Auribus teneo lupum

2 Flight of the bumblebee


Notas iniciais
Abraços para os que favoritaram, comentaram e estão acompanhando a história. Espero que gostem.

A diretora tentava desesperadamente não deixar-se levar pelo perfume atraente de Byakuya, cuja fragrância, mesmo ainda um pouco distante, insistia em lhe invadir as narinas e instigar-lhe pensamentos pecaminosos. Estremeceu diante do semblante grave do homem, que acabara de abrir a porta de seu escritório, obrigando-se a desviar o olhar de suas formas perfeitamente simétricas e voltar a atenção para Isshin, o qual entrara alguns segundos antes. Reuniu o autocontrole, afastando da mente as ideias descabidas.

Era uma educadora de respeito, afinal – Pensava, soltando o ar em um suspiro demorado – Claro que a encarregada do melhor colégio de Karakura jamais poderia perder o controle diante do responsável por uma aluna, mas céus, como era difícil conter-se tendo em sua sala um dos solteiros mais cobiçados do momento!

A mulher disfarçava da melhor forma possível as próprias reações, contudo seu comportamento não escapou aos olhos atentos de Rukia.

— Se você facilitar as coisas pra mim hoje, te arranjo um jantar com meu irmão – Ofertou a mais nova num sussurro, recebendo como resposta um olhar de repreensão. – Ok, não está mais aqui quem falou... – Completou, afundando-se na cadeira e abaixando a cabeça antes que o Kuchiki percebesse a tentativa de negociá-lo.

Usualmente, era bastante simples para Rukia ludibriar o diretor com alguma cena dramática ou tomar qualquer outra medida emergencial para livrar-se de possíveis complicações após algum “desvio de conduta” no colégio, todavia, graças à sua inesperada substituição por uma diretora linha dura, ali estavam ela e Kurosaki Ichigo, restritos a seus assentos enquanto aguardavam a chegada de seus responsáveis. Passara a última hora encolhida naquele lugar, escutando, junto ao amigo, um dos maiores sermões que já tomara em toda a sua agitada vida estudantil. Ainda assim, ouviria vinte desses sem arrependimentos se isso pudesse livra-la de uma ligação para o irmão.

Byakuya já fora chamado àquela escola anteriormente, cerca de duas vezes, e foram experiências traumáticas. Sabia bem que, para ele, essa terceira seria um crime inafiançável e, julgando pela expressão que o moreno trazia entalhada no rosto enquanto se aproximava, a garota tinha certeza de que estava completamente fodida.

— Então, diretora, qual foi o motivo desse chamado urgente? – Perguntou Isshin com um bocejo, sentando-se em uma das cadeiras dispostas frente à escrivaninha, esparramando-se confortavelmente ao lado do filho – O que o Ichigo andou aprontando? – Adicionou com o tom de quem já estava mais do que acostumado a essas visitas.

O Kuchiki o olhou de soslaio, reprovando mentalmente o comportamento de um pai tão omisso. Não era de se estranhar que aquele meliante de cabelos alaranjados desse tanto trabalho tendo em conta a educação falha que provavelmente recebera em casa. E que ultraje ter de estar ali, tomando um lugar junto à Rukia e aquela dupla perniciosa! Independente da gravidade do problema no qual a irmã estivesse envolvida, aquilo afrontava o seu orgulho e o expunha ao ridículo.

— Bom, senhores, – Começou a diretora quando já estavam todos em seus lugares – Eu os chamei aqui, como devem imaginar, graças ao comportamento indevido desses dois jovens.

Seguindo o olhar da diretora, que alcançava acusadoramente os adolescentes, Isshin pousou os orbes sobre Rukia em uma observação atenta, voltando-se para o filho em seguida e sorrindo de canto enquanto comentava em tom baixo, se comparado ao seu espalhafatoso timbre habitual, mas ainda assim facilmente escutado por todos os presentes.

— Essa é linda, hein Ichigo. Já imagino que foi namoro... Pode relaxar, não ligo pra essas coisas – Completou dando tapinhas nas costas do garoto.

Diante disso, Byakuya já amaldiçoava o homem mentalmente, o corpo tornando-se mais tenso a cada segundo. Como aquele ser desprezível ousava macular o nome de sua família supondo algum relacionamento imundo entre sua irmã e aquele delinquente? Será que além de ter de ouvir reclamações sobre a garota, ainda precisaria aturar esse tipo de gente?

A diretora pigarreou, encerrando os sussurros e atraindo novamente a atenção de todos. – Esses dois jovens foram flagrados depredando o patrimônio desta instituição – Recomeçou – Pichando o muro dos fundos do colégio.

Os olhos acinzentados fulminaram Rukia, incrédulos. Então ela deixava de lado a boa educação que recebia em casa para agir como uma vândala? Convertera todo o seu zelo fraterno em material descartável e direcionara suas atenções a esse tipo de ação? O que mais a menina fazia quando longe de sua vigilância?

Os questionamentos disparavam através da mente do empresário, preenchendo-a com cenários aterrorizantes protagonizados por uma Rukia usuária de drogas, prostituída ou líder de gangues de assaltantes. Isshin, por sua vez, parecia mais preocupado com a relação entre Ichigo e a menina.

— Ah, pensei que tinha sido namoro... – Comentou aparentando certa decepção. – Mas continuo te achando uma ótima nora, viu mocinha? – Emendou sorridente, levantando o polegar em um gesto de aprovação para a pequena.

O sangue de Byakuya ferveu com a provocação, inundando-lhe o corpo numa descarga eletrizante de ódio. Sentia os músculos tremerem, exigindo alguma ação para proteger-lhe a honra, embora nenhuma mudança física ocorresse de fato. Infelizmente, poucas ações além de uma repreensão verbal poderiam ser tomadas sem comprometê-lo ainda mais. Assim sendo, trancafiou como de costume a raiva e ateve-se a fuzilar com os olhos acinzentados o seu alvo, pronunciando-se em um tom extremamente grave.

— Considera insuficiente o fato de seu filho tê-la corrompido e ainda ousa supor um relacionamento entre ambos? Coloque-se em seu lugar. Isso nem em seus melhores sonhos.

— Uhh... – Replicou o outro em tom de deboche – Que eu saiba os dois foram pegos nisso, não é diretora? – Argumentou, voltando o olhar para a mulher por um momento, antes de retomar a fala – Nem queira colocar a culpa toda no Ichigo, estressadinho. E quanto ao namoro, não vejo por que não aprovar. Meu filho é um ótimo partido. Um rapaz forte e cheio de vigor como esse, ela não vai achar em qualquer lugar.

— Cala a boca, pai. Meu Deus... – Cortou Ichigo, uma veia de raiva latejando em sua testa.

— E é assim que você fala com o maravilhoso pai que te deu carinho, comida e um teto, moleque? – Retrucou Isshin, dando início a uma espécie de briga de família – Eu só estou te ajudando. Vai morrer virgem se ficar com essa cara de trouxa e não tentar algo com as menininhas. Como acha que eu conquistei sua linda mãe? Tem que ter atitude!

O Kuchiki revirou os olhos, fechando a expressão em uma carranca azeda e voltando-se para a diretora sem dignar-se a interagir mais com aqueles dois. Não perderia seu tempo discutindo com alguém de nível intelectual tão inferior. A irmã apenas observava toda a cena, afundando-se na cadeira enquanto sua consciência abandonava o corpo e pairava por uma dimensão de vergonha alheia.

— Chega! – Bradou a diretora, gerando um sobressalto nos presentes ao bater as duas mãos espalmadas sobre a mesa. – Deixemos de lado os desentendimentos familiares. Vocês podem pedir o auxílio da psicóloga do colégio quanto a isso posteriormente – Comentou enquanto entregava o cartão da psicóloga à Isshin – No momento, precisamos resolver o problema pintado nos muros – Terminou, apontando para a janela atrás de si e mostrando-lhes, pichado sobre um trecho do muro branco, um “painel” de cerca de dois metros de largura.

O desenho era uma mistura meio abstrata e um tanto quanto psicodélica de coelhos, gatos e outros temas infantis com caveiras, foices, monstros e órgãos sexuais masculinos de tamanhos e formas variados. As imagens entrecruzavam-se sobre um fundo colorido, os tons neon mais internos e as cores externas mais sóbrias criando um contraste chamativo, mas visualmente agradável. O muro, outrora de um branco impecável, agora transbordava alegria através das cores naquele trecho, atraindo automaticamente os olhos mesmo a distância. A reação do Kurosaki ao observar a obra do filho foi instantânea: uma gargalhada sonora ecoando por todo o ambiente. Já Byakuya, lançou um olhar de reprovação e desgosto em direção à Rukia. Ela não teria perdão dessa vez. Dirigiu-se à diretora, falando enquanto se curvava.

— Sinto muito. Isso não se repetirá. – O olhar era firme, escondendo a insatisfação por ser obrigado a desculpar-se. – Quanto deseja para a restauração do muro? – Perguntou na tentativa de terminar logo com todo aquele vexame e voltar ao trabalho.

A discussão sobre as questões monetárias foi breve. Isshin propôs que os garotos ficassem encarregados da pintura, entretanto Byakuya repudiou a ideia de ter sua irmã metida em serviços braçais. Colocou sobre a mesa notas bastantes para não ouvir mais reclamações da diretora e fez outra reverência, levantando-se solenemente, seguido pela pequena.

Tinha pressa para retirá-la da presença daquelas más influências e, sobretudo, sentia-se sufocado, esmagado pelo peso dessa decepção. Ademais, assolava-o a possibilidade de a conduta transgressora que agora observava ser resultado de sua própria inércia, sua incapacidade de educar. Certamente errara por não tomar medidas drásticas desde o começo. Se lhe tivesse cortado as asas antes, talvez agora não enfrentasse tais problemas.

O caminho até o carro foi de um silêncio funesto e desconfortável para Rukia. Ela sabia que as consequências do ocorrido não seriam nada agradáveis e podia até sentir as vibrações de ódio que emanavam do outro. Maldita hora em que ela e Ichigo perderam uma aposta para um grupo de amigos! O acordo era que os perdedores deveriam fazer uma pichação com o tema escolhido pelos vencedores, mas ela também sabia que, de qualquer forma, essa informação não faria diferença para Byakuya. Quando entraram no carro, o semblante do irmão evidenciava um misto de desprezo e decepção.

— Rukia... – Iniciou, com um tom que deixava transparecer sua irritação – Espero que esteja consciente de que sua conduta foi repulsiva. Por acaso não reflete sobre as consequências de seus atos? – Perguntou, mas não esperava por respostas. – Se o seu intento era envergonhar-me, pode rejubilar-se por seu êxito.

— Eu sinto muito... – Disse em um fio de voz.

— Não, não sente. – Exclamou o homem, os lábios crispando-se numa expressão ainda mais carregada, deixando um silêncio opressor instalar-se por alguns segundos, antes de continuar. – Já estou cansado de ser chamado aqui por seu descontrole. Essa foi a última vez. De agora em diante só sairá de casa para ir à escola e seguirá estritamente a rotina que eu lhe passar.

— Mas... – Sibilou a pequena, tentando iniciar uma defesa.

— Ousa me contestar? – Cortou o mais velho com absoluta frieza, arrancando-lhe qualquer esperança de negociação – Já fui tolerante o bastante. Passará seu tempo livre estudando ou praticando algo útil. Sem vídeo games, sem televisão, sem celular e sem computador. E principalmente, você não dirigirá mais a palavra à Kurosaki Ichigo. – Completou como um ultimato.

— Eu não... – Ela começou, sendo imediatamente interrompida pelo homem.

— Basta. Coloque seu cinto – Ordenou enquanto dava a partida. – Seu castigo permanecerá por tempo indeterminado e sequer cogite tentar descumprir qualquer uma dessas regras. Ademais, espero ouvir apenas elogios sobre você de seus professores. Negociaremos novas condições quando seu boletim não possuir nenhuma nota inferior a nove.

Proferida a sentença, Rukia afundou-se no banco do carro, imaginando o tédio que sua vida se tornaria. Tudo isso por uma pichação? Sabia muito bem que estava errada e esperava mesmo um castigo severo, mas será que precisava privá-la de tudo, inclusive de sair de casa? E ainda tinha a história de não falar com o Ichigo! Obviamente, não se obrigaria a cumprir essa cláusula, até porque o irmão não poderia vigiá-la quanto a isso quando estivesse com o amigo na escola, entretanto, não teria como entrar em contato com ele ou com qualquer outro colega fora do horário letivo. Perder a convivência com as pessoas que amava era, com certeza, o golpe mais duro dessa punição.

Tinha seus amigos mais íntimos como uma família. Kurosaki, Inoue, Ishida, Chad... Todos sempre estavam lá para ela quando precisava de apoio, e não poder sair com eles ou utilizar qualquer meio de comunicação seria um suplício. Como uma garota de 16 anos poderia manter uma mente saudável nessas condições?

Bom, talvez devesse estar grata por não te sido enviada imediatamente a um internato como nos filmes. Seria bem do feitio do irmão, inclusive... Contudo, admitia que tinha culpa no cartório, então não haveria escolha dessa vez. Só poderia aguardar e rezar para que o ensino médio acabasse bem rápido.

Ambos seguiram o restante do trajeto em silêncio, mergulhados em seus próprios mundos de questionamentos e inferências. Byakuya já se pronunciara e não voltaria atrás com sua palavra. Principalmente, estava magoado, traído; sequer considerava suficiente o castigo que passara diante da ofensa ao seu orgulho, refreando as exigências bem menos por compaixão do que por não saber o que mais retirar da garota.

Já em casa, repassou as condições do castigo aos criados, deixando ali uma Rukia cabisbaixa e voltando ao trabalho envolto em uma inquietação irritante.

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Era outono, porém a chuva gelada que durara por boa parte do dia dissipara-se, dando lugar à expectativa de uma noite surpreendentemente agradável. O sol se pusera há pouco, deixando marcado no céu, como aprazível rastro de sua passagem, o belo colorido crepuscular mesclando-se ao azul-escuro.

Percorrendo as ruas cheias das mais variadas e excitantes atrações, um vento delicado refrescava os transeuntes, acariciando, sedoso, as peles, vestes e sorrisos que encontrava pelo caminho.

Seria ótimo poder relaxar depois de um dia exaustivo de trabalho e, quem sabe, divertir-se um pouco em algum lugar naquela sexta-feira, pensava Renji, observando através de uma janela o movimento das folhas, carregadas ao sabor afável daquele vento. Seria ótimo poder dar-se ao luxo de descansar após uma semana agitada, relaxando os músculos cansados junto a alguma boa companhia. Seria ótimo não trabalhar feito um condenado, sentindo sugadas todas as suas energias a cada nova tarefa recebida do chefe. Seria ótimo se o Kuchiki não fosse tão... Tão...

Acabou por não terminar o raciocínio. Por mais rigoroso que o patrão fosse, admirava sua firmeza e competência. Não seria correto julga-lo, seria? Entretanto, se tinha tantas qualidades, por que diabos aquele filho da puta sempre o mandava pra essas reuniões? Por quê? Era algum tipo de sadismo? Esse infeliz não poderia vir ele mesmo cuidar de negociações tão importantes e complicadas?

Bom, agora já era tarde, de qualquer forma.

Estava ali, sentado feito criança de castigo, entre alguns velhos gananciosos e uma ou outra figura realmente respeitável, tentando não aparentar o desconforto que sentia usando as vestes que Matsumoto lhe trouxera.

“O caimento desse terno é ótimo, Renji. Você acabará seduzindo os acionistas”, dissera a loira, no tom debochado que lhe era típico, enquanto lhe empurrava o modelo de alta costura e tecido fino.

Ah, vá... Aqueles botões, prendendo-lhe até o pescoço, iriam sufocá-lo a qualquer momento, isso sim! Não conseguia entender o porquê de não o deixarem abrir nenhum nesses momentos. Detestava sentir-se empacotado em ternos pesados, ainda mais tendo preso o cabelo em um rabo de cavalo apertado, milimetricamente acertado por Rangiku. Contudo, não tinha escolha quando Byakuya decidia acionar o esquadrão da moda para essas reuniões.

Não obstante, as roupas não eram a pior parte desses compromissos. O que o irritava era ser obrigado a passar horas imerso em uma irritante aura formal, realizando anotações e apontamentos para que o Kuchiki pudesse tomar as decisões posteriormente. Tinha de aguentar os estúpidos olhares de reprovação gerados pelo seu visual e ainda precisava ser educado com caras mais irritantes que o Kurotsuchi. Francamente, aquele pessoal ainda vivia no século XIX ou o quê?

De toda maneira, seu senso de responsabilidade o impedia de falhar. Fosse o que fosse, seguiria às ordens do chefe.

— Aquele é o assessor do Kuchiki? – Apesar de um tanto distante, o ruivo pôde ouvir claramente Tousen Kanami perguntar a um dos acionistas ao fim da reunião.

— Sim... Usualmente o enviado dele é este. – Respondeu o outro casualmente.

— Surpreendente que ele não possua funcionários melhores. Este é claramente inadequado para a função. Tolo e desatento, eu diria – Adicionou Kaname em alto e bom tom.

O Abarai reprimiu a muito custo a vontade de responder à provocação. Aquela fora a cereja do bolo. Esse dia não poderia piorar, mesmo.

Resolveu imitar Byakuya, para variar, e conter um pouco as próprias reações. Respirou profundamente, endireitando a postura e erguendo a cabeça enquanto saía, na tentativa passar um ar de frieza e mostrar que não se importava com alguém como Tousen. Afastou-se a passos largos, despedindo-se formalmente apenas de alguns dos presentes, encaminhando-se para fora da sala de reuniões ostentando a expressão mais serena que conseguia fazer.

Como esperado, sua performance foi risível, a atuação caindo por terra tão logo alcançara o corredor. Apressou o passo, abrindo o terno e afrouxando desleixadamente o nó da gravata pelo caminho, de modo a poder livrar-se também do aprisionamento gerado pela carreira de botões fechados até o pescoço. Renji não era lá o melhor quando o assunto é ser apático. Mas, quer saber? Foda-se. – Pensava enquanto deixava o prédio, arrancando o elástico que lhe prendia o cabelo apenas para amarrá-lo novamente, da maneira habitual – Da próxima vez que Byakuya lhe pedisse para fazer algo assim o mandaria enfiar a reunião no rabo. Ok, talvez não com essas palavras, mas daria um jeito de dissuadi-lo.

Entrou no táxi da empresa ainda irritado com o ocorrido, confirmando com o motorista se o Kuchiki estaria lá para receber os repasses da reunião.

— Está sim, como sempre. E estava uma arara hoje, quase sobra pra mim também... – Disse o homem tentando iniciar um diálogo, mas recebendo apenas um olhar inexpressivo do outro como resposta – E você não parece muito melhor... – Completou, virando-se para o volante e dando a partida.

— Tive um dia cheio. Desculpe. – Explicou Renji – Mas pelo menos o final de semana está aí. Logo a gente tem um descanso, né? – Continuou, mudando de assunto na tentativa de não ser rude. Não podia descontar o mau-humor nos outros, afinal.

Eram cerca de 20h30min quando o ruivo desceu do carro, atravessando a bem iluminada entrada da empresa. Deu boa noite aos seguranças, passando pelas salas e corredores da empresa, já praticamente desertos àquela hora. Finalmente, bateu na porta do patrão, entrando ao ouvir-lhe a voz.

— Boa noite, Kuchiki-san. – Cumprimentou enquanto se aproximava, parando em frente à mesa do moreno e aguardando uma resposta que não veio.

Rodeado por pilhas infindáveis de relatórios, planilhas e ofícios, o mais velho o ignorou solenemente, mantendo a atenção na tela do notebook e nas anotações que fazia à parte, reorganizando documentos com agilidade conforme os preenchia.

Mau sinal, pensava o tatuado.

Era de conhecimento geral que Byakuya trabalhava além do que seria saudável, Contudo, Renji tinha suas atenções ainda mais voltadas para ele, o suficiente para saber que quando chegava ao nível de sua mesa parecer desorganizada devido ao amontoado de coisas, algo não ia bem. Talvez alguma coisa houvesse acontecido ao chefe?

Observou o homem sentado à sua frente. O rosto sério, ainda voltado para o computador. Usava óculos de leitura os quais o Abarai sempre achava que lhe deixavam um pouco mais amistoso. Entretanto, não surtiam efeito naquele momento. Nem orelhas de coelho suavizariam aquela expressão! Bom, talvez as orelhas funcionassem, mas era melhor não se perder nesses devaneios. Algo certamente ia muito mal, mas o ruivo não sabia se teria alguma oportunidade de perguntar-lhe o quê.

Após mais alguns segundos, o Kuchiki finalmente deu uma pausa no que fazia, retirando os óculos em um movimento lento e fitando o funcionário. Sentira o olhar atento do outro, apesar de não deixar transparecer o desconforto que a observação lhe causara. Pudera notar que o mais novo tinha por costume encará-lo desse modo incisivo, fazendo-o sentir-se intimamente observado pelos orbes castanhos.

Não que a impenetrável barreira de Kuchiki Byakuya pudesse ter alguma falha. Ele, obviamente, não poderia ser visto em seu íntimo, como aqueles olhos o faziam sentir, todavia... Bem... Simplesmente não sabia direito como lidar com o outro.

O Abarai era um livro aberto, tolo e desbocado, mas ele não conseguia captar o sentido profundo das atenções insistentes e da obediência que sobrepujava qualquer relação usual entre patrão e empregado. Não podia ler sua mente nesses momentos e isso o irritava, é bem verdade... Contudo também o instigava de alguma forma, era preciso admitir.

Não obstante, se conseguia notar algo no semblante do ruivo além, é claro, do evidente cansaço – É que parecia preocupado. Quebrou o silêncio, falando com a voz um pouco rouca, após horas trabalhando em silêncio.

— Os relatórios estão aí, certo? O que tem a dizer sobre a reunião?

— Foi como o esperado – Respondeu o ruivo sentando-se, já esgotado demais para permanecer de pé – Refizeram boa parte das propostas e não quiseram muitas mudanças nos planos que o senhor fez – Estendeu os apontamentos que continham os detalhes na caligrafia garranchada do rapaz – Está tudo aí, Kuchiki-san.

Leu atentamente cada ponto, circulando algumas coisas e já prevendo os passos que deveria tomar quanto ao assunto. Certamente tinha outros funcionários mais aptos a estar nesse tipo de ambiente, contudo, preferia enviar Renji justamente porque sua ingenuidade o permitia relatar as coisas sem juízos de valor. Ele seguia às suas ordens estritamente durante o processo e ainda lhe trazia a descrição mais exata possível dos fatos. Considerando a carga de trabalho que dera ao outro nesse dia, era admirável que o Abarai tivesse desempenhado sua função com tanto zelo.

Inicialmente, não simpatizara com os péssimos modos do funcionário, no entanto, fora conquistado por seu vigor e competência. Apesar de perder a conta de seus defeitos, aprendera a respeitá-lo como profissional. Talvez até algo além disso, já que enxergava nele algumas das qualidades que perdera ao longo dos anos... Sim, o ruivo chegava a causar-lhe certa inveja. Vivia amargurado há muito tempo, então era inevitável desejar essa felicidade que parecia rodear o tatuado por onde quer que ele fosse. Seria interessante poder partilhar dessa sensação, mas não é como se fosse possível...

Por que estava sendo tomado por pensamentos tão estranhos, mesmo? – Interrompeu-se mentalmente, tentando deixar de lado ideias que lembravam tanto autopiedade — Devia ser efeito do excesso de trabalho ou do desgaste gerado por Rukia... Certamente ainda estava abalado com o ocorrido.

— Errr... Kuchiki-san... – Começou Renji, arrastando-o de volta à realidade – O senhor ainda precisa de mim para algo?

Não seria correto pedir-lhe mais nada, pensou, analisando o corpo à sua frente, questionando-se quanto restava do vigor que aquele homem ostentava todos os dias. Ainda assim, tinha de confessar que desejava a companhia do outro. Era irritante dar-se conta disso, entretanto, seu humor frequentemente melhorava quando na presença dele. Talvez os comentários estúpidos que tão frequentemente saiam da boca do ruivo lhe fizessem bem a ponto de querê-los sempre, como um alívio para aquela pressão insuportável que se fazia cada vez mais presente em seu dia-a-dia.

Enfim, já não importava. Não tinha desculpa alguma para mantê-lo consigo e preferiria não admitir para si mesmo que necessitava tanto assim de companhia.

— Tudo bem, Renji – Disse em um tom suave, surpreendendo o subordinado. – Agradeço pelo trabalho duro, já pode ir.

O dono dos fios ruivos estancou, incapaz de ocultar o assombro enquanto refletia momentaneamente sobre o que ouvira. Os lábios ficaram entreabertos, as sobrancelhas ligeiramente erguidas em uma expressão atônita. Algo ali estava definitivamente muito errado. Kuchiki Byakuya o estava agradecendo pelo trabalho? A-gra-de-cen-do? Logo a um subordinado como ele?

— Algum problema? – Questionou o moreno, notando que o outro não se movera. Analisava-lhe as reações, perguntando-se o que causara tamanho estranhamento.

— Ah, não. – Falou o mais novo em um sobressalto, posicionando uma das mãos atrás da cabeça como se repentinamente precisasse assentar algum fio por ali. – Tudo ótimo... Só... – Travou por um instante, incapaz de desviar-se dos orbes gélidos do outro. – Não precisa me agradecer, Kuchiki-san... Sabe como é... – Adicionava com um sorriso amarelo – É bom ser útil ao senhor, e tal...

— Certo, Renji. — O patrão franziu o cenho, estreitando os olhos e deixando o som as palavras cair secamente.

Caralho! Que reação foi essa, idiota? – Perguntava-se o ruivo, levantando-se e, após uma mesura, dando as costas ao outro e seguindo em direção à porta — Quando finalmente recebe algum reconhecimento, diz algo assim? Mas que porra! Nunca mais ouviria qualquer palavra do gênero sair da boca do Kuchiki. Certeza.

— Merda! – A exclamação saiu automaticamente pelos lábios do funcionário. Havia sido retirado de seus pensamentos ao bater a canela com força em um móvel baixo. Enrubesceu, levando uma das mãos ao machucado e a outra à boca numa espécie de censura, voltando-se desajeitadamente para o patrão, na intenção de desculpar-se pela expressão.

— Renji? – Adiantou-se o Kuchiki, levantando os cantos dos lábios no que poderia ser um sorriso – Te deixei ir, mas tente não levar contigo os meus móveis...

No fim das contas, de uma forma ou de outra, o Abarai estava melhorando-lhe o humor, notava o moreno ao encarar-lhe a gentileza agressiva dos modos, na inusitada tentativa de adicionar boas maneiras à personalidade selvagem.

— Ah, foi mal, Kuchiki-san – Disse o ruivo, surpreendendo-se com a piada – Vou tentar não levar nada – Completou enquanto se curvava novamente, voltando a andar e estendendo a mão para abrir a maçaneta.

Entretanto, antes que o fizesse, uma ideia passou rapidamente por sua cabeça vermelha, um impulso de agir manifestando-se com vivacidade. Certamente não daria certo, mas não custava tentar... Não podia perder essa oportunidade.

— Erm... Kuchiki-san... Desculpe incomodar... – Começou meio vacilante, já arrependendo-se de ter seguido aquele caminho – Não sei se o senhor pretende ficar por muito tempo, mas, se não for, será que o senhor gostaria de ir a algum lugar?

O dono dos cabelos negros encarou-o em silêncio, analisando mentalmente aquela proposta inesperada.

— Bom, assim... Como amigos, sabe? – Remendou Renji, agoniando-se pela falta de resposta do outro – Não que nós já sejamos íntimos, mas... Quer dizer, se o senhor quiser podemos... – Encarou-o, o rosto adquirindo um tom próximo ao dos cabelos. Gesticulava a esmo enquanto as palavras saíam atravessadas – Bom, esquece. Não quis incomodar. Desculpe – Completou, virando-se novamente para a porta, desejando apenas sumir logo dali.

— Renji. – Pronunciou-se o mais velho em tom forte, obrigando-o a estancar.

Merda! Amaldiçoava-se mentalmente o tatuado, arrependendo-se da loucura. O que ele pensou que o outro faria? Achou mesmo que Kuchiki Byakuya aceitaria o convite e os dois sairiam para aproveitar a sexta-feira? Ah, vá... Agora estava ali, preso em uma situação constrangedora após uma atuação patética.

Voltou-se para ele, a cabeça baixa e as mãos fechando-se com força enquanto tentava controlar o embaraço.

– Ah... Kuchiki-san...

— Antes que me interrompa novamente — Cortou o chefe – Eu aceito.

— Como? – Soltou o mais novo, arregalando os olhos, embasbacado.

— Aceito seu convite. Apenas aguarde que eu arrume essas coisas... Ou mudou de ideia? – Arguiu, arqueando uma sobrancelha e fitando-o seriamente.

— Não! Quer dizer... Claro que espero – Corrigiu-se o tatuado, ainda incapaz de acreditar no ocorrido. Não poderia imaginar o que se passava na cabeça daquele homem para que houvesse concordado, mas de qualquer forma, era melhor aproveitar essa sorte inesperada... Talvez pudesse deixa-lo mais alegre ou até mesmo ficassem mais íntimos a partir dalí... – Será divertido. O senhor verá. – Completou dando um sorriso largo e sentando-se para aguardá-lo.

Notas finais
A composição que dá título ao capítulo é de Rimsky-Korsakov. Bom carnaval a todos!