Alice: Karen, acho que você tá se preocupando de mais com isso e sofrendo antecipadamente.

Karen: É eu to mesmo Alice. Você sabe o quanto eu sou apaixonada por essa banda e o quando eu já chorei por causa deles. E agora, quando eles vêm pra ca eu nao posso ir?

Alice: Eu já disse que vamos dar um jeito.

Karen: Que jeito Alice, se hoje eu já briguei com minha mãe por causa deles...

Alice: Como assim?

Karen: Ela mandou eu tirar todos os meus posters da parede e eu disse que não ia tirar nem a pau. Discutimos, eu subi pro meu quarto e nao fiz nada hoje em casa. Nada. Aí quando eu tava vindo pra escola, falei umas poucas e boas pra ela. Ela ficou quieta.

Alice: Eu sei o quanto você sofre por causa dessa coisa da sua mãe. Mas relaxa que nós vamos conseguir.

Karen: Nós não mais né Alice, você já conseguiu... eu ainda não falei nada.

Alice: Eu vou te ajudar, você sabe disso. E nós vamos ver nossos meninos ao vivo, na nossa frente. Pode apostar.

As palavras da Alice me confortavam de certa forma, apesar de eu achar impossível conseguir alguma coisa, ainda mais depois do que havia acontecido em casa.

Na escola, o dia foi como os outros. Aguentar aquela gente chata da minha sala e a cara de cú dos professores a tarde inteira. Odiava a escola, odiava de verdade. O bom é que como já era quarta feira, as horas pareciam passar um pouco mais rápidas. Pouco, mas passavam.

Quando o sinal pra ir embora tocou, eu e Alice saímos da escola e fomos caminhando meio quarteirão até que sua mãe apareceu de moto para buscá-la. Eu continuei meu caminho até em casa ouvindo meu mp3 que tinha todos os álbuns do Tokio Hotel.

Chegando em casa, minha mãe pediu desculpas pelo desentendimento que tivemos de manhã e assumiu que não poderia me obrigar a tirar nada das minhas paredes.

Ana: Karen, quero me desculpar pelo mal entendido de hoje de manhã. Você não precisa rancar seus posters da parede.

Karen: Obrigada mãe, até que fim pareceu me entender.

Eu subi para meu quarto e fui tomar banho. Depois liguei o computador e fui ver sobre o show novamente. É incrível como esse show havia se tornado exatamente tudo que me importava até então.

Meu queixo foi no chão quando vi que o preço dos ingressos já haviam saído. R$175,00 a pista premium meia entrada, o lugar mais próximo deles. Era uma quantia baixa, mas ao mesmo tempo irrelevante aos olhos dos meus pais. Eu queria ir, queria ir nesse lote, eu PRECISAVA ficar de frente com o Tom. Eu queria que ele me notasse, e só na premium ele consegueria me ver, nem que por 3 segundos.

Meu coração sorriu mas ao mesmo tempo chorou me corroendo por dentro porque essa era mais uma das fases que eu iria ter que contar pra minha mãe. Eu tinha certeza de que meu pai não se importaria com esse show, e me daria a grana numa boa para ir, afinal ELE me entendia.

Eu estava tão concentrada nas notícias que nem ouvi minha mãe me chamar para comer. Foi quando ela entrou no quarto.

Ana: Minha filha, não vai jantar?

Karen: Sim mãe, já estou descendo.

Ana: Vá rápido para jantarmos todos juntos.

Karen: Tá bom.

Eu coloquei ausente no msn, fechei minhas páginas e desci. Hoje, diferente de ontem, não houve discussões na mesa, nada. Comemos todos em silêncio, o que me soava estranho.

Eu estava um pouco mais tranquila, após minha mãe pedir desculpas para mim, mas ainda sentia que não era hora de contar nada sobre o show. Eu ia esperar mais dois dias no máximo pra falar a respeito. Precisava ganhar a confiança dela, e isso eu já sabia como fazer.

Quando terminamos de jantar, eu lavei a louça sem ela pedir. Sabe, minha mãe não era nem um pouco diferente das outras. Gostava que a filha a ajudasse em casa, e eu aproveitei disso para conquistá-la. Durante dois dias seguidos, fiz as coisas em casa sem ela mandar, e ela gostava disso, claro. Eu estava disposta a fazer de tudo para conquistar a confiança dela, qualquer coisa que pudesse me ajudar eu iria fazer. Qualquer coisa.

Na sexta feira, na escola, contei para Alice que eu já estava mais "simpatizada" com minha mãe, e que talvez no sábado contaria pra ela sobre o show.

Alice: Que bom Karen. É um bom começo. Se quiser que eu vá com você no sábado falar com sua mãe, eu vou ta?

Karen: Tá bom amiga.

Nesse instante veio uma coisa que nem eu e nem Alice tínhamos pensado ainda.

Karen: Hey hey Alice, tem uma coisa básica que a gente nao viu.

Alice: O que?

Karen: Quem vai nos levar no show se der certo?

Alice: Verdade... mas isso é o de menos. Eu posso falar com meu primo, ele gosta de rock mesmo.

Karen: Mas ele levaria a gente?

Alice: Por que não?

Karen: Bom, se voce diz..

Alice: É, eu vou ver com ele mesmo.

Karen: Ok.

Era incrível como Alice tinha uma capacidade enorme de resolver as coisas com a maior facilidade. E eu sempre ficava pra trás, nunca sabia de nada. Era típico de mim, eu acho.

O dia seguinte era sábado. Eu ia contar pra minha mãe. Não podia mais fugir. Eu sabia que ia ter que enfrentá-la, mas não tinha outro jeito. Eu ia falar, era agora ou nunca.