Até As Últimas Consequências
9 Questão é Acreditar
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
— Hum, hum — respondeu ela. Então abriu os olhos e encontrou-o olhando feio para ela. — Quer dizer, sim, claro. Mas… E se eu me cortar?
— Se você é quem diz ser, então já lidou com problemas bem maiores no seu tempo. E se pode lidar com eles, pode lidar com isso. — Ele deixou o barbeador na borda da banheira e levantou-se para sair.
— Sou quem digo ser. E você vai acreditar antes do café da manhã. Prometo.
Ele olhou para ela, e dessa vez seus olhos o traíram, descendo e olhando para o restante das bolha de sabão que ainda restavam. Às pressas, virou-se agarrou o braço da filha e saiu do banheiro, fechando a porta com firmeza.
***
Darcy encostou-se na porta do banheiro e tentou controlar a respiração. Quem quer que fosse, a lunática na banheira era inacreditável, parecia uma ninfa com aquele cabelo longo espalhado. E isso a tornava perigosa. Quanto antes ela saísse da casa dele, melhor. Fechou os olhos, mas a imagem do corpo nu molhado que deu para ver dela voltava a sua cabeça.
— Quanto antes, melhor — murmurou ele e olhou para a filha que a observava com aquele olhinhos curiosos.
— Quanto antes melhor o que papai?
— Nada minha filha, acho melhor você ir arrumar a sua cama e vê se não atrapalha a nossa hóspede. — Desceu para começar a preparar o café da manhã.
****
Lizzie saiu do banheiro enrolada na toalha, com um turbante na cabeça e voltou ao quarto. Estendeu as suas roupas na cama e quando terminou de vestir as anáguas, armações para saias e anquinhas e as meias ficou se perguntando com era que iria conseguir vestir o espartilho quando ouvi uma batida na porta.
— Posso entrar? — Georgiana perguntou.
— Claro. — Lizzie deu passagem para a menina entrar no quarto e fechou a porta logo a seguir.
Rapidamente Georgiana correu e se sentou na cama, olhando com muita curiosidade para o espartilho.
— O que é isso?
— Isso é um espartilho.
— E para que serve?
Pegando-o da mão da menina, Lizzie colocou em frente ao corpo.
— Serve para dar forma ao corpo feminino. As mulheres desta época não usam? — perguntou Lizzie curiosa.
— Acho que elas usam um negocio chamado sutiã, eu ainda não uso por que eu ainda não tenho isso que você tem — disse apontando para os seios de Lizzie — peito. E papai não fala sobre essas coisas comigo.
Lizzie sorriu em solidariedade para com a menina.
— E o que seria sutiã?
Georgiana fez uma carinha tão engraçada que Lizzie não pode deixar de rir.
— Bem... é um negócio que as mulheres usam, acho que é para segurar os peitos, eu vou ver se consigo encontrar alguma imagem no computador e te mostro.
Lizzie não sabia o que aquilo poderia significar, mas esperava ansiosa para ver.
— Você poderia me ajudar a colocar o espartilho? Ele tem que ser amarrado nas costas.
— Claro, posso sim.
Depois de algum esforço, finalmente Georgiana conseguiu dar o nó no esperpartilho.
— Por acaso você é uma viajante de outro planeta?
Lizzie sorriu e ficou imaginando aonde ela queria chegar.
— Criatura de outro planeta? E o que seria isso?
— Um extraterrestre. Não eu acho que você não é. Já sei... você deve ser um fantasma, se bem que fantasmas não tem matéria. Então só sobra ser uma policial do tempo, dessas que conseguem viajam no tempo. É deve ser isso mesmo. Temos que arrumar umas roupas novas para você também, muitas pessoas não usam este tipo de vestido nesta época. Vou pedir que papai me ajude.
****
Quando já tinha feito o café da manhã e colocado os pãezinhos preferidos de Georgiana no forno, Darcy subiu para chamar a filha. Mas Georgiana não estava mais no quarto quando ele desceu. Por um segundo, a ausência dela o deixou alerta. E então escutou os ruídos do vídeo game vindos do início do corredor. Enquanto se vestia, olhava para o retrato que estava pendurado na parede acima de sua cama… Então ficou parado, mergulhado naqueles olhos do retrato. A inventora. A viajante do tempo. Saíra diretamente de um romance de Júlio Verne e aterrissara no meio de sua vida.
Ou, então, a mulher que de alguma forma se transformara em sua hóspede conquistaria sua confiança. No mínimo, isso era perturbador. A coincidência disso. Ela parecia tanto a mulher do retrato. Até as roupas…
Mas é claro que era impossível. Mas ainda assim, algo sobre aquela mulher mexia com ele. Queria ajudá-la. E hoje faria isso. Tentaria convencê-la a deixar que a levasse a um médico. Talvez tenha levado uma pancada na cabeça, ou algo assim.
Não avisara Lizzie para não contar a Georgiana de onde achava vir, ou quem pensava ser, e deveria ter avisado. Nossa, podia imaginar a chamada que levaria quando Georgiana começasse a contar essa história para os amigos da escola. Além disso, isso só a confundiria. Era muito jovem para entender um conceito desses, mesmo sendo mais inteligente do que a média.
Terminou de se vestir e foi até a porta de Georgiana, e ficou olhando por um instante. Georgiana estava de pé perto da escrivaninha rindo copiosamente enquanto a mulher que dizia ser Elizabeth Bennet, a gênia, manejava o controle e levava o pequeno Mário na tela direto para um penhasco e para o esquecimento.
— Não se sinta mal — disse Darcy. — Tenho tentado há meses e ainda não consegui passar da fase dois.
Ambas se voltaram para ele e estavam sorrindo. Os olhos de Lizzie brilhavam com espanto.
— Isso é impressionante!
— E vicia. Tome cuidado ou vai se ver grudada nessa coisa como uma mosca em uma teia de aranha. — O sorriso dela se abriu e ele prendeu a respiração. Limpa e arrumada, ela era ainda mais linda. Principalmente quando sorria. Sua mente escolheu aquele momento para lembrar daquela boca o beijando na noite passada, e logo desviou os olhos. Tarde demais, porém. Ela percebera. Ele viu o modo que o olhar dela desceu até seus lábios. E sentiu o ar entre eles pesar.
— Georgiana, o que eu disse sobre vídeo game antes do café da manhã?
— Eu sei, papai. Mas Lizzie nunca viu nada parecido com isso. Viu, Lizzie?
— Com certeza, não.
— Pai, elas não tinham nem televisão em 1795.
Ele fez uma careta e lançou um olhar para ela:
— Você não contou para ela…
— Ela percebeu tudo sozinha. É claro que fez muitas suposições. Pelo que lembro, a primeira foi se eu era uma viajante de outro planeta. Depois, se eu era um fantasma. E, por último, se eu era uma… Como você chamou, Georgiana?
— Uma policial do tempo — respondeu Georgiana.
— Sabia que não devia ter deixado você alugar aquele filme do Van Damme.
— Darcy, honestamente — disse Lizzie. — Sua linguagem.
— O café estará pronto em quinze minutos. Estejam lá.
— Estaremos, papai.
Ele olhou para as duas, questionando se era seguro deixar Georgiana sozinha com essa mulher, delirante como estava.
— Não vá ainda, Darcy — disse Lizzie colocando o controle no chão e levantando. — Tenho algo para lhe mostrar. — Foi até a cama, pegou a bolsa, desafivelou-a e enfiou a mão. Tirou um jornal e se virou para encará-lo, segurando-o.
— Prometi que provaria quem sou antes do café da manhã. Vamos lá, pegue.
Darcy deu um passo à frente e pegou o jornal. Era tão novo que ainda conseguia sentir o cheiro da tinta. O Pemberly Sentinel, 02 de abril de 1795.
Ele piscou e olhou para ela. Georgiana esquecera completamente o jogo e estava bem ao seu lado.
— Uau. É verdade mesmo — disse ela espantada.
— Georgiana, essas coisas podem ser feitas por encomenda. Você sabe disso. — Os olhos dele encontraram os de Lizzie.
— Sinto muito, mas isso não é suficiente.
— Achei que não seria. Felizmente, tenho mais. — Chegou mais perto, virou-o levemente, apontando. — Tem uma tábua solta, a quarta a partir daquela parede. Embaixo dela está o meu diário. Anotações que guardo do trabalho que estava fazendo. Coloco-as lá para protegê-las. A minha área é muito competitiva, nem todos são honestos. As anotações estão lá, com exceção de uma página, que rasguei para trazer comigo. Anotações e desenhos que eu usaria se o aparelho precisasse de ajustes ou consertos.
Ele olhou para ela e depois para a tábua.
— Vamos olhar. Precisamos tirar seu ceticismo do caminho para que eu possa continuar.
— Olhe, papai — implorou Georgiana. — Ela está falando a verdade.
Darcy foi em direção ao lugar indicado. Abaixou-se, pressionou a tábua solta com as mãos, respirando entrecortado, soltou quando ela se moveu. Olhou para ela e, então, tentou puxar a tábua.
— Se me permite. — Lizzie abaixou-se ao lado dele e puxou a ponta da tábua até que levantasse uns poucos centímetros. Segurou-a assim enquanto ele passava as mãos por debaixo e tirava um diário pesado com encadernação de couro, que colocou no colo ao sentar-se no chão.
— Não posso acreditar…
— Você tem de acreditar, Dacy. Por favor, abra-o. Veja.
Ele limpou a poeira da capa de couro e abriu o livro. As páginas estavam amareladas do tempo. Mas ainda era possível ler o que estava escrito. Ele balançou a cabeça, demonstrando espanto.
— Encontre o ponto onde uma página esteja faltando.
Darcy concordou e virou as páginas rapidamente, sendo cuidadosa com elas devido à condição frágil. Encontraram o lugar onde pontas amareladas e rasgadas era só o que restava, e olhou nos olhos dela. Lizzie puxou uma página do bolso, alisou-a e entregou a ele. Estava branca, nítida e nova. Pegou a página, olhou para ele questionando-se, e então a colocou contra o lugar amarelado e rasgado no livro.
E as pontas encaixavam-se perfeitamente. Examinou as páginas e percebeu que a caligrafia era idêntica.
— Senhor — sussurrou ele. — É verdade.
Suas mãos, que ainda seguravam o livro, começaram a tremer.
— Sinto muito por assustá-lo desse jeito. Mas tinha de convencê-lo a me deixar ficar. Trabalhar aqui até descobrir o que deu errado no experimento, tenho de voltar.
— Para salvar sua filha.
— Isso. Tenho de evitar que ela morra. Se puder voltar para uma época antes de Jane ser exposta ao vírus, posso tirá-la de lá. Ela não ficará doente e não morrerá. E tenho de fazer isso aqui, neste quarto.
— Por quê? — perguntou ele, e começou a perceber que estava acreditando naquela mulher. Chocado com o que ela dizia, mas ainda acreditando.
— Existe algo aqui, alguma força, algum tipo de dobra no tecido do tempo, como disse antes. Meu aparelho abre esse portal e me permite viajar através dele. Já tentei abrir o portal de outros lugares, do lado de fora, no solo, em outros quartos. Não funciona. Só aqui. Neste quarto.
Ela suspirou e abaixou a cabeça.
— E devo admitir que existe a possibilidade de o portal ser limitado. Que minha viagem só me levará de volta a minha própria época. Talvez só volte para presenciar a morte de minha filha e não consiga fazer nada.
Ela pareceu surpresa ao olhar para Darcy e ver lágrimas escorrendo de seus olhos.
— Não sei o que faria se perdesse Georgiana. Acho que isso acabaria comigo.
— Então você entende o quanto isso é importante para mim
— E claro que entendo. Sou pai. Como poderia não entender?
— Então…
Darcy molhou os lábios, tomou fôlego e depois viu o apelo nos olhos de Georgiana, o mesmo que tinha nos olhos de Lizzie.
— Tudo bem. Pode ficar, por quanto tempo precisar.
Ela suspirou, cada músculo do corpo relaxando de uma só vez, enquanto a tensão sumia.
— Obrigado. Não é suficiente, eu sei, mas… — Ela balançou a cabeça, como se as palavras lhe escapassem. — Obrigado.
Darcy levantou-se e entregou o jornal para ela.
— Só espero que você consiga fazer isso… Quero dizer, voltar o suficiente.
Ela fechou os olhos enquanto a agonia de um possível fracasso tomava conta dela.
— Tenho de conseguir.
— Talvez não — disse Georgiana rapidamente. — O que foi que matou sua filha, Lizzie?
Ela suspirou.
— Meningite.
Georgiana abriu um sorriso forçado, mas o coração de Darcy quase parou. Esquecera. Senhor, como pôde esquecer? Segurou o braço de Georgiana para impedi-la.
— Georgiana, não…
— Temos a cura para isso agora. Não precisa se preocupar em tentar voltar para a época antes de Jane ficar doente. Só precisamos arranjar o remédio para você, aí vai conseguir deixá-la bom de novo.
Ela encarou Georgiana. E então o agarrou e abraçou com força.
Darcy ficou lá, parado, observando as duas e tentando respirar, embora sentisse o peito apertado e pesado. Sabia que não podia deixar isso acontecer. Tinha de impedir Lizzie de salvar sua filha doente.
Porque se fizesse isso, existia a chance de perder a sua.
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