Notas iniciais
Olá, amores. Sei que o choque do último capítulo foi grande, mas ainda tem muita coisa para acontecer nessa história, então torço para que continuem gostando. Agradecimentos especiais aos que comentaram, favoritaram e estão acompanhando e abraços para os que leem em silêncio também. Boa leitura!

— Byakuya... – Chamou baixinho, tentando acordá-lo com delicadeza. Já passavam das 04h00min da manhã e seria um tanto arriscado permanecer mais que isso naquela casa. Entretanto, Renji não poderia ir embora sem dizer-lhe nada.

Reagindo ao vocativo, o homem abriu os olhos devagar, as sobrancelhas franzindo-se enquanto o corpo movia-se languidamente sobre a cama, injetado por uma lucidez insossa e já sofrendo os castigos da ressaca. Encarava um Renji já completamente arrumado e pronto para ir embora, para quem deixou escapar uma expressão sonolenta:

— O quê...? – Foi o que conseguiu perguntar em um tom especialmente rouco, ainda tentando situar-se.

O mais novo sorriu, sentando-se na beirada da cama e estendendo o braço de modo a acariciar-lhe o rosto enquanto respondia:

— Desculpe por te acordar. Sei que lhe traria problemas se ficasse aqui, então já estou indo... Mas queria ouvir sua voz primeiro.

O moreno foi tentando voltar à consciência enquanto o ouvia, puxado à realidade pelo som das palavras do subalterno. Se não fossem seus modos austeros, estaria vermelho como os cabelos do outro ao lembrar-se dos atos libidinosos que cometeram; dos toques; das sensações alucinantes; do corpo delicioso que fizera seu sobre aqueles lençóis...

Mergulhando em pensamentos, as palavras alheias foram escapando-lhe à consciência, soando como música de fundo enquanto a mente viajava. Perguntava-se como deveria proceder caso algum funcionário tomasse nota daquela visita do Abarai. Será que algum deles os escutara durante a noite anterior? Talvez Rukia...

— Kuchiki-san, está me ouvindo? – Perguntou o tatuado, notando-o totalmente disperso.

— Sim. – Respondeu baixo e imediatamente, como se realmente houvesse prestado atenção em algo – Você precisa mesmo ir.

O mais novo sorriu, conformado. Sem dúvidas, todos aqueles acontecimentos haviam sido informações demais para a cabeça do chefe. Era até natural que permanecesse em choque, imaginava.

— Certo. Eu estou de saída, então – Anunciou, arrumando os punhos da camisa social sob o terno enquanto aproximava-se mais sobre a cama. Sua vontade era puxar os lençóis sedosos e deitar-se indefinidamente junto ao menor, contudo, teria de adiar as coisas por hora. Sabia disso. – Nos vemos na segunda. Você não tem compromissos na empresa durante esse final de semana, né? – Quis verificar, já ansioso pelo reencontro.

— Correto. – Confirmou, supondo como poderia encará-lo posteriormente, quando já não restassem resquícios daquele ébrio torpor. Não teria bebido se tivesse trabalho no outro dia, entretanto, não imaginara que sua noite acabaria assim ao aceitar o convite do subordinado. Era constrangedor imaginar como as coisas seriam dali em diante, contudo ainda não conseguia decidir-se sobre o que pensar, sequer repreender-se ou felicitar-se por seus atos – Conversaremos com calma quando nos reencontrarmos. – Adicionou, decidindo que procrastinar qualquer discussão seria uma opção mais acertada naquele momento.

Os olhos castanhos pairaram sobre o moreno, avaliando-lhe o semblante enquanto o tatuado buscava interpretar-lhe as nuances. Temia que algo não saísse como gostaria; que o homem retrocedesse; que o repelisse ou qualquer coisa do gênero. Não obstante, tratou de afastar as conjecturas negativas, armando-se de seu otimismo costumeiro para encarar o patrão. Haviam começado algo, então não haveria motivos para preocupação. Aos poucos se resolveriam, não é?

Subindo um pouco mais, apoiou as mãos no colchão, em volta do corpo do amante, de modo a parar o rosto a centímetros do outro, os troncos unidos ao passo que os lábios quase tocavam-se.

— Sei que é tudo novo por enquanto, mas não quero que termine como um acidente de uma noite – Afirmava, deixando-o ciente de seus desejos. Embriagava-se pela deliciosa proximidade, roçando os lábios nos dele antes de falar – Eu quero muito mais de você.

O empresário estancou, o coração acelerado enquanto escutava as palavras determinadas sendo ditas de modo tão displicente. Deveria repeli-lo e alertar-lhe de que tal incidente jamais se repetiria, acabando com aquela loucura e mandando-lhe parar de desejar o impossível. Era irritante sentir-se entregue, indefeso ou falível diante daquele homem.

Ainda assim, deixou que os lábios fossem tomados pelo subordinado uma última vez, saboreando a língua impetuosa em comedida volúpia, deixando o beijo tornar-se profundo, porém calmo. Sentia o corpo alheio insinuando-se sobre seu tronco, uma das mãos percorrendo-lhe os cabelos negros como se externasse o desejo de retê-lo.

Finalmente, os movimentos foram cessando, deixando que o carinho morresse quando o ruivo voltou a distanciar-se, estampando no rosto seu sorriso tolo e, naquele momento, absolutamente ingênuo aos olhos do chefe.

Mantendo silêncio, o Kuchiki desvencilhou-se dos lençóis ao levantar-se da cama, deleitando o companheiro com a visão do corpo esbelto, a pele alva ainda marcada pelos resultados da noite anterior. Alcançava um yukata branco bem leve, usado como roupa de dormir, retirando-o de um cabideiro próximo à porta do banheiro e vestindo-o antes de atravessar o quarto em direção aos armários.

— Leve isso – Instruiu, abrindo uma gaveta e retirando dela uma chave, a qual lhe estendia – Abre aquele portão pequeno. – Explicava, caminhando até uma pesada cortina e puxando-a, de modo a expor uma porta dupla, através da qual era possível ter acesso aos jardins de uma das laterais da casa. Facilmente visível a partir dali, mostrava-lhe o portão de ferro, ladeado pelas trepadeiras que ornamentavam todo o muro. – Se sair sem fazer barulho, os guardas que estão na entrada não irão nota-lo.

A troca dos guardas se dera pouco depois do horário em que chegaram a casa. Deste modo, os que viram Renji entrando suporiam que saíra no começo do outro turno, enquanto os do turno atual sequer saberiam que ele estivera ali. Como os empregados não o veriam lá pela manhã, seria o suficiente para qualquer um pensar que o visitante passou apenas alguns minutos tomando um chá, já que a louça usada na noite anterior ainda estava mesmo na sala. Ainda que surgissem questionamentos sobre a rara visita noturna na mente de alguém, não haveria nada que pudesse ser usado contra ele para espalhar boatos, portanto, estaria tranquilo, – Constatava o empresário, repelindo debilmente um último abraço do tatuado, que deixava o local em seguida.

Através do vidro das portas recém-fechadas, os olhos acinzentados foram solenemente mantidos sobre o corpo que se esgueirava entre as plantas como um animal furtivo. Mesmo o moreno, dono de sentidos surpreendentemente aguçados, fruto de uma educação rigorosa em todos os aspectos, teria dificuldades para nota-lo caso não soubesse de sua presença. Os guardas certamente nunca sonhariam que estivera ali.

Mais do que com os criados, com os quais teria meios de lidar mesmo diante de qualquer fato inesperado, o homem preocupava-se com seu futuro dali em diante. Fora bem mais longe do que poderia imaginar e seguia com a mente em turbilhão, afetado intimamente pela sequência de acontecimentos.

Alcançando uma cartela de remédios para dor de cabeça, a qual sempre mantinha num ponto acessível do armário, tomou dois comprimidos, na tentativa de evitar que os efeitos daquela irritante ressaca piorassem.

Deitava-se novamente, os braços que antes envolviam o corpo quente do ruivo agora agarravam-se aos lençóis, os quais ainda mantinham o cheiro almiscarado do amante. Tinha muito em que pensar e sequer sabia se descobriria como agir dali em diante.

Simplesmente manteve-se na cama e deixou-se ficar. Normalmente iniciaria sua rotina por volta das 06h00min, mas não naquele sábado de outono. Naquele dia Kuchiki Byakuya surpreenderia todos da casa mantendo-se deitado a manhã inteira.

Só não sabia que os empregados não eram de fato os mais atentos ali.

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As vozes reverberando pela sala na noite anterior haviam sido o suficiente para retirar Rukia de seu maravilhoso mundo de sonhos, amigavelmente preenchido por coelhinhos e sorrisos. Dentro do quarto escuro, ela só precisou de alguns instantes ouvindo por detrás da porta para compreender o que acontecia.

“Aquela voz só poderia ser de uma pessoa”, pensara. Essa pessoa era Abarai Renji, tinha absoluta certeza. Entretanto, o que ele faria ali em uma hora daquelas? -Perguntara-se em um misto de surpresa e curiosidade.

Aproveitando-se do fato de o seu quarto ser o primeiro de um corredor ao qual se tinha acesso através da sala, ela entreabrira a porta com todo o cuidado, já tendo em mente que não poderia ser vista e, com alguma sorte, também não seria ouvida.

O trinco bem polido movera-se sem sinal de ruído, deixando que a luz, acompanhada pelos sons então bem mais claros, entrasse através da fresta aberta pela moça. Além dos timbres das vozes, tornara-se capaz de entender com exatidão as palavras, que no momento vinham dos lábios do irmão:

“O que pensa estar fazendo?”, perguntara o Kuchiki em tom mais alto do que ela esperaria, fazendo com que a garota, tomada por um pânico instintivo, quase fechasse novamente a porta, certa de que já fora pega em sua espionagem e aquela fala se direcionava a ela. Todavia, a resposta rápida do Abarai a demoveu de seu ímpeto: “Te beijando. Esqueceu como é?”.

Conseguira ouvir claramente o questionamento em tom irônico, no entanto, permanecera incerta quanto ao sentido das palavras, duvidando da própria lucidez diante de tal situação. Não... Aquilo não podia ser verdade – Concluíra para si mesma. – Ela devia estar presa em um sonho muito real.

Claro que todo mundo notava o modo como o Renji parecia o cachorrinho do chefe e, sendo uma amiga atenta, ela sabia muito bem dos sentimentos que ele nutria pelo moreno, mesmo que nunca lhe houvesse confessado nada ou, talvez, sequer admitido para si mesmo. Entretanto, daí a ter algo acontecendo de verdade eram outros quinhentos. Seria surreal!

Apesar do que o bom-senso lhe indicava, a menina fora obrigada a sair de seu mundo de suposições, tendo as hipóteses contrariadas pelas vozes que continuavam exasperadas o seu diálogo. Considerando a réplica negativa de Byakuya, o ruivo o havia mesmo beijado, não restavam dúvidas.

Meu Deus. Aí estava o babado do ano, tivera certeza. Contudo, é claro que o coitado do Renji jamais seria correspondido. Ou pelo menos foi o que ela pensou antes de escutar o desenrolar da cena.

O que era aquilo? O drama CD de um yaoi tocando? – Questionara-se, incrédula ­­­– Como assim os dois estavam se pegando na sala, gemendo em alto e bom som, com tudo a que se tem direito? Porque pelo barulho o negócio parecia definitivamente ter passado de “uns amassos no calor do momento”.

Só não seguira ouvindo porque os barulhos pararam repentinamente, dando a impressão de que os dois haviam levantado. Se a vissem espiando naquela hora estragaria tudo de todas as formas, então tratara de fechar a porta rápida e silenciosamente e deitar-se como se nada houvesse acontecido.

Fechara os olhos, refletindo sobre o que ocorrera. Talvez aquilo não desse em nada, entretanto, com alguma sorte, quem sabe o ruivo conseguiria alcançar o coração do Kuchiki. Difícil, mas não lhe custava sonhar, né?

Possuía uma mente viva, absolutamente livre das amarras que tanto podavam o comportamento do irmão. Sendo assim, ficaria verdadeiramente feliz caso um amor entre os dois homens se consolidasse em um relacionamento. E se ela precisasse bolar um plano digno daqueles filmes onde as filhas juntam os pais separados ela o faria com todo o prazer, concluíra. Só tinha de pensar com cuidado nos detalhes e na manhã seguinte começaria a arquitetar a operação cupido. O Abarai era mole demais pra conseguir sozinho, então toda a ajuda seria bem-vinda.

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— Está pronta, Rukia?

As palavras saíram rigorosas dos lábios de Kuchiki Byakuya, seguidas pelo consentimento mudo da garota que se levantava da cadeira com pressa, depositando os hashis sobre a tigela vazia na mesa em uma mesura polida.

Absolutamente nunca fora um costume do irmão levá-la ao Colégio, entretanto, como mais uma das infinitas condições de seu castigo, o homem decidira que, mesmo não podendo garantir buscá-la ao final do dia letivo em virtude da incompatibilidade de horários, queria ele mesmo acompanha-la na ida. Mandaria que um motorista a buscasse na saída quando estivesse impossibilitado de fazê-lo pessoalmente, mas viu nesses momentos pela manhã um meio de impor sua presença e observar de perto a assiduidade da garota.

Irmã de Hisana, sua falecida esposa, Rukia fora inicialmente criada num meio turbulento, por parentes distantes, em virtude de uma série de infortúnios e problemas familiares. As irmãs puderam finalmente reunir-se após o casamento da mais velha com Byakuya, entretanto, a convivência entre os três fora breve e permeada pelo sofrimento de ver Hisana definhando, incapaz sequer de cuidar da pequena como desejara.

Seguindo seu último pedido, o Kuchiki adotou a cunhada como sua própria irmã, tomando para si o encargo de educa-la e garantir-lhe o futuro como se partilhassem do mesmo sangue.

Encontrava-se, portanto, na iminência de falhar em seus intentos.

O comportamento de Rukia estava visivelmente distante do que ele poderia desejar e, se a falta de sua presença impositiva fosse uma das causas do problema, ele trataria de remedia-la como lhe fosse possível.

Passara o final de semana imerso em suas próprias preocupações, tecendo inferências sobre os acontecimentos mais recentes e esforçando-se para manter a racionalidade com relação ao ruivo que lhe tirava o sono. Por certo, ficara abalado com os ocorridos; tinha todos os motivos para isso. O tatuado avançara quilômetros adentro do intocado território de suas emoções e aquilo era indubitavelmente assustador.

A despeito de sua personalidade naturalmente impetuosa e cheia de caprichos, Kuchiki Byakuya moldara para si uma sólida máscara protetora. Uma máscara de frieza, rigor e racionalidade que o mantinha distante e seguro, sempre desempenhando o papel do homem responsável que todos desejavam que ele fosse. Não poderia abandonar essa proteção ou mesmo conceber a hipótese de estar melhor sem ela. Já tivera o seu quinhão de rebeldia e não desejaria reviver a reprovação gerada pelas decisões tomadas quando jovem.

O Abarai insistia em tentar retirar-lhe as defesas, tomando-lhe o corpo e a mente como ninguém conseguiria e, por alguns momentos naquela noite, realmente o desarmara. Olhara fundo dentro de seu ser e expusera o homem cheio de falhas e desejos que tentava desesperadamente esconder. Isso era um problema alarmante, e problemas deveriam ser resolvidos rapidamente.

Estava decidido a não correr os riscos de deixar-se levar pelo subordinado.

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Brincava com um copo plástico nas mãos, rasgando-o impiedosamente em tantas tiras quantas conseguia, movimentando rapidamente os dedos em sinal de um nervosismo palpável.

— O que há contigo hoje, hein, Renji? – Perguntava Matsumoto ao observar o copinho de café sendo desfeito nas mãos do ruivo – Já está me deixando aflita com essa expressão nervosa.

— Nada. – Mentiu em resposta, levantando-se para jogar fora o plástico em pedaços – Só amanheci inquieto hoje. Deve ser o clima. – Adicionou, sem refletir muito sobre as próprias palavras.

— O clima, Renji? – Questionou arqueando uma sobrancelha – Você é capaz de arrumar uma desculpa melhor, não acha?

O colega riu baixinho, sentando-se novamente e passando a brincar com uma caneta entre os dedos, manobrando-a por todos num ritmo constante enquanto respondia:

— Só estou ansioso hoje, mas nada demais. Deixa que daqui pra mais tarde estou bom – Falou, levantando os olhos para a mulher e fazendo um movimento com a mão livre, deixando-a entender que ficaria bem por conta própria.

Não queria parecer estranho nem preocupar ninguém, mas como estar normal naquela situação, senhor? – Pensava consigo mesmo. – Passara o final de semana aguardando a segunda-feira e a conversa que teria com o patrão. Até ensaiara diante do espelho tudo o que diria para deixá-lo saber o quanto era importante, cuidando de encontrar as melhores soluções para os problemas que o moreno provavelmente levantaria.

Se comentasse sobre serem chefe e subordinado, ele o lembraria de que relações entre funcionários não eram proibidas e inclusive constavam no regulamento da empresa como algo positivo para o rendimento dos funcionários, desde que com o devido pudor; caso o problema fosse o fato de ambos serem homens, ele já tinha na ponta da língua todos os argumentos acerca das mudanças da sociedade contemporânea e sobre gênero e sexualidade. Fizera a lição de casa e estava pronto para dar segurança ao chefe quanto a qualquer ponto que parecesse impedir um relacionamento duradouro.

Agora só precisava aguentar até que o homem chegasse para conversarem. De preferência, sem rasgar em pedacinhos todos os copos descartáveis disponíveis no escritório.

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O sol já se pusera há mais de uma hora, deixando visível em sua ausência apenas a negritude agourenta de uma noite chuvosa. As nuvens que se acumularam impiedosamente durante toda a tarde começavam então a desfazer-se em pancadas lentas, batendo na forma de gotas grossas contra as janelas do edifício, numa melodia intermitente.

O telefone do escritório de Byakuya foi recolocado no gancho em um movimento delicado. Acabara de solicitar a presença de Renji e, embora soubesse que seu horário de serviço terminara há pouco, acertara ao supor que o homem não iria embora até discutirem adequadamente.

Passara o dia agindo como se nada houvesse ocorrido, afinal, não poderia tratar de assuntos pessoais no horário de trabalho. Nada mais natural do que aguardar até o fim do expediente para chama-lo, mesmo que a conversa fosse rápida.

Menos de cinco minutos depois da ligação feita pelo ramal interno, batidas hesitantes na porta indicaram ao Kuchiki que o momento chegara. Precisaria manter toda a frieza possível para arcar com as consequências de seu prévio desatino da melhor maneira.

— Entre. – Disse em tom sepulcral, deixando visível sua seriedade desde o primeiro momento.

Os olhos do ruivo evidenciavam tanta expectativa quando ele adentrou o cômodo que foi angustiante para o moreno encara-los. Era óbvio que passara o dia ansiando por aquele diálogo. Questionava-se o que se passava na cabeça do jovem para vir ao seu encontro de tal maneira, tão transparente e tão desejoso, como se fosse tudo simples.

Mantendo os modos austeros, afastou o computador e outros itens de trabalho, deixando a mesa livre e indicando que o mais novo tomasse o lugar à sua frente. Observou-o por alguns instantes, contudo, antes que ele tivesse tempo de dizer algo, tomou a palavra, a voz saindo grave.

— Primeiramente, preciso deixar minhas desculpas pelo ocorrido, Renji – Iniciou, vendo os olhos do outro arregalarem-se em uma expressão incrédula. Ainda assim, continuou sem trégua – Eu passei dos limites com o álcool e isso me fez agir de modo impensável. Esse acidente não se repetirá, portanto não há necessidade para qualquer preocupação quanto ao nosso relacionamento profissional ou pessoal.

— Você o quê? – Perguntou o tatuado em tom visivelmente contrariado.

Entenderia se ele tivesse objeções quanto a um relacionamento sério, mas por que adotar uma postura tão contrária logo de cara e chamar de acidente algo que para que ele significara tanto? O que infernos o desgraçado queria que ele fizesse? Fingir que nada aconteceu e deixar por isso? – As perguntas se multiplicavam na mente de um Abarai que sequer sabia se deveria sentir raiva ou tristeza – Tentou protestar, mas a voz do patrão ecoou pelo cômodo antes da sua.

— É como eu disse. – Prosseguiu em tom categórico, desejoso de colocar um ponto final naquilo tudo – Eu não repito meus erros. Nós dois somos homens, patrão e empregado, e não estou disposto a mergulhar nesse tipo de aventura. Entenda aquilo como um desatino provocado pelo álcool e agradeço se não retomar este assunto – Levantando-se cerimoniosamente da cadeira enquanto terminava sua colocação, deu as costas ao outro, caminhando em direção à janela atrás da escrivaninha de madeira – No mais, prossigamos com nossas vidas como de costume.

Renji entrara ali preparado para o pior, mas aquela reação excedera qualquer expectativa. Aquilo nem era um diálogo! Estava simplesmente sendo chutado, vendo terminar o que sequer começou. Vendo desaparecer o Byakuya que se abrira para ele e lhe enchera de esperanças. Será que a única causa para tudo aquilo fora mesmo o álcool? Será que, no fim das contas, ele não fora um babaca por se aproveitar de um momento difícil para o Kuchiki e embebeda-lo?

Embora não houvesse agido com tal intenção, pensar nisso era assustadoramente doloroso. Notou que as mãos tremiam e a garganta travava quando tentava expressar uma réplica. Os olhos passaram vacilantes pelo cômodo, buscando encontrar os do moreno que, todavia, sequer o encarava, mantendo-se de pé na fixa observação das gotas de chuva derramando-se, impetuosas, de encontro ao vidro.

— Acha mesmo que foi tudo um acidente? Você não estava consciente dos seus atos? – Questionou finalmente, a voz saindo aguda, como se lhe cortasse a garganta pelo caminho até os lábios.

— Estava consciente, entretanto é bem verdade que não teria feito nada caso estivesse totalmente sóbrio. – Respondeu no tom sério de sempre, ainda fitando a janela – De toda forma, não desejo me escusar através desse tipo de argumento. Cometi um erro que não se repetirá. Apenas isso.

— Um erro? – A voz do ruivo agora saía mais alta, deixando desaparecer a subserviência costumeira e dando lugar a uma evidente indignação – Pela primeira vez você me pareceu aberto, feliz e vivo de verdade. Foi intenso enquanto estava comigo e não tem como dizer que não sentiu aquilo. Eu entendo que tudo seja complicado pra você, mas depois de dar o primeiro passo, porque não continuar caminhando?

— Você se superestima, Abarai Renji – Cortou o mais velho em um tom tão frio que fez com que o outro se arrepiasse, o estômago revirando-se a cada palavra – Por que pensa que me conhece? Quem lhe autorizou a dizer o que me faz bem ou não?

As palavras caíram como bombas para o tatuado. Tinha tanta certeza de que sua presença havia sido boa para o chefe e estava sempre tão empenhado em agrada-lo! Como poderia ter se enganado em tudo?

— Eu pensei que... – Tentou recomeçar, todavia, foi interrompido pela voz do moreno, chegando devagar e soando como um ultimato.

— Aprecio sua boa vontade e caráter, entretanto, não conseguirá nada julgando pelas suas próprias medidas o comportamento alheio. – Caminhou até a porta, estendendo a mão para envolver a maçaneta enquanto terminava sua fala – É impossível que mantenhamos qualquer tipo de relacionamento além do profissional, então voltemos as coisas ao que eram antes e contarei com o seu sigilo sobre o que já se passou – Abriu a porta, adicionando com ar polido – Está dispensado, Renji. Tenha uma boa noite.

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Abarai Renji se via agora em um corredor escuro e desconhecido, comprimido por paredes estreitas, exalando uma umidade sufocante. O cheiro do local lembrava o que sempre sentia no escritório, com a fragrância familiar que remetia à limpeza e folhas de oficio. Todavia, não poderia aquele lugar fazer parte do prédio onde trabalhava e o qual conhecia como a palma de sua mão. Sentia-se reprimido ali, tomado por uma angústia crescente, envolvendo-o impiedosamente.

No ímpeto de livrar-se das sensações negativas, puxou o ar para os pulmões numa golfada dolorosa forçando as pernas a levarem-no para longe dali. Não parecia afastar-se tanto quanto gostaria dentro daquela escuridão aterradora, mas podia agora vislumbrar, como uma luz no fim do túnel, o semblante altivo de Kuchiki Byakuya, de costas a sua frente.

Desesperou-se para alcança-lo, tomado pelo desejo de tê-lo consigo. Embora sentisse o peso de toneladas em cada membro, impulsionava o corpo adiante, ignorando as dores lancinantes, atento em correr tão rápido que suas pernas tremiam, cambaleando com as longas passadas. A respiração vinha em cortes angustiantes, ferindo-lhe como nunca. Os olhos injetados apertavam-se enquanto cada músculo de seu corpo empenhava-se na mesma torturante tarefa de seguir adiante. Porém, o esforço mostrou-se infrutífero.

Quanto mais corria, mais longe parecia estar do homem que desejava e como última cena observou o moreno afastar-se, deixando-o preso no corredor escuro, completamente sozinho.

Abriu os olhos.

O corpo molhado de suor envolvia-se no lençol fino e a visão costumeira do teto de seu quarto era um consolo surpreendentemente efetivo após um sonho tão ruim.

Há cerca de três semanas, tivera a melhor e a pior noite de sua vida. A primeira, quando teve nos braços o homem que mais amava no mundo. A segunda, quando fora rejeitado por ele da maneira mais dolorosa possível, como se um murro na boca do estômago o tivesse feito vomitar todas as ilusões de felicidade que criara quando fizeram amor.

Não seria de seu feitio abater-se, sentir-se iludido ou qualquer coisa assim. Nunca tivera problemas com relacionamentos ou dificuldades para contornar situações que não saíam como planejado. Entretanto, não poderia negar o quanto estava ferido.

Talvez parte disso fosse sua culpa por agir precipitadamente, mas o comportamento do chefe quando conversaram naquela segunda-feira fora um golpe mais doloroso do que poderia aguentar.

De início sentira raiva. Muita raiva. Amaldiçoara tudo com relação a ele e desde então correspondia à sua frieza, tendo somente o contato necessário e evitando aqueles orbes acinzentados que antes procurava com tanta avidez. Nessa última semana, entretanto, a raiva dera lugar a uma dor pungente, que o trazia para baixo e o tomava nos braços, causando-lhe pesadelos e preenchendo-o com uma tristeza que até então lhe era desconhecida.

Além disso, permanecia incapaz de entender o porquê de o patrão mudar da água para o vinho daquela forma. Sim, ele estava ébrio na noite em que tudo aconteceu e o ruivo se sentia ainda pior por pensar que se aproveitara desse fato, entretanto, o moreno mesmo admitiu que agira por vontade própria. Por que então o repelira daquela forma? Por que terminou sem nem começar? Que droga!

Acompanhadas por um suspiro pesado, as pernas moveram-se como em piloto automático. Largou as roupas pelo chão, tomando o rumo do banheiro e mudando a temperatura do chuveiro para a mais fria.

Deixou que a sensação de frescor invadisse seu corpo enquanto a água lhe encharcava os cabelos e percorria os membros. De olhos fechados, era capaz de imaginar o cheiro de sakuras lhe invadindo e sentir as mãos grandes do moreno lhe percorrendo com força. Cada detalhe daquele homem chegava vívido, tirando qualquer chance de relaxar, mesmo com o banho gelado.

Mas que merda! Nesse ritmo iria precisar de umas sessões de reabilitação, porque não estava mais aguentando pensar naquele desgraçado o tempo todo. E o pior era saber que o outro provavelmente estava tocando o foda-se pra ele. Nem devia se lembrar do que aconteceu e só o trouxa do Renji estava ali, se martirizando e ainda querendo resolver as coisas entre os dois.

7 Bilhões de pessoas no mundo, e tinha que se apaixonar logo por Kuchiki Byakuya? Merecia um troféu de idiota do ano por continuar o amando tanto mesmo depois daquele fora.

Tomado por uma inquietação irritante, terminou o banho sem muita enrolação e cuidou de arrumar-se rapidamente. O quarto exalava uma incomum aura de limpeza, como todo o resto do apartamento. Quando seu humor não estava bom gostava de ocupar a mente para esquecer as preocupações, e tarefas domésticas eram sempre uma ótima pedida para isso.

A organização de tudo ao seu redor crescera de modo Inversamente proporcional à desordem sentimental que o afligia e mesmo a dispensa agora estava mais repleta do que de costume. Pelo menos uma vantagem nessa porra toda – Pensava enquanto preparava panquecas para o café.

Alguns minutos depois, deixava o lugar com um suspiro impaciente, trancando a porta e encaminhando-se para mais um dia extenuante.

Notas finais
A composição do título é de Beethoven, Sonata No. 23 Op 57, conhecida como Apassionata. Acho uma composição bem forte, que pra mim combinou com o ritmo desses acontecimentos. Deixarei o link da Valentina Lisitsa tocando o terceiro movimento da música, para os que tiverem curiosidade: https://www.youtube.com/watch?v=xz7usUEPWsc Tentarei garantir que o capítulo 6 esteja aqui até o próximo domingo. Beijão e até lá o/