Auribus teneo lupum
9 Moonlight Sonata
Notas iniciais
Absorto em pensamentos, Renji observava o modo como a luz incidia na pequena chave em sua mão. A superfície lisa refletia os feixes da iluminação artificial do quarto, projetando-os na parede oposta à cama de acordo com os movimentos que os dedos faziam. Vez ou outra trazia o objeto para mais perto do rosto, observando-lhe os detalhes como se pudesse haver qualquer coisa de surpreendente em uma chave comum.
Entretanto, o valor do metal frio na palma de sua mão estava no que representava, naquilo que abria. Afinal, tratava-se da chave que recebera do próprio Kuchiki para destrancar o portão dos fundos da mansão na noite que passara por lá.
Diante de toda a confusão após a rejeição inicial, acabara perdendo a oportunidade de devolvê-la, portanto, agora estava deitado em sua cama, aproveitando o que restava do horário de almoço para analisa-la cuidadosamente ao passo que decidia se a retornaria ou deixaria guardada como uma recordação daqueles momentos.
Bom, certamente essa segunda opção era uma péssima ideia, então melhor seria entrega-la logo. Imagina o perigo se ficasse com a chave da casa do Kuchiki? Acabaria tentado a fazer uma surpresa em alguma noite e isso poderia ser um problema – Pensava, rindo consigo mesmo ao visualizar-se entrando na casa do patrão para espera-lo na cama, em uma cena típica de algum filme proibido para menores de 18 anos.
Nessa primeira semana de relacionamento propriamente dito as coisas ainda não se mostravam tão diferentes do usual, exceto pelo clima de cumplicidade que crescia entre os dois. Contudo, o empresário agora parecia entender o que se passava na mente do tatuado durante os momentos em que os olhos castanhos lhe encaravam ternamente e, inclusive, retribuía alguns pequenos gestos.
Conversavam mais durante os momentos de intervalo e seguiam diminuindo as formalidades, tornando o contato casual algo comum conforme aprofundavam a intimidade que naturalmente já tinham. Para o Abarai, era um bom progresso em tão pouco tempo.
Ainda sonhando acordado, jogou o corpo para fora da cama, consertando a camisa social antes de vestir o terno escuro que largara na cômoda ao chegar a casa. As mãos tatearam pela escrivaninha do quarto, vasculhando-a a procura das pastas e objetos os quais deveria levar de volta ao escritório. Cuidadosamente, guardou a chave em uma das seções da carteira, tentando garantir que não a perderia. Conhecia bem o quão desastrado era capaz de ser.
Desperdiçara uns minutos devaneando ali no quarto após a refeição, então era preciso apressar-se antes que acabasse atrasado para o serviço. Não tinha um horário de almoço extenso o suficiente para se dar ao luxo de ir em casa e ainda descansar, mas estivera em trabalhos externos durante aquela manhã, sendo assim, aproveitara que teria de pegar alguns documentos no apartamento e almoçara por lá mesmo, ganhando algum tempo.
Finalmente, deixava o prédio em direção à estação, concluindo que por mais confortável que fosse andar de trem, talvez um carro lhe caísse bem. Constantemente precisava ir de um lado para o outro graças aos compromissos do emprego e ainda que os carros da empresa estivessem sempre à disposição, talvez se sentisse melhor dirigindo o próprio. Tinha dinheiro suficiente guardado, então por que não?
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— Eu encontrei algo do senhor na minha gaveta quando fui buscar esses papéis hoje, Kuchiki-san. – Contava o Abarai, sentado em um dos sofás da sala do chefe. Os joelhos permaneciam bastante afastados, acompanhando seus modos tipicamente relaxados, o corpo esparramado pelo móvel sem qualquer preocupação em manter uma postura rígida.
— Do que se trata? – Questionou, afastando os olhos acinzentados dos documentos os quais revisava, de modo a fixa-los sobre funcionário.
Em resposta, o tatuado colocou de lado o grosso manual que estivera conferindo até então e sacou a carteira do bolso, acompanhando os movimentos com um suspiro de alívio ao constatar que o que queria ainda estava ali. Nunca se sabe como o azar pode agir, né?
Enquanto levantava-se, pegou a chavezinha, estendendo-a ao moreno tão logo parou ao lado da grande poltrona.
— Estava com ela desde a nossa noite – Explicou – Até pensei em guardar de recordação, mas achei melhor devolver – Continuava em tom brincalhão, notando o patrão desviar o olhar no que parecia um sinal de constrangimento.
Recordação... – Repetia Byakuya mentalmente, feliz por não deixar a vergonha manifestar-se facilmente em forma de rubor, ou suas bochechas estariam no mais forte escarlate. – Havia esquecido completamente do objeto, portanto pegá-lo agora, acompanhado daquele comentário, trazia à mente todas as memórias com relação ao rapaz à sua frente.
Estavam saindo, então supostamente não precisariam demorar a repetir as experiências, todavia, acreditava que seguiriam melhor ganhando confiança aos poucos. Sentia-se mais confortável com a nova realidade. Se soubessem agir com calma, evitariam qualquer retrocesso.
— Fez bem. – Pronunciou-se finalmente, guardando a chave no bolso interno do paletó – Não há motivos para preocupar-se em relembrar nada daquilo – Adicionou, recebendo como reação imediata uma expressão de estranhamento por parte do mais novo, antes de prosseguir – Faremos novas recordações bem melhores com o tempo.
Por uma fração de segundos, o ruivo esperara ouvir algum discurso negativo sobre o começo do relacionamento dos dois, mas foi pego de surpresa por um desfecho tão mais agradável. Desanuviando o semblante, envolveu-o com os braços, abaixando-se sobre ele até apoiar o queixo em seu ombro direito, a voz saindo em um sussurro ao pé do ouvido:
— Ter você comigo sempre deixa tudo perfeito, Kuchiki-san.
Cerrando os olhos, o empresário deixou-se levar momentaneamente pelo maior, sentindo o calor do contato enquanto perguntava-se como o jovem podia ser tão expansivo, dizer tudo com tamanha facilidade. Decerto, seguiria estranhando as demonstrações verbais de afeto por um bom tempo; ainda sentia-se incapaz de qualquer coisa naquele nível. Não obstante, também tinha seus planos para evoluir naquela relação. Realmente queria manter o tatuado consigo, sendo assim, não ficaria inerte, deixando com ele o encargo de fazer tudo dar certo entre os dois.
— Aproveitando o ensejo – Começou, roçando os lábios no rosto alheio, a mão esquerda alcançando com suavidade a cabeça ruiva em uma carícia – gostaria de convidá-lo para algo.
Afastando-se lentamente, o funcionário endireitou um pouco mais a coluna, movendo-se até conseguir vê-lo melhor. Será que se referia a algo do trabalho ou era um convite pessoal? – Questionava-se, empolgado com a segunda possibilidade. O olhar percorreu o semblante do mais velho com expectativa, aguardando que prosseguisse.
— Embora ainda esteja mantendo o castigo de Rukia, decidi abrir uma exceção nesse feriado – Dizia em tom casual – Vou leva-la a um templo pela manhã, mas deixarei que passe a tarde com os amigos.
— É ótimo que o senhor esteja dando esse tempo pra ela pelo menos no Bunka no hi – Observou, ainda sem entender onde entraria naquela história – E ir ao templo com ela também será um programa legal pra vocês dois. Já ouvi falar das atrações desse ano...
— Não, Renji – Esclareceu – Eu quero chamá-lo para vir conosco. O convite é para que nos acompanhe ao templo pela manhã e, caso não tenha outros planos, permaneça comigo em minha casa pelo resto do dia. Aceita?
Aquilo era definitivamente inesperado. Estava sendo convidado não só para passar um tempo com o amante, mas também para participar de um programa familiar? Tudo bem que o Bunka no hi não era passado necessariamente em família nem seria uma atividade que desse alguma conotação romântica à presença do ruivo, mas, em se tratando do Byakuya, aquilo ganhava muito significado. Muito mesmo.
— Claro que aceito – Respondeu empolgado, abaixando o rosto para selar os lábios do companheiro – Mas a Rukia não vai entranhar nada se eu for?
— Não há nada de estranho em ir a um evento cultural num templo com as pessoas mais próximas a mim – Rebateu – Prefiro que Rukia lhe sinta presente desde já para facilitar as coisas no futuro, se necessário. – Concluiu, gerando uma descarga de emoção no subordinado.
Não tivera a intenção de fazer aquilo soar como a promessa de que tinham um futuro juntos, entretanto, era um homem precavido. Se não inserisse a presença do outro aos poucos em seu cotidiano fora do trabalho, tornaria bem fácil que Rukia ou qualquer pessoa descobrisse a relação que agora mantinham – Especulava mentalmente, sem imaginar que a irmã já possuía pleno conhecimento dos fatos – Ainda era estranho encarar a realidade de estar envolvido com outro homem após anos como viúvo, todavia, se considerava inteligente e sensato o suficiente para desviar das armadilhas da autopunição ou do preconceito consigo mesmo. Estava com Renji apesar da consciência de que a sociedade japonesa não recebia com bons olhos algo assim. Portanto, deveria estar pronto para seguir adiante, enfrentar suas inseguranças e descobrir tudo de bom e de ruim que suas escolhas poderiam lhe trazer.
Mostrando seu sorriso de contentamento, o ruivo segurou as mãos do mais velho, levantando-o e guiando-lhe até o grande sofá preto, de três lugares. Ignorava o semblante interrogativo do moreno, dando sequência à ação até que os dois estivessem sentados lado a lado. Foi então que levou os lábios ao pescoço alheio, distribuindo uma série de beijos, acompanhados de carícias comportadas e entrecortados por palavras sussurradas, deixando-o saber o quanto estava feliz com o convite e empolgado pela perspectiva de tê-lo consigo naquele feriado. Passeava a língua na pele macia, causando arrepios ao mordiscar-lhe a orelha, as mãos cobrindo a região do pescoço em toques instigantes.
Mergulhando na sensação ardente do contato entre os corpos, o patrão deslizou os dedos finos pelas costas do outro, puxando-o mais para si antes de capturar-lhe os lábios, sugando-os com paixão até que as línguas se encontrassem em um beijo profundo. A sensação já conhecida da boca quente lhe trazia lascívia, espalhando pelo corpo a vontade insana de sentir mais daquele homem, de explorar todos os centímetros da pele bronzeada, escondida sob a barreira das roupas. Contudo, nada disso seria possível naquele momento.
Exercitando o quase impecável autocontrole, o Kuchiki foi dominando as próprias reações, dissipando a nuvem de erotismo que os circundara em um local tão inapropriado. Segurou-se com menos força ao parceiro, diminuindo a intensidade dos movimentos até que se resumissem à gentileza de um beijo de despedida, transmitindo a ambos um calor afetuoso e significativo.
— Agora você tem trabalho a fazer, Renji – Comentou, cessando o contato e apontando para uma das estantes da parede lateral – Preciso que separe os estudos sobre os materiais do projeto atual e trace um comparativo com os da ultima obra, vindos do fornecedor anterior. – Instruiu, levantando-se do sofá.
— Certo, Kuchiki-san – Respondeu, movendo-se também e fazendo um último afago no rosto do parceiro antes de seguir até a estante, feliz o suficiente para realizar qualquer pedido.
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— Porra, Rukia. Assim eu vou perder o trem – Reclamava Ichigo, tentando livrar o pulso do aperto insistente da colega – Que merda você quer espiando essa menina?
Desde o final da aula, a morena o arrastava pelos corredores do colégio, contendo-lhe os protestos conforme aproximavam-se do alvo que a garota escolhera vigiar. Após algumas voltas, segundo ela, “para despistar”, seguiram até o depósito de materiais, onde além de produtos novos, eram guardados objetos que não estivessem em uso, desde peças para montagens teatrais até móveis sobressalentes.
A área externa do depósito, ocupada principalmente por sobras de materiais de construção, era encimada por telhas metálicas, separada dos fundos do estacionamento interno por um muro baixo em concreto, para o qual a dupla se dirigira.
— Shhhh – A menina pediu silêncio, movendo-se num solavanco e obrigando o maior a abaixar-se ao seu lado.
De onde estavam, os dois mantinham-se fora do campo de visão de qualquer um que passasse no estacionamento, num ponto sombreado o suficiente para garantir que seguissem relativamente ocultos mesmo quando se levantavam.
Àquela hora, pouquíssimos carros ocupavam vagas no espaço amplo, permitindo uma visão privilegiada para o Jeep Renegade preto, e a garota de longos cabelos escuros encostada na parte traseira, suficientemente escondida de quem saísse do prédio principal naquela direção.
O ruivo bufou, contendo a impaciência diante da arbitrariedade da Kuchiki. Quando aquela peste colocava algo na cabeça, ninguém conseguia tirar. – Pensava, posicionando-se melhor até estar mais próximo à ela.
— Teu irmão não vem te buscar agora? – Questionou, na esperança de convencê-la a ir embora.
— Hoje quem vem é o motorista. Ele não vai encontrar problema em me esperar um pouco – Sussurrava, a expressão meio ansiosa – Eu notei quando a Sayuri veio pra cá logo no fim da aula. A gente precisa ver o que ela quer fazer, Ichigo – Continuava, vez ou outra levantando um pouquinho o corpo para garantir que seu alvo permanecia no mesmo lugar.
Encarando o semblante confuso do maior, a jovem de sequência à explicação, explanado as suspeitas em um fio de voz, devido ao medo de ser ouvida.
— Porque você acha que ela veio até o carro do Grimmjow-sensei numa hora dessas, quando todo mundo já foi embora? Ou eles marcaram um encontro, ou ela vai tentar algo. – Dizia, deixando claro que acreditava mais na segunda opção.
— E que merda eu tenho a ver com isso? – Perguntou, já um tanto irritado por considerar a possibilidade de o professor estar saindo com a colega.
— Acho que eu vou acabar precisando de você, então se aquiete e me dê cobertura – Ordenou, como se ambos estivessem em alguma missão de guerra ou num serviço da inteligência.
Resignado, o garoto sentou-se no chão, apoiando as costas na mureta. Não adiantava discutir mesmo, então melhor seria aceitar sem mais delongas sua função. Além disso, a situação o instigava o suficiente para permanecer ali. Queria saber o desenrolar daquilo, afinal. Era um misto de curiosidade e, talvez, uma estúpida sensação de ciúmes. Contudo, preferiu não pensar muito mais que isso no que sentia.
Pelos minutos seguintes, perdurou um silêncio cúmplice entre os dois. Atenta, Rukia erguia-se para uma espiada sempre que o som de passos lhe chegava aos ouvidos, observando o já pequeno volume de carros reduzir-se ainda mais.
Finalmente, o barulho dos saltos do coturno de Grimmjow ecoou, chamando a atenção dos espiões e da garota que o aguardava detrás do veículo. Buscando nos bolsos a chave do carro, atravessava com pressa o espaço até ele, amaldiçoando mentalmente o coordenador de sua área por tê-lo prendido em uma reunião até aquele horário.
Tão logo o homem apertou o botão para destravar o Jeep, a menina saiu de seu posto, revelando-se com um sorriso enigmático.
— Que faz aí? – Perguntou imediatamente, deixando transparecer o desagrado com a surpresa.
— Ah, Grimmjow-sensei – Começou num tom baixo, andando em direção ao homem – Eu acabei perdendo o trem, então vim saber se o senhor não me levaria para casa... Ou pra algum outro lugar – Completou numa proposta óbvia, passeando uma das mãos pelo cabelo e puxando uma mecha em uma postura falsamente inocente.
— Escuta, garota – Perdeu rapidamente a paciência, dando um passo para trás e encostando uma das mãos no capô ao falar – Eu não estou afim de pegar ninguém pra criar, sabe? Melhor você parar com as brincadeiras pro meu lado, ou eu vou me irritar de verdade.
— Você é um homem muito decidido, sensei – Recomeçou, inabalável – Mas eu sei bem o que eu quero, então posso muito bem fazê-lo mudar de opinião.
— Você tem 16 anos. – Lembrou, o humor piorando a cada palavra – E eu sou seu professor. Não quero, nem vou me envolver contigo, então faça o favor de procurar alguém da tua idade – Terminou, quase sem acreditar naquela cena toda.
Bufando, procurou passar direto e entrar no veículo, mas a morena o surpreendeu colocando-se na frente da porta. Com o semblante igualmente irritado, a garota começou a falar em um tom um pouco mais alto do que antes:
— O senhor sabe que não tem motivos pra isso tudo, né sensei?
Entrincheirados mais atrás, a Kuchiki e o Kurosaki assistiam atônitos àqueles acontecimentos, acompanhando, ocultos pelas sombras, mas capazes de escutar a conversa, as falas dos dois adiante. De mente viva e já prevendo as possibilidades, Rukia pediu ao ouvido do amigo:
— Ichigo, me dá seu celular agora. Eu ainda estou sem, e precisamos filmar isso.
— Tá maluca? – Tentou retrucar, mas sentiu a mão da moça enfiando-se sem misericórdia no bolso de sua calça, retirando o aparelho e apontando discretamente a câmera para a dupla adiante, as configurações mais adequadas para a captação de som à distância sendo colocadas rapidamente pela morena.
Enquanto isso, Grimmjow não reagia nada bem aos últimos comentários da aluna.
— Quantas vezes eu vou ter que dizer que não me envolvo com alunos? – Perguntava, ignorando a movimentação por detrás do muro baixo – Chega dessa história. Já passou dos limites com isso. Licença. – Pediu, reunindo todas as forças para não tirar aquela desgraçada do meio aos pontapés.
— Sabe, Grimmjow-san – Começou num tom cínico, visivelmente aborrecida pela recusa – Não é nada bom para o senhor me contrariar – Continuava, fitando os olhos azuis faiscando de raiva – Mesmo se não sair comigo, é bem fácil pra mim acusar o senhor de assédio pra diretoria. É a sua palavra contra a minha. – Ameaçou, estendendo uma das mãos até o peitoral do homem, mexendo na jaqueta branca com as pontas dos dedos. – O senhor ganha mais aproveitando essa chance comigo.
Por uma fração de segundos, o tempo parou pro homem de cabelos azuis. Era inacreditável, inaceitável, ridículo pensar que estava ouvindo esse tipo de coisas de uma menina de 16 anos. Por acaso tinha diante de si alguma vilã de filmes teen? Definitivamente, aquela menina precisava de algum tratamento psiquiátrico! E a consciência de estar totalmente na desvantagem só piorava tudo.
Respirando fundo e puxando de algum canto esquecido do corpo os últimos fiapos de tolerância que pudesse sustentar, dirigiu um olhar firme e gélido para a jovem, afastando-lhe a mão em um gesto brusco, ainda que sem machucá-la.
— Você pode dizer o que quiser – Começou, empurrando-a sem força, somente o suficiente para alcançar o trinco – Posso até ser demitido, ser preso, o que for. Não vou abusar de uma aluna, por mais que ela peça – Terminou, abrindo a porta e entrando no veículo antes que a garota tivesse tempo de protestar novamente.
Cantando pneus, girou o volante para a esquerda, afastando-se dali o mais rápido possível, deixando para trás uma Saiyuri furiosa, que não tardou a sair do local a passos pesados.
Em seu canto, Rukia cuidava de salvar o vídeo, repassando-o para garantir que o áudio estivesse adequado. Apesar de baixo, graças à distância e à posição, era possível distinguir sem problemas as palavras, tornando evidente o que ocorrera ali.
— Passe isso pra um pen drive quando chegar em casa. Não vamos correr o risco de alguém apagar e perdermos o arquivo. – Pedia ao maior, puxando a mochila enquanto os dois se levantavam.
— Você está achando que isso é um filme, por acaso? — Perguntou, ainda meio perplexo com tudo aquilo.
— Não custa prevenir. Talvez o Grimmjow-sensei precise disso pra provar a inocência dele – Dizia, um sorriso triunfante iluminando-lhe o rosto – Sabia que estava certa em seguir aquela menina!
— Hm... – Soltou, colocando o aparelho no bolso e começando a caminhar com um estranho sentimento de preocupação – Agora é melhor você ir pro carro. Teu irmão vai te engolir viva se demorar mais do que isso pra estar em casa.
— Ele até anda mais calmo essa semana – Contou – Acho que as coisas funcionaram.
— Que coisas?
— Nada demais, Ichigo – Desconversou, aumentando o sorriso ao despedir-se – A gente se vê amanhã. Que isso seja o nosso segredo até a hora certa – Adicionou, piscando um olho e deixando-o para trás, as passadas leves seguindo adiante com pressa.
Foi uma situação inesperadamente estranha, mas talvez tivesse mesmo sido um acaso favorável ao professor... Se algo acontecesse, tinham uma prova de que ele não havia sido o culpado. Ainda assim, as circunstâncias eram angustiantes. Teriam de esperar até ter certeza do desfecho
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No sexto andar de um dos inúmeros prédios residenciais do centro de Karakura, o apartamento pequeno, de design moderno, permanecia mergulhado no relativo silêncio da área, perturbado somente pelo barulho de algum veículo mais ruidoso ou pela eventual algazarra de algum grupo de jovens que porventura passasse pela rua em frente.
Todavia, num rompante inesperado, a passividade que reinara até então foi perdida, substituída pelo baque estrondoso da porta de entrada sendo aberta.
Tal qual um animal violento, finalmente livre dos pesados grilhões que o mantinham preso até então, Grimmjow irrompeu local adentro, trancando novamente a porta sem se importar com o fato de a maçaneta ter deixado uma marca funda na parede perpendicular, tamanha a rudeza com a qual fora escancarada.
Os olhos azuis faiscavam com uma fúria palpável, contida até então somente a custo de esforços absurdos, incomuns ao homem, mas exigidos pela situação, tendo em conta a posição como profissional. Entretanto, o seu "limite de paciência" já havia passado muito tempo atrás, enquanto ainda escutava os impropérios ditos por aquela garota.
Era tão ridiculamente irritante se ver preso naquela situação que pensar nisso já o levava à beira de um colapso mental. Por que logo ele, que absolutamente odiava ser pressionado a lidar com sutilezas, tinha de ser tragado para circunstâncias tão desfavoráveis? – Questionava-se, chutando os coturnos para fora dos pés enquanto jogava os objetos pessoais em cima do sofá creme, sentando-se num movimento cansado, as mãos posicionadas sob as têmporas em uma massagem pouco efetiva.
Aquela merda toda só podia ser alguma brincadeira de mal-gosto! Tantos casos de pedofilia rodando o Japão, e justo ele tinha que cair no inverso, tendo problemas por agir da forma certa e não se aproveitar de uma aluna?
Nunca fora lá o ser humano mais politicamente correto do planeta, contudo, sempre se recusara a erotizar crianças, sair com menores ou qualquer coisa do gênero. Tudo bem que até o casamento a partir dos 16 anos é legalizado, mas uma relação estável a esse ponto é completamente diferente de um caso puramente sexual. Não se sentia bem diante da ideia, além do fato de gostar de lidar com pessoas bem resolvidas, que soubessem o chão onde pisam e não lhe dessem dor de cabeça depois. Após optar pela magistratura, então, postulara como regra de conduta evitar qualquer envolvimento assim, e sabia que era o mais adequado à qualquer pessoa com o mínimo de bom-senso. Não queria destruir a própria carreira, muito menos se ver igualado aos desgraçados que via nos noticiários, presos por abusar de garotas como aquela que o procurara alguns minutos antes.
No entanto, contrariando o senso comum, aquela ali queria ferrá-lo por não se envolver! Que porra era aquilo? Não tinha como ser sério, simplesmente não tinha – Repetia para si mesmo, levantando-se numa nova onda de inquietação.
Caminhava de um lado ao outro da sala, os olhos vagando perdidos conforme tentava chegar à qualquer solução racional para o conflito. Se não fizesse nada, a menina poderia acusá-lo de qualquer maneira, entretanto, relacionar-se com ela permanecia fora de cogitação. Jamais se dobraria à uma chantagem barata! Se aquela pirralha pensou que isso funcionaria, tudo o que conseguiu foi irrita-lo. Irrita-lo de verdade.
Conforme qualquer possibilidade de resolução se distanciava de seus pensamentos, os passos já firmes tornavam-se mais pesados, acompanhados pela respiração dificultada, o ar sendo puxado com mais força, como se a mente pudesse esfriar de alguma forma. Contudo, o esforço era inútil.
Mesmo se tentasse que os amigos ou alunos testemunhassem a seu favor, seu próprio modo agressivo, aliado ao comportamento sexualmente desregrado, criariam os piores termos para ele. E como diabos conseguiria provar sua inocência ao confrontar a menina? Quem acreditaria nele?
A óbvia constatação de que as chances eram mínimas estava estampada diante dele, mas o pior de tudo era saber que estava certo, e iria se foder mesmo assim.
Em poucos segundos, o sangue já parecia correr mais rápido, fervendo nas veias e artérias, inundando o corpo inteiro com descargas de ódio acumulado. Só de pensar em tudo o que queria ter dito àquela garota, mas teve de engolir, a visão tornou-se turva, como se os olhos houvessem sido cobertos por uma nuvem escura e densa. Apertando os punhos fechados, a sensação das unhas fincando-se nas palmas intensificava a adrenalina, deixando que a razão ficasse de lado, acompanhando os últimos esforços em busca de soluções.
Num movimento repentino, descontou a frustração no móvel mais próximo, chutando a mesa de centro, de madeira marrom um tanto pesada para o tamanho. Os pequenos objetos que antes enfeitavam o centro, agora espalhavam-se pelo carpete, a mesa virada de pernas para cima após aquele único impacto.
Sentia a fisgada de dor estendendo-se do peito do pé até o tornozelo, mas isso não o impediu de virar-se para o corredor que antecedia a sala, alcançando o aparador alongado, o tampo de vidro completando o visual da peça em madeira, e com uma mão arrastar todos os objetos que encontrou sobre ele, varrendo-os para a lateral, até que o som de vidro quebrado reverberasse pelo local. Deu um grande passo para trás, estendendo os dois braços de modo à puxar o móvel para si, derrubando-o no chão, as gavetas abrindo-se no processo, espalhando seus conteúdos pelo recinto num estrondo arrepiante, misturando os objetos aos estilhaços do tampo.
O semblante do dono da casa banhava-se de uma espécie de prazer anestésico, como se o rompante de fúria lhe trouxesse alívio momentâneo. Os lábios repuxavam-se num sorriso largo, que longe de refletir alegria, trazia à tona uma amargura insana, capaz de assustar mesmo alguém que o conhecesse bem.
Já parecia distante daquela realidade, quando o som da campainha, além de batidas aflitas, o puxou de volta ao presente, encarando o ambiente caótico que criara.
— Grimmjow-san! Está tudo bem, Grimmjow-san? – Gritava um vizinho do lado de fora, naturalmente aflito após a sequência de sons saídos do apartamento
O homem de cabelos azuis encarou amargamente o apartamento, desviando dos obstáculos espalhados pelo chão até alcançar a carteira e a chave do carro, ainda largadas sob o sofá. Caminhou novamente até o genkan, livrando-se das meias que agora acumulavam cacos para recolocar diretamente os coturnos. A dor no pé direito havia se intensificado, as mãos tinham pequenos cortes graças à algum pedaço de vidro e a campainha tocava novamente, tornando o cenário ainda mais insuportável. Ainda manteve-se parado por alguns segundos, refletindo sobre a idiotice que tinha acabado de fazer ao deixar-se levar pela raiva.
Finalmente, abriu a porta, praticamente empurrando o vizinho para longe antes de tranca-la novamente. O senhor baixo, de cabelos e barba escuros, arregalava os olhos amendoados em direção à Grimmjow, preocupado .
— Grimmjow-san, o senhor precisa de ajuda? – Arriscou, observando-lhe a expressão fechada.
— Não – Respondeu seco, já apertando o botão do elevador – Eu só preciso esquecer essa merda toda – Afirmou, recebendo como resposta o olhar confuso de seu interlocutor.
Quando as portas metálicas se abriram, entrou sem olhar para trás. Não queria pensar, não queria se preocupar. Só queria que o mundo inteiro explodisse, e bem rápido.
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