Até que Aconteça com Você
5 Capítulo 5
Notas iniciais
No sábado de manhã, acordei com um aperto no peito. Me doía mesmo antes de saber a reação da minha mãe quando eu falasse do show, porque eu já sabia qual seria. Me levantei, arrumei meu quarto e desci para o café. Minha mãe estava na cozinha preparando algo, eu não sabia o quê.
Karen: Bom dia mãe.
Ana: Bom dia Karen.
Karen: O que é isso que você está fazendo?
Ana: Bolo.
Karen: Bolo de quê?
Ana: Cereja. Faz tempo que não como bolo de cereja.
Karen: Ai que delicia mãe.
Ana: Uhum.
Eu tinha que descontrair minha mãe, conversando com ela e puxando papo até eu conseguir citar sobre Tokio Hotel. Foi quando percebi que meu pai não estava em casa.
Karen: Onde o pai foi?
Ana: No açougue.
Karen: Fazer...?
Ana: Comprar algumas coisas lá.
Karen: Avá mãe.
Ana: Ué, você quem perguntou.
Karen: Mas não tem carne em casa ja?
Ana: Querida, ele foi comprar carne para churrasco.
Karen: Churrasco? Vai ter churrasco hoje?
Ana: É, o dia tá bom nao tá?
Karen: Tá sim.
Me levantei da mesa dando a ultima golada no meu copo de leite levando-o para a pia. Ia ter churrasco em casa. Achei uma boa chamar a Alice para passar o dia comigo, e no meio de um vai-e-vem, a gente podia contar para meus pais.
Karen: Mãe, posso chamar a Alice pra ficar aqui com a gente?
Ana: Claro, pode sim.
Karen: Vou ligar pra ela.
Ana: Tá bom filha.
Eu subi para o quarto, peguei meu celular e telefonei para Alice convidando-a para vir em casa. É claro que ela aceitou, Alice é fascinada por churrasco e gosta de uma "foliazinha" no fim de semana.
Karen: Sabe Alice, pensei que em meio tempo no churrasco, a gente pode falar do show pra eles.
Alice: É claro...
Karen: Você vem até aqui ou quer que eu vá na sua casa pra te buscar?
Alice: Tanto faz, que horas tenho que ir?
Karen: A hora que você quiser, pode vir.
Alice: Tá.
Karen: Eu te espero então.
Alice: Tá, vou tomar banho e depois eu vou.
Karen: Ok.
Alice: Até daqui a pouco.
Karen: Até.
Assim que desligamos o telefone, eu fui ao site da via funchal ver o mapa, os melhores lugares para ver e etc. Quando cliquei na pista premium, meu coração gelou. Apareceu uma mensagem dizendo que todos os lugares daquele setor haviam sido esgotados. Não podia. Não podia ter acontecido isso. Era o melhor setor para vê-los, de perto, pertinho, de frente com eles. A dor começou a me consumir de novo. Uma parte do sonho já tinha sido desmanchada. E eu ainda nem tinha comentado nada para meus pais.
Não demorou muito e Alice chegou, junto com meu pai. Eles se encontraram no caminho, e meu pai deu carona para ela até em casa. Quando contei para ela, ela endoidou. Queria muito ir na premium também, mas pelo que nos parecia, não haveria mais jeito.
Resolvemos esquecer um pouco o show, aquilo já começava a nos deixar confusas e perdidas e então nos concentramos no churrasco. Eu e Alice ajudamos minha mãe a arrumar a varanda e o quintal, onde ia ser feito. Colocamos a mesa, levamos os copos, pratos, talheres, guardanapos e deixamos a mesa linda, toda decorada. O bolo, que seria a sobremesa já estava no forno. Eram 11:20 da manhã quando meu pai começou a acender a brasa na churrasqueira. Eu e Alice levamos meu rádio lá pra fora, para ouvir música. Eu queria colocar meu Humanoid City Live para tocar, mas sabia que minha mãe ia chiar se eu colocasse, então deixamos na rádio mesmo, onde tocou World Behind My Wall. Eu e Alice parecíamos loucas cantando, ou melhor, gritando na música. Fazíamos isso imaginando em como seria na hora do show.
Ana: Duas doentes. — disse a minha mãe saindo da cozinha em direção a varanda com a bandeja de carnes.
Karen: Não somos doentes mãe, somos fãs.
Alice: É tia Ana, deixa a gente vai.
Ana: Tá bom, não está mais aqui quem falou.
Meu pai observava colocando as carnes para assar. Ele sabia o quanto eu e Alice amávamos Tokio Hotel e o que éramos capazes de fazer por eles. Meu pai entendia o que eu sentia, e ele até gostava de uma música da banda, Monsoon.
Paul: Tá no ponto. Venham comer.
Eu, Alice e minha mãe fomos comer. Sentamos na mesa e ficamos conversando sobre a escola, sobre faculdade e essas coisas de mãe. Foi quando Alice me cutucou pra falar do show. Eu estava nervosa, porque sabia que ia ser um desastre, mas fui a luta. Falei pra minha mãe.
Karen: Mãe...é....eu preciso.. te falar uma.. coisinha.
Ana: Fala.
Karen: Só não quero que... a senhora.. fique br.a..v...a.
Ana: O que você aprontou?
Karen: N.ad....a. É que....
Alice só observava. Ainda não tinha se manifestado.
Ana: É que o que?
Alice: É que o Tokio Hotel vai vir pro Brasil e a Karen vai ficar doente se não for nesse show.
Karen: ALICE, NÃÃÃÃÃO.
Ana: E o que eu tenho com isso? Não é da minha conta.
Alice: Não é da sua conta sua filha ficar doente, com depressão ?
Ana: Não. A Alice já é bem grandinha para querer fazer birra por causa de umas bixas loucas que cagam e comem por ela.
Eu já estava chorando. Eu sabia disso. Sabia que minha mãe não ia estar nem aí pra mim e para o que eu estava sentindo. E meu pai, meu pai ficava lá na churrasqueira balançando a cabeça fazendo sinal de "não", como se tivesse inconformado com que a Alice disse.
Alice: Tia Ana, não é da minha conta se a senhora vai deixar ou não a Karen ir, mas eu a conheço bem, e sei que ela vai ficar muito mal se não ir nesse show, comigo.
Ana: Com você? Você vai?
Alice: Sim. Minha irmã me dará o dinheiro do ingresso e meu primo me levará.
Ana: É, a Karen não vai não. Esse não vai ser o primeiro show desses caras aqui, eles virão mais vezes e Karen já vai ser de maior, aí ela se vira.
Alice: Mas don..
Ana: Se diverte bastante nesse show pela Karen, Alice.
Quando minha mãe disse isso, eu desabei. Sai correndo pra dentro de casa, não queria mais churrasco, não queria mais nada. Tinha acabado. O sonho tinha acabado. Eu não iria, não iria ter nada e nem ninguém que faria minha mãe mudar de idéia. Alice veio atrás de mim, mas nem ela eu queria conversar. Minha vontade era de me cortar, como das outras vezes que eu já havia sofrido por eles. E fiz isso. Peguei meu canivete e fiz 3 cortes no meu pulso. A dor dos cortes não era nada perto do que eu estava sentindo por dentro.
Alice: Karen, abre a porta por favor.
Karen: Não Alice, obrigada por tentar me ajudar, obrigada mesmo. Mas já era, como disse minha mãe, curta bastante por mim.
Alice: Pára com isso Karen, você vai conseguir ir amiga, abre a porta.
Karen: Alice, mil perdões amiga, mas quero ficar sozinha, depois eu te ligo.
Alice: Tá bom, mas me liga por favor, vou esperar.
Karen: Tá.
Então Alice foi embora. E minha mãe e meu pai estavam lá fora curtindo o churrasco. O que mais era estranho pra mim, é que meu pai nem disse nada a respeito, mas acho que ele concordava com minha mãe. Senão, teria falado alguma coisa.
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