Auribus teneo lupum

1 Hungarian dance No. 5


Notas iniciais
A composição que deu título ao capítulo é de Johannes Brahms. Agradecimentos especiais a Perona e a Dani Kurosaki por me betarem e me encherem de ideias. Um abraço bem apertado e o Ichigo de presente pra Dani por ser tão paciente comigo. Sem você esse capítulo nunca estaria aqui ♥ Boa leitura ^^

Abriu os olhos, mantendo-se parado enquanto estes se acostumavam com a leve claridade que vinha da janela. Deixava escapar um bocejo cansado, esticando o corpo da melhor forma possível na cama de solteiro e sentando-se a contragosto, incapaz de continuar dormindo enquanto o despertador tocava insistentemente... Onde diabos aquela bosta estava?

Renji ainda se encontrava meio tonto de sono, imerso naquela preguiça peculiar de quem gosta de dormir até o último segundo, andando aos tropeços pelo quarto pouco iluminado.

Procurando pelo celular, tateou pelas prateleiras entulhadas por toda sorte de objetos, batendo sem querer as costas da mão em um copo, escutando o som do vidro chocando-se contra o chão, antes de finalmente alcançar o aparelho que tocava alto alguma música que ele amava, mas passara a odiar depois de coloca-la como despertador.

— Merda! Caralho! Inferno! Puta que me pariu... – Praguejava sozinho desviando dos cacos e encarando, irritado, a poça d’água e os pedaços de vidro espalhados pelo chão. Com certo esforço, fechou os olhos momentaneamente, o ar sendo puxado devagar, expandindo-lhe a caixa torácica em um exercício de respiração.

O dia anterior fora péssimo. Ou melhor, fora catastrófico. Se encontrasse alguma definição pior que essa em seus pensamentos, certamente a utilizaria, mas na falta de coisa mais adequada, catastrófico deveria bastar.

Tivera de revisar uma infinidade de documentos e checar protocolos durante toda a manhã, sentindo-se sufocar diante do lento passar das horas na sala de arquivos da empresa onde trabalhava, almoçando em meio aos papéis só para ter de correr pela cidade durante o resto do dia, encontrando fornecedores, fechando contratos e lidando com todos os empecilhos de iniciar um projeto.

Não que ele se irritasse por trabalhar. Gostava de cumprir tudo o que lhe caía nas mãos e apesar dos deslizes vez ou outra causados por sua impulsividade, era um funcionário admirável. O problema mesmo era ter de lidar com tanta gente irritante no processo. Não era calmo muito menos paciente, então o desgaste de ter de executar tantas negociações e discussões em um dia o deixara esgotado.

No entanto, ao voltar para casa com uma pilha de relatórios que ainda deveriam ser preenchidos, recebera uma ligação pedindo que fosse buscar Ikkaku em um dos piores bairros da cidade. Sabia que o amigo andava metido em coisas que não deveria, mas só compreendeu a gravidade da situação ao chegar ao local.

Geralmente era Yumichika quem estava junto ao careca para resolver qualquer perrengue, todavia, estando o moreno fora da cidade, foi Renji quem encarou as luzes fortes e a música alta que saíam pelas frestas das janelas escuras do prédio, dando-lhe a impressão de que tudo dentro daquela espécie de boate estava em ebulição.

No fim das contas, carregou nos braços um Madarame quase desacordado, tremendo sob os efeitos de alguma droga. O havia encontrado deitado em um sofá, com alguns machucados superficiais e vigiado pelo bartender que lhe fizera a ligação. Não seria bom arrumar encrenca com aquele pessoal, então pagou sem muitas reclamações o valor referente aos estragos que o amigo causara ao estabelecimento antes de poder sair.

E pensando nisso, iria definitivamente cobrar um reembolso assim que o visse novamente. Ainda mais considerando o trabalho que teve para cuidar de seus ferimentos e garantir que não passaria por qualquer complicação.

Quando finalmente retornara para a casa na noite anterior teve o gran finale de preencher os relatórios restantes, para só então dar-se ao luxo de dormir até ser puxado de volta à realidade pelo despertador.

Mas de nada adiantaria ficar se lamentando pelo cansaço ou por qualquer problema, não é? Esse não era o seu jeito, afinal. Melhor seria encarar com disposição o que mais lhe viesse – Pensava, abrindo as persianas da janela, desejoso de pelo menos poder desfrutar de um dia mais tranquilo que o anterior, quem sabe começando com uma manhã de sol. Não obstante tudo o que os orbes castanhos encararam foi um céu nublado, coberto por nuvens cinza escondendo o sol, implacáveis. E para completar os presságios negativos quanto ao dia que teria pela frente, os ponteiros do relógio diziam-lhe que já passava da hora de sair de casa a caminho do trabalho.

Bom, não é como se esse tipo de situação fosse incomum... Sorte e Renji não combinavam, mesmo.

O ruivo tentou não pensar mais que isso em seu azar crônico, buscando uma vassoura para varrer os restos mortais do copo e aproveitando para colocar um pouquinho de ordem na bagunça que estava o seu quarto. Por mais apressado que estivesse, não se sentiria bem se deixasse aquela desordem perdurar até voltar para a casa. Naquele nível algo poderia até criar vida própria e devora-lo quando chegasse!

Perdeu alguns minutos retirando roupas sujas de todos os cantos possíveis, varrendo restos de comida e tentando não ser engolido pelas toneladas de poeira que pareciam estar ali há séculos. Terminado o serviço, dirigiu-se à cozinha, pegando para o café-da-manhã a primeira porcaria comestível que pôde encontrar no armário. Comidas rápidas e sem valor nutricional eram o que não faltava ali.

Apanhou um casaco que permanecera jogado em cima do sofá desde a última semana, e separou as pastas com aqueles relatórios que havia levado para finalizar em casa. Era um costume que tentava evitar, mas quando o trabalho o sobrecarregava, como vinha ocorrendo nos últimos dias, não tinha opção a não ser terminar no apartamento o que era impossível concluir na empresa. Melhor do que passar a noite fazendo-os por lá, pelo menos.

Andando enquanto atacava os salgadinhos, distanciou-se com certo pesar do apartamento. O corpo exausto implorava por mais algumas horas de repouso e alguma refeição decente, mas não é como se a mente dedicada pudesse atender-lhe o pedido. Sob protesto dos músculos, apressou o passo até a estação e só ali, observando os guarda-chuvas sendo abertos pelos que saíam, notou que esquecera o seu em casa.

Ótimo! Esse dia tinha mesmo tudo para dar certo!

Já no vagão lotado, o ruivo observava as primeiras gotas de água caírem, embaçando os vidros das janelas e tornando-se mais fortes com o passar dos minutos. Ao chegar à sua parada, já não teria tempo para comprar um guarda-chuva na estação, muito menos para esperar que o volume da chuva diminuísse. Sendo assim, considerou mais prudente sair naquele momento e se molhar um pouco do que se atrasar para o trabalho.

Num suspiro de resignação, cobriu as pastas com o casaco e atravessou correndo o percurso entre a estação e a entrada da empresa, tentando manter um mínimo de dignidade enquanto seguia pelo caminho, desviando das grandes poças d’água e das ondas criadas pelos carros em movimento.

Ofegante, alcançou o prédio em tempo hábil, dirigindo-se à porta dos fundos para evitar qualquer problema. Entretanto, tão logo encaminhou-se para dentro após livrar-se do excesso de água, foi parado por quem menos desejaria encontrar naquela situação...

— Ora, ora, Abarai-kun... Está tão molhado já a essa hora...

— Esqueci o guarda-chuva. — Disse Renji tentando esquivar-se dos comentários de duplo sentido do Mayuri – Com licença.

— Ah, não precisa ser tão rápido. Você deve estar molhado até a cueca... – Comentou fitando o baixo ventre do ruivo enquanto segurava-lhe o braço. – Passe na minha sala e eu prometo que te arrumo umas roupas secas.

— Não, obrigado – Respondeu entredentes, soltando-se bruscamente e seguindo adiante.

Ainda podia ouvir-lhe o riso irritante enquanto se afastava através do corredor estreito. Kurotsuchi era, definitivamente, um dos tipos mais estressantes daquele lugar. Renji só contivera a vontade de lhe dar uns bons murros porque o desgraçado era o subchefe do departamento de TI da empresa. Por mais irritado que estivesse, o tatuado sempre sabia medir as consequências de seus atos, então melhor seria evitar qualquer confusão.

Ok... Tivera um incidente ou outro aqui e ali, é verdade, mas não faria nada que comprometesse o seu emprego e sua imagem. Ou pelo menos era no que gostava de acreditar.

— Que cara é essa, ruivinho? – Perguntou Matsumoto ao ver o colega aproximar-se com a expressão de contrariedade visível após o encontro anterior.

— Esqueci o guarda-chuva – Explicou estendendo as pastas para a mulher. – Mas pelo menos salvei os relatórios. Missão executada com sucesso! – Completou batendo continência para a amiga.

— Uh, isso sim é um soldado eficiente! – Comentou, pegando os documentos e depositando-os sobre a própria mesa. – Mas se molhar o carpete o chefinho vai te fazer secar com a língua quando chegar — Adicionou numa careta debochada, aproximando-se novamente e ajudando-o a retirar o casaco ensopado.

— Ah, o Kuchiki-san não seria tão mau comigo, seria? — Perguntou num riso descontraído, de alguma forma imaginando a cena.

— Quem sabe? – Replicou em um tom malicioso – Com um ruivo desses abanando o rabinho pra ele, ninguém pode culpar o patrão por querer ser mau. Até eu seria malvada com um bobinho apaixonado como você, Renji – Terminou, demorando-se na pronúncia de seu nome e apertando-lhe as bochechas numa provocação.

— Veio bêbada pro trabalho de novo? – Replicou, soltando o laço do cabelo para que secasse mais rápido e tentando desviar-se logo do assunto.

É verdade que era um funcionário dedicado, mas nada que pudesse gerar essas piadinhas – Pensava — Essa Matsumoto é que não perdia uma oportunidade de fazer chacota com qualquer coisa. Imagina se estaria apaixonado pelo chefe? Coisa mais doida...

Ok, muitas vezes se pegava pensando nele e não poderia negar que era fascinado com muitos detalhes daquele homem, desde sua beleza até as maneiras impecáveis, mas daí a ama-lo era outra história. Certo?

— E você já me viu sóbria? – Retrucou a loira numa gargalhada. – Mas me conte, como foi no Gotei ontem? – Perguntou, referindo-se à boate cujo ruivo visitara na noite anterior, dando-lhe uma trégua das brincadeiras sobre sua suposta paixão platônica pelo chefe. – Já soube que teve de buscar o Ikkaku. Ele está bem?

— Ah, aquele ali não cai fácil – Respondeu aliviado pela mudança de assunto. — Mais tarde vou ligar pra ele pra saber como anda, mas só o deixei sozinho ontem quando já estava bem. Sem falar que o Yumichika volta antes do almoço hoje, então agora fica por conta dele.

— Um amigo desses não se encontra em qualquer lugar – Disse, bagunçando os fios ruivos – Eu vou lhe dar uma mão hoje também, mas em troca espero que faça um delivery desses pra mim caso eu precise qualquer dia – Adicionou, piscando um olho antes de se afastar.

Dito isso, a eficiente secretária lhe trouxe uma toalha e uma bandeja com café e bolo, arrancando-lhe com isso um sorriso satisfeito. De qualquer forma, as roupas não levariam muito tempo para secar novamente, então o Abarai simplesmente passou a cuidar de seus afazeres como de costume. Conseguiu, inclusive, relaxar um pouco, já que não tinha muito trabalho logo nas primeiras horas daquela manhã. Alegrou-se ao constatar que seu dia estava melhorando. Isso pelo menos até seu chefe chegar...

“Renji, traga-me os relatórios”

“Renji, traga as frequências do mês passado.”

“Renji, onde estão os gráficos que eu lhe pedi ontem?”

“Rangiku, onde foi parar o Renji? Vá chamá-lo imediatamente”.

“Renji, por que esse problema ainda não foi resolvido?”

Renji. Esse era o nome mais escutado naquele setor. Como consequência de seu comprometimento e disposição para o trabalho ele virara o “faz-tudo oficial” do lugar, sendo Byakuya, um dos líderes da empresa e seu superior direto, o maior responsável pela frequente menção ao tatuado. Era de conhecimento geral que o patrão parecia regozijar-se em lhe passar todas as tarefas possíveis e algumas das impossíveis.

— Bom dia novamente, Kuchiki-san. Qual o problema, senhor? – Perguntou o ruivo ao entrar na sala do chefe pela enésima vez naquela manhã.

Em certa ocasião, reunira toda a coragem para pedir ao superior que o tratasse com menos formalidade, chamando-o apenas pelo primeiro nome ao invés de Abarai. Apesar de o moreno ter-lhe concedido o desejo, Renji continuava a trata-lo pelo sobrenome, visto que não recebera igual pedido de volta.

— Quero que vá até a empresa da qual lhe falei ontem. Deve me representar em uma reunião hoje às 17 horas. Ah... Fale com Rangiku para que lhe providencie vestes adequadas – Respondeu olhando o outro de cima abaixo e avaliando negativamente suas vestimentas.

Renji encolheu-se ao ser observado, desviando um pouco o olhar e assentindo com a cabeça para disfarçar o nervosismo que algumas vezes o dominava quando na presença do mais velho. Aqueles orbes acinzentados pareciam tão incisivos que a impressão era sempre a de ser atravessado por eles ou de estar nu em frente ao moreno.

Não que o Abarai fosse do tipo que sente vergonha sem motivos. De modo algum. Não sabia exatamente porque essas coisas aconteciam, ou talvez preferisse mesmo nem se questionar sobre isso, mas a hipótese mais plausível era a de que se sentia desconfortável diante da pose altiva e do olhar aristocrático do Kuchiki. Ele era um homem admirável, virtuoso e forte, mas era também extremamente arrogante. Sem dúvida, era essa a causa de seu constrangimento — Refletia um tanto confuso, reconfortando-se ao chegar a uma conclusão natural — Sim, era isso. Afinal, o que mais poderia ser?

O chefe franziu levemente o cenho, mas apenas ignorou o comportamento entranho e o olhar aéreo do subordinado, voltando a falar.

— Antes que eu me esqueça, preciso que cuide desses papéis também. – Disse enquanto estendia uma pilha considerável de folhas para o outro.

— Certo, Kuchiki-san. – Concordou, aproximando-se da mesa e pegando as folhas, sentindo-se cansado só de imaginar o resto desse dia. Ainda assim, deu um sorriso largo para o outro e respirou fundo, sentindo o cheiro suave de flores de cerejeira que se desprendia do chefe, antes de finalmente se afastar.

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Sua submissão o agradava e talvez, só talvez, sentisse algum prazer em reprimi-lo — Pensou Byakuya, fitando a cabeleira ruiva enquanto o mais novo lhe dava as costas, carregando mais uma pilha de relatórios que deveriam estar preenchidos ao fim daquela manhã.

Sabia que era rigoroso com ele, mas sentia que quanto mais cobrava, melhor o outro respondia. Não agia assim por maldade ou sadismo. Longe disso. Apenas... Apenas gostaria de tirar o melhor de um funcionário que tinha muito a oferecer. Se sentia prazer era tão somente a satisfação de ver o outro evoluir.

O moreno voltou-se para sua mesa de trabalho militarmente organizada, os objetos dispostos a distâncias calculadas, dando a impressão de organização mesmo tendo muitas coisas ao seu redor. Cuidou de seus negócios com o zelo costumeiro, garantindo que cada pequeno detalhe estaria como desejado. Não queria que nada passasse despercebido e esforçava-se para manter o rigor em cada decisão.

É bem verdade que não poderia manter toda a empresa dentro de seus próprios padrões de qualidade. Não com Urahara como sócio. Entretanto, colocaria ordem onde pudesse, para azar de seus subordinados.

— Entre... – Disse ao escutar leves batidas na porta.

Sua secretária surgiu a passos lentos, caminhando até a mesa e depositando ali um café forte, pequeno e sem açúcar. Qualquer coisa diferente disso o desagradaria.

— Algo mais, Kuchiki-san? – Perguntou Matsumoto, fazendo menção de sair.

— No momento não — Respondeu enquanto os dedos longos envolviam a xícara — Já pode se retirar.

Os passos leves sumiram em instantes, deixando-o entregue à quietude de sua sala.

Já se acostumara àquele ambiente, no qual passava mais horas do que em qualquer outro. A grande escrivaninha de mogno, com seu marrom escuro em contraste com o carpete claro, criava junto ao estofado preto das cadeiras e sofás um ambiente aconchegante, mesclando a iluminação quente que vinha de cima com luzes frias direcionadas aos pontos adequados. As paredes marfim eram cortadas por trechos em madeira e alguns poucos quadros, sendo cobertas, à esquerda e em parte do fundo, por estantes repletas de livros.

Em certas ocasiões, quando passava a noite imerso em trabalho e o corpo lhe exigia uma parada, deitava-se no sofá de três lugares que opunha-se à sua escrivaninha, junto a outros dois menores e uma mesa de centro. Perdia-se por alguns minutos em uma sensação confortável, fechando os olhos ou observando dali a grande janela por detrás de sua mesa. Era o suficiente para voltar à labuta e seguir até o outro dia. Já se acostumara a exigir de si mesmo o que parecia impossível e poderia dizer que respondia muito bem a isso.

Quando em casa, agradava-se com seus chás e ervas cuidadosamente escolhidos, entretanto, em seu escritório, optava pelo café como um outro método para recobrar as forças, quase tão efetivo quanto os seus minutos de descanso no sofá.

Levou a xícara à boca, sorvendo um bom gole, apreciando o sabor e o odor do café preparado na temperatura ideal. Byakuya era claramente um purista. Afinal, não haveria sentido algum em cultivar grãos finíssimos e com o mais marcante sabor para destruir o produto final com açúcar ou quaisquer outros ingredientes desnecessários. Simplesmente não podia compreender a lógica das pessoas que o faziam, entretanto, viu dissolvidos os seus devaneios pelo toque de seu celular.

Recolocou a xícara na bandeja, pegando o aparelho de última geração e suspirando pesadamente ao notar o número conhecido que brilhava na tela.

Rukia...

Notas finais
Espero que tenham gostado.Planejo manter atualizações frequentes, então até breve.Abração ^^