Até As Últimas Consequências
13 Uma Pequena Conversa
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
Darcy teve mais clientes essa manhã do que tivera desde que abrira a loja. Alguns deles até compraram alguma coisa. Estava convencido de que os outros vieram para ver se conseguiam dar uma olhada na mulher que Vagner Murple sem dúvida falara a respeito. A mulher que era a cópia da mulher mais famosa da cidade e que estava vivendo em pecado com um pai solteiro. Droga. Já fora difícil o bastante ver a especulação nos olhos deles quando chegou à cidade. Todos queriam saber onde estava sua mulher. A maioria perguntava mesmo, e apenas alguns poucos eram mais sutis. Não os culpava por serem curiosos. Ele se mudara para o meio da sociedade organizada e antiquada deles, e eles queriam saber que tipo de pessoa ele era.
Céus, agora eles provavelmente acham que sabem.
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— Lizzie, posso te perguntar uma coisa?
Lizzie estava terminando de comer o pequeno pão e ergueu a cabeça para encarar a menina.
— Sim, querida.
— Como as meninas da sua época aprendiam?
— Como assim?
Georgiana parou e ficou pensando por alguns minutos.
— Tipo, elas iam à escola?
— Escola?
— Sim, as meninas e meninos ficavam juntos em uma sala com uma professora?
Elizabeth ficou pensando antes de responder a ela.
— Não era bem assim que acontecia. Geralmente quem era mais abastado, podia se dar o luxo de ter uma tutora que lhe ensinava em casa, e os mais pobres não podiam pagar uma. Eu mesma só aprendi a ler por causa dos meus tios que me ensinaram. As meninas aprendiam a lidar com a casa, como por exemplo, a costurar, tocar algum instrumento, cantar, cozinhar, etc, não era muito aconselhável que nós mulheres nos mostrasse ser mais inteligentes. Muitas não sabiam nem ler e escrever.
— Nossa que triste. Eu gostaria de aprender alguma coisa assim.
Lizzie sorriu para ela e passou a mão pelos cabelos loiros.
— Você tem algum tipo de tutora que vem até aqui te ensinar?
— Não, eu vou para uma escola particular. Mas estou ficando esses dias em casa, por que estou de férias de páscoa.
— Entendi. Bem podemos deixar aqui limpo para que o seu pai não reclame da bagunça, o que você acha? — a menina assentiu.
Assim que terminaram de comer, elas se levantaram e Georgiana a ensinou como que funcionava a máquina de lavar louça. Como tudo era novidade para Lizzie, ela achava cada utensilio fascinante, se aqueles objetos existissem na sua época, ficaria muito satisfeita.
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— Preciso de um quadro-negro — disse Lizzie.
— Tem um no sótão — respondeu Georgiana.
Lizzie levantou a cabeça. Estava murmurando para si mesma, inconsciente da presença de Georgiana no quarto. Instalara-se em uma pequena mesa no quarto dela. As ferramentas que trouxera estavam espalhadas à sua volta na mesa. O aparelho também estava lá. Sem a tampa protetora, com sua parte interior exposta, enquanto ela se certificava de que não tinha sido danificada ao passar pelo portal. O diário com suas anotações estava aberto, e uma caneta moderna estava ao lado. Lizzie já enchera três páginas com anotações sobre a viagem.
— Georgiana, estou tendo problemas com o vernáculo de vocês. Diga para mim, o que significa quando um homem se refere a uma mulher como uma, eh, gata?
Georgiana abriu um sorriso.
— Significa que ela é bonita.
Lizzie percebeu que levantou as sobrancelhas em espanto.
— Bonita?
— Muuuuuito bonita. Meu pai chamou você de gata?
— Eh… Não. Claro que não. Na verdade, li em um livro.
— Hum hum.
Lizzie sentiu o rosto ficar quente. Então Darcy a achava… bonita. Muuuuito bonita. Aquilo era uma grande revelação. E certamente não deveria ser tão prazeroso confirmar o que já suspeitava.
— Você falou sobre o sótão? — disse ela, em uma tentativa de mudar de assunto.
— Isso — respondeu Georgiana. — Tem um monte de coisa lá. Um cofre grande e alguns móveis antigos. Mas não sei por que você precisa de um quadro-negro.
— Ah, meu cofre. — Lizzie franziu a testa. Sem dúvida tudo que estava lá dentro não tem mais valor hoje em dia. E ocorreu a ela que, pela segunda vez na vida, estava desejando um homem muito mais rico do que ela. Esse pensamento a preocupou mais do que devia. Será que ela iria cometer o mesmo erro duas vezes? — O quadro-negro. Preciso para meus cálculos. Meu trabalho envolve problemas matemáticos complicados e é mais fácil solucioná-los se tiver… — Sua voz sumiu quando viu Georgiana afastar-se e abrir uma gaveta.
— Por que não usa isso? — Mostrou a Lizzie uma pequena caixa, um pouco menor e mais fina do que seu aparelho.
— O que…?
— É uma calculadora — explicou Georgiana, virando-a para que Lizzie pudesse ver a pequena tela. Depois apertou os botões numerados. — Olhe isso, 175 vezes 68, dividido por 67, mais 3. Igual a… — Pressionou o botão com um sinal de igual e mostrou a caixa para Lizzie.
Mostrava 180,6194029. Lizzie balançou a cabeça devagar e virou para a mesa, fazendo rapidamente a conta em um pedaço de papel. Por incrível que pareça, alcançou o mesmo resultado.
— Vai ser muito mais rápido assim — disse Georgiana, colocando a calculadora ao lado do diário de Lizzie. — Sinto muito pela Jane. — Georgiana puxou uma cadeira, bem ao lado de Lizzie, e sentou-se.
Um enorme nó se formou na garganta de Lizzie ao se lembrar de como Jane costumava trabalhar ao seu lado antes de ficar muito fraca. Foi quando Lizzie levara a mesa e as ferramentas para o quarto da filha. Assim poderiam trabalhar juntas como antes.
— Quero ajudar — disse Georgiana.
Lizzie piscou os olhos marejados e acariciou o cabelo da menina.
— Você é uma boa garota, Georgiana. Mas não sei o que pode fazer.
— Mais do que imagina. — Georgiana girou a cadeira em que estava sentada e arrastou suas rodinhas, parando na outra mesa. — Você ainda não viu meu computador.
— Outra maravilha moderna?
Georgiana assentiu e ligou um botão.
— Tenho um modem. Podemos falar com cientistas de todo o mundo, baixar todo tipo de informações. E você pode colocar seus números aqui e tentar fazer mudanças antes de experimentar na máquina de verdade. Assim, consegue saber se alguma coisa vai funcionar antes de fazê-la.
Lizzie colocou uma das mãos sobre a mesa, piscando rapidamente.
— Essa máquina… Pode fazer isso tudo?
— Pode — disse Georgiana, sorrindo.
— Todas as crianças desse século são tão inteligentes quanto você, Georgiana?
— Não. Acham que eu sou superdotada.
Lizzie assentiu e trouxe sua cadeira para perto da de Georgiana.
— Bem, é uma coisa boa. Decididamente, estou começando a me sentir inculta. Parece que esse seu equipamento pode economizar muito do meu tempo. Então… Vai me ensinar?
Georgiana concordou, e para Lizzie pareceu que a coluna da menina ficou maior e mais ereta. Lizzie observava e escutava enquanto Georgiana explicava a máquina. Parte dela desejava poder desmontar aquela maravilha para ver o que tinha dentro, o que a fazia funcionar. Mas não podia correr o risco de quebrá-la. Já que sabia que ela diminuiria consideravelmente o tempo de pesquisa. Se tivesse tido acesso a isso em seu tempo…
Talvez pudesse encontrar um jeito de evitar os efeitos colaterais antes de voltar ao passado. Ou mesmo um modo de acelerar o processo de recarga. E voltar para a filha o quanto antes.
Darcy as encontrou juntas no quarto, vidradas no computador, e ficou lá parado, observando enquanto Lizzie lentamente pressionava as teclas e Georgiana a olhava com adoração.
— Hora de lavar as mãos para almoçar — disse ele, assustando as duas. — E também já vou avisar para que quando for seis horas estaremos saindo daqui para irmos ao shopping.
— Tá bom, papai. Vamos salvar isso e continuar mais tarde. — Georgiana executou o comando de salvar, pulou da cadeira, passou por Darcy e correu para o banheiro. Lizzie também se levantou.
— Espere um minuto — disse Darcy. — Precisamos conversar.
As sobrancelhas de Lizzie se arquearam e ela sentou.
Darcy entrou no quarto, olhando primeiro para o corredor para ter certeza de que Georgiana não escutaria. Então sentou na cadeira que sua filha ocupara antes.
— Georgiana é uma menina especial.
— Posso perceber isso.
— O QI dela é muito mais alto do que o normal. E pelo que li a seu respeito, imagino que o seu também seja.
Ela deu de ombros e não disse nada.
— Lizzie, não se aproxime muito dela.
Ela pareceu confusa.
— Olhe, não quero que ela sofra. Nós dois sabemos que você terá de voltar para seu tempo, no final das contas. Mas ela está se afeiçoando a você, já posso ver isso.
— Ah, percebo aonde quer chegar. Mas, Darcy, eu preciso da ajuda dela. Usando essa máquina, eu posso…
— Não ligo para a máquina, Lizzie. Só me importo com minha filha.
— Eu também.
E ele sentiu uma pontada de culpa por se opor de forma tão decidido. Ainda mais pelo que tinha em mente. Suspirou e abaixou a cabeça.
— Sei o quanto isso é importante para você. E que… Ela nunca teve uma mãe, Lizzie. E ultimamente, só tem falado disso.
— Entendo.
— Não entende, não. Você não pode nem imaginar. Ela é…
— Eu entendo, Fitzwilliam. Jane e Georgiana têm mais em comum do que você pensa. Jane nunca sentiu o amor de pai, e desde que ficou doente, só fala nisso. O desejo por um pai. Entendo tudo que você está falando.
Ela entendia, agora ele começava a perceber lentamente. Ele a olhou nos olhos:
— Sinto muito… Pelo seu marido, quero dizer.
Lizzie abaixou a cabeça, mas não antes de ele ver rancor nos olhos dela. Mas ela balançou a cabeça, parecendo ansiosa para mudar de assunto.
— Esse remédio, que pode curar minha filha. Você tem alguma ideia de onde posso consegui-lo?
Ele tomou fôlego e ergueu o queixo.
— Também quero falar com você sobre isso, Lizzie…
— Não podemos conseguir o remédio sem a ajuda de um médico, não é isso, pai? — Ambos se voltaram para ver Georgiana parado na porta, enxugando as pequenas mãos em uma toalha. — Não precisamos de receita?
Os olhos de Lizzie encontraram os dele preocupados.
— Precisamos — respondeu ele. — É um antibiótico poderoso e uma substância controlada. Não podemos comprar a não ser que um médico receite.
— Então falaremos com um médico — disse Lizzie. — Explicaremos e…
— E ele vai nos colocar em camisas-de-força — disse Darcy. Não era uma boa solução. Mas pelo menos era uma tática para adiar o assunto. Quando Lizzie franziu a testa, ele explicou: — Ele vai achar que somos loucos.
— Então temos de encontrar um outro jeito. — O olhar de Lizzie era intenso.
— Podemos procurar no computador — disse Georgiana. — Descobrir como se faz o remédio e…
Lizzie balançou a cabeça.
— Entretanto, teríamos os mesmos problemas. Não temos material e nem equipamento necessários para criarmos o remédio. E se não fizermos exatamente igual, pode não funcionar. Não posso arriscar.
Georgiana estava parada, mordiscando o lábio.
— Papai, lembra quando você disse que podemos contar uma mentira se realmente precisarmos?
Ele estreitou os olhos para encarar a filha.
— Lembro.
— Bem, é a mesma coisa com… roubar?
— Georgiana, você sabe que nunca, nunca mesmo é certo roubar. Nunca!
— Por que, Georgiana? — perguntou Lizzie, indo até Georgiana e se ajoelhando diante dela. — Você sabe onde podemos encontrar esses comprimidos?
— Claro. O Doutor Magregor tem todos os tipos de comprimidos no armário branco do consultório dele. Lembra, papai? Quando tive garganta inflamada? Ele abriu o armário e pegou um frasco de penicilina. Ele tem um monte de antibióticos lá.
Lizzie olhou para Darcy. Georgiana também.
— Não. — Ele balançou a cabeça firmemente. Elas ainda estavam olhando para ele. — Não vamos fazer isso. Já não é ruim o suficiente a cidade toda estar achando que estou fazendo… — Ele mordeu o lábio. — Não vamos convencê-los também de que sou um ladrão e viciado em remédios.
— Podemos deixar dinheiro para pagar os comprimidos, papai. Aí não seria realmente um roubo.
— Georgiana Darcy, não quero ouvir nem mais uma palavra sobre isso. Entendeu? Nem uma palavra. Ninguém nesta casa vai roubar nada, em lugar nenhum, nunca. Entenderam?
O queixo de Georgiana caiu.
— Entendi.
— Bom. Agora… O almoço está servido. Vamos descer.
Ele saiu do quarto e elas seguiram.
— Talvez — ele ouviu Lizzie dizer — eu possa convencer esse bom médico a me dar alguns comprimidos. Quer dizer, se eu fosse vê-lo.
— Ele é esperto — respondeu Georgiana. — Sempre sabe se você está fingindo.
— Bem, talvez se eu falasse com ele. Onde você disse que fica o consultório dele, Georgiana?
Darcy virou e encarou Lizzie, mas Georgiana já estava dando informações detalhadas sobre como chegar ao consultório do médico. Não poderia adiar mais. Tinha de conversar com Lizzie, contar por que ela não podia continuar com isso. E tinha de fazer isso logo. Hoje à noite, depois que Georgiana fosse dormir.
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