Auribus teneo lupum

14 Sonata for Two Pianos k448


Notas iniciais
Pra quem achava que eu tinha morrido, aqui estou eu para provar o contrário. Então, não sei se vocês viram, mas alterei as informações sobre a história no disclaimer e deixei um aviso de que as postagens agora serão mensais (portanto este é o capítulo de setembro). Claro, se conseguir eu posto antes, mas só para que vocês não fiquem mais me aguardando nas quinzenas. Agradeço demais a todos que têm me acompanhado até aqui, comentando, favoritando e recomendando essa história. Vocês estão todos no meu coração. E Akkira, esse capítulo vai para ti por toda a preocupação em saber se estava tudo bem comigo e as MPs super carinhosas. Espero que todos os seus órgão ainda estejam no lugar apesar da minha demora, moço. A composição de hoje é de Mozart. Boa leitura!

Acompanhando um suspiro demorado, a mochila de Ichigo foi displicentemente jogada sobre a cama de seu quarto, o som macio dos livros pesados que a preenchiam escapando enquanto atingiam o colchão do móvel.

Exausto, o garoto atravessou o cômodo em direção ao banheiro, retirando as peças de roupa que até então trazia no corpo e abandonando-as pelo percurso sem dar-se ao trabalho de organizar qualquer coisa, torcendo para que um banho demorado o fizesse relaxar pelo menos um pouco. Quando terminasse, se preocuparia em arrumar a bagunça.

Ichi-nii, quer que eu esquente o jantar para você agora? – A voz de Yuzu alcançou-o, vinda do lado de fora do quarto.

— Não precisa se preocupar, Yuzu. Valeu. – Respondeu de onde estava – Quando sair eu me viro na cozinha.

— Certo. Mas não vá dormir sem comer, hein? – A menina emendou, preocupada com a rotina corrida do rapaz – Você precisa de muita energia para ir bem nos estudos.

— Combinado – O irmão respondeu numa risada. – Pode ir dormir tranquila.

No ponto em que estava, se comer fosse suficiente para “ir bem nos estudos” ele certamente devoraria tudo o que encontrasse na dispensa da casa. – O Kurosaki refletia, já aproveitando os efeitos da água quente atingindo-lhe o corpo.

Sabia bem que a universidade exigiria muito esforço, mas talvez não imaginasse que as provas do primeiro semestre já significariam uma carga tão pesada, a ponto de fazê-lo passar quase um turno inteiro a mais na faculdade apenas estudando com os livros da biblioteca.

Pelo menos estava no curso desejado e se preparando para exercer uma profissão que certamente o realizaria no futuro. Independentemente dos desafios, estava preparado para dar o melhor de si nos próximos anos, ainda que na hora as coisas às vezes parecessem tão cansativas.

Terminado o banho, colocou no corpo uma calça de algodão, folgada e bastante confortável, seguindo pelos cômodos da casa, a luz deixada acesa pela irmã para quando ele passasse.

A comida da menina era sempre deliciosa mesmo jantando tão depois do horário, então teve todo o prazer em dar fim ao que restara na geladeira, lavando as louças e certificando-se de que toda a casa estivesse trancada antes de subir novamente para o quarto. Isshin era mestre em esquecer portas abertas, por isso costumava tomar o cuidado de verificá-las.

Chegara a casa após as 22h00min, então com todo esse processo e mais as coisas que deixara por fazer, já imaginava que poderia esquecer seus planos de dormir antes da meia noite naquele dia.

Resignado, foi organizar o quarto e seus materiais da faculdade, imprimindo arquivos que seriam necessários na manhã seguinte, fazendo algumas pesquisas para um seminário e todas as outras rotinas as quais um universitário não poderia furtar-se. Entretanto, quando já terminara as atividades e pegava na escrivaninha alguns objetos que deveria colocar na mochila, bateu o cotovelo em um porta-retratos, derrubando-o do móvel, mas, por sorte ou reflexo, aparou-o no ar, impedindo que o vidro se chocasse contra o chão.

Antes de voltá-lo ao seu lugar original, estancou por alguns instantes, encarando a fotografia tirada ao final da cerimônia de formatura do ensino médio e sentindo repentinamente a impressão de que o tempo parecia ter passado voando desde então. Mesmo já tendo iniciado junho, ouvia ecoar em sua mente o típico "parece que foi ontem", como se alguém houvesse acelerado o seu relógio durante a reta final do terceiro ano.

Atentou-se aos rostos estampados na foto, deixando que as recordações daquela data lhe invadissem a mente enquanto via, em primeiro plano, Rukia e Orihime aparecerem sorridentes, acompanhadas por Sado e Ishida em suas expressões sérias. Já na segunda linha, logo atrás dos demais, estavam ele e Grimmjow, o jovem encarando a lente com um riso contido enquanto o mais velho deixava à mostra o sorriso completamente aberto que era sua marca registrada.

A despeito da atmosfera descontraída capturada pela câmera, logo antes das despedidas feitas entre alunos e professores, lembrava-se bem do momento que tivera quando ficara a sós com Grimmjow.

Àquela altura, já até podia dizer que faziam parte da mesma "rodinha" e não era mais estranho ao grupo de amigos que incluía Matsumoto, Renji, Hisagi, etc. Aos poucos, e talvez muito disso se devesse à presença de Rukia enquanto denominador comum, o morango se apegara à turma, sentindo também que a recíproca era verdadeira.

Obviamente, estar em contato constante com o sensei só dificultara seus planos de "esquecer" que estava se apaixonando, contudo, independentemente do sentimento romântico que sabia ainda nutrir, fora bastante natural que criassem um laço de amizade ao longo daqueles últimos meses.

Nos dias em que as aulas extras iam até muito tarde, costumavam comer juntos naquela fatídica cafeteria do Petit Gateau de ursinho. Nunca se lembrava de olhar direito o nome do lugar, mas ficava ao lado do colégio, então não teria como errar. Às vezes iam com Rukia e outros colegas, às vezes acabavam só os dois... Não havia mais estranheza ou desconforto nisso, afinal. Desde o princípio estava claro que a linha da amizade não seria cruzada, então era isso o que estavam construindo. Ao menos, era o que tinha certeza até o dia da formatura.

"Agora você não vai mais ser meu aluno, hein?"

A frase dita a ele pelo professor enquanto cruzavam o caminho até a sala de cerimônias lhe veio à mente, a voz inconfundível ecoando-lhe como se o homem estivesse presente de verdade.

De alguma forma, ele parecera estranho naquela hora, como se quisesse dar a entender algo que não poderia dizer. Tanto que tudo o que o ruivo conseguira responder fora um estúpido "É..." – Lembrava-se, só então tendo um lampejo da realidade e dando fim à ação de recolocar o porta-retratos sobre a mesa, voltando aos afazeres enquanto prosseguia com seus pensamentos.

Grimmjow lhe falara sobre a faculdade, fizera algumas piadas e até o elogiara, com aquele jeito estranho de dizer o que queria da maneira mais jocosa imaginável, comentando que ele certamente passaria na primeira tentativa e estaria condenado a ser o nerd virgem da turma caso continuasse se esforçando tanto nos estudos. – Recordava-se, finalmente colocando num canto a mochila arrumada e jogando-se sobre a cama, as cobertas sendo puxadas sobre o corpo tão logo a luz foi apagada.

Quando passavam por um dos últimos corredores, o homem diminuíra o passo, colocando as mãos nos bolsos e chamando-o com um "Hey!" em voz rouca. O ruivo lembrava bem do jeito como o sensei olhara para os lados, visivelmente desconfortável, antes de mover-se para tirar da pasta que carregava uma barra de Kit Kat, estendendo-lhe o chocolate em silêncio, deixando que o gesto falasse por si só e poupando-o de qualquer discurso constrangedor.

O trocadilho relacionando o nome da marca com a expressão japonesa Kitto Katsu, significando algo como "eu certamente conseguirei", tornava o chocolate um amuleto comum para os estudantes na hora de prestar os exames de admissão, então fora o suficiente para fazê-lo entender que o homem acreditava em seu potencial. Aquilo provavelmente era o limite da "gentileza" de Grimmjow – Refletia, lembrando-se do clima embaraçoso que viera a seguir, quando o mais velho colocara a mão em seu ombro por um instante e saíra na frente, voltando a seguir em direção ao salão.

A sensação que tivera com aqueles momentos fora a de que o homem realmente se importava com ele, mesmo que só deixasse isso nas entrelinhas. Tudo bem, aquilo não significava nada além do fato de que tinham mesmo se tornado amigos, mas como explicar isso ao coração que batera acelerado durante todo o resto da cerimônia de formatura?

Além disso, o contato dos dois continuou durante aquele inconstante período que antecedeu a admissão na universidade até o presente. Apesar da rotina desgastante das aulas dificultar quaisquer programas entre amigos, ainda conseguia reunir-se com ambos os grupos aos finais de semana, e isso constantemente incluía Grimmjow.

Não obstante, o meio que usualmente utilizavam era, no fim das contas, o virtual.

Desde que começaram a trocar mensagens, a ação tornara-se hábito, portanto acostumara-se a conversar sobre trivialidades, saber das histórias de professor que o homem sempre tinha, ler as piadas irreverentes e falar da sua rotina, das anedotas da família e do andamento dos estudos... Não deixara de ser assustador saber que cada passo dado em direção a ele o mergulhava mais naquela irritante sensação de estar investindo em um relacionamento que nunca seria o desejado, todavia, continuava sendo ótimo tê-lo como amigo, independentemente de qualquer coisa.

Guardando no subconsciente as lembranças reviradas à exaustão, o ruivo esticou-se melhor na cama, torcendo para que o cansaço o obrigasse a fechar logo os olhos e esquecer um pouco essa história sentimental. Quanto mais pensava nessas coisas, menos certeza tinha quanto ao que seria o certo ou o errado naquela situação. Já não eram mais aluno e professor, ainda assim, uma relação tão complicada não se desenvolveria facilmente, mesmo que houvesse começando a supor que Grimmjow estivesse se apegando mais a ele.

Talvez deixar as coisas rolarem sem pensar demais fosse o melhor, afinal. Só precisava seguir adiante, tanto faz para qual direção.

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— Estes são todos os relatórios que a Kyôuka enviou? – O Kuchiki questionava, uma centelha de preocupação sendo direcionada à funcionária.

— Sim. Eu os recebi pessoalmente do Aizen-sama esta manha, junto com as documentações assinadas que o senhor pediu – Hinamori respondia, lembrando-se do comportamento gentil que o empresário demonstrava quando ela o encontrava nos escritórios das empresas Kyõuka, seja para cumprir ordens do Kuchiki ou quando o via ocasionalmente na hora de receptar alguma remessa de materiais.

Momo fazia parte da equipe de engenheiros que trabalhava diretamente com a construção do novo empreendimento da Kuchiki Co. Ltd. Assim sendo, era responsável por acompanhar o andamento da obra propriamente dita, sobretudo, junto aos engenheiros de materiais, na rigorosa fiscalização da qualidade dos produtos recebidos, garantindo que cada remessa chegasse de modo eficiente às mãos da equipe de construtores.

Como em todos os projetos sob a supervisão de Byakuya, o trabalho todo era dividido em fases específicas, com equipes que contassem com profissionais especializados em cada área necessária, de modo a garantir um andamento perfeito e livre de falhas humanas. Sobretudo por tratar-se de uma construção que utilizava métodos inovadores e tecnologias desenvolvidas pelas próprias indústrias Kuchiki, tudo deveria correr com exatidão, de acordo com os planos que vinham sendo implementados desde o ano anterior.

— Nesse caso, peço que aguarde aqui no prédio até que eu termine de preparar as pastas das quais lhe falei. Preciso que entregue uma delas, junto às cópias dos relatórios de hoje, ao Urahara, e somente a ele, no setor de tecnologia. Quanto a esta outra – Explicava, indicando uma grande pasta marrom sobre a mesa – Quero que analise a documentação, assine e entregue ao seu supervisor quando voltar à obra.

— Entendido – Assentiu, curvando-se brevemente – Ficarei aguardando que me chame – Terminou, sorrindo antes de retirar-se.

Ao observar a porta fechando-se, o moreno passou a trabalhar nas documentações, o cenho franzido diante da preocupação que ainda o rodeava.

Sempre mantinha suas defesas especialmente altas quanto ao Sousuke, desta feita, mesmo a entrega de relatórios aparentemente corriqueiros era motivo para cuidado redobrado e análises reiteradas. Talvez sua desconfiança houvesse começado, inclusive, anos antes, quando o homem lhe oferecera valores consideravelmente altos por determinada porcentagem de suas ações na Kuchiki CO. Ltd.

Ora, o que o tornava efetivamente dono do grupo era o fato de possuir a maior parte das ações, tendo 42%, enquanto Kisuke detinha outros 15% e os demais 43% estavam distribuídos entre outros membros da família Kuchiki e sócios variados, que compunham os Conselhos de Administração, Fiscal, Assembleia Geral, etc.

Por vezes, já encontrava dificuldades para lidar com os “confrontos por liderança” nessa situação, então se negociasse qualquer parcela estaria incorrendo em um risco considerável. Aizen lhe parecia o tipo de pessoa com quem não se brinca, e observar sua contrariedade diante da negativa sobre a venda o pusera em alerta naquela ocasião.

Agora, se via invariavelmente envolvido com o homem, tendo suas empresas como as principais fornecedoras para o projeto Hougyoku, desenvolvido por Urahara nos últimos anos e finalmente em andamento. Infelizmente, a Kyouka Holdings era a única do Japão com capacidade para importar determinados materiais na escala desejada para o caso, o que a fez a única escolha viável.

Inobstante, não tinha nada palpável contra o homem, além de suas impressões subjetivas e o fato notório de que a Kyõka crescera de modo agressivo ao longo dos anos, absorvendo empresas menores e transformando-se em uma das maiores do segmento, dentro e fora do Japão. Tudo o que poderia fazer era seguir com extremo cuidado, sempre se preparando para eventuais transações problemáticas por parte do Sousuke, supondo que agora ele estivesse de olho nas tecnologias que Kisuke utilizara na elaboração do projeto Hougyoku, as quais prometiam revolucionar os conceitos da Construção Civil.

Desde o começo do ano, quando as obras físicas haviam sido iniciadas, a Kuchiki CO. Ltd. seguia como uma das empresas mais valiosas do mercado nipônico, mantendo, ainda, o potencial de subir indefinidamente com a finalização da obra no futuro. Se Aizen já se interessara tanto pelas ações anos antes, agora certamente faria o que pudesse para obter algum domínio sobre a empresa e, consequentemente, as tecnologias já patenteadas sob sua licença.

Reflexões à parte, Byakuya cuidou de seguir com as preparações as quais mencionara antes, organizando nas pastas as respectivas documentações e lacrando devidamente os papéis sigilosos endereçados à Kisuke. Fazia questão de tomar esse tipo de medida de segurança sempre que considerava necessário, portanto, finalizada a separação, tirou do gancho o telefone do escritório, discando o número do setor de tecnologia e pedindo que a ligação fosse imediatamente repassada para o CTO.

“Por que tanta urgência a essa hora, Kuchiki-san? Já é tempo para o nosso chá da tarde?” – A voz de Urahara soou preguiçosa do outro lado da linha, já iniciando com as habituais brincadeiras. Em resposta, Byakuya simplesmente foi direto ao ponto, informando-lhe que as documentações seriam encaminhadas naquele momento através de Hinamori, junto aos relatórios da Kyõka.

“Certo, certo... A propósito, a Yoruichi disse que lhe faria uma visita agora à tarde. Creio que já chegou ao prédio há alguns minutos” – O loiro informou, adicionando com seu tom calmo a observação de que a mulher tinha quaisquer assuntos a tratar com o Kuchiki.

De imediato, o empresário franziu o cenho, perguntando o que exatamente a esposa de Urahara queria na empresa, porém, tudo o que ouviu em resposta foi alguma desculpa do CTO sobre ter que desligar para voltar ao trabalho. Ademais, foi fácil identificar a chegada da senhora Shihouin através da algazarra que se seguiu:

Vinda do lado de fora, a voz de Renji fez-se ouvir ao passo que o ruivo, provavelmente já em frente à porta, pedia que a mulher o aguardasse anuncia-la pelo ramal interno. Entretanto, a resposta da morena foi um rápido “Pra mim não precisa, Renji”, seguido do som da porta do escritório do CEO da Kuchiki CO. Ltd sendo escancarada em plena tarde de segunda feira.

— Yo, Byakuya-bou! Sentiu saudades? – A voz saiu alta, completando o tumulto já criado e fazendo com que o semblante do Kuchiki se fechasse ainda mais.

Em sua elegância extravagante, a mulher chegara vestindo uma blusa de seda bem decotada, estampada com padrões de pele de onça e encimada por um blazer preto que combinava perfeitamente com a saia e os scarpins altíssimos. Nas mãos, trazia sacolas volumosas, que foram rapidamente espalhadas sobre o sofá do aposento.

— Erm, desculpe, Kuchiki-san... Eu não consegui evitar – O Abarai justificava-se mais atrás, fazendo menção de retirar-se em seguida. Contudo, a mulher o segurou pelo braço, pedindo que entrasse também.

— Posso saber o que lhe faz supor ter tanta liberdade? – Byakuya arguiu diante da cena, a voz trovejando pelo cômodo.

— Oh, desculpe, Byakkun, eu não quis lhe causar ciúmes – A mulher afirmou, soltando o braço de Renji.

— Meu tempo é precioso, portanto agradeço se puder dizer a que veio. – O empresário cortou, ignorando a brincadeira para o bem de todos os presentes.

— É assim que você trata a amiga de infância que veio te ver cheia de consideração? ­– Ela perguntava entre risos, sentando-se em uma das pontas do sofá ao passo que começava a revirar as coisas que trouxera – Veja, eu cheguei de viagem agora e trouxe alguns presentes para vocês dois – Adicionou, entregando a cada um as respectivas sacolas. – Tem um para a Rukia aí também, Byakuya-bou.

— Obrigado, Yoruichi-san, não precisava se preocupar – O agradecimento do tatuado veio em seguida, acompanhando um sorriso.

— Agradeço, mas se era só isso já pode se retirar. Ainda tenho trabalho a fazer. – Byakuya proferiu sem misericórdia, deixando num canto da mesa os objetos recém-ganhos.

— Você nunca muda... – Ela soltou, caminhando pelo lugar conforme falava – Depois me conte o que achou dos souvenirs, Ok? – Pediu, estendendo a mão para bagunçar-lhe os cabelos.

O Kuchiki bufou, afastando o rosto em evidente contrariedade.

Aquela mulher simplesmente não sabia medir as situações ou comportar-se adequadamente com ele. Ou melhor, certamente sabia, mas parecia regozijar-se em provoca-lo até os mais absurdos limites.

Não negava o fato de tê-la como uma amiga realmente íntima, com quem pudera contar mesmo nos momentos mais difíceis de sua vida. Todavia, quando a mulher decidia utilizar-se de algum fato para constrangê-lo, lidar com ela se tornava um grande problema.

Poucas semanas atrás, ela o visitara de surpresa em uma ocasião na qual estava com Renji em sua casa, o que já fora suficiente para despertar-lhe as suspeitas. Quando colocado na parede, terminou por confessar seu envolvimento, mas a mulher parecia desejar puni-lo por ter demorado tantos meses para comunicar-lhe algo de tamanha importância. Como se fosse simples compartilhar esse tipo de assunto com alguém!

— E como está a Rukia? – A morena prosseguiu, apoiando-se na escrivaninha – Você não a está prendendo tanto mesmo na faculdade, certo?

— Tem se saído excepcionalmente bem, mas o trato que tenho com ela não lhe diz respeito.

— Tão chato, Byakuya-bou... Não sei como o Renji aguenta – A mulher atalhou, levantando-se e dando meia volta em direção à porta. – Nos vemos depois então – Adicionava enquanto parava à frente do Abarai – Vê se resolve esse mau-humor dele, ruivão – Completou, antes de pegar as sacolas restantes e rumar para fora do cômodo, chamando Matsumoto para que também recebesse seus mimos.

Incapaz de conter-se, Byakuya caminhou até a porta, fechando-a de modo a abafar o ruído das duas moças na sala ao lado. Ostentava uma das expressões mais irritadas que o tatuado já o vira esboçar, sentando-se em uma das poltronas ao passo que massageava as têmporas.

Apesar de já ter presenciado cenas análogas antes, o Abarai não deixava de surpreender-se com esse tipo de coisa. Além disso, supunha que o fato de a mulher referir-se tão abertamente à relação dos dois era o fator que mais irritava o chefe. Afinal, apesar de já estarem juntos há mais de 7 meses, seguiam bastante reservados sobre o relacionamento. Ainda que os amigos mais íntimos soubessem, não era como se demonstrassem afeto diante dos demais ou mesmo falassem sobre o assunto corriqueiramente.

— Tudo bem, Kuchiki-san? – Perguntou, abaixando-se diante dele.

— Só é frustrante perder a compostura diante dela – Confessou, deixando que o outro apoiasse as mãos em seus joelhos, aproximando-se mais.

— Acho que acontece com todo mundo de vez em quando, hn? Nem foi nada tão aparente assim. – Consolou-o – Mas me pergunto o que ela trouxe dessa vez...

— Provavelmente alguma inutilidade tão extravagante quanto ela – Replicou, olhando de soslaio para as sacolas sobre sua mesa – Vamos para a sua casa hoje, certo? – O empresário mudou de assunto, tentando esquecer o estresse de antes.

— Ahan. Eu só preciso dar uma passada no mercado antes de irmos – Informou, pensando na receita que havia prometido tentar preparar.

— Só não coloque fogo na cozinha dessa vez – O mais velho alfinetou, lembrando-o do princípio de incêndio que ocorrera em uma das aventuras do Abarai no ramo da culinária.

— Prometo – O maior levantou as mãos enquanto falava, como que se declarando inocente. – Agora é melhor eu voltar antes que aquelas duas criem alguma revolução lá fora – Comentou, depositando-lhe um beijo nos lábios antes de levantar-se, pegando seu presente sobre a mesa de centro. – Até depois – Completou, sorrindo.

— Até, Renji. Boa sorte.

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Cuidadosamente, Byakuya retirava de sacolas plásticas os conteúdos recém-comprados, alinhando os produtos na bancada da cozinha ou, quando necessário, colocando-os diretamente no armário ou na geladeira absurdamente desorganizada de Renji.

Incomodado, o homem teve de retirar do aparelho algumas coisas, reorganizado as comidas e vasilhas que já se encontravam ali antes de prosseguir estocando as demais, afastando para o fundo das prateleiras os itens maiores e trazendo para frente os menores, de modo que tudo ficasse facilmente acessível.

Era quase irônico lembrar-se da organização cirúrgica que via em todo o apartamento nas primeiras vezes em que o visitara, entretanto, talvez preferisse a situação atual, onde a bagunça do ruivo parecia-lhe bem mais natural. Pode-se dizer que o papel de "organizado e sistemático" daquela relação já estava ocupado, afinal. – Refletia, movendo-se em direção à pia de modo à lavar as verduras e legumes antes de guardá-los.

— Kuchiki-san, não precisa se preocupar em arrumar essas coisas. Eu ainda vou preparar algo especial pra gente hoje, lembra? – O Abarai exclamava ao aproximar-se, uma toalha enrolada na cintura enquanto os cabelos molhados escorriam pelo tronco.

— Estou apenas organizando o que você comprou – O mais velho escusou-se, já abaixado diante da seção da geladeira específica para as verduras – Mas pelos ingredientes, ainda não imagino qual será a receita – Completava, retirando de uma pequena bacia os tomates e pimentões os quais acabara de lavar, dispondo-os adequadamente.

— Então acho que você só não abriu a sacola certa ainda – O tatuado comentava numa risada, abaixando-se por detrás do companheiro de modo a abraça-lo, os lábios percorrendo-lhe a nuca carinhosamente – Agora deixe que eu assuma daqui, hm? – Pedia, puxando-o de leve para que levantasse – Vai ver como já virei um chef! – Brincava, soltando seu sorriso confiante.

— Certo, ficarei no aguardo – O Moreno retrucou, já em pé, afastando um pouco os cabelos vermelhos antes que seu terno acabasse ensopado enquanto virava o rosto para unir os lábios aos do maior em um beijo rápido. – Tomarei um banho enquanto isso. – Avisou quando se separaram.

— Okay. Até já – O tatuado soltou, vendo-o girar nos calcanhares e caminhar em direção ao quarto.

Ele não tinha jeito, mesmo – Renji concluía, observando as compras parcialmente guardadas, ao estilo milimétrico do chefe.

Há algum tempo perdera a preocupação em manter a casa perfeitamente arrumada sempre que Byakuya vinha, entretanto, ao escutar a movimentação na cozinha quando saiu do banho, teve de vir fazer a sua parte antes que o homem organizasse tudo ali sozinho.

Entendia que ele tivesse certa mania de limpeza e não achava isso ruim, mas ainda parecia de alguma forma errado imaginar o Kuchiki arrumando sua cozinha ou coisa do gênero. Já tinham um relacionamento bem sólido, mas continuava estranhando ter o chefe fazendo algo para ele assim – Pensava, só então notando que, na verdade, talvez precisasse aceitar melhor a boa vontade do namorado, sobretudo considerando que quando estavam na casa do Kuchiki o ruivo era mais solícito do que seria humanamente possível.

De toda forma, deixou de lado as reflexões por um tempo, retirando dos armários as panelas que seriam necessárias e puxando de uma das sacolas a massa para lasanha a qual Byakuya provavelmente não vira. Ainda precisou voltar ao quarto para que pudesse vestir algo e prender os cabelos, contudo, pouco depois já estava fervendo o molho que usaria no preparo, terminando de cozinhar o frango na outra boca do fogão.

Tecnicamente não há muito segredo para se fazer uma lasanha, portanto imaginava que seria uma tarefa simples desde que montasse tudo de acordo com as instruções do vídeo o qual encontrara no YouTube. Há algum tempo seguia se aventurando na cozinha, e depois de ter conseguido preparar fajitas, a despeito do princípio de incêndio causado, tinha certeza de que nada poderia ser um desafio.

O que era um pano de prato queimado sem querer, afinal? Nem deu trabalho resolver aquilo!

Desta feita, ao terminar o banho, o Kuchiki já encontrou o dono da casa devidamente largado no sofá da sala, aguardando o tempo que a comida posta no forno levaria para cozinhar.

— O cheiro está bastante agradável – O moreno comentou ao saber qual seria o jantar da noite, tomando o seu lugar no sofá e aconchegando-se junto ao tatuado.

— Ah, mas bom mesmo é o cheiro que eu estou sentindo agora – O tom de Don Juan do Abarai surgiu enquanto passava um dos braços por detrás dos ombros do menor, trazendo-o mais para perto e acariciando de leve os cabelos negros – Já disse que eu adoro seu perfume?

— Creio ter escutado algo como isso... – Soltou, complementando a resposta ao selar-lhe os lábios – Digo o mesmo sobre o seu. – Adicionou.

— Falando nisso, o presente da Yoruichi-san foi um perfume – Comentou, referindo-se ao mimo ganho naquela tarde e aberto instantes antes, o papel de seda rasgado ainda repousando sobre a mesa de centro, junto à embalagem – Ela colocou um bilhete dizendo que escolheu uma fragrância que te agradaria quando eu usasse – Prosseguiu, sorrindo diante da careta feita pelo Kuchiki em virtude da informação.

— Aquela mulher indubitavelmente desconhece o bom-senso. – A resposta veio um tanto quanto indignada, ao passo que o homem observava a embalagem do Borneo 1834 da Serge Lutens.

— No fundo é divertido, vai... E acho que eu fico feliz por você ter contado a ela sobre nós. – Falou, voltando a aproximar o rosto do amante – Mas e você, o que recebeu? – Questionou, curioso.

— Ainda não abri – Replicou, passeando os olhos pela sala em busca do local onde havia deixado as sacolas, junto à pasta do trabalho.

Tão logo visualizou os objetos sobre o aparador, levantou-se, de modo a alcançá-los e retornar ao seu lugar no sofá, colocando na mesa de centro a embalagem que continha um cartão com o nome de Rukia. Da outra sacola, retirou um embrulho em tema de arco-íris, com seu nome anotado no cartão junto aos dizeres: "Acho que dessa vez consegui dar algo que você ainda não tem, Byakuya-bou. Espero que goste da cor!".

Tomado por um péssimo pressentimento, passou os dedos pela embalagem, abrindo delicadamente o embrulho até deparar-se com a madeira preta da caixa que parecia um porta-joias, porém do tamanho de uma caixa de sapatos. Ao soltar a trava metálica, o conteúdo visto o mergulhou num misto entre constrangimento e a irritação sem precedentes que só Yoruichi era capaz de despertar-lhe.

Dentro de sua embalagem plástica encontrava-se um plug anal cor de rosa da marca Pico Bong Tano, cercado por camisinhas com sabores e aspectos duvidosos, de laranja e menta até bacon. Além disso, complementando o conjunto, estavam pequenas embalagens de lubrificante, criando um perfeito Kit de "anal playing" para iniciantes.

Há anos a Shihouin o presenteava com itens inusitados, sempre com a desculpa de dar-lhe algo realmente novo, segundo ela, para tirá-lo da rotina. Aquilo, entretanto, ia muito além do aceitável.

Renji pareceu levar a situação muito melhor, sobretudo diante do riso que lhe brotou incessantemente da garganta pelos minutos seguintes. Todavia, Byakuya só refreou um pouco a irritação depois de ligar para Yoruichi e despejar-lhe suas reclamações, ainda que soubesse bem que qualquer palavra seria dita em vão para ela. Certamente repetiria o feito na primeira oportunidade.

Por sinal, em meio à confusão, quase tiveram uma lasanha queimada para o jantar, não obstante, a noite foi salva com algumas doses extras de molho, resolvendo o problema com a massa seca após tempo demais no forno, além da irrecusável proposta de Renji quanto a fazer uma massagem para que o moreno relaxasse.

Não seria mesmo possível se estressar diante de toda aquela atenção, portanto, no outro dia o Kuchiki decidiria a melhor forma de demostrar sua irritação para a responsável por ela, de preferência, uma forma que envolvesse assassinato ou qualquer coisa pior.

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Inquieta, a jovem Kuchiki balançava as pernas em frente ao balcão, o movimento ritmado acompanhando a velocidade dos olhos astutos, sondando atentamente o ambiente do bar onde se encontrava.

Atravessando a porta giratória de design moderno, numa mescla de vidros em tons de rosa, roxo e azul, diversos estudantes iam e vinham, aproveitando o fim do turno de aulas para tomar alguma coisa ou soltar a voz nas salas de karaokê do estabelecimento muito bem localizado em frente à universidade.

Contudo, o que lhe capturava a atenção não eram as luminárias tipo lava lamp enfeitando as mesas metálicas, a decoração interna repleta de elementos que remetiam à cultura geek, ou mesmo as feições alegres dos desconhecidos na atmosfera descontraída do ambiente. Na verdade, os orbes violeta pairavam com mais precisão sobre a cena que se desenrolava bem ao seu lado, protagonizada por um Ichigo que às vezes ela não sabia se deveria definir como ingênuo ou simplesmente idiota.

— Eu não aguento mais aquele cara. Como você conseguiu conviver no colégio? Eu simplesmente não suporto gente assim. Me irritam só de existir, inclusive! – Sem muitas pausas para que o seu interlocutor participasse, a garota de cabelos longos em um tom de vermelho bordô reclamava, deixando claras suas opiniões.

— A gente sempre brigou um bocado, mas o Ishida é um cara legal – O Kurosaki soltava em resposta, girando o seu copo em uma das mãos, observando o chá movimentar-se contra a porcelana.

— Você também não é lá o cara mais impressionante que eu já vi, Ichigo. Às vezes também me irrita – Riruka prosseguia em sua sinceridade ferina, encarando a sobrancelha arqueada do colega de curso – Bom, pelo menos você é bonito, então vale à pena. – Adicionava, passeando os olhos pelo corpo do garoto em um raio-x completo.

— Hn – Limitou-se a assentir, direcionando o olhar para o outro lado em busca de algum auxílio no semblante de Rukia. Todavia, a menina apenas sorriu, mantendo seu silêncio e deixando-o entregue aos monólogos da Dokugamine.

Em seu estilo um tanto lolita, sempre desfilando roupas com aventais e babados pela faculdade, a garota acabara se aproximando do Kurosaki, sem qualquer intenção de disfarçar seu jeito caprichoso e irritadiço. Em geral, era uma companhia divertida, e desde o primeiro dia manifestara interesse no rapaz, ainda que puramente físico.

Agora não estava o tempo todo por perto para acompanhar o andamento das coisas, mas Rukia já sabia que o amigo cedera a uma das investidas da moça, apesar de não ter intenção de repetir o feito. Até porque, além do óbvio fato de se manter apaixonado por outra pessoa, Ichigo também descobrira que Riruka parecia gostar de um senpai de outro curso.

A conclusão que a Kuchiki tirava, não obstante, era que a moça estava tentando manter o Kurosaki como um parceiro casual e, embora ele tentasse, não conseguira ainda explicar o fato de não querer manter esse tipo de relacionamento. Era bem feito pra ele – Pensava, imaginando que aquela era a punição do universo pelo fato de o garoto ter tentado "esquecer" seu amor ficando com a jovem mesmo sem real interesse.

Certo, talvez ele não estivesse tão errado em fazer uma tentativa concreta de ir adiante, sobretudo lembrando que a ocasião em que ficaram juntos fora após a festa de recepção dos senpais e, consequentemente, o primeiro porre do moranguinho. Ainda assim, como a pessoa que mais torcia para que ele se resolvesse com Grimmjow, Rukia não pudera evitar o incômodo com a situação. A propósito, eram grandes as chances de que seu ex-professor encontrasse Riruka junto ao Kurosaki quando chegasse ao bar – Constatava, tendo em mente o fato de que só haviam parado ali para esperá-lo buscá-los de carro, tendo encontrado a menina por acaso.

Quarta feira, no dia 15 de julho, haviam comemorado o aniversário de Ichigo, entretanto, naquela sexta haveria uma festa interessante nos arredores de Karakura, a qual a morena considerara bem mais apropriada para os 18 anos do rapaz. Com algum esforço e a intervenção de Renji, conseguira que Byakuya lhe desse permissão para ir e aceitar o convite feito por Matsumoto, de passar a noite em sua casa após o evento, além disso, até para evitar qualquer preocupação desnecessária caso o irmão tomasse conhecimento do local da festa, Grimmjow ficara de buscá-los na faculdade e levá-los até lá.

— Hey! Kurosaki, Kuchiki. Estão prontos? – Cerca de 10 minutos depois, a voz inconfundível do homem de cabelos azuis já soava, acompanhando sua aproximação, atravessando as mesas já cheias àquele horário, até parar logo atrás da dupla.

— Hm, estamos sim – Ichigo disse, meio vacilante, enquanto o cumprimentava. – A gente se vê então – Soltou ao voltar-se rapidamente para Riruka, desejando despedir-se o mais breve possível. Entretanto, as coisas não saíram exatamente como o planejado, afinal, a Dokugamine fez questão de chamar-lhe a atenção, reclamando que ele deveria aprender a despedir-se educadamente de uma dama e não cortá-la no meio de uma frase, como fizera em sua afobação.

— Se continuar agindo assim vai ser virgem pra sempre, Ichigo – O mais velho brincou diante da cena, cumprimentando a garota imbuído de certa curiosidade.

— Ah, ele não tinha me dito que era virgem. Que gracinha... – Ela comentou, curvando-se em direção ao homem. – Dokugamine Riruka, prazer.

— Você não cansa dessas merdas, né Grimmjow? – O ruivo os cortou, reclamando de modo tão constrangido quando possível. Não que fosse realmente virgem, mas afirmar isso naquele momento só pioraria as coisas.

— Não canso mesmo – Respondeu, voltando-se para a jovem e apresentando-se em seguida. – Não sei se você já tem experiência, mas zoar o Kurosaki é um ótimo passatempo – Adicionou, sorrindo diante do cenho franzido do garoto.

— Ok, eu vou indo na frente. Vem, Rukia – Apelou para a morena, puxando-a consigo antes que qualquer minuto a mais passado ali o transformasse em um pimentão.

Abrindo ainda mais seu sorriso, Grimmjow despediu-se da garota recém-conhecida, rumando para fora do estabelecimento junto aos demais, indicando-lhes o local onde estacionara o carro.

— Não vai me dizer que era sua namorada, Kurosaki? – O professor perguntou enquanto dava a partida, observando a carranca de Ichigo sentado ao seu lado.

Num conflito interno, o morango hesitou, sem querer ser omisso e soar de maneira falsa ou explicar além do necessário e parecer estar se justificando de qualquer forma. Mantinha o rosto virado para a janela, puxando o ar antes de tentar iniciar sua resposta. Contudo, Rukia antecipou-se em seu intermédio.

— Ela só está interessada no corpo do Ichigo, Grimmjow – A garota soltou numa risada, colocando os fatos da maneira mais descontraída possível.

— Porra, Rukia... – O garoto protestou – A gente não tem nada, só ficamos uma vez – Soltou, tentando impedir qualquer mal-entendido.

— Relaxa, Ichigo – O homem falou descontraidamente, encarando-o ao parar em um sinal – Tem que aproveitar mesmo. Eu nem lembro a cara da maior parte das pessoas que peguei na faculdade.

— O Renji já me contou umas coisas sobre essa época de vocês – A Kuchiki comentou, indo um pouco para frente no banco do carro, de modo a aparecer entre as poltronas dos demais – Mas se tiver mais histórias eu agradeço!

— Vocês vão ouvir bastante, hein? Demora um pouco até chegarmos ao Rukongai – O mais velho comentou, referindo-se ao local onde a festa ocorreria – Presta atenção que quem sabe você aprende umas coisas, viu Ichigo? – Provocou, mostrando os dentes em seu sorriso aberto.

— Tipo como ser o babaca número 1 da faculdade, né Grimmjow? Você devia ser insuportável – Replicou, agradecendo duplamente por ter saído do foco do assunto e pela oportunidade de ouvir algo mais sobre o passado do outro. – Começa contando quando você pintou o cabelo de azul – Atalhou, ouvindo em seguida os protestos dos demais, lembrando-o que não tinha o direito de fazer qualquer brincadeira sobre o cabelo alheio, considerando o próprio.

No mais, a despeito do constrangimento no início da noite, só o caminho até a festa já teria valido o passeio para o garoto, sobretudo tendo em mente a quantidade de informações novas às quais teve acesso naquela conversa. Não obstante, apesar da dor de cabeça insuportável que tivera ao acordar no outro dia e do lapso de memórias com relação ao fim da noite, guardara ótimas lembranças daquela “segunda festa de aniversário” com o grupo de amigos.

Considerando a burocracia japonesa para a aquisição de bebidas, extremamente efetiva ao restringir a venda para menores de 21 anos, era normal que alguém da idade dele só tivesse acesso a álcool em situações tão específicas quanto as festas de recepção dos calouros em universidades ou naquele evento no Rukongai, que mais se assemelhava a uma festa rave. Ainda assim, teve de passar a manhã seguinte aguentando as brincadeiras de Isshin, chamando-o de fracote por ter sido deixado em casa quase apagado por algum amigo, o qual nem lembrava quem fora.

Bom, precisava mesmo começar a ter histórias para contar no futuro, não é?

Notas finais
CTO: Chief Technology Officer Fajitas: Prato Mexicano-texano que consiste em carne grelhada servida em uma tortilla de milho ou farinha Quanto ao plug anal, usei uma marca verdadeira, realmente indicada para iniciantes. Sobre o álcool, no Japão a multa vai para os estabelecimentos que comercializam bebidas para menores, por isso a primeira oportunidade de bebedeira geralmente acontece quando se entra na faculdade, nessas festas de recepção com os senpais do curso. Fora isso, coloquei um ambiente de rave como uma segunda opção para facilitar o consumo antes dos 21. Link da sonata: https://www.youtube.com/watch?v=tq1rZXzjP-I