Até As Últimas Consequências
10 Uma Pequena Aventura
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
Darcy ficou lá, parado, observando as duas e tentando respirar, embora sentisse o peito apertado e pesado. Sabia que não podia deixar isso acontecer. Tinha de impedir Lizzie de salvar sua filha doente.
Porque se fizesse isso, existia a chance de perder a sua.
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Durante todo o tempo em que ela comeu, Darcy notou o olhar curioso que lançava para a cozinha, para os eletrodomésticos, para a luz, para o micro-ondas. Ela estava repleta de dúvidas, ele sabia. Mas ela continuou olhando para ele, e apesar de ele tentar esconder a preocupação, sabia que devia transparecer em seus olhos. Já que os dela estavam sondando e questionando. Ele evitou o olhar perturbador dela, andando pela cozinha, pegando manteiga para os pãezinhos, enchendo as xícaras de leite e os copos de suco antes de estarem pela metade.
— Darcy — disse ela, quando ele finalmente não tinha mais o que fazer e sentou-se para comer. — Tem alguma coisa errada? Você pensou duas vezes sobre me deixar ficar?
— Pode me chamar de Fitzwilliam ou Fitz e não há nada de errado.
E então um carro entrou na rua e parou perto da loja, o salvando de ter de responder. Não podia dizer para ela. Ainda não, e certamente não poderia fazer isso na frente de Georgiana. Precisava falar com ela quando estivessem sozinhos e só depois de ter encontrado as palavras certas para convencê-la de desistir dessa ideia insana.
— Tenho de… — começou ele, mas as palavras fugiram porque Lizzie estava em pé, correndo para a porta e observando o carro com espanto.
Darcy não pôde deixar de sorrir ao segui-la.
— O que é essa coisa?
— É um carro. Um automóvel. Eles… — A buzina tocou. — Ih, Lizzie, tenho uma cliente impaciente para atender. A explicação vai ter de esperar até mais tarde.
— Pode ir, papai. Nós ficaremos bem. — Georgiana veio para o lado de Lizzie e olhou para ela: — Você já viu carro antes, certo?
Lizzie negou, aquela coisa era uma grande novidade para ela, o olhar ainda fixo no mais recente modelo de Mercedes parado ali na frente.
— Não faço ideia do que seja essa coisa. Na minha época, usávamos carruagens e cabriolés puxados por cavalos. Mas nada como isso.
Darcy suspirou. Não tinha tempo para perder. Passou por elas, pela porta e desceu a rua até a loja e oficina que ficava no final. Sabia, desde que vira o passageiro do carro, que seria uma longa visita. Vagner Murple, o banqueiro e fofoqueiro de plantão da cidade. Felizmente, também era um ávido colecionador de antiguidades. Vivia levando coisas para serem restauradas ou mesmo comprando algum item. Um bom, porém fatigante, cliente.
— Dai-me forças — murmurou Darcy, colando um sorriso no rosto.
Sem que fossem notadas, as duas foram até o carro.
— Impressionante — disse Lizzie, passando a mão pelo automóvel preto, liso e brilhante, examinando através do pára-brisa. — Onde foram parar os cavalos? Como funciona? O vidro é escurecido.
— Para o sol não bater nos olhos — explicou Georgiana. — Por que você não entra, Lizzie? Mr. Murple não vai ligar. Ele é legal.
— Acho que… — Lizzie parou de falar quando Georgiana abriu a porta, o deixando ver melhor a parte de dentro da máquina. Não conseguiu se deter. Colocou a cabeça para dentro e passou a mão pelo tecido macio dos assentos. Aí levou um susto quando Georgiana abriu a porta do outro lado e pulou para dentro.
— Vamos. Vou mostrar como funciona.
— Georgiana, provavelmente não é…
— Olhe — disse Georgiana, apontando. — Tem um rádio com CD player para ouvir música enquanto dirige.
Georgiana mexeu em algumas teclas no volante e depois apertou um botão. Música alta, ou pelo menos alguma coisa vagamente parecida, inundou o veículo.
Assustada, Lizzie entrou no carro, sentou-se atrás do volante, ignorando os sons ensurdecedores.
— É muito fácil dirigir— disse Georgiana bem alto. — Até eu sei.
— Você?
— Claro. Fico olhando a meu pai.
— Seu pai possui um automóvel?
— Claro, como você acha que vamos aos lugares? Está na garagem, lá. — Ela apontou e Lizzie notou o pequeno anexo perto de onde o pônei costumava ficar. — Olhe, é fácil. Primeiro, você vira a chave, assim…
Georgiana virou a chave e o veículo ligou. Lizzie sentiu um sorriso abrir em seu rosto enquanto a vibração do motor se espalhava por seu corpo suavemente, eficiente e silencioso. Muito diferente das carruagens em que andava.
— Depois você move essa alavanca aqui — continuava Georgiana excitada com o papel de professora. — Pisa naquele pedal para andar e no outro para parar. Simples.
— Sem forçar?
— Isso. — Os olhos de Georgiana vislumbraram um brilho travesso. — Quer tentar?
Lizzie mordeu o lábio, verdadeiramente dividida. Por um lado, essa máquina não era dele e não tinha o direito de testá-la. Por outro… Ah, que maravilha era isso! Mal conseguia conter a excitação que a dominava.
A decisão escapuliu de suas mãos um segundo depois, quando Georgiana puxou a marcha e o carro deu uma guinada para trás. A traseira do carro estava virada para a casa de hóspedes, no final do caminho, e Lizzie mal conseguiu manejar o volante e alterar a direção a tempo de desviar da casa. Ela pisou no pedal que achava que deveria parar a coisa, mas, em vez disso, foi mais rápido.
— Droga! — exclamou, pilotando loucamente enquanto o carro corria para trás pela grama.
— Passei a marcha errada! — gritou Georgiana, puxando a alavanca. Houve um som horrível. O veículo deu um solavanco, de repente mudando de direção e indo para frente.
Darcy e um homem troncudo saíram da casa de hóspedes. Os dois sacudiram os braços e gritaram, embora Lizzie não conseguisse escutar o que diziam por causa da música alta latejando em seus ouvidos e da gargalhada nervosa de Georgiana. O carro saiu da grama, indo em direção aos dois, que se separaram deixando o carro passar entre eles. Lizzie olhou por cima dos ombros e viu o homem mais velho levantando-se do chão. Pelas feições, estava, no mínimo, furioso.
Ela tentou o outro pedal, e o carro parou tão repentinamente que teve de agarrar a menina para que não fosse jogado para frente e batesse com a cabeça. Não ousava tirar o pé daquele pedal. Embora, quando os dois homens vieram correndo em sua direção, tenha ficado tentado a tirar o pé para uma fuga rápida.
Darcy chegou ao carro primeiro, abriu a porta e passou por cima dela para mexer na alavanca mais uma vez. Com um rápido movimento do pulso, virou a chave e gritou para elas saírem do carro quando o motor desligou.
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