Até As Últimas Consequências
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Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
Não conseguia enxergar nada além da fumaça densa e fatal e do espocar ocasional do fogo. Não conseguia escutar nada além da crepitação e dos estalos que até pareciam de um ser vivo. Um monstro desejoso de devorar todas elas. Um movimento repentino fez com que virasse para o lado. Então sentiu o pônei de Jane passar como um raio por ela em absoluto pânico. A cabeça de Lizzie bateu em uma viga quando se abaixou, e a pata bateu em seu queixo enquanto o animal amedrontado ia em direção à abertura. Pelo menos o pobre bicho estava na direção certa. Segurando em uma viga para se levantar de novo, Lizzie foi para a área de onde o pônei viera. Seus gritos e sua tosse misturados.
E então ela tropeçou e caiu de novo. Mas desta vez, foi um corpo que a fez tropeçar.
***
Quando a charrete quicou em uma parte elevada de lama perto do estábulo, Darcy gritou de susto. Ele levantou do assento, pulou para o chão encharcado e correu, mas a mão firme de um dos homens envolvidos na busca o impediu de continuar correndo para as chamas.
— Calma, senhor. Para trás. Deixe que nós cuidemos disso. Estamos fazendo tudo o que podemos.
Ele sacudiu a cabeça, e gotas de chuva espirraram de seu cabelo enquanto lutava com as mãos que seguravam seus ombros.
— Deixe-me ir! Minha filha está lá! Georgiana!
Mas as mãos do homem não cediam. Seguravam-no firme, apesar da chuva forte e do esforço de Darcy, e ele parou de lutar quando seus joelhos dobraram. Afundou no chão lamacento, aflito, soluçando, incapaz de tirar os olhos do fogo.
Os homens formaram uma brigada; uma fila torta de homens se direcionando para algum lugar perto, onde a água caindo refletia o horror alaranjado como um espelho. Enchiam baldes e esses eram passados e despejados no fogo, e depois voltavam. Ele não tinha ideia de onde os baldes vinham. Nem se importava.
— Eu também quero ajudar!
O homem que o segurava afrouxou o aperto e pediu para que ele ajudasse com os baldes.
Levantando do chão, ele entrou na fila e ajudou a repassar os baldes, tinha que se manter ocupado ou então enlouqueceria.
— Aqui. Por onde Elizabeth entrou! — gritou alguém. — Joguem água aqui para que ela possa voltar viva!
Lizzie estava lá dentro? Céus, todas as três, presas naquele inferno de calor e fumaça?
Na charrete, o homem que trouxera Darcy parecia congelado, paralisado, em choque, talvez. Não chorava nem soluçava, como Darcy. Estava apenas sentado lá, observando, e as luzes das chamas se refletiam naqueles olhos enormes e atordoados.
Darcy olhou para ele por apenas um segundo antes de voltar seu olhar para o estábulo em chamas que poderia estar devorando sua filha enquanto estava sentado ali, a salvo e impotente.
Estava passando o balde para o homem ao seu lado, quando escutou os gritos de Georgiana.
Então ele largou o balde e correu até a lateral do prédio, escorregando na lama, lutando para ficar de pé e seguindo. O lugar que os homens estavam jogando água tinha um formato oval. Fumaça cinza saía formando espirais em suas bordas negras. E Darcy foi até aquela abertura, com intenção de entrar.
Uma pequena forma o fez parar no momento em que ia entrar. Uma preciosa fôrma pequena e tão familiar que cambaleava para fora da armadilha mortal e se jogava em cima dele. Braços pequenos e fortes abraçaram sua cintura, e um rosto chamuscado encostou em sua barriga.
— Georgiana! — Darcy caiu de joelhos de novo, desta vez de alívio, soluçando mais uma vez e a abraçando com força.
— Papai… Eu estava com tanto medo!
Ele puxou a filha para si, incapaz de deixá-la sair mesmo se quisesse. Mas seu olhar voltou para aquele buraco negro enquanto esperava, prendendo a respiração.
Segundos pareciam horas. Mas finalmente Lizzie saiu, cambaleando, com a filha nos braços. De joelhos, Darcy fitou os olhos dela. E ela, os dele, o rosto cheio de fuligem, o cabelo chamuscado. Ela passou Jane para um braço, soltando uma mão para alcançar Darcy. Ele segurou a mão dela e Lizzie o levantou e rapidamente o puxou e a Georgiana para longe do estábulo. Sem parar até chegarem à estrada.
— Doutor Baker! — gritou ela. — Alguém encontre o médico!
— Estou aqui, Miss Elizabeth. Bem aqui. — Um homem idoso abriu passagem entre a multidão e delicadamente tirou Jane dos braços de Lizzie. — Vou olhar por ela. Ela está viva, Elizabeth. Não venha chorando como um bebê para cima de mim.
— Não planejava fazer isso.
O médico entregou a menina para outra pessoa.
— Leve-a até minha charrete. Essa aqui também — disse ele, apontando para Georgiana.
Georgiana apertou a mão de Darcy com muita força enquanto olhava para a menina mais nova inconsciente. Virou-se para Lizzie, que estava do outro lado dela.
— Jane vai ficar boa. Já dei duas doses para ela, e daqui a pouco estará na hora de… — Enquanto falava, Georgiana colocou a mão no bolso. E então congelou, os olhos se arregalaram. — Deve ter caído do meu bolso quando…
— Lizzie, não! — gritou Darcy inutilmente. Lizzie já estava voltando para o estábulo em chamas, passando pelo buraco que mais uma vez estava contornado por fogo.
O médico praguejou. Georgiana chorou. Os homens que estavam em volta deles gritaram. Mas era tarde demais… Lizzie já entrara.
— Papai…
Darcy balançou a cabeça, abraçando Georgiana mais uma vez.
— Quero que você volte para a casa com o médico, Georgiana.
— Mas Lizzie…
— Não há mais nada que você possa fazer aqui, querida. Vá com ele. Você precisa se secar e se esquentar ou vai acabar ficando tão doente quanto Jane. Além disso, ela pode precisar de você quando acordar.
Georgiana estremeceu e fitou o estábulo por um longo momento.
— Papai, não quero que Lizzie morra. Não queria que nada disso acontecesse. Só queria ajudar Jane… — Abraçou-o forte sob a tempestade.
— Ela não vai morrer. Prometo. E nada disso é culpa sua, Georgiana. — Ele se inclinou e beijou o rosto sujo de fuligem. — Por favor, vá e ficará a salvo. Tome conta de Jane. É o que Lizzie gostaria que você fizesse.
Georgiana fungou e endireitou a coluna.
— Ok. Eu vou. Promete que não vai atrás dela, papai?
— Prometo.
Georgiana assentiu, o abraçou mais uma vez e depois subiu na charrete do médico. Jane estava deitada no assento, então Georgiana sentou na beirada, e pegou a mão de Jane.
— Você vai ficar bem, Jane — disse ela. O doutor assentiu para Darcy.
— Vou cuidar bem de sua filha, senhor. Tome conta para que levem Elizabeth no momento que sair.
— Pode deixar.
— Se as meninas ficarem bem antes de você levá-la, voltarei. Embora acredite que se demorar tanto, tudo estará perdido. — Ele o estudou através dos olhos estreitos. — Qual foi o remédio que a menina perdeu lá dentro?
Ele abaixou o queixo e balançou a cabeça.
— Eu… É experimental, doutor. Só sei isso.
— Engraçado Elizabeth não ter falado nada antes — reclamou o homem, se virando para a charrete e subindo. Puxou as rédeas e o veículo andou. Darcy deu um passo para frente.
A brigada de baldes estava com força total de novo. Dois homens entraram atrás de Lizzie, e Darcy esperou, rezando silenciosamente, enquanto lágrimas escorriam pelo rosto.
— Fique bem, Lizzie — sussurrava ele. — Por favor, pelo amor de senhor, fique bem.
Houve um estalo e o telhado desabou. Tábuas em chamas caíram no chão, soltando brasas pela noite. Os homens se afastaram, um deles puxando Darcy consigo. Enquanto o estábulo desmoronava, ele viu três formas perto da abertura. Que depois desapareceram.
As faíscas se espalhavam pelo chão, e as chamas que atingiram o céu diminuíram, levando o que sobrara do prédio junto. Darcy correu para onde vira os três, ou pensou que vira, saltando por cima dos escombros em chamas. Dois homens já estavam levantando, gritando de dor enquanto batiam em suas roupas queimadas, correndo atordoados. A terceira permaneceu onde estava, meio soterrada pelos entulhos. E Darcy foi até ela. Freneticamente tirando madeira queimada de suas costas, queimando as mãos sem se importar.
— Por favor, me ajudem! — gritou ele, e só então vários outros surgiram para terminar o trabalho e levantar o corpo imóvel de Lizzie da lama e dos escombros. Eles a carregaram até a estrada e a deitaram no chão. Um deles se inclinou sobre Lizzie por um momento enquanto Darcy se juntava a eles. Então se endireitou, olhando para todos, lentamente balançando a cabeça.
— É inútil. Ela está morta.
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