Auribus teneo lupum

3 Carmen: Overture (prelude).


Notas iniciais
Primeiramente, peço desculpas pela demora. Queria ter postado no domingo, mas infelizmente não consegui. Tentarei manter uma frequência semanal daqui em diante. Obrigada a Dani Kurosaki e Perona, como sempre, e beijos para Capitã Nana e Lisa-san ♥ Abraços para os que favoritaram, estão acompanhando e para os meus fantasminhas também.

Cerca de 21h30min, Kuchiki Byakuya e Abarai Renji eram recebidos pelas portas automáticas de um dos fervilhantes estabelecimentos da cidade. Atravessando um corredor bem iluminado, passaram pelas entradas de alguns restaurantes e bares, alcançando, finalmente, as portas de um dos preferidos do ruivo, encimada por uma bandeira do Reino Unido, de modo a antever a atmosfera que encontrariam lá dentro.

Compondo-se, sobretudo, por móveis em madeira, a decoração do ambiente tentava reproduzir o clima encontrado nos pubs britânicos, aconchegando confortavelmente os clientes através da iluminação quente. Um grande balcão chamava a atenção para os fundos do bar, detrás do qual era possível observar a grande variedade de bebidas expostas, principalmente cervejas importadas e destilados ocidentais e orientais. Ao longo das paredes, decoradas por quadros com fotos em sépia e itens vintage, ficavam mesas redondas, circundadas por bancos em “C”, de um acolchoado vermelho escuro em perfeita complementação aos tons terra de todo o lugar. Ao centro, o espaço era organizadamente preenchido por mesas e cadeiras, deixando, em certo ponto, um espaço onde ocasionalmente apresentavam-se artistas ao vivo.

A dupla sentou-se lado a lado no banco de uma das últimas mesas laterais, estrategicamente mais espaçadas, de modo a conferir menos agitação do que as centrais. O Abarai escolhera aquele estabelecimento tendo em mente o fato de ser o mais vazio às sextas, além de parecer cair melhor ao gosto refinado do moreno do que os outros bares que frequentava. Além disso, o lugar era especializado em petiscos bem temperados que certamente agradariam o chefe.

Enquanto aguardavam a chegada do garçom, engataram um diálogo puxado pelo tatuado, disposto a aproveitar a oportunidade para ganhar alguma intimidade com o patrão, aplacando, pelo menos um pouco, a vontade que sempre sentia de conhecê-lo mais a fundo.

— Desculpe pela minha reação mais cedo, Kuchiki-san – Falava um Renji agora mais relaxado, em seu tom natural – Só não esperava que fosse aceitar... Sabe como é, o senhor é sempre tão sério – Girava um pouco o tronco em direção ao outro, mantendo contato visual enquanto apoiava descontraidamente um dos cotovelos sobre a mesa.

— Devo entender que preferia que eu houvesse recusado? – A indagação veio em tom ofendido, típico do moreno, acompanhada de um olhar incisivo.

— De jeito nenhum. – Respondeu prontamente – Fico feliz de estar com o senhor em outro ambiente, Kuchiki-san. É difícil conseguir ter uma conversa entre amigos lá na empresa. Sempre tem tanta coisa pra fazer que acabo só falando de trabalho com o senhor.

E que tipo de assuntos eles teriam para tratar fora do trabalho, mesmo? – Questionava-se o moreno. – Sequer sabia ao certo por que aceitara estar ali, muito menos entendia o que teria a fazer com um subordinado que era seu completo oposto! Provavelmente, acabariam tomando uma ou duas doses juntos e o incidente jamais se repetiria. O que mais poderia esperar, afinal? Achava que mudar de ares fosse magicamente melhorar seu humor ou fazer com que descobrisse a melhor forma de encarar a irmã ao chegar a casa? Cogitara que ir a um bar com um funcionário desbocado afastaria o tédio e frearia a amargura que vinha aumentando gradativamente nos últimos tempos? Falácias... Seria melhor tomar algo em casa, aproveitando reflexões solitárias, como de costume nesses dias mais sufocantes.

— E o que o senhor costuma beber?

A pergunta de Renji, que por motivos desconhecidos pelo moreno se aproximara mais, o tirou de seus pensamentos. Céus! O que esse homem tentava fazer quase sussurrando em sua orelha? – Exagerava mentalmente a situação, recuando alguns centímetros no banco, de volta à sua “zona de segurança”.

— Geralmente destilados. – A resposta do mais velho veio rápida, enquanto desviava o olhar para os arredores. Apesar de não estar em um restaurante sofisticado ou um bar elitizado, precisava admitir que aquele local lhe parecia bastante agradável.

— Ah, tem um whisky nacional muito bom aqui. Só não sei se o senhor aguentaria – Disse em tom brincalhão, um sorriso formando-se em seu rosto.

— Por que não, Renji? O que deseja insinuar? – Arguiu, surpreendendo-se com a zombaria do outro.

— Não me leve a mal, kuchiki-san – Comentou entre risos – Mas acho que só a Rangiku pede esse. E ela já tem vários troféus da copa cirrose lá do trabalho. – Puxou o cardápio, passando os dedos pelas letras miúdas enquanto continuava – Acho que o senhor vai gostar mais dessas cervejas estrangeiras.

— Copa o quê? – Cortou o patrão, franzindo o cenho.

— Cirrose – Repetiu, gesticulando didaticamente ao prosseguir com a explicação – É quando nós competimos para saber quem aguenta beber mais. Já virou o evento oficial pro fim de cada semestre lá na empresa. Até mandamos fazer troféus nas ultimas edições!

Por que nunca soubera desse tipo de coisa? – Questionava-se o Kuchiki. – Mesmo que não aceitasse, um convite seria de bom tom. Ou melhor... Certo, talvez não levasse exatamente bem um convite para uma “Copa cirrose”, mas ressentiu-se de alguma forma.

— Eu sempre ficava imaginando o senhor em uma dessas – Adicionou o tatuado, como se pudesse ler os pensamentos alheios – Mas não é exatamente o tipo de coisa em que o senhor vai, né? – Coçava a cabeça, desviando o olhar ao imaginar esse tipo de cena. – Bom, mas seria legal...

O patrão sorriu internamente ao saber que o outro, de alguma forma, gostaria de incluí-lo, mas optou por uma resposta mais negativa.

— Certamente não compareceria a tal... Evento. Vocês tem uma forma bem autodestrutiva de divertir-se.

— Ah, Kuchiki-san... É divertido. O senhor devia pelo menos assistir algum dia. – Pediu, deixando um pouco de lado o comportamento de funcionário. Estavam em um ambiente informal, afinal. Se não agisse sem reservas não haveria nada de diferente das conversas durante o trabalho.

— Não é o tipo de entretenimento ao qual estou acostumado – Retrucou o mais velho desdenhosamente, entretanto, ao observar o semblante de Renji “murchar” um pouco, terminou por adicionar – Mas quem sabe algum dia eu apareça.

Não poderia dizer o porquê de ter dado ao outro essa possibilidade inusitada, todavia, o sorriso que o Abarai abriu naquele momento compensaria qualquer consequência advinda dessa fala. Poderia observar aquele sorriso por horas! Não que o ruivo lhe despertasse tanto interesse. De forma alguma. No entanto, o modo como seu semblante se iluminava completamente enquanto ele sorria com boca, olhos, e toda a expressão sempre o impressionava. Era algo que ele não mais saberia fazer, mesmo que quisesse. Era sincero e cativante, indubitavelmente.

— Combinado, Kuchiki-san – Disparou o tatuado, aproximando-se novamente de seu interlocutor – O senhor será nosso convidado de honra, então! Vai se surpreender com o modo como o pessoal age quando bebe desse tanto. Até a Nemu já tentou fazer parkour entre essas mesas uma vez! Esse dia foi épico. – Contava animadamente, o sorriso ainda estampado em toda a expressão.

— Francamente, Renji... – Soltou, revirando os olhos, os lábios contorcendo-se em um esboço de sorriso ao imaginar a secretária do subchefe de TI, sempre séria e dona de um olhar meio alucinado, tendo esse tipo de comportamento.

— Ah, teve uma vez também... — Reiniciou o funcionário, mas foi interrompido pela chegada do garçom, depositando copos com água em frente aos clientes e perguntando-lhes o que desejariam consumir.

Byakuya insistiu em tomar aquele Whisky de teor alcoólico absurdamente alto mencionado pelo tatuado. Não que precisasse provar nada... Só gostava da bebida e queria experimentar a dita marca. – Justificara-se mentalmente ao efetuar o pedido, ­observando o subordinado ordenar uma cerveja, e uma porção de algum petisco. –

Os dois prosseguiram com a conversa, antes e após a chegada dos pedidos, com Renji relatando ao chefe as incontáveis histórias de bebedeiras as quais presenciara. Desde o dia em que Soi Fong declarou seu amor para a chefe Yoruichi, até a ocasião em que jogaram verdade ou desafio bêbados e o Kira quase levara um surra ao agarrar um desconhecido por conta de um desafio.

A bebida, sem dúvidas, fizera efeito, pois Byakuya, mesmo que de modo contido, demonstrava estar se divertindo e comentava as peripécias dos funcionários. Vez ou outra, quando a garrafa à sua frente já perdera quase a metade de seu conteúdo, apoiava o cotovelo sobre a mesa e deitava a cabeça em seu punho fechado, fitando o ruivo atentamente. A certa altura do campeonato, inclusive, parara de afastar-se toda vez que Renji tentava encurtar a distância. Já nem ligava quando o mais novo colocava a mão em seu ombro ou mantinha qualquer outro tipo de contato físico casual. Apenas estava, realmente, divertindo-se com a conversa tola do outro.

Como o Abarai conseguia ser tão relaxado? Como conseguia ver sempre o lado bom de tudo? Por que sua presença era tão calmante? E, principalmente, quanto álcool havia nesse Whisky para deixa-lo naquele estado? Teria de pensar nas respostas outra hora, pois sua mente se encontrava dispersa demais para raciocinar logicamente, mesmo que não demonstrasse os efeitos que a bebida causara. Ou, pelo menos, pensava não demonstrar.

— Como assim o senhor flagrou o Urahara e a Yoruichi transando? – Perguntava Renji, certificando-se de que ouvira direito.

— É o que disse. Certa vez os surpreendi sem querer quando fui buscar alguns materiais no almoxarifado.

— No almoxarifado? – Repetiu em uma gargalhada. – E o que o senhor fez?

— Nada. – Respondeu, sorvendo mais um gole antes de continuar – Não que eu seja a favor desse tipo de comportamento em um local de trabalho, mas o Urahara não está subordinado a mim.

— Esses dois são uma dupla e tanto... – Começou, mas as palavras desapareceram ao imaginar a expressão do chefe diante do casal em pleno coito, dando lugar a gostosas gargalhadas. Abaixou um pouco a cabeça, fechando os olhos durante a tentativa de controlar o inesperado acesso de riso e acabando por apoiar, sem querer, uma das mãos sobre a perna do moreno.

Os olhos acinzentados do patrão passearam pelo semblante do ruivo, que sequer notara a “ousadia”, pacientemente, aguardando-o recuperar o fôlego. Quando finalmente notou-o voltando ao normal, tocou-lhe a mão com a ponta dos dedos, suavemente.

Foi o suficiente para que o Abarai tivesse um sobressalto por dar-se conta do pequeno deslize. O corpo inteiro enrijeceu subitamente, à exceção do braço, que se moveu para junto do tronco mais rápido do que seria imaginável em qualquer situação. Encarou o outro, meio sem graça, e falou em tom mais baixo que o usual.

— Desculpe... Hm... Acho que me descontrolei com as risadas e perdi um pouco a noção de espaço.

— Tudo bem, Renji. Não é como se houvesse sido intencional. – Tranquilizou-o com um meio sorriso surgindo em seus lábios ao notar o constrangimento do outro.

O funcionário não soube bem a melhor maneira de interpretar tudo aquilo, então desviou o rosto, chamando o garçom novamente na tentativa de retirar o olhar alheio de si. Notou, através da velocidade na qual a garrafa de Byakuya secava, que o chefe já bebera mais do que o esperado. Era surpreendente que ainda estivesse tão lúcido.

Não mencionara aquele whisky com a deliberada intenção de embebedá-lo, entretanto, pelo modo como as coisas iam, não demoraria muito até que isso ocorresse... Ao menos poderia, deu-se conta, aproveitar a oportunidade para perguntar o que ia mal com o patrão. A amargura que ele aparentava carregar o preocupava e, talvez, usar essa chance para falar com ele sobre isso o ajudasse.

— Kuchiki-san... Levaria a mal se eu te perguntasse algo intimo? – Iniciou, ainda um pouco receoso.

Onde ele queria chegar com isso? Pensou Byakuya, perguntando-se qual seria o assunto “íntimo” sobre o qual o rapaz desejaria tratar. Considerou dizer que sim, afastando qualquer situação embaraçosa e evitando expor-se, como de costume. Todavia, acabou vencido pela curiosidade e pelos olhos pidões do outro.

— Tudo bem... Diga.

— Bom... – Continuou o subordinado, medindo cautelosamente as palavras. – Eu sei que o senhor não é de falar da sua vida, nem nada assim, mas notei que o senhor não parecia muito bem hoje e fiquei me perguntando se alguma coisa tinha acontecido...

Como ele notara? Questionou-se Byakuya enquanto o ouvia. Renji não era o tipo bajulador, disso o moreno não tinha dúvidas. Assim sendo, para abordá-lo daquele modo, ele teria de estar realmente preocupado... Será que o funcionário era sempre tão atento ao comportamento de todos ao seu redor ou dispensava alguma atenção especial a ele? Não que isso importasse, mas estranhava o motivo da preocupação do outro. Sequer eram amigos! Ao menos até agora...

— Nada demais, Renji – Explicou secamente, derramando mais uma dose do conteúdo da garrafa no próprio copo. O rosto erguera-se novamente na postura altiva. Mantinha as pestanas baixas, fitando, em sua pose superior, o movimento do líquido amarelado à sua frente.

— Ainda assim, – adicionou, tentando insistir no assunto sem ser chato – Se algo estiver acontecendo, o senhor pode conversar comigo, viu? Não é bom guardar as coisas, sabe? E às vezes falar com alguém nos ajuda a achar as soluções... Não que eu seja de grande ajuda – Acrescentou, amaldiçoando-se por não ter formulado melhor as frases na cabeça antes de começar a falar – Mas é sempre bom poder contar com os amigos, né?

Amigos... Então já eram tudo isso na cabeça de Renji? Como aquele homem podia ser tão extrovertido, se considerando íntimo assim facilmente? Por acaso achava que ele simplesmente deixaria de lado o muro que construíra com tanto esforço ao redor de seus sentimentos e permitiria que o Abarai entrasse e lhe desvendasse os mistérios? Ousava supor que ele desabafaria, mesmo que minimamente, sobre os seus problemas pessoais? Não. Kuchiki Byakuya jamais faria isso em sã consciência – Refletia o empresário.

Só esquecia que, após tanto álcool, consciência se tornara uma palavra de vago significado.

— Não sou o tipo que faz desabafos. – Comentou após um curto silêncio – Simplesmente resolvo minhas pendências sozinho.

— Entendo, Kuchiki-san. Mas é mais fácil quando a gente conversa, não? – Tentou novamente, agora o olhando com certa esperança.

— Não. – Retrucou de imediato, sorvendo em um único gole o conteúdo do copo e chamando o garçom em sequência, na tentativa de desviar-se do assunto.

— O senhor pelo menos já experimentou? – Disse o mais novo em uma tentativa de incentivo, aproximando-se um pouco mais, com um sorriso amigável.

— Não faria diferença falar dos meus problemas com você. – Replicou, virando-se para o garçom que o atendera prontamente e pedindo um aperitivo.

O sorriso de Renji apagou-se tristemente. Abaixou um pouco a cabeça, deixando os ombros amolecerem e afastando-se novamente do outro. Não esperava uma reação diferente, ainda assim se decepcionara com a última frase. Era mesmo um idiota – Concluía para si mesmo. – Estava claro que não tinha qualquer relevância para o chefe. Sequer deveria importar-se tanto com ele, ou adotar condutas que validassem a hipótese de ter-se apaixonado pelo patrão, para começo de conversa. Se Matsumoto estivesse certa e aqueles sentimentos confusos os quais nutria fossem mesmo amor, seu destino certamente seria frustrante.

De toda forma, não se sentia mais capaz de manter a pose alegre. Apenas serviu-se novamente, sem encarar o homem ao seu lado. Reações que, obviamente, não passaram despercebidas aos olhos de Byakuya.

Francamente, porque ele parecia tão chateado? – Perguntava-se o patrão, sem entender o motivo de tamanho exagero – Encarou-o por alguns instantes, cogitando simplesmente pagar e ir embora naquele momento, contudo foi incapaz de sair ao observar-lhe o olhar de decepção.

— Não precisa se preocupar comigo, Renji. Sei cuidar de mim mesmo – Tentou tranquiliza-lo, falando em tom um pouco mais baixo.

— Certo, Kuchiki-san – Respondeu sem levantar o olhar, levando o copo à boca por alguns instantes, antes de completar – Desculpe a intromissão.

O que diabos o Abarai pretendia mostrando-lhe aquela expressão de cão sem dono? Achava que ele cairia em algum tipo de chantagem emocional? Queria faze-lo sentir-se culpado? Se era isso, estava conseguindo, pois Byakuya sentiu-se incapaz de repreende-lo. Ao contrário, chegou mais perto do outro, passando a mão suavemente sobre o topo de sua cabeça, como quem afaga um animal, enquanto tomava novamente a palavra.

— Não é nada demais, já disse. – Retirou a mão e levou-a novamente ao copo, adicionando antes de trazê-lo à boca – Estou apenas cansado e estressado graças à Rukia.

O Abarai retesou, virando-se para o outro rapidamente e arregalando os olhos como se estes fossem saltar das órbitas. Podia sentir o perfume suave dele, agora tão próximo, enquanto a sensação do toque rápido permanecia gravada em sua mente, reverberando ao ritmo do coração acelerado. Meu Deus! Aquilo só podia ter sido a sua imaginação, dizia a si mesmo enquanto observava o dono dos cabelos pretos sorvendo devagar um pouco mais da bebida forte. Encarou o terno alinhado e o semblante sério, lembrando-se que além das ações, ele também falara. O problema era Rukia, então?

Conhecia a irmã do chefe há bastante tempo, e inclusive mantinham contato com frequência. Ela costumava passar as tardes na empresa durante as férias de verão, para familiarizar-se com o ritmo do trabalho e aprender algo útil, segundo Byakuya. Sendo o responsável pela “jovem aprendiz” em todas essas ocasiões, criara, desde o começo, um vínculo com a pequena, como um irmão mais velho bem oposto ao verdadeiro. Tinha plena consciência de que os dois Kuchiki não se davam exatamente bem, entretanto, perguntava-se o que poderia ter ocorrido para gerar um estresse tão palpável para o mais velho.

— Entendo. – Começou, virando-se para o patrão, ainda com os olhos um pouco mais brilhantes após a experiência anterior – Esses problemas em família nos deixam mesmo em situações complicadas e às vezes são difíceis de lidar. Mas o que foi que aconteceu exatamente, Kuchiki-san?

O empresário acabou, a despeito dos esforços iniciais e sob protesto de sua racionalidade, dando-se por vencido, simplesmente respondendo ao que lhe fora perguntado. Sabia que o outro insistiria a noite inteira, se preciso, e já não lhe restava paciência para isso ou sangue frio para enxotá-lo. Virou-se de frente para o ruivo, fitando-o enquanto contava, inicialmente com reservas, sobre a pichação; as inconsequências de Rukia; e o castigo que lhe impusera. Não obstante, ao longo do relato, seus receios davam lugar ao raríssimo alívio de poder expressar suas frustrações, impulsionando-o a deixar de lado a frieza e explanar tudo em detalhes. Narrou com certa empolgação o comportamento de Isshin e Ichigo, enfatizando o repúdio que sentira por aquele projeto de pai e sua cria para, por fim, descrever alguns de seus receios quanto à educação da menina e o seu futuro.

Talvez houvesse estourado a sua cota anual de palavras naquela noite, mas de alguma forma sentia-se mais leve. Não é que no fundo o Abarai estava certo? – Concluía para si mesmo – Sim, fora bom conversar. Certamente se arrependeria profundamente disso quando estivesse sóbrio, entretanto, no momento, sentia-se muito bem, obrigado.

— Entendo o que você sente – Observou o mais novo, finalmente deixando o “senhor” de lado. Se o chefe concordara em conversar sobre algo tão pessoal, então talvez estivesse tudo bem em abandonar as formalidades por um tempo – Mas não acha que tirar tudo dela de uma vez pode ser demais? Talvez ela não encontre ânimo para os estudos se estiver nessas condições ou pode até acabar triste ou depressiva...

— Não fique ao lado dela, Renji – Censurou-o, em um tom um pouco mais grave – Ela precisa aprender e eu não serei tolerante dessa vez. Pode ficar triste ou me odiar o quanto desejar, isso não fará diferença.

O tatuado engoliu em seco, afastando um pouco a coluna e desviando momentaneamente o olhar. Não queria criar nenhum atrito ou intrometer-se ainda mais, no entanto, se pretendia ajudar, teria de dar os melhores conselhos possíveis... Mesmo que não conseguisse convencê-lo a abrandar as coisas, precisava, pelo menos, tentar dizer algo que pudesse melhorar o clima entre aqueles dois.

— Eu entendo seu ponto de vista, mas se ela não tiver nenhuma válvula de escape vai ficar improdutiva, não acha? – Relaxou os ombros, adotando uma postura descontraída enquanto falava, na tentativa de expressar seus posicionamentos sem tornar aquilo uma discussão. Resolvera começar apelando para o que sabia sobre gestão de funcionários em suas sugestões. Provavelmente argumentar nesse sentido surtiria algum efeito nele – Se um funcionário trabalha 24 horas por dia sem descanso ou lazer acaba rendendo menos do que se trabalhasse 8 horas corretamente, não é?

O moreno pensou um pouco, olhando-o de soslaio. Não lhe tirava a razão, entretanto, sabia que o caso de Rukia não era só questão de fazê-la render nos estudos. Ela não aprenderia se não fosse punida.

— Esse funcionário precisa também de um castigo, Renji. – Retrucou, ironizando-lhe o exemplo – Não se esqueça de que preciso corrigir-lhe o comportamento também. Não quero que se repita ou que ela acabe enveredando-se por caminhos inadequados.

— Ok, mas então por que não um meio termo? – Tentou, por fim – O senhor pode estipular horários em que ela, pelo menos, encontre os amigos, por exemplo.

— Não pretendo negociar essas condições, Renji.

— Compreendo que seja rigoroso assim nos primeiros dias, mas acho que manter isso por mais de um mês só vai piorar a relação de vocês e não daria em nada muito bom. – Terminou, imaginando cenas tragicamente inusitadas, como o Kuchiki em desespero depois de Rukia fugir com um grupo de hippies ou quaisquer outros incidentes do gênero.

— Pensarei sobre isso com calma posteriormente. – Acabou cedendo um pouco, ao menos naquela hora. De certa forma, apreciava a vontade de ajudar do outro, então deixaria por isso, mesmo não o considerando muito apto como conselheiro.

— Combinado. Espero que fique tudo bem – Desejou com um sorriso sincero – Obrigado por conversar sobre isso, Byakuya. Obrigado por confiar em mim. – Acrescentou, numa expressão que passava mais seriedade do que o habitual, as palavras externando uma lealdade pungente e a satisfação de sentir-se relevante para o homem.

O moreno o fitou por alguns segundos, mantendo-se firme como se desejasse atravessar-lhe o corpo com o olhar. Habituara-se tão perfeitamente a abdicar de si mesmo e adotar uma postura estoica diante de tudo, que era estranho deparar-se com uma situação daquelas, vendo-se envolto por tanta amabilidade e consideração por parte do outro. Odiaria admitir, mas a possibilidade de deixar-se contar com alguém além de si mesmo lhe parecia agora uma ideia tentadora. De toda forma, tratou de afastar esse tipo de hipótese, recuperando-se rapidamente do transe criado pelo comportamento alheio; abaixando o olhar ao estender uma mão ao tatuado, num cumprimento ocidental.

— Não se preocupe... – Tentou começar, em tom um pouco mais formal, tão logo viu correspondido o seu gesto. No entanto, foi interrompido pelo funcionário.

Aproveitando o ensejo após corresponder-lhe o aperto de mãos, o ruivo tomou a liberdade de puxar-lhe para um inesperado abraço. Em um movimento rápido, apesar de suave, venceu a já curta distância entre os corpos e colou seu tronco ao de um Byakuya mais do que surpreso. Apoiou o queixo no ombro do moreno, respirando fundo enquanto o envolvia com os braços e sussurrava:

— Sei que não sou lá essas coisas, mas pode sempre contar comigo. – Fechou os olhos, apertando-o um pouco mais, aproveitando aquela deliciosa sensação de aconchego sem importar-se com o que viria depois ou com o que o outro diria quando o soltasse. Estava feliz com tudo o que ocorrera naquela noite e sentia que podia passar-lhe todos os bons sentimentos com esse abraço.

Byakuya, por sua vez, não sabia bem como reagir. Estava parado, tendo as narinas invadidas pela fragrância almiscarada que se desprendia do corpo alheio, respirando um pouco mais profundamente enquanto sentia as mãos do outro passearem suavemente por suas costas, a mente em branco por uma fração de segundo que parecia eterna.

Esforçou-se para voltar a si, correspondendo ao gesto sem muitos movimentos, apenas colocando uma das mãos inicialmente à altura das omoplatas do ruivo, traçando o caminho até o meio das costas e deixando-a repousar ali enquanto durava o contato. Era só um abraço, e por mais desacostumado que estivesse com demonstrações de afeto e palavras de carinho ou lealdade, não poderia sobressaltar-se por tão pouco. Mesmo consciente disso, parecia haver em sua mente apenas uma tela azul com uma mensagem de “erro no sistema” piscando.

Questionava-se por que Renji o segurava tão firmemente e, principalmente, por que ele próprio queria tanto manter o tatuado em seus braços por tempo indeterminado. Já estavam ali, sentindo o odor e a sensação um do outro havia mais tempo do que seria adequado e se alguém passasse naquele momento provavelmente os confundiria com... Um casal! – Concluiu num sobressalto, abandonando o estado letárgico.

— Agradeço – Disse o moreno, finalmente agindo de modo racional e afastando o mais novo delicadamente. – Conte comigo também. – Adicionou, tomando distância novamente e tentando expulsar da mente a ideia de ter o Abarai em seus braços como um amante. O corpo quente movendo-se lascivo e segurando-o do modo típico do subordinado: forte, mas gentil... A pele levemente bronzeada coberta de suor, tendo espasmos de acordo com seus toques, a boca entreaberta gemendo-lhe o nome num tom rouco...

— Byakuya...? – O tatuado chamou a atenção dele com a mão, retirando-o do transe. Nunca vira o Kuchiki distraído assim e até sentiu-se tentado a observar um pouco mais, entretanto, acabou considerando sensato chama-lo e evitar alguma situação embaraçosa depois. – Vou pedir outra rodada. Quer alguma coisa também?

O moreno retesou, assentindo com a cabeça afirmativamente e olhando quieto para alguma outra direção, escondendo o nervosismo. Por sorte, Renji não era o tipo de pessoa que deixa o silêncio dominar um ambiente, então foi logo arranjando algum assunto mais divertido para entretê-lo, voltando ao tom animado com que conversavam antes de chegarem aos assuntos problemáticos.

Quase 01h00min da madrugada, Byakuya deixava o bar, completamente ébrio, sendo amparado a contragosto por Renji enquanto caminhava até o taxi.

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— Hey! Cuidado com o degrau! – Advertiu o ruivo, segurando o chefe pelo braço e salvando-o de uma queda ao descer da calçada, em direção ao veículo que viera buscá-los – O senhor está bem?

— Claro. – Rebateu de imediato, os dedos finos envolvendo a maçaneta enquanto olhava para um ponto qualquer, como se o seu interlocutor estivesse ali – Já disse que não preciso... – Interrompeu-se, encontrando dificuldades para abri-la. – Abra essa porta! – Ordenou, voltando ao discurso assim que o subordinado o obedeceu – Já disse que não preciso de ajuda!

— Acredito em você – Comentou o tatuado, os lábios movendo-se em um sorriso largo diante da evidente falta de nexo do outro – Mas ainda assim vou te acompanhar até a sua casa. – Postulou, entrando no carro junto ao patrão.

— Francamente – Bufou o moreno, recostando-se no assento enquanto o mais novo passava as coordenadas ao motorista – Você é mesmo um tolo desobediente, Abarai.

— Sim, senhor. – A resposta veio em tom brincalhão, acompanhada por uma continência, enquanto o carro arrancava – Mas sou o melhor tolo que você poderia querer. – Completou piscando um olho, apenas para ser solenemente ignorado pelo mais velho.

Fizera tudo por impulso, mas agora pensava como seria invadir assim a residência do patrão. Sabia que desde a morte da esposa, Byakuya e a irmã eram os únicos que moravam lá, cercados por empegados e todos os tipos de mordomias, entretanto, perguntava-se qual seria o impacto caso algum funcionário visse o chefe chegar naquele estado, acompanhado de um ruivo musculoso e coberto de tatuagens. E Rukia? O que diria se estivesse acordada? Será que desconfiaria de algo? – Mergulhava fundo em seus devaneios, a mente agitada diante de tantas possibilidades – Espera... Desconfiar do quê? Não é como se tivessem feito algo além de beber e conversar. Nem nunca fariam, pelo andar da carruagem. Não queria admitir que pudesse sentir algo além de amizade e respeito por aquele homem frio e rigoroso, mas também não podia deixar de ser sincero consigo mesmo.

Mordendo o lábio inferior, voltou-se para o moreno sentado ao seu lado, já adormecido. O semblante antes grave, agora se mostrava sereno, iluminado pelas luzes disformes da cidade, entrando em cores variadas através da janela, percorrendo a pele alva de acordo com a velocidade do veículo. Os olhos castanhos cintilaram por um instante, inundados por aquela cena banal, mas ainda assim capaz de evocar-lhe os sentimentos mais intimamente guardados.

Os momentos que já passara junto ao Kuchiki emergiram, acompanhados pelas brincadeiras dos amigos, os comentários de Rangiku, sempre cheia de insinuações sobre o seu comportamento. Como conseguira negar por tanto tempo? – As sensações vinham à tona em uma espécie de epifania, obrigando-o a encarar a realidade – Precisava confessar a si mesmo o que já sentia há muito tempo, mas insistia em não denominar corretamente... Estava... Mas que diabo! Estava perdidamente apaixonado por Byakuya.

Pronto. Dali não teria volta.

Não era de sua natureza esconder seus desejos dos outros, pior ainda de si mesmo! Não poderia mais chamar de “Comprometimento” e “Admiração” o que na verdade era “Desejo” e “Amor”. O amava há muito tempo, embora só agora desse a esse sentimento o nome correto, e a cada segundo só tinha mais certeza disso. Era um amor impossível? Certamente. Mas o que era mais uma meta inalcançável em sua vida? Já estava acostumado a querer o que nunca teria, na verdade.

Colocou a mão sobre a do outro, sem que nem o moreno notasse. Respirava fundo, tentando acalmar o coração e conformar-se com a nova percepção que tomava de seus próprios sentimentos. Eram muitas perguntas e suposições rodando em sua cabeça, mas tinha certeza de duas coisas:

Que o amava mais do que a si mesmo e que, uma hora ou outra, quebraria aquela muralha que o Byakuya erguera.

Levaria o tempo que fosse, mas daria seu jeito de encontrar algum ponto vulnerável, algum meio de chegar até ele, de fortalecer os laços e alcançar o inalcançável. Poderia ser só um babuíno lançando-se no reflexo da lua em um lago, na tentativa de chegar a ela, mas tentaria morder a lua mesmo assim.

Notas finais
A composição do título é a abertura da ópera Carmen, de Bizet. Especificamente, escolhi a versão da sinfônica de Budapeste, que vocês podem encontrar no youtube (nem sei se alguém repara nesses títulos, mas ficam as referências). A descrição do bar onde Byakuya e Renji estiveram foi livremente inspirada em um bar real (The Aldgate), localizado em Shibuya, Tokyo. Para quem está aguardando GrimxIchi, peço a paciência de vocês, meus amores. No meu planejamento o Grimmy aparece no capítulo 6 (por que né? Número dele kkkk), mas se puder dividir as coisas para que ele chegue antes, farei isso. Beijos e espero que estejam gostando da história.