Eu passei a tarde inteira em meu quarto chorando. Por quê minha mãe não entendia que aquilo era o meu sonho? Que eu só precisava disso pra ser feliz? Por quê ela SEMPRE tinha que estragar tudo? Sempre ela. Desde quando eu era pequena, minha mãe sempre fazia coisas apra me deixar pra baixo, sempre arrumava uma desculpa para qualquer pedido meu. Não sei se era mania, chantagem ou se ela gostava de me ver sofrer, eu não sei. Mas aquilo me machucava, e muito.

No fim da tarde, meu pai abafou o fogo da churrasqueira e terminou com o churrasco. Quando ele e minha mãe entraram, ele veio ao meu quarto, para conversar comigo, mas eu não estava afim de papo, nem para Alice eu ainda não tinha ligado.

Paul: Karen minha filha, eu só quero falar com você, abre a porta.

Karen: Não pai! Para ouvir o que? Que vai passar, que eu sou maluca, que eu vou ter outra chance e bla bla bla? Não obrigado.

Paul: Filha, não é bem assim.. Você sabe das nossas condições. Mesmo que pudesse ir, não teríamos dinheiro para seu ingresso.

Karen: Nem vem pai, eu sei que 175 reais não faria diferença na sua vida, nenhuma.

Paul: 175 reais daria pra você ir no shopping, comprar roupas, sapatos, acessórios pra você..

Karen: 175 reais daria pra mim ir no show do Tokio Hotel, de pista premium, ficar na frente do Tom, chorar, pular, gritar, cantar e realizar meu sonho. Só que isso eu to vendo que nem você e nem a mãe entendem.

Ana: Paul você ainda tá perdendo tempo com isso? - Eu ouvi minha mãe gritando.

Paul: Calma Ana, não é assim.

Ana: Ah, então é como?

Paul: Será que você não vê o quanto a Karen gosta desses caras?

Neste momento eu já ouvia calada. Não acreditava que meu pai estava me defendendo. Por mais que eu gostasse, era estranha essa atitude dele.

Ana: Você vai defender a Karen? É isso mesmo?

Paul: Eu não estou defendendo. Só acho que você é muito franca com o que faz e diz em relação a esse fanatismo dela. Mandar a menina tirar os posters da parede, pra quê Ana? Eu acho que quem tá enlouquencendo com isso é você e não ela. Deixa a menina, ela tem só 16 anos, com o tempo vai passar, é fase, é adolescência, deixa ela.

Ana: Tá bom Paul, tá bom, você sempre vence né. Mas eu não vou dar dinheiro nenhum pra ela ir em show. Se você quiser, dê você.

Paul: Não Ana, eu também não vou dar, mas acho que você poderia ser menos fria quanto a isso.

Ana: Tá.

Eu não acreditava.Não mesmo. Meu pai, havia me defendido, havia feito com que minha mãe acordasse. Eu fiquei sem reação, de verdade. Nenhum deles iria me dar dinheiro, mas fazer com que minha mãe parasse de me enxer o saco já era grande coisa. Peguei meu celular e liguei para Alice.

Karen: Você não vai acreditar..

Alice: O que? Conseguiu convencer sua mãe a te deixar ir no show?

Karen: Não, não é tão bom assim, mas é um grande avanço.

Alice: O que?

Karen: Meu pai conseguiu fazer com que minha mãe parasse de me enxer o saco.

Alice: Sério?

Karen: Pelo menos parece. Ele tava conversando comigo aí minha mãe começou a falar e ele deu um chega pra lá nela.

Alice: Que bom Karen. Não é grande coisa, mas já ajuda...

Karen: Eu também pensei isso.

Alice: Você vai entrar no msn?

Karen: Vou, mas antes vou tomar banho pra aliviar essa sensação de peso das costas, sabe?

Alice: Tá bem, quando entrar eu vou estar on.

Karen: Ok amiga, eu te chamo lá.

Alice: Tá, até mais, beijo.

Karen: Beijo, até.

Como Alice disse, não era grande coisa, mas era um bom começo. Todos esses anos com minha mãe pegando em meu pé, me julgando ser maluca, psicopata, chegando a me levar em psicólogo por causa de FANATISMO. Acho que na verdade, minha mãe nunca foi fã de ninguém, nunca teve um ídolo, alguém que amava platônicamente. Minha mãe sempre foi fria, parecia ter ódio no olhar, alguém que só se preocupava com ela mesma e mais ninguém, nem mesmo comigo.E isso só colaborava minha dor. Todos os dias, me cortando, chorando, sofrendo. Ainda mais quando apareciam rumores do tipo "Tom e nova namorada". Aí sim, eu me acabava.

Depois que desliguei o telefone, fui tomar banho. Ja era meio tarde e eu queria ficar papeando na internet. Tomei meu banho, me troquei, desci e fiz meu sucrilhos com danone e subi. Liguei meu computador e fiquei fuçando em tudo, como de costume, até que descobri algo que com certeza era minha luz no fim do túnel, era minha chance, única e imperdível. Eu tinha que conseguir. Eu IA conseguir.