Auribus teneo lupum
7 Horse Racing
Notas iniciais
— Hoje eu mesmo virei buscá-la ao fim de sua aula. Aguarde na entrada.
A voz grave de Byakuya soou cansada aos ouvidos de Rukia, que assentiu antes de despedir-se em uma mesura delicada. Deu os primeiros passos em direção ao portão de entrada da escola, virando-se para soltar um último aceno ao observar a porta automática do Rolls-Royce Ghost Series II fechando-se.
Ao que parece, Renji ainda não fizera nenhum progresso com o homem – Pensava enquanto avançava pelo caminho, atravessando as calçadas, ladeadas por bordos japoneses de grandes folhas avermelhadas pelo outono, que levavam até o prédio principal – Há cerca de quatro dias, tivera com ele uma conversa que, julgara, o auxiliaria a colocar nos trilhos o seu relacionamento com o Kuchiki, entretanto, o comportamento do irmão seguia tão melancólico quanto antes, indicando a ausência de mudanças.
Bom, talvez não pudesse esperar nada tão rapidamente. Certamente não seria fácil para o ruivo resolver tudo, por mais que quisesse.
Já concluía que teria de confiar nas habilidades do tatuado e aguardar por algo – Ele já havia dado um enorme primeiro passo começando tudo aquilo, afinal – quando teve sua linha de raciocínio interrompida pelo burburinho vindo de um canto do pátio.
Alguns estudantes, fazendo comentários empolgados com suas vozes estridentes, aglomeravam-se em um círculo que certamente logo chamaria a atenção de algum inspetor.
Já tendo em mente qual seria a atração do momento, a menina esgueirou-se pelas pessoas, enfiando-se nos espaços entre os corpos até conseguir visualizar, como astro principal do tumulto, o rapaz de cabelos alaranjados que enfrentava, sozinho, um grupo de jovens trajando uniformes de outra instituição.
Ainda que estivessem em 5 contra 1, o garoto não parecia encontrar dificuldades, distribuindo golpes com a habilidade de quem está acostumado à brigas de rua. Num show à parte, o corpo veloz atravessava os espaços num piscar de olhos, aguentando os poucos ataques que porventura o atingissem para revidá-los em rebotes bem mais potentes.
— Ichigo! – Chamou a pequena, alcançando sem dificuldades o centro do movimento, de modo a falar-lhe diretamente. – Você se esqueceu de quem é a primeira aula?
— Yo, Rukia – Falava despreocupado, desviando de mais um soco. Deu um passo para trás, agarrando com uma das mãos o punho do agressor e posicionando o pé de modo a derruba-lo – Eu não tive como evitar – Explicava – Eles já estavam me esperando quando eu cheguei aqui.
— Baka! – Bradou a garota, atravessando o tumulto como se os adversários nem existissem e segurando o amigo por uma das orelhas, arrastando-o dali enquanto fazia o seu sermão – Você sabe que a diretora não vai dar trégua pra nenhum de nós dois depois daquele incidente, então trate de não brigar aqui! Além disso, a Kuuhaku vai arrancar o seu couro se chegar atrasado pra aula dela de novo.
— Ai. Tá bom, tá bom... – Dizia, tentando se livrar da mão pequena que o obrigava a andar curvado, com o rosto na altura da face de sua algoz – Eu já estava indo – Voltava os olhos para trás, notando os caras com quem brigava levantarem-se e bradarem algum insulto sobre ele estar fugindo com a "namoradinha" ou qualquer coisa assim. Mas que péssimos perdedores!
— Você não tem jeito – Soltava num suspiro, largando a orelha já vermelha ao chegarem em frente ao laboratório da instituição, onde eram ministradas aulas práticas de algumas matérias, sobretudo da área de biomédicas. – Vê se pensa um pouco mais da próxima vez.
— Você às vezes exagera – Exclamou, passando a mão no ponto dolorido. Entretanto, agradeceu mentalmente pela intervenção da amiga ao observar a professora de Química virando o corredor.
— Última chance de entrarem no laboratório antes de mim – Advertia a mulher com um sorriso largo, terminando de vestir o jaleco enquanto andava – Quem se atrasar pra aula hoje vai ter que beber os compostos que derem errado! – Berrou, fazendo com que todos os alunos no perímetro avançassem em direção às portas duplas. Por sorte, o morango e a baixinha conseguiram tomar seus lugares em tempo hábil, assistindo a aula normalmente. Ufa.
Desde que a Kuchiki entrara no Colégio de Karakura, tão logo viera morar com Byakuya, ela e o Kurosaki mantinham uma amizade muito forte.
Sempre brigavam por bobagens, contudo, ainda que às vezes as discussões parecessem sérias quando vistas de fora, se davam extremamente bem. Usando sua mente criminosa, a menina constantemente arrastava o outro para problemas, porém, não media esforços para salvá-lo deles quando preciso. Da mesma forma, Inoue, Sado e Uryuu uniam-se ao dois em um grupo que era extremamente próximo, contando com o apoio uns dos outros, apesar das personalidades todas tão contrastantes.
— Kurosaki-kun – Sussurrava Orihime, tentando chamá-lo sem que a professora notasse. – Segure a proveta... – Pediu, apontando para o objeto sobre a mesa onde o rapaz fazia os experimentos.
O menino virou-se bruscamente para o vidro, na tentativa de evitar o desastre iminente. Aparou-o com um movimento, recolocando-o em um ponto mais seguro da mesa de mármore. Por sorte, o experimento era um procedimento simples para conferir a "pureza" da gasolina, e era apenas isso o que havia no recipiente, mas teria sido um problema acabar coberto de gasolina pelo resto da manhã.
— Valeu, Inoue – Agradeceu baixinho, recebendo o sorriso gentil da menina como resposta para então voltar aos trabalhos com redobrado cuidado.
O que era aquilo, azar acumulado? – Perguntava-se o morango, as sobrancelhas franzidas enquanto manipulava os compostos – Geralmente era mais atento e, apesar da fama de delinquente, sempre tentara ser um aluno aplicado. Entretanto, já tivera de ser salvo por duas amigas em um dia só! Algo definitivamente não ia bem consigo.
Nos últimos dias, vinha se sentindo estranho quando estava no colégio, tomado por uma inquietação irritante, sobretudo durante algumas aulas em específico. Queria acreditar que não fosse nada demais, então dizia a si mesmo que era só ignorar qualquer sensação incomum, mas em certos dias acabava tão confuso que chegava a ser estressante. A propósito, só de pensar em qual seria o seu próximo horário, o estômago já revirava um pouco pela ansiedade. Ah, sim... A causa daquela distração toda era nada mais do que um único professor.
Apesar da mente trabalhando em uma sobrecarga incomum, o rapaz conseguiu sair ileso do laboratório, rumando para a próxima aula com o semblante um bocado exausto. Não deveria ter ficado até tão tarde vendo séries na noite anterior, mas não pôde evitar. A história chegara a um arco tão bom que o prendera em frente ao computador até alta madrugada, quando o bom-senso finalmente o obrigou a deitar-se. Enfim, pelo menos o exaurimento talvez lhe conferisse alguma calma.
— Ichigo! – Berrara Keigo tão logo o avistou abrindo a porta da sala de aula – Que história é essa de que você se meteu numa briga hoje e a Kuchiki-san te tirou de lá e te levou pela mão? Isso não é justo! – Disparava, distorcendo os fatos – Além da Inoue-san, você ainda quer ela? Já não basta o Mizuiro encantar as meninas, você também tem que querer todas pra você? – A voz saia agoniada, em um protesto desesperado demais para a situação – Por que, Ichigooo?
— Mas eu só saio com mulheres mais velhas... A maioria você nem conhece. – Interrompeu-o Mizuiro, com seu semblante gentil de sempre.
— Não interessa! – Bradou o amigo, prosseguindo com suas reclamações sobre como era deixado de lado por culpa dos dois.
O Kurosaki apenas o ignorou, sentando-se com a carranca habitual e cumprimentando Sado, cuja carteira ficava atrás da sua, com uma batida de mãos. Não tinha nada com nenhuma das duas meninas, então não devia satisfações a ninguém sobre coisas assim.
Pendurou a mochila no encosto da cadeira, largando alguns cadernos na mesa e dobrando os braços sobre eles, apoiando a cabeça no vão criado. Puxava o ar lentamente, focando os pensamentos em trivialidades até que a mente esfriasse. Aos poucos, foi sentindo os resultados, visualizando cenas cotidianas ao passo que a tensão se dissipava. Antes que pudesse notar, os olhos pesavam tanto que tirar um cochilo naquela posição parecia muito confortável, e foi o que fez. Deixou-se mergulhar num estado de torpor, entre o sono e a lucidez, até que um baque alto o fizesse levantar em um sobressalto, cerca de quinze minutos depois.
— Bom dia, princesa! – A voz forte do professor de matemática chegava estridente aos seus ouvidos, acompanhando o som da tapa que o homem dera na madeira, bem perto do rosto do aluno. – Dormiu bem, Kurosaki? Perguntava com um sorriso rasgado, divertindo-se com a reação assustada do morango.
— Nossa, Grimmjow-sensei... – Reclamava, coçando os olhos – Não sei pra quê isso. – Comentou, disfarçando a irritação enquanto consertava a postura. O cara nem estava dando aula ainda, então pra que já entrar na sala o acordando daquele jeito estúpido?
— Trate de manter esses olhos abertos, se não eu vou aí abrir pra você – Ameaçou, mantendo o sorriso que mostrava todos os dentes possíveis e alguns dos impossíveis. Ichigo era mesmo um dos alunos mais divertidos ali, sempre com aquele jeito bonitinho a ponto de dar vontade de bater ou boliná-lo.
Obviamente, não faria nada assim de verdade – Pensava o professor, caminhando a longas passadas pela sala ampla e bem iluminada – era sério com a sua profissão e jamais colocaria as mãos em um aluno, tanto que justamente por isso nunca saía com menores, mesmo que não estudassem na escola onde trabalhava. Só achava o Kurosaki engraçadinho, então pegava no pé do coitado o quando podia. Até porque, nos últimos tempos, sentia-se cada vez mais observado pelo garoto, o que o deixava curioso quanto às possíveis motivações dessa atenção, e até onde aquilo continuaria.
Começou a colocar o conteúdo no quadro, de modo a explica-lo conforme escrevia. Certamente era do tipo impaciente, mas quando o assunto eram números, os conceitos lhe saíam tão naturalmente dos lábios que qualquer imbecil entenderia. Ou, pelo menos, era o que ele achava. Sem falar que suas turmas rendiam muito bem. Era exigente e impunha respeito quando em sala, além de acabar sempre fazendo piadas e tratando tudo com seu humor ácido. Os alunos se divertiam, ele gostava, e todo mundo saía ganhando. Por incrível que parecesse, não poderia estar em uma profissão mais agradável.
Tirando, talvez, degustador de cervejas, mas isso era bem fora da realidade.
Exposição terminada, colocou no quadro uma equação referente à matéria dada, deixando o espaço para a resposta e observando os rostos cheios de expectativas dos alunos antes de se pronunciar:
— Quem sabe essa? – Arguiu, aguardando alguma manifestação.
— Sensei, eu respondo – A voz melosa de Sayuri, uma das melhores alunas da turma, feriu os ouvidos do dono dos cabelos azuis, demorando-se excessivamente no vocativo.
— E está esperando o quê aí sentada? – Questionou, incentivando-a com um gesto de mão a aproximar-se.
Num movimento suave, a garota levantou-se, atraindo os olhares de alguns rapazes para o corpo esbelto, definido demais para a pouca idade. Os cabelos negros caíam, lisos, até a altura da cintura, emoldurando as feições delicadas com uma franja bem aparada, os olhos escuros fincados insistentemente sobre o professor.
Confiante, levou uma das mãos à de Grimmjow, tomando-lhe o pincel em um roçar de dedos, sem esperar que o homem lhe estendesse o objeto. Desenhou os números cuidadosamente, dando um sorriso pequeno ao terminar, aguardando a confirmação.
— Está correto, sensei? – Perguntou num miado.
Absolutamente tudo naquela garota gritava problema— constatava Grimmy, revirando os olhos diante daquele comportamento, aos seus olhos, bastante estúpido.
— Isso vou querer que alguém confirme. Senta lá. – Soltou, indicando a carteira da menina – Quem vem aqui me dizer se a resposta dela está certa?
A sala inteira permaneceu em silêncio, observando a solução escrita na lousa ao passo que a garota voltava ao assento, não sem antes passar perto demais do homem de olhos azuis, jogando os cabelos para trás ao caminhar.
Os orbes violeta de Rukia, acompanhavam, incrédulos, a cena toda. Nunca engolira bem a presença irritante daquela garota, e já a vira mexer com outras pessoas daquela forma – Ichigo, mais especificamente – no entanto, agir assim com um professor era ousado demais! Tudo bem que tecnicamente ela não havia feito absolutamente nada e, com toda certeza, os pequenos gestos sequer estavam sendo notados pelas outras pessoas, entretanto, a Kuchiki era perspicaz demais para não reparar naquilo.
— Eu acabei de explicar isso, até parece que dei aula pras paredes! – Reclamou Grimmjow diante do silêncio da turma, apoiando o corpo na mesa, de braços cruzados.
Revirou os olhos diante da falta de iniciativa, resolvendo ser arbitrário e apontar alguém ele mesmo. Tinha um alvo em mente, a propósito:
— Já que ninguém se manifestou, vai sobrar pro Kurosaki – Começou, um sorriso debochado levantando-lhe os cantos dos lábios – Você parece ter virado a noite estudando, então tenho certeza que vai poder explicar essa resposta pra turma – Justificou-se, recebendo um muxoxo por parte do rapaz, as sobrancelhas ainda mais franzidas que o habitual enquanto levantava da cadeira e começava a fala à contragosto.
Não era a toa que as aulas daquele cara o deixavam tão incomodado! – pensava o morango, em contraste com o teor numérico das palavras que saiam de seus lábios – Grimmjow era o professor mais esquisito da face da terra! Vivia brincando com coisas sérias e fazia questão de provoca-lo sempre que conseguia. Ainda que não fosse o único alvo das piadinhas, acabava se doendo bem mais do que os colegas, sabe-se lá por que.
Ok, já desconfiava do motivo, só que ainda não estava pronto para pensar nesse tipo de coisa sem colapsar ou se jogar da janela mais próxima.
A verdade é que se sentia constantemente curioso quanto à natureza daquele homem, perguntando-se como ele agia fora da escola; quais os gostos; com que tipo de gente andava... Todos os típicos detalhezinhos que qualquer garoto de 17 anos vai querer saber sobre o Crush.
O problema é que além de mais velho, Grimmjow era homem, e um tremendo babaca. Ichigo não era nem um pouco resolvido amorosamente, nunca se sentira interessado por outro cara antes, nem queria pensar que fosse começar naquele momento. E justo pelo professor de matemática?! Ah, de jeito nenhum.
Sentia-se bem mais tranquilo negando essas ideias estranhas para si mesmo e apostando todas as suas fichas na possibilidade de a sua inquietação advir simplesmente do fato de o cara ser um chato.
— Boa, garoto. – Incentivou Grimmy tão logo o rapaz terminou sua resposta. – Você e a Sayuri já têm um ponto na próxima prova – Terminou, escutando algumas pessoas dizerem que também teriam respondido se o homem houvesse avisado que valeria um ponto. Tsc... Esses moleques querem tudo fácil.
Descontraído, deu sequência à aula, reiterando as explicações sobre as questões e tirando quaisquer dúvidas que houvessem restado.
Despediu-se da turma ao final do horário, avisando para que se preparassem pros testes da semana seguinte. Gostava de aplicar questionários quando possível de modo a complementar a nota e avaliar o desempenho da turma, mas sempre avisava das datas com pelo menos uma semana de antecedência.
Quando já descia o segundo lance de escadas rumo ao primeiro andar, onde ministraria a aula seguinte, foi alcançado por Sayuri, que com passos macios chegava rápida ao seu encalço, chamando-lhe pelo nome.
— Grimmjow-sensei – Exclamou, buscando iniciar uma conversa a sós com o professor, aproveitando-se do local vazio – Você estava com um humor ótimo hoje, né? Eu adorei a explicação! – Contava, tentando aproximar-se um pouco mais.
— Você saiu da sua sala só pra vir me dizer isso? – Cortou em tom rude, continuando o caminho – Melhor voltar pra lá antes que o teu próximo professor chegue – Avisou, seguindo em frente sem dar-lhe tempo de continuar.
Aquele comportamento por parte da menina vinha se repetindo há algum tempo, irritando cada vez mais o dono dos cabelos azuis. Ela o provocava o quanto podia, sempre procurando desculpas para interceptá-lo em algum corredor vazio ou puxar mais conversa do que seria apropriado. Se fosse simplesmente mais uma daquelas garotinhas inocentes que cismam em se apaixonar por um professor, não seria motivo para preocupação, entretanto, aquela aluna em específico era um tipo extremamente problemático. Filha de uma família rica, era inteligente e mimada, acostumada a ter nas mãos tudo o que desejasse. Por algum estranho motivo, se interessara por Grimmjow, e aquilo certamente poderia causar tumultos lá na frente, ele sentia.
De toda forma, não havia muito que fazer além de ser tão rude quanto as situações lhe permitissem, tentando deixar claro que não planejava qualquer envolvimento.
Francamente, que merda estava rolando com esses adolescentes? Chegar àquela altura do campeonato pra ser assediado por uma menina de 16 anos era fim de carreira – pensava, continuando a caminhada com o estresse crescendo a cada vislumbre dos problemas que poderia ter. Definitivamente, passaria o resto do dia de mau-humor.
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— Você viu aquilo na aula do Grimmjow-san? – Perguntava Rukia, observando enquanto Ichigo sentava-se na grama, ao lado dela, com duas garrafas de refrigerante – Eu ainda não acredito que a Sayuri resolveu partir pra cima dele.
— Quê? – Perguntava o garoto com sua melhor expressão de quem não fazia a mínima ideia do assunto da conversa, estendendo uma das garrafas para a morena antes de abrir a própria.
— Ai, Ichigo... – Exclamava, como se a situação toda fosse tão óbvia para qualquer um quanto era para si – Ela estava dando em cima do Grimmjow-sensei hoje durante a aula, e ainda foi atrás dele depois, mas acho que ele cortou. Não consegui escutar direito do lugar onde eu estava espiando.
— Você devia parar com essa mania de espiar os outros. Parece um fantasma se escondendo pelos corredores – Dizia num suspiro, incomodando-se ao imaginar a cena entre o professor e a aluna. – Bom, tomara que ela não encrenque o cara.
Rukia era uma garota firme, com um senso de justiça apurado e sempre preocupada em ajudar quem estivesse ao seu alcance, mas alguns pontos da personalidade dela eram estranhos de um jeito bastante cômico. Além do gosto duvidoso para arte e da paixão por coisinhas fofas, ela estava sempre atenta demais a tudo à sua volta, captando no ar situações que os demais não notariam e metendo o nariz onde achasse que deveria.
Esses comportamentos muitas vezes acabavam por ajudar as pessoas de alguma forma, seja por descobrir que uma amiga estava sendo traída, socorrer algum colega que percebesse estar sofrendo bullying ou qualquer coisa assim, porém, também lhes rendiam momentos epicamente constrangedores ou idas à diretoria. Bem, era divertido, com toda certeza.
A Kuchiki intervira quando essa mesma Sayuri, ofendida depois de ser rejeitada por Ichigo no começo daquele ano, ameaçara armar um escândalo ao alegar ter sido agredida por ele, coisa que o Kurosaki nunca fizera. Ele jamais saberia o que a baixinha dissera para conter a menina, mas funcionou bem, pois além de retroceder, a encrenqueira não dirigira mais a palavra à ele ou à Rukia.
— Eu vou ficar de olho nela – Anunciava a pequena com seu jeito decidido, deixando claro que o amigo deveria apoia-la quando precisasse – A gente não pode deixar que aquela garota faça o que quiser nesse Colégio!
— Hm... – Concordou, desanimado, ouvindo sem muita atenção as teorias conspiratórias da baixinha e os seus planos de ação sobre o caso até que os outros amigos chegassem, sentando-se junto a eles em uma rodinha, e introduzissem novos assuntos na conversa.
Não é que lhe faltasse interesse no assunto. O problema era que se pegara interessado demais, incomodado não só com os problemas que o professor poderia ter, mas com o simples fato de estar sendo assediado pela aluna. Aquilo parecia ciúme de sua parte! E nossa, poderia dar um braço para não estar sentindo essas coisas estranhas ou mergulhando naquela confusão toda.
Nunca se empolgara muito com as poucas namoradas que tivera, mas era assustador demais dar de cara com a possibilidade de estar gostando de outro homem. E logo aquele?! Não poderia ter descoberto aquela possível homoafetividade se estivesse apaixonando, sei lá, pelo Chad?
O morango torceu o rosto em uma careta diante desse pensamento. Melhor parar com aquelas reflexões, porque quanto mais pensava, mais certeza tinha de estar gostando do sensei, e não queria isso pra sua vida. Definitivamente não.
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Tamborilando os dedos de uma das mãos pela mesa de madeira, Renji tentava controlar a ansiedade crescente, observando os papéis que segurava enquanto o tique-taque do relógio do escritório soava ritmado. Às vezes odiava aquele barulhinho, mas Matsumoto mesma escolhera o aparelho de metal e vidro, ganhando do ruivo, no Jan-ken-po, o direito de mantê-lo pendurado na parede indefinidamente.
Entretanto, a ansiedade tinha motivo, e um muito bom. Estava prestes a enfrentar o chefe, sendo que usaria os papéis em suas mãos como um subterfúgio para tanto.
Embora o Abarai e Ragiku compartilhassem as funções de secretários e assessores pessoais do Kuchiki, cada um tinha suas atribuições específicas também. Formada em ciências contábeis, com pós-graduação em Finanças, a loira assessorava Byakuya nas questões relativas ao mercado e ao patrimônio da multinacional, enquanto o tatuado, formado em Engenharia Civil, com especialização em Gerenciamento de Empreendimentos na Construção Civil, atuava como auxiliar nos projetos, revisor, representante do patrão em reuniões, etc.
A questão é que Byakuya era absolutamente impecável em todas as coisas que fazia. Acertava cada detalhe milimetricamente, colocando tudo de si nos trabalhos aos quais decidisse dedicar-se. Todavia, os mais recentes estudos de projeto os quais dera a Renji para que revisasse continham erros que saiam muito de seu padrão.
Poderia ser presunção, mas o funcionário atribuíra aquela desatenção à instabilidade psicológica em que o patrão se encontrava, tudo graças ao caso que tiveram. O que mais poderia tê-lo abalado assim, se até a própria Rukia viera lhe contar aquelas coisas sobre o abatimento do empresário?
Além disso, tinha tomado suas decisões, e não pretendia ficar chorando num cantinho ou passar mais tempo de cara virada para o homem, se ressentido pelos últimos acontecimentos. Tinha diante dos olhos uma ótima desculpa para trazer à tona os assuntos que queria discutir, e faria isso imediatamente.
Resoluto, levantou-se da cadeira, enfiando as folhas em uma pasta transparente antes de começar a andar. Parou em frente a um armário com tampo de mármore escuro, embutido mais ao fundo do cômodo, sobre o qual ficavam uma cafeteira, o filtro e alguns potes com biscoitos. De dentro das portas brancas, retirou uma bandeja metálica, um pires e uma xícara de porcelana, a qual serviu com café da maneira que agradaria ao chefe.
Finalmente, seguiu em direção à sala de Byakuya carregando tudo, batendo de leve e entrando ao escutar a voz grave dando-lhe permissão para prosseguir.
— Trouxe café, Kuchiki-san – Exclamou enquanto passava pela porta e a fechava atrás de si, caminhando em direção à escrivaninha do homem.
— Obrigado... – Soltou em momentânea surpresa ao observar o subordinado encarar-lhe com um ar tão relaxado.
Após semanas sem olha-lo direito nos olhos, o Abarai finalmente notava como ele parecia cansado, abatido... Expressava no olhar uma angústia que só se tornava evidente quando se sentia muito mal com algum acontecimento ou acuado demais pelas circunstâncias, e Renji era uma das poucas pessoas capazes de discernir aquelas nuances no homem. Foi de cortar o coração apaixonado do rapaz, todavia, só serviu para confirmar suas hipóteses.
— Eu terminei a revisão que o senhor pediu – Avisou, observando-o colocar de lado os papéis nos quais trabalhava e incentivar-lhe com um gesto a tomar o lugar à sua frente. – Deixei alguns pontos marcados em azul – Adicionou, estendendo-lhe a pasta enquanto sentava-se.
Desconfiado, o moreno passou a ler os apontamentos, parecendo desconcertado ao observar as correções. Como havia deixado erros como aqueles passarem? – Perguntava-se, sentindo um nervosismo assustador ao dar-se conta das falhas que, para ele, eram injustificáveis – Onde estava com a cabeça quando passou adiante um estudo como aquele?
Os olhos passearam rapidamente por cada correção, a mente em agonia diante das letras azuis até que a voz do ruivo o afastou de suas reflexões.
— Kuchiki-san... – Começou, encarando-lhe o cenho franzido – Sei que não é comum o senhor cometer erros, mas acontece com todo mundo. Não se martirize por isso.
Os olhos azul-acinzentados o observaram longamente, inexpressivos. Será que havia alguma razão para que o Abarai voltasse a agir normalmente naquele momento, evidenciando-lhe uma falha no trabalho? A intenção dele por acaso era espezinhá-lo ou sua fala possuía mesmo a sincera intenção de ser um incentivo?
— Eu não posso cometer falhas de qualquer natureza – Comentou finalmente, após mais alguns segundos de pesada mudez – Refarei todo o estudo e lhe entregarei novamente mais tarde.
— O senhor não devia exigir tanto de si mesmo – Aconselhou, levantando-se da cadeira e dando a volta na mesa, até abaixar-se ao lado do patrão, os rostos ficando à mesma altura – Ninguém é perfeito, sabia? – Questionou, repousando as mãos no descanso lateral da poltrona.
— O que isso... – Tentou formular a pergunta, mas interrompeu-se ao sentir uma das mãos do maior alcançando-lhe o rosto em um carinho delicado.
Os lábios do empresário entreabriram-se em espanto diante da cena, o cérebro tentando processar as informações que lhe chegavam através dos sentidos. Qual o significado daquilo?
— Eu creio que sei o motivo de o senhor estar cometendo pequenos erros nessa última semana – Explicou, mantendo o movimento da mão – Acho que é porque não foi sincero consigo mesmo nem comigo.
— Renji... – Iniciou, pausadamente – Já lhe disse para esquecer aquilo. Eu não posso levar adiante esse tipo de situação e dessa forma... – Tentou manter o posicionamento de antes, mas foi impedido pelo rapaz.
— Eu não aceito! – Foi categórico, assustando um pouco o outro com a repentina impetuosidade – Antes o senhor me pegou desprevenido, mas agora eu sei que não sou só eu que estou sofrendo.
O moreno engoliu em seco, como se toda a água de seu organismo houvesse desaparecido repentinamente, deixando-lhe a garganta como o ponto mais ressequido. Pensou em protestar, entretanto, o funcionário foi mais rápido ao continuar seu discurso.
— O senhor não está normal, e por mais que insista que eu não posso falar por você, eu te conheço o suficiente pra saber quando algo não vai bem. Eu estou sempre ao seu lado, mesmo que não note. Por isso eu sei que a causa dos seus erros no trabalho sou eu, e sei que o senhor mentiu quando disse que aquilo que tivemos não foi nada.
As palavras pesavam sobre os ombros do mais velho, tão reais que assustavam. Passara o último mês com aquele assunto palpitando em sua mente, refletindo sobre o posicionamento que tomara e as sensações negativas que aquilo trouxera. Claro que se dera conta de que havia mentido para o outro e para si mesmo numa automática resposta defensiva. Já sabia que errara ao fugir da relação com o Abarai, todavia, nunca pensara que o tatuado perceberia, e muito menos que ainda assim continuaria insistindo em consertar as coisas entre os dois.
— Por que é tão obstinado com relação a mim? – Perguntou finalmente, atordoado demais para medir corretamente os termos – Depois das coisas que lhe disse antes, como consegue insistir?
Contrariando qualquer expectativa, o ruivo deu o seu melhor sorriso, direcionando-lhe um olhar sereno enquanto aproximava o corpo. Como o patrão ficava lindo desconcertado daquele jeito! – Pensava, levantando o tronco de modo a envolvê-lo em um abraço – Devia tê-lo enfrentado assim bem antes. De preferência naquele dia da primeira conversa – Constatava, apertando-o contra si.
Inicialmente, o empresário ainda tentou manter a pose, fugindo do contato ao deixar as mãos espalmadas no peitoral alheio. Não obstante, o tatuado prosseguiu, impedindo-o de recuar. Era com aqueles gestos que pretendia fazê-lo captar a situação, e após alguns segundos de silêncio, as coisas começaram a fluir.
— Eu não o entendo – Sussurrou o menor, finalmente deixando-se envolver pelos braços fortes e movendo as próprias mãos de onde estavam.
— Não tem que entender – Pronunciou-se por fim, um das mãos percorrendo suavemente os cabelos negros – Só não minta mais pra si mesmo – Pediu, mais como um conselho – Nem pra mim, se possível – Adicionou numa risada boba.
— Não sei ao certo como proceder – Disse, dando-se totalmente por vencido e envolvendo o corpo bronzeado com os braços longos – Você faz com que eu me perca de mim mesmo – Afirmou, tentando traduzir em palavras seus sentimentos mais conflitantes.
Os olhos castanhos mantiveram-se ternamente sobre o outro por um tempo, analisando a situação em uma reflexão silenciosa. Após alguns minutos repletos de significado, Renji mudou de posição, girando a poltrona de Byakuya até conseguir encará-lo sem empecilhos. Segurou-lhe uma das mãos, aproximando o rosto devagar, sentindo a inebriante fragrância de Sakuras que sempre emanava do homem. Ah, como estava sentindo falta daquele cheiro!
— Por que a gente não recomeça? – Sugeria, os lábios roçando suavemente nos alheios, mantendo os dedos entrelaçados.
— O que quer dizer, Renji? – Perguntou, ainda deixando escapar o tom de confusão, os olhos percorrendo qualquer lugar do cômodo, na tentativa de evitar o constrangimento de encarar os orbes castanhos.
— Tentar de novo, entende? – Explicava, a voz soando mansa, carinhosa – A gente pode fazer as coisas direito agora, um passo de cada vez, e de preferência sem álcool – interrompeu-se para uma risada descontraída, enfiando-se entre as pernas do moreno, tornando mais confortável alcançar-lhe o rosto – Eu quero fazer as coisas direito com o senhor. Não era pra ser só uma noite.
O Kuchiki permaneceu em silêncio, incerto quanto à como poderiam "Tentar de novo" assim. Diante disso, o subordinado prosseguiu:
— A gente pode sair... Tem muitos lugares onde quero te levar. Quero passar horas só conversando sobre bobagens com o senhor, ou abraçados vendo um filme... Sei lá, tanta coisa! – Os olhos brilhavam mais a cada palavra, refletindo a felicidade que sentia só por imaginar tais situações – Eu sei que começamos pelo avesso, mas só precisamos ser sinceros um com o outro daqui em diante. E eu não quero desistir de você. Por que não dá uma chance de fazermos as coisas devagar? – Afastou-se um pouco, a espera de uma resposta.
Byakuya retesou, acuado diante do romantismo inesperado. Entretanto, não poderia negar que a ideia lhe parecia maravilhosa, apesar de ainda assustadora. Queria conhece-lo mais. Queria entender-lhe melhor, passar seu tempo com ele... Ficara claro nos últimos dias que a presença do ruivo era muito mais essencial em sua vida do que jamais imaginara, e seria tolice jogar tudo fora novamente por covardia mascarado pelo orgulho.
Com toda a certeza, as consequências negativas continuariam aparecendo e, além de lidar com todas as implicações sociais daquela decisão, teria de enfrentar seu próprio medo de amar. Talvez passasse novamente por todo o sofrimento que teve quando se apaixonou por Hisana. Talvez todo aquele furor não desse em nada e acabassem desistindo um do outro mais cedo ou mais tarde. No entanto, envolto pelos braços de Renji sentia que toda preocupação era desnecessária e qualquer "talvez" perdia a força.
Naquela manhã de outono, decidia conter o próprio orgulho, convertendo-o em coagem de arcar com as próprias decisões e admitir seus desejos. Queria se deixar contagiar por toda a vivacidade e paixão que emanavam do jovem à sua frente.
— Parece bom – Respondeu enfim, vendo a expressão do funcionário, que já demonstrava nervosismo devido à espera, desanuviar-se, dando lugar a um sorriso sincero.
Num lampejo de satisfação, o tatuado tomou-lhe os lábios em um beijo longo, aprofundando-se devagar, as sensações deliciosas da boca quente reverberando. Mantiveram-se assim, num contato macio, sem pressa, os corpos unidos no aconchego do abraço ao passo que as línguas tocavam-se cheias de carinho.
Por fim, foram separando-se aos poucos, mantendo o contato visual enquanto o funcionário colocava-se de pé.
— Daqui em diante eu vou ficar do teu lado e não lhe deixo mais fugir, Kuchiki-san – Advertiu, depositando-lhe um beijo na testa.
— Não pretendo retroceder. Já tive minha cota de covardia – Explicou, firme em sua decisão. – Mas agora eu tenho um estudo para refazer. Em breve lhe entregarei.
— Combinado. – Assentiu, selando-lhe os lábios antes de dirigir-se à saída. – Só não exagere, hein? – Soltou de lá, balançando as mãos em um gesto de despedida – Até mais tarde, Byakuya – Arriscou a informalidade, pronunciando-lhe o nome com carinho especial.
— Até, Renji – Despediu-se, torcendo os lábios num raro sorriso.
Acabara de sentir um peso de toneladas sair de cima dos seus ombros, retirado pelo parceiro com surpreendente facilidade.
Ninguém poderia dizer como as coisas caminhariam dali em diante, mas definitivamente estavam bem melhores assim. Só poderia agradecer pelo fato de o tatuado ter insistido no relacionamento e tentar o seu melhor naquele recomeço.
O que tiver de ser, será.
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