Cheguei em casa determinada a contar para minha mãe sobre o show, mas me segurei. Eu tinha certeza que ela iria brigar comigo, me chamar de louca e diria que jamais me daria dinheiro para ir em um show desses. Então me calei. Afinal, nem o valor dos ingressos havia saído ainda.

Entrei e a janta já estava pronta. Sentei-me com meus pais na mesa para comer, até que meu pai começou a falar comigo.

Paul: Minha filha, acho que você deveria centrar mais nos seus estudos. Ultimamente, só vejo você atrás daquela banda que você gosta, como é nome mesmo?

Karen: Tokio Hotel, pai.

Eu não acreditava no que eu estava ouvindo. Como se não bastasse minha mãe, que era contra esse meu amor platônico, agora meu pai, que nunca ligou para isso, estava contra mim.

Minha mãe, interveio concordando com meu pai.

Ana: Seu pai tem absoluta razão Karen. Tô cansada já de mimimi por causa desses boiolas que nem sabem que você existe.

Boiolas, viadinhos, desvirginados, lambretas... esses eram os apelidos carinhosos que minha mãe colocava nos meninos.

Karen: Eles não são boiolas mãe. Por que implica tanto comigo em relação a eles? Vai me dizer que você nunca gostou de uma banda, vai me dizer que você nunca foi fã de verdade de alguém?

Ana: Eu já fui fã de várias bandas Karen. Mas eu era fã normal, que admirava o trabalho e não fã maluca que vira dia e noite chorando por causa dos integrantes.

Eu me calei. Mas a verdade é que minha mãe jamais iria entender que o que eu sinto pelo Tokio Hotel é mais que um simples amor de fã e eu fui percebendo que a medida que o tempo passava, mais e mais seria difícil de convencê-la a me deixar ir no show, e agora convencer também meu pai.

Terminei de jantar e subi para meu quarto. Geralmente, eu ficava na internet até as duas ou três da manhã, e naquele dia não foi diferente. Fiquei conversando com os outros fãs que estavam sabendo do show, e muitos deles já tinham até colocado a "contagem" no sub do msn. Eu queria colocar também, mas não podia fazer isso, não sem a certeza.

Quando meu relógio marcou uma e meia da manhã, eu fui me deitar. Estava exausta do dia que tive. Minha respiração era ofegante e meus pensamentos estavam longe, muito longe. Eu não conseguia dormir, por mais que estivesse cansada. Eu parecia uma criança esperando seu presente do papai noel na noite de Natal.

Só consegui pegar no sono quando já eram 3 da madrugada. Adormeci ao lado do meu bichinho de pelúcia, apelidado de Tom em função da minha paixão pelo guitarrista da banda.

No dia seguinte, acordei com o sol batendo na minha janela. Eram 10 da manhã quando me levantei. Eu já estava um pouco mais calma, mas ainda pensava diretamente no show. Fui ao banheiro, lavei o rosto e escovei os dentes. Peguei meu celular, haviam 3 chamadas perdidas. Eram todas da Alice. Liguei pra ela.

Alice: Alô.

Karen: Oi minha flor de maracujá, como tá?

Alice: Ótima, melhor impossível.

Karen: Eu vi no meu celular 3 chamadas perdidas tuas. Quer me contar algo?

Alice: Eu vou no show.

Karen: Você já falou com seus pais?

Alice: Já. Minha irmã vai me arrumar o dinheiro. Só estou esperando sair os preços dos ingressos.

Karen: Queria que minha vida fosse fácil igual a sua.

Alice: Calma amiga. Se você precisar, eu te ajudo a convencer seus pais.

Karen: Claro, como se fosse uma tarefa fácil.

Alice: Não se precipite sofrendo antes da hora. A gente dá um jeito.

Karen: Tá bom amiga, eu acabei de levantar e só queria saber porque você me ligou. Vou tomar café e arrumar as coisas aqui em casa. Passo na sua casa para irmos para a escola.

Alice: Tá, eu te espero.

Karen: Ok, tchau até lá.

Alice: Até.

Eu desliguei o telefone com lágrimas nos olhos. Minha melhor amiga já tinha certeza de ir, e eu ainda não, eu não havia nem falado com meus pais sobre isso. Fiquei imaginando a dor de como seria ver Alice saindo de casa no dia do show e eu no portão da minha, vendo ela partir chorando feito louca. Aquilo não podia acontecer. Não mesmo.

Desci para tomar café, minha mãe já havia deixado tudo na mesa para mim.

Ana: Karen, hoje você não escapa de limpar o jardim.

Karen: Tá bom mãe. Só isso?

Ana: Arrumou seu quarto?

Karen: Ainda não...

Ana: Então você vai limpar o jardim e arrumar seu quarto. Ah, eu quero que você tire aqueles viados da parede.

Karen: O QUE? — falei gritando. EU NÃO VOU TIRAR MEUS POSTERS DA PAREDE NEM A PAU.

Ana: Você vai sim. Se você não tirar, eu tiro quando tiver na escola.

Karen: POR QUE MÃE? — eu ainda gritava. POR QUE NÃO ACEITA QUE EU GOSTE DELES? POR QUE É DIFÍCIL PRA VOCÊ? POR QUE NÃO ME DEIXA EM PAZ?

Ana: Abaixa o tom de voz comigo. — ela disse apontando com o dedo na minha cara. — Você esqueceu sua vida Karen, acorda. Já se fazem anos que você é assim por esses lambretas, você parece retardada, isso me irrita.

Karen: Eu não pareço retardada mãe. Eu gosto deles e fim. E não vai ser você e nem ninguém que vai mudar isso. — eu disse me levantando da mesa, já chorando e correndo pro meu quarto.

Ana: VOLTA AQUI KAREN. — ela gritou comigo.

Eu não dei a mínina. Subi para meu quarto, me tranquei lá e não saí. Não saí até a hora de ir pra aula. Não limpei jardim, não arrumei meu quarto. Não fiz nada, de raiva que eu senti. Fiquei no meu quarto a manhã inteira, no computador vendo sobre o show e vendo o quão mais ia ser difícil dizer aquilo pra minha mãe, ainda mais depois dessa discussão que tive com ela.

Quando deu meio dia, eu me arrumei e desci de cara fechada com minha mochila nas costas. Ela me olhou de cima a baixo.

Ana: Se você fizer isso mais uma vez, você vai se trancar no seu quarto e não vai sair nunca mais.

Karen: Mãe, acontece que eu to cansada de você ficar me criticando por causa dos meus gostos. Você fala do que eu visto, do que eu ouço. Você queria que eu fosse uma patricinha né? Que gostasse de rosa e de moda, mas acontece que eu não sou assim mãe, e você podia me entender. Eu sei que você nunca vai fazer isso, nunca mesmo. É por isso que eu me revolto. Você não pode me obrigar a rancar meus posters da parede, o quarto é meu eu que cuido dele e você nem se importa com isso. Se quer uma filha perfeita, vai adotar uma ou fazer outra. Eu to cansada e eu nunca vou ser do jeito que você quer.

Minha mãe ficou calada e ficou me assistindo sair de casa para ir para o colégio. Passei na casa da Alice e fomos conversando até a escola. Ela estava muito feliz, afinal o seu sonho iria se realizar, diferente de mim, que ainda tinha muitos problemas pela frente para conseguir ir no show.