Auribus teneo lupum

12 Dance of the Hours


Notas iniciais
Gente, será que tem um limite para o quão feliz uma autora pode ficar com os leitores lindos que tem? Sério, vocês são uns amores. Só posso agradecer pelo carinho de todos e deixar minhas desculpas pela demora. Vou dedicar esse capítulo ao Akkira, à Peedeathnote e à LunaScott, porque eu não consegui responder aos comentários deles antes dessa postagem, mas farei isso o mais rápido possível. Li e adorei cada um deles. A composição de hoje é de Almicare Ponchielli. Link e glossário no final. Boa leitura!

— E então, como estão as coisas com o Grimmjow-sensei?

A voz de Rukia soou abafada aos ouvidos de Ichigo, vinda de algum ponto incerto por detrás da música alta que saía dos enormes headphones do rapaz, misturada ao som distorcido das palavras de Kurt Cobain em You know you're right, bem como ao típico burburinho dos estudantes durante os intervalos entre as aulas.

A garota abaixou-se, sentando-se no chão, sob a sombra de uma das grandes árvores espalhadas pelo gramado do Colégio. Aproximando-se mais do amigo, arrancou-lhe os fones sem qualquer cerimônia, aguardando uma resposta para o questionamento que fizera.

– O que têm? – Tentou esquivar-se, jogando outra pergunta enquanto pausava o reprodutor de músicas do celular.

— Vocês estão saindo, né? – Soltou com certa malícia, observando o rapaz praticamente engasgar de constrangimento, os ombros imediatamente ficando rígidos, em uma estranha postura defensiva.

— A gente não está "saindo", Rukia – Repetiu, enfatizando o termo utilizado pela menina. – Eu só estive com ele uma vez desde o bunka no hi, mas como amigos, mesmo.

— E você queria que houvesse algo além de amizade? – A menina retrucou, fingindo surpresa.

— Não! – Exclamou de imediato, exaltando-se sem querer. Aquela peste estava jogando verde ou o quê? – Eu quis dizer que... – Interrompeu-se, falhando na tentativa de construir um argumento que não o comprometesse mais – Ah, esquece.

— Quando você pretendia me contar? – A menina o surpreendeu, a expressão tornando-se repentinamente séria.

– Não sei do que diabos você está falando. – Fez-se de desentendido, desviando o olhar para qualquer outro ponto além do rosto da menina, os dedos passeando nervosamente pelos fios do headphone, enrolando-os em pequenos cachinhos.

— Eu estava te esperando me dizer, mas você sabe muito bem que eu já percebi há um tempo como você se sente com relação a ele – Soltou num suspiro, virando um pouco o corpo para o lado e apoiando folgadamente as costas em um dos braços do rapaz. – Você devia contar mais comigo, idiota.

O ruivo retesou, fechando os olhos enquanto puxava o ar com força, deixando que os pulmões se enchessem para expirar longamente depois. Encostou melhor a cabeça no tronco espesso do bordo japonês, voltando o olhar para o alto, observando o céu por entre as folhas vermelhas da árvore; a luz chegando aos fiapos por entre os espaços na copa.

Naquela segunda-feira, faziam duas semanas desde que se "reconciliara" com o professor no templo, e desde então as coisas desenvolviam-se mais tranquilamente entre os dois. Sabia que a intervenção de Rukia também os ajudara, de alguma forma, a se entenderem, e concluíra mesmo que ela percebera toda a situação. Entretanto, evitara comentar qualquer coisa sobre o assunto com a morena desde então.

Não tinha intenção de esconder nada da amiga, mas também não se sentia confortável o suficiente para tratar abertamente do tema com alguém. Já era difícil entender a si mesmo, imagina falar com outras pessoas! Além disso, estava se esforçando para esquecer qualquer sentimento romântico com relação ao homem, portanto lhe parecia mais adequado evitar esses tópicos.

Contudo, era reconfortante sentir que não estava sendo julgado por ela. A Kuchiki estava ali, agindo com a mesma preocupação e vontade de ser útil que mostraria se o alvo de seus sentimentos fosse alguma menina de seu grupo de amigos.

Talvez tivesse mesmo sorte de poder contar com uma amiga assim.

— Não é bem como você está pensando. Eu só quero ser amigo dele. Sério. – Quando finalmente respondeu, tentou passar alguma firmeza em seu posicionamento.

— Sei... – Replicou, um tanto desconfiada – Mas se você o ama de verdade, sabe que não vai ser fácil esquecer isso, né? – Perguntou, virando um pouco o pescoço para trás, de modo a encará-lo.

O Kurosaki teve um sobressalto, pego desprevenido por uma menção tão direta a seus sentimentos, sobretudo com uma expressão tão forte quanto “amor”. Teve de refletir por alguns momentos, mantendo o silêncio enquanto organizava mentalmente as palavras, antes de finalmente pronunciar-se:

— A questão é que não tem como dar certo. Eu nunca nem gostei de homens, e ele é meu professor... Acho que se eu me esforçar vou esquecer esse sentimento alguma hora.

— Não falta muito para o ano acabar. Ele não vai ser seu professor pra sempre, sabia? – Ela comentou de forma otimista, como se de súbito uma epifania lhe houvesse ressaltado esses fatos. Saiu de sua posição, virando-se novamente de frente para ele enquanto concluía de maneira empolgada – Você não precisa desistir dele, Ichi. Só precisa ter paciência até estarem em uma situação em que possam ficar juntos sem problemas. – Seu tom fazia parecer que acabara de mergulhar em um romance clássico, fantasiando sobre amores proibidos e as possibilidades de os protagonistas separados pelo destino unirem-se apesar das circunstâncias.

— Sem problemas? Ele é homem, Rukia. Sempre vai ter problema. – Replicou em tom pessimista, apesar de ter sentido uma inquietante esperança brotar no peito graças às palavras da garota.

— Nossa, Ichigo. Que mente fechada... – Soltou numa risada descontraída – Ninguém devia ser proibido de amar por culpa do gênero. Eu sei que sempre vai haver preconceito, mas você não pode deixar de viver sua vida como quer por causa disso. Até o Nii-san... – Parou, prestes a falar mais do que deveria e comentar sobre o relacionamento do irmão Entretanto, rapidamente reorganizou a frase – Até o Nii-san já tem opiniões abertas sobre essa questão – Completou.

— Sério? – Surpreendeu-se com a revelação. Não achava que o Kuchiki fosse algum ferrenho defensor da família tradicional, entretanto, também não imaginaria que ele estivesse livre dos preconceitos com relação à questão LGBT, tão fortes em todo o Japão.

— Hn. – A menina assentiu, colocando uma mão sobre o ombro do morango – E você também não devia ter preconceito consigo mesmo.

O rapaz teve de refletir sobre o comentário. Não havia olhado as coisas sob esse ângulo, supondo que também não houvesse aceitado perfeitamente sua orientação. Bom, ainda estava descobrindo essas coisas, então não conseguiria se adaptar a tudo do dia pra noite. Ainda assim, aquela conversa estava sendo estranhamente esclarecedora. Mesmo que não conseguisse conceber bem a ideia de se declarar homoafetivo, talvez devesse pensar um pouco mais sobre quem costumava ser e quem gostaria de ser, dali em diante.

— Ok. Eu vou tentar me entender – Era o que podia prometer naquela situação. – Mas quanto ao Grimmjow-san eu ainda não sei se é bom continuar tentando. Nem sei se ele, hn... – Parou por um instante, diminuindo inconscientemente o volume da voz antes de prosseguir – Gosta de caras.

— Isso a gente vai conseguir descobrir mais cedo ou mais tarde, Ichi. Eu mesma posso tentar te ajudar! – Exclamou, mil planos trespassando a mente hiperativa – Posso perguntar pro Renji.

— Aquele ruivo das tatuagens que estava no templo?

— Isso. Ele trabalha com o Nii-san e agora sei que é bem amigo do sensei.

— Valeu, mas não precisa, Rukia. Sem falar que pode ser estranho você perguntando sobre esses assuntos e... – O garoto tentou recusar a oferta, mas a menina não lhe deu chance para tanto..

— Assim que eu souber venho lhe dizer. Vou reunir as informações que conseguir – Comentou, os olhos brilhando enquanto levantava-se, ansiosa pela próxima missão de cupido. – Agora é melhor irmos pra sala antes que o horário de almoço acabe.

— Não precisa fazer nada disso. – Tentou novamente, as sobrancelhas franzidas em discordância enquanto ficava de pé para acompanhá-la.

— Mas eu vou mesmo assim. E só vou te cobrar um pote de Soul Candy do Chappy pelo trabalho – Retrucou, referindo-se a uma marca de doces extremamente popular em Karakura.

— Você ainda vai passar mal comendo essas porcarias. Devem ter drogas na fórmula daquilo.

— Um dia você vai entender a perfeição desses doces. Quando comemos, é como se a nossa alma se desprendesse do corpo de tanta felicidade – Comentava, propagandeando as guloseimas enquanto os dois se dirigiram à sala.

A morena ficara feliz de sentir certa confiança da parte do outro, apesar de ter sido necessário que ela trouxesse o assunto à tona. Realmente pretendia esforçar-se para incentivá-lo como pudesse, além disso, aproveitaria o fato de seu irmão ter recentemente lhe devolvido o aparelho celular para que pudesse contatar o Abarai com facilidade, mesmo fora dos sábados nos quais comparecia à empresa.

Byakuya ainda era orgulhoso demais para voltar atrás com sua palavra sem uma justificativa muito boa; então ela só estaria totalmente livre dos castigos e restrições quando mostrasse seu boletim impecável. Todavia, como um prêmio pelo bom comportamento até então, ele retornara o aparelho, exigindo apenas que o usasse moderadamente.

Era um avanço enorme, considerando que com o smarthphone ela teria acesso às ligações, Internet, mensagens e tudo o que a tecnologia do século XXI consegue colocar em um aparelho que cabe nas mãos. E ainda via a possibilidade de as coisas tornarem-se gradualmente mais brandas, sobretudo considerando o estado de humor bem mais positivo do irmão nas últimas semanas. Renji sem dúvidas o estava fazendo muito bem – Concluía, deixando as reflexões para mais tarde e comunicando aos amigos a novidade acerca do celular, tão logo chegava à sala de aula.

Até que as coisas pareciam estar se ajustando pra todo mundo, afinal.


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— Pode fazer com mais força, Renji – Byakuya pedia, a voz grave saindo num sussurro, bem próxima à orelha do ruivo.

— Assim está bom, Kuchiki-san? – Perguntou, movendo os dedos longos com maior precisão e intensidade, aguardando ansiosamente a reação do chefe.

— Isso... – O mais velho confirmava, descendo a mão esguia e colocando-a sobre a do funcionário, indicando-lhe como deveria continuar a movimentá-la, os dedos de ambos entrelaçados em gestos ritmados.

— Ah, está bem melhor do que eu poderia imaginar. O senhor é mesmo habilidoso – O tatuado deixou escapar, ainda surpreso com o desenrolar da situação.

Na propriedade de Byakuya, Renji encontrava-se sentado sobre uma almofada, diante da mesa em estilo japonês de um dos cômodos, todo decorado à moda tradicional. Em uma das mãos, segurava o longo pincel da prática de Shodô, traçando, com o auxílio do Kuchiki, alguns Kanjis sobre o papel delicado. O empresário mantinha-se às suas costas, a mão sobre a dele de modo a ensinar-lhe os traçados corretos até que pudesse fazê-lo por conta própria.

Desde aquele passeio ao templo no começo de novembro, quase vinte dias antes, o moreno cultivava a ideia de aproveitar algum momento para tentar ensinar ao amante a arte da caligrafia japonesa, e embora o ruivo já houvesse comparecido à sua casa outras duas ou três vezes nesse intervalo, aquela era a primeira vez que estavam realmente à vontade, tranquilos o suficiente para executar o seu plano de praticar Shodô.

Graças a algumas mudanças que precisara fazer em sua agenda durante a semana, as quais o obrigariam a comparecer, junto ao subordinado, a uma reunião com acionistas no dia seguinte, os dois haviam se programado para tirar a folga semanal naquele sábado.

Usualmente, sequer fazia questão de tirar um dia para o descanso toda semana, contudo, decidira aproveitar essa oportunidade de ter algum tempo com o tatuado, convidando-o para passar a manhã em sua casa. Rukia se encontrava em aula naquele horário, todavia, teria feito o convite ainda que a menina também estivesse em casa.

Acreditava estar se saindo bem em manter o Abarai presente na rotina da irmã, e já supunha que ela estivesse começando a compreender a situação. Ainda não haviam conversado diretamente sobre o assunto, contudo, a jovem fazia questão de mostrar posicionamentos bastante abertos quanto a questões de gênero e sexualidade, tecendo comentários favoráveis em suas conversas sempre que surgia oportunidade, fosse ao ver alguma notícia que envolvesse o tema, um filme, livro ou qualquer coisa do gênero.

Ademais, o Kuchiki era plenamente capaz de ler entrelinhas e julgar mesmo os mínimos comportamentos de qualquer pessoa. Sabia bem que a menina era perspicaz, e isso o dava ainda mais certeza de que ela já tinha consciência de sua relação com o subordinado.

De todo modo, mais cedo ou mais tarde, comentaria tudo com ela diretamente. Já tinha o coração em paz simplesmente por confirmar suas suposições e saber que aquilo provavelmente não seria um problema para a menina.

— Kuchiki-san... – Renji chamou, notando-o disperso, ainda que parecesse atento.

Estava mais do que acostumado a observar o moreno, geralmente frustrando-se ao tentar ler-lhe as emoções por detrás da frieza usual. Contudo, conforme ganhavam proximidade, o Abarai sentia-se mais apto a compreendê-lo, de algum modo. Conseguia perceber que sua expressão, embora aparentasse atenção à primeira vista, estava dispersa.

Quando se focava em algo, o Kuchiki mantinha um olhar firme o tempo todo, com todo o corpo voltado para o que fizesse. Quando deixava os olhos mais baixos, acompanhando a postura um tanto mais relaxada, provavelmente estava com a mente mergulhada em algum pensamento diverso.

Agora conseguia estar com ele mais intimamente, descobrindo novas expressões, manias, trejeitos... Detalhes aos quais nunca imaginara que teria acesso. E o mais incrível é que a cada pedacinho de Kuchiki Byakuya que ia descobrindo, só conseguia se sentir mais profundamente apaixonado por aquele homem.

— Você fez muito bem – O chefe o parabenizou, saindo de suas reflexões sobre a irmã – A sensação da prática é extremamente relaxante, não é?

O ruivo virou um pouco a cabeça para trás, tentando encontrar uma maneira gentil de dizer que aquele tipo de arte extremamente delicada era difícil demais para ser tão agradável assim. Contudo, acreditava que se divertiria fazendo qualquer coisa se estivesse na companhia do patrão, e o Shodô não era exceção.

— Não sei se eu levo muito jeito pra esse tipo de coisa, mas acho que ter o senhor me ensinando foi a melhor parte – Comentou com um sorriso malicioso, deixando que o pincel descansasse no apoio apropriado e girando totalmente o corpo, de modo a encarar o companheiro.

— Entendo. – O mais velho deixou escapar, colocando um dos braços sobre o ombro alheio, descendo-o até que segurasse a mão do tatuado. Trouxe-a junto ao rosto, depositando-lhe um beijo suave antes de puxá-lo delicadamente, ao que o maior moveu-se em silêncio, inclinando o corpo para frente, guiado pelo toque macio do amante; estendeu a mão livre até envolver o pescoço do moreno, aproximando-se numa espécie de abraço.

— Sendo assim, da próxima vez você escolhe o que faremos – O mais velho sugeriu, esboçando um sorriso discreto ao observar o semblante surpreso do outro.

— Quer dizer algum hobby meu? – O ruivo perguntou, imediatamente imaginado Byakuya em um pub, um cassino ou uma casa de jogos; incapaz de decidir qual situação seria mais incomum.

— Me parece justo que conheçamos os gostos um do outro – A resposta veio instantaneamente. – Suponho que tenhamos hábitos bastante diferentes, mas não considero isso ruim.

— Então... – Ponderou, buscando na mente algo que pudessem fazer juntos – O senhor já jogou vídeo game? – Perguntou, empurrando-o um pouco para que saísse da posição de lótus e lhe permitisse sentar entre suas pernas. Aconchegou-se melhor por ali, apoiando a lateral do corpo no tronco do moreno, os lábios roçando em seu pescoço.

— Creio que não.

— Certo. Então podemos tentar numa próxima. – Concluiu, rindo consigo mesmo ao conceber a ideia de Kuchiki Byakuya jogando qualquer coisa.

— Hn. – Assentiu, envolvendo-o com os braços, sentindo a boca do outro mover-se em seu pescoço, cobrindo-o de pequenos beijos.

Mantiveram-se num contato silencioso, sentindo o odor um do outro, aproveitando a proximidade do abraço acompanhado por pequenos carinhos até que leves batidas na porta os retiraram de seu aconchego. Um dos empregados da casa vinha comunicar que o almoço já estava servido.

O senhor de semblante austero encarou gravemente o patrão e seu convidado por alguns momentos quando a porta foi aberta, voltando os olhos para dentro da sala ao pedir licença para retirar-se. Ostentou uma expressão mais amena antes de desaparecer pelos corredores, como se a visão dos materiais de Shodô dentro do cômodo houvessem explicado suficientemente o fato de os dois terem passado as últimas horas trancados no aposento.

Certamente os empregados começavam a perguntar-se o motivo de a presença daquele ruivo estar tornando-se constante na casa Kuchiki. Seria fácil atribuir qualquer coisa ao trabalho, mas Byakuya nunca tivera o costume de receber colegas ou clientes em sua propriedade, à exceção de eventos planejados com esse fim ou reuniões que pedissem um clima mais privativo. Entendia que começassem à formular hipóteses, e mais cedo ou mais tarde algum deles poderia mesmo acertar.

Voltando-se para Renji, o empresário notou-o desconfortável, concluindo que também captara o olhar de suspeita do empregado da casa.

Já sabia que o Abarai não tinha problema em revelar sua sexualidade, então só podia imaginar a angústia de ter de manter seu caso em segredo. Sinceramente, também não se sentia bem tendo de esconder-se, mas não estava preparado para esse tipo de revelação. Sequer falara propriamente com Rukia, quanto mais expor-se aos demais.

Embora somente ele e a irmã morassem atualmente na propriedade herdada de seus pais, o homem tinha muitos outros parentes em Karakura, visto que a família Kuchiki era uma das mais tradicionais da cidade. Muitos deles, inclusive, tinham grandes parcelas de ações da Kuchiki CO., Ltd., unindo-se a outros acionistas de porte na composição do Conselho de Administração da empresa; da Assembleia Geral; do Conselho Fiscal; etc.

Como sócio majoritário, Byakuya era o CEO, cumulando os encargos de Diretor Executivo e chefe do Conselho de Administração, contudo, ainda devia satisfações aos demais em determinados pontos.

O CEO é o rosto que representa a empresa. A pessoa com habilidade para estar à frente de toda a organização. Por mais estável que estivesse em seu cargo, independentemente de sua competência para a função, um escândalo com relação à sua sexualidade poderia, sim, colocar em xeque sua liderança.

Por este e muitos outros fatores, teria de sacrificar o bem-estar pessoal em nome da estabilidade, ao menos por enquanto.

Com relação aos empregados, sabia que seria um incômodo ter de se preocupar em esconder deles cada um de seus passos; já bastava ter de esconder-se quando em público, não faria o mesmo na própria casa. Teria de contar com o profissionalismo de cada um; mesmo que deduzissem o que ocorria e não se agradassem com o fato, acreditava que nenhum deles espalharia qualquer boato. A maioria estava na casa há anos e sempre foram pessoas de confiança.

Finalmente, deixou de lado reflexões tão complicadas, pedindo que o Abarai o acompanhasse até a mesa. Supôs que acertara na escolha dos pratos do dia, pois o ruivo provava cada coisa com a expressão emanando alegria pelo cômodo.

É bem verdade que nas visitas à casa, salvo aquela noite em que estavam alcoolizados, ele sempre parecia estar pisando em ovos, tomando muito cuidado para comportar-se devidamente. Contudo, naquele sábado, Renji já parecia mais ele mesmo, os ombros relaxados e as pernas distantes, soltas na cadeira sem preocupação com a postura.

No fim, o encontro seguiu agradável. Rukia acabou juntando-se a eles mais tarde, e Byakuya teve até a impressão de que pareciam mesmo uma família, sentados na sala enquanto jogavam Shogi e conversavam. Rukia e Renji provocavam um ao outro, tal qual irmãos, e o Kuchiki divertia-se com o cenário animado, empenhando-se na tentativa de ensina-los à jogar adequadamente. Talvez eles nunca aprendessem as intrincadas estratégias do jogo de tabuleiro, mas isso já não lhe importava.

Podia dizer que começava a se sentir feliz com a mudança que o ruivo fizera em sua vida, ainda que o futuro continuasse a parecer incerto.


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No último sábado de novembro, a cidade de Karakura recebia o sopro gelado do vento, arrancando das árvores as folhas que o outono vinha tingindo com suas cores. Um tapete laranja e vermelho estendia-se ao longo da calçada por onde Ichigo caminhava, os galhos secos emitindo barulhos ruidosos ao serem pisoteados pelos transeuntes.

Absorto em pensamentos, o jovem seguia desatento, protegido da ventania pelo casaco pesado que trazia no corpo, acompanhando o jeans escuro e um gorro quentinho. Vez ou outra, enfiava a mão no bolso da calça, arrancando dali um pedaço de papel contendo, em sua caligrafia rabiscada, um endereço. Encarava a tinta azul da caneta por alguns instantes, conferindo novamente as palavras até ter certeza de que estava mesmo no caminho certo.

Vinha repetindo esse ritual desde que saíra de casa, mesmo sabendo não haver motivo para tanta ansiedade. Só ia à um restaurante! Contudo, bastava lembrar com quem iria para entrar em pane novamente, o nervosismo sendo exalado pelos poros.

Nos últimos dias, passara a conversar mais com Grimmjow por mensagens, casualmente batendo papo sobre qualquer assunto que surgisse. Tudo começara quando Ichigo pedira ao professor para enviar-lhe as fotos que haviam tirado no templo, na área de Kendô. Desde então, seguiam usando o Line com certa frequência. E se o homem de cabelos azuis já não fazia o estereótipo de um educador quando em sala, fora dela ninguém seria capaz de adivinhar sua posição.

Talvez o jeito facilmente provocável lhe conferisse o ar jovial, mas a questão é que parecia mesmo um adolescente, as vezes mais brincalhão ou falando mais bobagens do que o próprio Ichigo.

A propósito, o garoto tinha de agradecer por não estarem ao vivo, visto que as piadinhas constantes o deixavam sempre nos mais altos níveis de constrangimento... Aquele babaca. – Ria consigo mesmo, concluindo que já fora zoado pelo resto do ano inteiro em poucos dias.

Na única vez que haviam "saído" após o dia da cultura, para um lanche casual ao final das aulas de um sábado, o mais velho fizera questão de brincar até com a sua escolha para a comida, alegando que o ruivo pedira a coisa mais ridiculamente fofinha e doce da cafeteria.

Admitia que a apresentação do prato era mesmo exagerada, mas como poderia ter imaginado que o "Rainbow Petit Gateau" do estabelecimento, descrito no cardápio como tendo apenas o diferencial de acompanhar o típico bolo de interior cremoso com sorvete de quatro sabores à escolha do freguês, viria no formato da cabeça de um urso, com o sorvete disposto de modo a formar uma espécie de cabelo colorido e extravagante ao redor do bolo de ursinho? Sério, nunca teria pedido aquilo se houvesse imaginado o quão chamativo o prato era!

Mas, estrago feito, teve de comer tudo ouvindo os gracejos de Grimmjow. Pelo menos a sobremesa era bem gostosa...

Após mais alguma caminhada, parava às portas bem iluminadas da entrada do restaurante. Na fachada chamativa, piscava o nome "Las Noches" num letreiro em neon, atraindo os olhos para suas combinação de vermelho, branco e verde.

O interior parecia convidativo, decorado com temas mexicanos que remetiam a um clima de cozinha caseira. Enfeites e quadros ao longo das paredes combinavam com os móveis de madeira, unindo-se à iluminação quente para criar uma sensação de aconchego.

À direita, próximos ao centro do salão, já se encontrava o grupo que Ichigo esperava ver. O cabelo azul de Grimmjow destacava-se, tirando qualquer chance de engano; estava de costas para a entrada, conversando com uma mulher de longos cabelos ruivos.

Repentinamente tímido, o Kurosaki até cogitou desistir e voltar para casa, mas concluiu que seria meio estúpido de sua parte depois de ter chegado até ali. Além disso, fora quase um milagre conseguir que Byakuya desse permissão à Rukia para acompanhá-lo ao restaurante também. Não imaginava quais as circunstâncias da negociação, mas estava feliz por imaginar que a teria por perto.

Enfim, respirou fundo, colocando os pés para dentro ainda meio hesitante, rumando em direção ao grupo com sua expressão desconfiada, de sobrancelhas franzidas.

— Hn, Grimmjow-san... – Chamou, parando próximo à mesa.

— Hey, Kurosaki. Senta aí – O professor cumprimentou, indicando um lugar vazio ao seu lado. – O resto do pessoal ainda não chegou, mas já pedimos umas coisas.

— Ok – Respondeu automaticamente, tomando o lugar com a sensação de que todos os olhos da mesa o encaravam. E para o seu azar, Rukia ainda não tinha chegado.

— Ah, então esse é o famoso Kurosaki? – A ruiva a qual avistara ao chegar perguntou, soltando um sorriso na direção do garoto – Eu sou Rangiku, prazer. – Adicionou, curvando-se por cima de Grimmjow.

— O prazer é meu. – Respondeu num sussurro, meio pra dentro. O professor tinha falado dele para todo mundo que conhecia, por acaso? – Perguntou-se, encarando o homem de soslaio.

— Aposto que esse idiota nem te agradeceu direito ainda, né? – A mulher perguntou a Ichigo, fazendo uma careta enquanto apontava para o homem.

— Porra, Rangiku. – O professor soltou, empurrando-a até que estivesse restrita ao espaço de seu próprio assento. – Dá pra parar de falar merda?

— Ele é estressado assim, mas no fundo é uma boa pessoa – Uma garota de cabelos escuros se manifestou, chamando a atenção de Ichigo. Não parecia ter muito mais que a idade dele, inclusive – Eu sou a Hinamori. – Comentou, sorrindo delicadamente.

Perto dela, um rapaz que aparentava talvez uns 15 anos fez um muxoxo, os cabelos brancos chamando ainda mais atenção do que os olhos claros.

— O Grimmjow deu sorte de ter alguém pra salvar a pele dele dessa vez. – O garoto comentou, soltando o ar de maneira entediada. Brincava com o gelo em um copo de refrigerante, observando as pedras balançarem, chocando-se contra o vidro num tilintar ritmado.

O último dos presentes, um homem de cabelos pretos e exóticas tatuagens no rosto, pareceu notar a expressão de estranhamento de Ichigo, pronunciando-se para dar-lhe algum esclarecimento:

— Nós soubemos do incidente na sua escola. Foi bem legal da sua parte ter interferindo mesmo num caso complicado desses.

— Não foi nada, na verdade... – Soltou, voltando o rosto para Grimmjow em busca de uma explicação para o fato de todos na mesa aparentarem saber detalhes sobre a situação.

— Nem olha pra mim – O mais velho levantou um pouco as mãos, como que se declarando inocente. – Eu só falei pro Renji.

— Sei... – Soltou, lembrando-se com relativo temor da promessa de Rukia sobre interrogar o tal Renji a respeito de Grimmjow.

— Bom, estamos todos entre amigos aqui. – Matsumoto comentou – Seja bem-vindo, hn?

— Obrigado. – Disse, passando os olhos por aquelas pessoas, incapaz de decidir quem possuía o visual mais chamativo.

Ainda que só conhecesse Grimmjow, surpreendeu-se por conseguir rapidamente interagir com todos ali. Pensou que não estaria confortável enquanto Rukia não chegasse, mas pegou-se tragado para a conversa animada daquele pessoal, aos poucos descobrindo quem era quem ali.

Contudo, o ponto mais inusitado até então foi ver a amiga chegando acompanhada pelo Abarai e por Byakuya. Porque diabos o irmão dela estaria ali? Por acaso essa fora a condição para que ela pudesse sair do castigo por uma noite? – Perguntava-se incrédulo, encarando a menina em busca de explicações. Ela sentou-se à sua frente na mesa, enquanto o irmão e o cara das tatuagens acabaram nas duas cadeiras seguintes.

A chegada dos três pareceu trazer uma onda de animação, com uma série de cumprimentos e comentários espontâneos que pareceram deixar o Kuchiki um tanto desconfortável. Entretanto, o ruivo logo tratou de cumprimentar à todos, explicando que ele e Rukia haviam trabalhado arduamente para convencer o chefe à aparecer.

Foi quando o morango lembrou-se que que já fora informado de que Renji trabalhava na empresa de Byakuya, descobrindo em seguida que tanto Rangiku quanto Hinamori também eram suas funcionárias. Bom, isso explicava a presença do homem, mas era até meio engraçado vê-lo juntar-se aos demais com sua expressão séria, o único usando terno e gravata ali.

Pouco depois, o tatuado já estava tagarelando sobre o encontro que tiveram no templo, antes de ouvir as reclamações de Grimmjow por ter dado detalhes do caso envolvendo Ichigo e toda a história com Sayuri aos demais, reclamações estas as quais ignorou complemente, causando uma briguinha digna de crianças da quinta série. Byakuya pareceu surpreso com esses fatos, mas se levou algo à mal, não demonstrou. Restringiu-se a comentar que o professor agira corretamente e a aluna merecera ser punida com uma expulsão após tudo aquilo.

Devido à proximidade, não arriscou perguntar nada à Rukia, mas confirmaria com ela se o Kuchiki não voltara à ter uma impressão ruim acerca dele por causa daquilo. Bom, certamente a opinião do moreno sobre Grimmjow havia mudado, não por qualquer fato relacionado àquela situação com a aluna, mas simplesmente porque dessa vez o homem de cabelos azuis não estava fazendo qualquer esforço para fingir polidez.

Inicialmente, via Byakuya restringir-se a conversar com Renji e Rukia, mas aos poucos até o grande empresário já interagira com os demais. Inclusive, fora relativamente amigável com Ichigo, questionando-lhe acerca dos estudos e de suas preferências quanto à carreira futura.

Parecia um bom presságio.

Quando os pedidos chegaram, todos na mesa já estavam entrosados, conversando como se sempre houvessem pertencido à mesma rodinha. Era estranho, mas o Kurosaki não pôde deixar de sentir-se "em casa" com aquela gente.

Soube que o garoto de cabelos brancos era um pouco mais velho do que parecia, entretanto, tinha somente 17 anos, a mesma idade que ele. Toushirou Hitsugaya era um desses prodígios que aparecem vez ou outra por aí e já cursava engenharia mecatrônica na mesma faculdade em que Grimmjow e Renji se formaram. Ao que parece, Hinamori ainda frequentava a instituição, cursando uma especialização no ramo de Engenharia Civil, e fora a responsável por introduzi-lo no grupo de amigos.

Rangiku e Shuuhei também formaram-se na mesma época que O Abarai, mas o moreno fizera jornalismo, ao que parece, o único a fugir da área de exatas naquele grupo. Também comentaram que costumavam sair com outros amigos dos tempos de faculdade, contudo, nem todos estavam livres naquela noite.

A comida do lugar era realmente boa. As especiarias complementando o sabor dos pratos coloridos faziam o gosto da maioria, embora Renji seguisse pedindo opções menos temperadas. Rukia, como de costume, provava de tudo, forçando Ichigo a também experimentar qualquer coisa que lhe chamasse a atenção,

Grimmjow fez questão de mencionar o incidente do Petit Gateou de ursinho, o que rendeu mais algum tempo de piadas e um Kurosaki prestes a decapitar seu professor de matemática.

De toda forma, a noite seguira muito melhor do que poderia ter imaginado quando recebera o convite de Grimmjow para que ele e Rukia o acompanhassem naquela ocasião. Não sabia ao certo o que esperar dos amigos dele, mas foi bom saber que eram pessoas legais.

— Mas e aí, gostou do lugar? – O homem de cabelos azuis perguntou casualmente quando Ichigo o avisou que já precisava ir embora.

— A comida é muito boa. – Comentou, passeando os olhos pelo ambiente antes de volta-los ao seu ouvinte – Gostei muito do estilo também. É bem diferente. – Soltou, pensando que precisava levar Chad ali qualquer dia. Era a cara dele.

— E a cerveja também é ótima. – O mais velho balançou o copo enquanto falava – Quando você tiver idade pra beber pode vir aqui experimentar. Quem sabe desiste das comidas de ursinho quando começar a tomar álcool. – Adicionou com um sorriso debochado.

— Já perdeu a graça, sabia? – Perguntou, uma veia de raiva latejando na testa – Não tem outra piada?

— Ah, tem aquela sobre você malhar muito a mão direita. – Falou, abrindo ainda mais o sorriso ao notar a vermelhidão do garoto – Tem que ir pra casa cedo pra ver seus filmes?

— Caralho, Grimmjow. De onde você tira essas merdas? – Questionou, tentando disfarçar o constrangimento – Teus amigos são bem mais legais que você...

— Aham... – Exclamou em tom sarcástico – E quem é que te fez ter uma crise de riso só com um comentário sobre o Shun? – Perguntou, lembrando ao garoto de quando o fizera passar alguns minutos rindo histericamente diante do celular enquanto os dois conversavam sobre Cavaleiros do Zodíaco.

— Ok, você tem um ponto. – Admitiu, estendendo a mão para cumprimenta-lo. – Mas agora eu tenho que ir. A gente se fala. – Terminou, batendo o punho fechado no do outro, em um toque de despedida, antes de levantar-se.

O garoto recebeu despedidas calorosas de alguns dos demais, tendo direito a Matsumoto lhe esmagando com os seios num abraço demorado e comentando sobre como ele era um ótimo rapaz, que certamente era uma companhia perfeita para Rukia. Aproveitando o ensejo, o Kuchiki anunciou que ele e a irmã também estavam de saída naquele momento, o que gerou uma nova onda de despedidas e abraços por parte de uma Rangiku já um tanto ébria.

Antes de sair, o rapaz acabou pegando os contatos de alguns dos que estavam ali, inclusive Renji, com quem se dera particularmente bem. Agora entendia que ele e Rukia fossem bastante amigos, já que o homem tinha um jeito alegre e meio bobo que realmente combinava com ela.

Na curta caminhada até a estação, observando o contraste entre as luzes fortes dos postes e a negtitude da noite, o morango seguia perguntando-se quando teria outras oportunidades de encontrar aquelas pessoas, em especial Grimmjow. Claro que podia vê-lo na escola, mas fora dela era tudo totalmente diferente. Tinha prometido a si mesmo que não alimentaria qualquer esperança romântica, mas estava difícil evitar a vontade de ter mais contato com o homem. Ele era sempre um babaca cabeça quente e egocêntrico, mas divertia-se quando estavam juntos...

Ao fim da noite, Ichigo ainda demorou a dormir. Grimmjow mandou algumas mensagens já meio bêbado, incluindo fotos dele e dos que ainda restavam na reunião de amigos.

Acabou pegando no sono bem tarde, adormecendo com o celular sob uma das mãos e o professor em seus pensamentos.

Notas finais
Estou deixando o link para a versão da música do título que aparece no filme Fantasia, da Disney. Para quem gosta de música clássica, vale a pena conferir o filme todo. https://www.youtube.com/watch?v=tOBp7H8RN4M Shodô é a arte da caligrafia japonesa A terminação Co., LTD. é a versão ocidentalizada para Kabushiki-kaisha, a nomenclatura dada às multinacionais como a de Byakuya no Japão. CEO: Chief Executive Officer, o diretor executivo, ou seja, quem está no mais alto cargo em uma multinacional. Shogi é uma jogo de tabuleiro japonês, com lógica análoga à do xadrez. Line é um aplicativo de mensagens/ligações, mais comum no Japão do que o Whatsapp, por exemplo. Petit gateau é uma sobremesa, que consiste em um bolo mole por dentro e durinho por fora, acompanhado com sorvete. Essa versão rainbow, em formato de ursinho, foi invenção minha, mesmo huahuaha.