivo mal saíra de casa no último mês.

— Nada... – Respondia num suspiro, já sentado em uma poltrona pequena, que junto à outra igual e ao sofá de três lugares formava o conjunto da sala. – Nem ando com pique esses tempos. – Adicionava, vendo o amigo atravessar o cômodo e parar à sua frente. Trazia no corpo uma camisa xadrez, de mangas arregaçadas até o cotovelo e botões abertos, mostrando a regata branca que usava por dentro. Os jeans surrados deixavam o visual mais informal, moldando, folgados, as pernas grandes. Em uma das mãos, carregava sacolas plásticas abarrotadas.

— Dá pra sentir o desânimo daqui. – Comentava, encarando-o longamente – É raro você me deixar sem notícias, mas de qualquer forma a Matsumoto me falou que você não estava normal.

— Foi mal pelo sumiço. – Soltou, sentindo-se péssimo por acabar ausente e preocupar os amigos, especialmente ele, que era um dos mais próximos.

— Tanto faz. – Cortou, tentando não parecer excessivamente preocupado – Eu vim resolver isso, de qualquer forma – Explicava, levantando as sacolas e deixando que o anfitrião notasse, através do plástico transparente, o seu conteúdo, contando com cervejas e embalagens de petiscos prontos. – Comida, cerveja e minha companhia. É mais que o suficiente pra resolver qualquer problema que você possa ter.

— Sei... – Replicou vagamente, pendendo a cabeça para trás e deixando-a descansar sobre o recosto da poltrona, os braços soltos preguiçosamente sobre os descansos laterais, combinando com a expressão sonolenta.

Observando-o com uma careta de reprovação, Grimmjow passou a retirar as compras das sacolas e organiza-las sobre a pequena mesa de centro, caminhando em sequência até a cozinha e escolhendo pratos e talheres sem qualquer cerimônia, como se estivesse em sua própria casa. Equilibrou tudo numa das mãos, usando a outra para retirar de uma das gavetas do armário branco um abridor de latas, voltando para junto do anfitrião.

— Já fiz a minha parte arrumando a mesa. Agora é sua vez. – Anunciou, o corpo sendo desleixadamente jogado no sofá, sentado com um dos pés em cima do móvel. – Vai falar o que está rolando ou eu vou ter que chutar a tua bunda até me dizer?

— Nem aconteceu nada demais – Mentiu, abrindo uma das cervejas – A Rangiku que se preocupa à toa.

Os olhos castanhos do ruivo fixaram-se na garrafa enquanto terminava sua frase em um tom baixo, um pouco mais pausado que o habitual. Aquilo deixava a mentira tão óbvia que Grimmjow respondeu-lhe com uma risada sonora, mantendo um tom de escárnio que lhe era comum.

Os dois se conheciam desde os tempos da faculdade, onde pagaram várias disciplinas juntos, ainda que estivessem em cursos diferentes, e começaram uma sólida amizade.

Os gênios fortes às vezes conflitavam, resultando em brigas épicas, todavia, sempre se deram muito bem de um modo geral. Sabiam que podiam contar um com o outro para tudo e, tendo boa parte dos amigos em comum, mantiveram-se muito próximos ao longo dos anos.

Apesar da sabida insensibilidade, o dono dos cabelos azuis conhecia o outro bem o suficiente para dizer quando não estava normal e mesmo identificar mentiras através dos pequenos gestos. E definitivamente, aquele idiota estava passando por algum problema bem grave – Constatava, controlando o riso e finalmente puxando uma cerveja para si também, abrindo-a enquanto retrucava:

— Você não passaria um mês trancado em casa por "nada demais", Renji – Argumentava, repetindo-lhe as palavras em tom fino, zombeteiro, ignorando a expressão negativa do tatuado, que o encarava irritado desde a risada dada instantes antes – Olha, eu não estou a fim de ficar te mimando, então é melhor você abrir logo essa boca. – Tomou um gole da bebida amarela, mas continuou em seguida, antes que algum protesto do ruivo ecoasse – Aproveita que eu estou com saco pra pagar de psicólogo hoje e anda logo com isso.

— Até parece que eu te pedi pra vir aqui – Vociferou, metralhando-o com um olhar furioso. – Enfia no rabo essa tua psicologia, idiota.

— É assim que você agradece a um cara prestativo como eu? Duvido que encontre um amigo tão bom por aí. – Debochava, sorvendo mais um gole antes de continuar em tom natural, como se não o estivesse provocando instantes antes. – Fez alguma coisa errada no trabalho? – Perguntou.

Ainda que não admitisse, o dono dos cabelos azuis estava um pouco irritado pelo desaparecimento inexplicado do amigo. Até parece que o braço iria cair se mandasse uma mensagem! Apesar disso, se dirigira até lá na intenção de ajudá-lo com o que quer que fosse, então seria melhor esforçar-se para debochar menos e ouvir um pouco mais.

— Claro que não! – Replicou em tom quase ofendido. Podiam acusa-lo de muita coisa, mas o Abarai orgulhava-se de ser um funcionário exemplar, sempre empenhado em tudo o que fazia. – O novo projeto está ótimo, apesar de cansativo. Se não fosse o Kuchiki-sama estaria tudo perfeito.

— Vossa majestade está te escravizando muito dessa vez?

— Não. Está tudo bem com o trabalho, já disse – Fazia um bico ao falar, chateado por ouvir a expressão jocosa. Claro que Byakuya às vezes era autoritário demais, entretanto, irritava-se quando o Grimmy usava esses apelidos para referir-se a ele. – Eu só... – Ponderou um instante, tentando decidir-se sobre até onde contar – Só briguei com o Kuchiki-sama.

Encarava o chão, incerto quanto a continuar com aquele diálogo. Confiava plenamente no amigo, no entanto, era estranho tratar de sentimentos com ele, que era a definição de "insensível" para o assunto.

Já haviam arriscado um relacionamento nos tempos de faculdade, mas as coisas foram tão mal que prometeram jamais tentar um namoro novamente e, no máximo, transar casualmente. Estavam bem melhor mantendo só a amizade, isso era evidente.

Enquanto Renji acabara por empenhar seu lado romântico nesse amor platônico pelo patrão, Grimmjow sufocara o próprio. Ou melhor, o assassinara com requintes de crueldade e enterrara os restos mortais em algum lugar distante, porque já não era possível encontrar qualquer centelha de "amor romântico" naquele coração. Há tempos saía indiscriminadamente com homens e mulheres de todos os tipos, tendo como regra de conduta apenas não se envolver com menores, principalmente por conta da profissão que exercia. De resto, o que viesse era lucro dentro daquela política de divertir-se sem se apegar emocionalmente a ninguém.

O Abarai ainda acreditava piamente que tudo o que ele precisava era da pessoa certa para frear-lhe o comportamento libertino e mostrar-lhe como estar verdadeiramente com alguém poderia ser a melhor coisa do mundo, todavia, não estava na situação ideal para defender o amor. Afinal, andava bem longe de qualquer felicidade graças ao seu.

— Bom, brigar até que é um avanço. – Pronunciou-se o dono dos olhos azuis, cortando-lhe as reflexões – Pelo menos aconteceu alguma coisa menos monótona entre vocês.

— Não sei como eu ainda cogito conversar sério contigo – Replicou num muxoxo, afundando-se mais na poltrona – Você nem imagina o que eu tenho sentido... – Adicionou, um pouco mais para si mesmo, entretanto, em tom audível.

— Imaginar o quê? Que você tem os quatro pneus arriados por aquele cara? Isso todo mundo sabe, Renji. Me conta uma novidade.

— Como você sabia? – Questionou, os olhos castanhos estreitando-se por um instante. Será que era tão transparente a ponto de todo mundo perceber seu afeto por Byakuya? Por acaso havia sido o último a notar que estava apaixonado?

— Qual é... Você vive lambendo o chão que ele pisa! – Começou, provocando uma expressão contrariada em seu interlocutor – Inclusive, acho que você devia parar de endeusar aquele cara, mas isso é outra história. Por enquanto, me fala, vai: você tomou uma atitude? – Um sorriso cheio de segundas intenções formou-se nos lábios finos do homem, deixando claro que pensava em alguma sacanagem bem despudorada.

O tatuado ficou mudo, as maçãs do rosto tornando-se mais rosadas e confirmando as suspeitas de um Grimmjow completamente perplexo.

— Tá de brincadeira? – Tentou confirmar, incrédulo diante do silêncio incriminador do dono da casa – Ele já abriu as pernas pra você?

— Não fala assim, porra! – Foi a resposta, acompanhada de uma almofada passando de raspão pelos fios azuis, quase alcançando o rosto também – A gente teve um lance, ok? – Explicou, encobrindo os detalhes – Só que depois ele me dispensou sem motivo. – Continuava, tentando estabelecer um nexo na narração apesar das lacunas – Eu fiquei puto e não estávamos nos falando direito, mas ontem a irmã dele me disse que ele está sofrendo porque sente minha falta, então eu não sei mais o que fazer. É isso. – Terminou, evitando o olhar alheio, tomado por uma vergonha incomum.

— Wow... – Exclamou, ainda atônito – Quem diria que você teria sucesso, hein? – Soltava, encostando melhor a coluna na parte detrás do sofá, apoiando um dos braços ao longo do recosto.

— Você não ouviu o que eu disse? Ele me chutou, porra.

— Óbvio que isso é cu doce. – Revirava os olhos enquanto falava, como se a sentença fosse perceptível demais para que tivesse de pronunciá-la – Nem precisava a menina vir te contar nada. Um enrustido daqueles não ia se envolver facilmente. Certeza que ainda vai te enrolar muito.

O ruivo o fitou por alguns instantes, pensando sobre aquilo.

Bom, já tinham feito sexo, mas até que havia sentido no fato de o chefe não querer se entregar afetivamente. Relembrando as palavras de Rukia, talvez fosse mesmo idiota desistir tão facilmente na primeira recusa. Nada na sua vida vinha fácil, de qualquer forma. Não poderia ser diferente no amor.

— Acha que eu vou conseguir algo se insistir, então? – Disse, pedindo conselhos meio sem se dar conta.

— Eu não teria paciência pra passar por uma odisseia dessas por alguém como ele – Comentou casualmente, assistindo ao semblante contrariado do outro pela enésima vez naquela conversa – Mas já que você tem essa disposição, aposto um dedo que consegue.

— Quanta confiança. Não sabia que você me considerava tão irresistível. – Soltou, finalmente sorrindo, antes de abocanhar descontraidamente alguns petiscos.

— A questão não é você. É ele. – Justificava, rindo consigo mesmo – Acha que ele teria "um lance" com alguém se não estivesse no limite da resistência? – Falava em tom desdenhoso, imitando as palavras do ruivo – Se ele te deixou começar algo é porque já não aguenta a vontade de dar aquele rabo. Vai com fé que se insistir ele larga as frescuras.

— Tão sutil... – Ironizou, aproximando-se um pouco mais na poltrona, agora com um sorriso descontraído bem evidente – Só que eu estou dando gelo nele, entende? Eu não posso agir como antes. Como vou chegar de novo?

— Seu problema é que pensa demais pra essas coisas – Observou, refletindo por poucos instantes antes de continuar – É só ir pra cima, sabe? Joga ele na mesa do escritório e mostra o que consegue fazer – Gesticulava de forma obscena, ilustrando sua dica – Se toda vez que você fizer algo ele corresponder, não vai poder dizer que não te quer.

— Você anda vendo pornô demais – Comentou numa gargalhada, imaginando-se fazendo algo com o chefe no ambiente de trabalho. O fetiche era ótimo, no entanto, certamente nunca rolaria.

— Mas sabe, vou ter que te dar os parabéns pelo gelo. Aquele cara não vê a sorte que tem contigo – Colocava a garrafa sobre a mesa, cruzando os braços atrás do pescoço antes de continuar – É bom fazer algo assim pra ele ver o que está perdendo.

— Pena que eu também fiquei mal com isso – Observou.

— Por que é um otário – Replicou, começando o pequeno sermão que queria ter feito ao chegar – Além de preocupar todo mundo, você me deixou num vácuo eterno – Reclamava, entretanto a voz não se alterara. A raiva havia esfriado após tanta conversa, afinal – Da próxima vez que estiver mal assim fale logo comigo ao invés de bancar o adolescente e se trancar no quarto – Ralhou, colocando a mão no bolso em busca de uma carteira de cigarros.

— Você tem razão – Mais do que "me desculpe", sabia que essas eram as palavras que agradariam aos ouvidos do amigo, então começou por elas – Nem vai ter próxima vez, mas qualquer coisa contarei contigo.

— Hum – Resmungou, colocando um cigarro entre os lábios e tirando de outro bolso um isqueiro metálico, enfeitado por uma pantera de design incomum, em alto relevo – Ah, o Ikakku me pediu pra te avisar que depositou dinheiro em uma conta sua. Parece que não conseguiu te ligar.

— Meu celular quebrou umas semanas atrás – Explicou, lembrando-se do acesso de fúria que tivera ao chegar a casa após aquela conversa com o patrão, descontando sem querer a frustração pessoal no objeto – Vou comprar outro essa semana. – Afirmou, já visualizando o uso que daria ao tal valor depositado – E está tudo bem com o Madarame?

— Fisicamente está ótimo, mas pelo que fiquei sabendo anda se envolvendo com uns "distribuidores" da Gotei desde que se recuperou. – Contava, acendendo o cigarro e dando as primeiras tragadas – Parece que os negócios lá estão deslanchando.

— Esse dinheiro que ele me mandou foi justamente por uns acertos que paguei pra ele quando fui buscá-lo lá nessa boate. – As palavras saíam carregadas de certa apreensão pelo rumo que o amigo tomava.

— Deixa ele, então – Procurou encerrar o assunto, despreocupado como sempre – O cara sabe o que faz. Se está trabalhando pra alguém lá de dentro, deve estar valendo a pena.

O tatuado assentiu, embora não levasse completamente bem o fato de o amigo provavelmente estar envolvido com um dos grupos mais "barra pesada" do lugar.

Karakura tivera surtos de crescimento consideráveis nas últimas décadas e, como em outras cidades da região, essa expansão acompanhara a fortificação de grupos Yakuza conhecidos, além da chegada de membros de sindicatos que antes não atuavam por lá. Ao que parece o shateigashira de uma das ramificações do Dojin-kai era o dono da Gotei, e de lá chefiava o tráfico de armas e entorpecentes na região. Apesar disso, sabia que de nada adiantaria falar com Ikakku sobre isso. Quando colocava algo na cabeça, ele não tirava facilmente.

Olhou para os anéis de fumaça que empesteavam a sala com o odor forte de tabaco. Odiava quando aquele idiota fumava dentro do apartamento, todavia, faria vista grossa dessa vez. No fim das contas, a conversa fora a ajuda da qual precisava.

O jeito como o Grimmy colocava as coisas reduzia tudo a um contexto sexual, entretanto, se sentia tranquilo depois de ouvi-lo. Fora estúpido se fechar e não procura-lo antes.

Agora, não importa o que o patrão dissesse, estava evidente, inclusive pelo testemunho de Rukia, que era tudo uma estranha forma de auto-defesa.

Tinha de continuar insistindo.

Seguindo a linha de ação do amigo de sobrenome quase impronunciável, só teria de investir continuamente e o moreno não poderia mais dar desculpas. Sobretudo, precisava criar o terreno favorável para que confiasse nele, mostrando-lhe a força de seus sentimentos e deixando-o saber que o queria verdadeiramente, a ponto de enfrentar-lhe o gênio complicado e as recusas iniciais.

Já bastante relaxado e totalmente convicto quanto a como proceder dali em diante, engatou um papo agradável com o visitante, aproveitando a cerveja, os petiscos e a presença. No entanto, como ambos teriam trabalho no dia seguinte, despediram-se tão logo a noite caiu, o ruivo tendo de ouvir algumas zombarias acerca de sua situação amorosa antes de ser deixado sozinho novamente.

Bom, as coisas ainda não estavam perfeitas, mas daria seu jeito de fazer tudo funcionar. Depois de tanto incentivo, sabia que conseguiria ver Byakuya ser sincero e estar feliz novamente mais cedo ou mais tarde. A partir dali, era só não tentar mais desistir dos próprios sentimentos e mostrar para o moreno o que Abarai Renji é capaz de fazer.

Notas finais
Hashis: Palitinhos usados para comer Genkan: uma pequena entrada das casas japonesas, onde se deixam o sapatos ao chegar. Co. Ltd: Em geral, as grandes corporações japonesas seguem um modelo chamado por lá de Kabushiki-Kaisha, mas que costuma ser escrito como Co., Ltd., Corporations, etc. Aqui em Auribus, optei por esta primeira opção para a do Kuchiki. Holdings Co., Ltd foi colocado no caso da empresa do Aizen, porque a Kyõka se diferencia um pouco quanto ao tipo. A expressão Holdings se refere a empresas que compram grandes parcelas do capital de outras empresas, existindo somente para isso ou produzindo algo. A kyõka, no caso, além de dominar outras empresas, também produz (materiais de construção, no caso). Yakuza são as famosas máfias japonesas, extremamente organizadas. "Sindicato" é uma forma de se referir a grupos em específico, pois existem vários, com diferentes números de membros, sendo que Shatteigashira é o cargo de "chefe local", dentro de algum desses grupos. Doujin-kai é um grupo que realmente existe, conhecido pelo tráfico de entorpecentes e armas, além de bastante violento. A música do título é uma composição de Mozart. Deixarei o link do primeiro movimento: https://www.youtube.com/watch?v=l45DAuXYSIs Não se acanhem na hora de deixar comentários, críticas, perguntas, sugestões ou o que for. Vou amar ter a opinião de vocês. Espero que tenham gostado da chegada do Grimmjow