Até As Últimas Consequências
12 Divagação
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
— Bem, aqui existe os shoppings, que é u lugar em que vamos para comprar tudo o que precisamos em um só lugar, desde roupa até o mantimento.
— Interessante. Não existem mais costureiras nesta época?
— Existem, mas é mais fácil ir comprar uma roupa já pronta.
— Quero muito conhecer.
— Tudo bem, mais tarde resolveremos isso.
— Legal papai. Posso ir andar de bicicleta agora?
— Por acaso você terminou de tomar o seu café da manhã?
— Acho que não.
— Então termine e depois você vai poder andar de bicicleta.
— Só se Lizzie puder ir comigo.
Ele assentiu, e ela saiu correndo em direção aos fundos da casa.
*****
Lizzie não conseguia tirar os olhos dele.
— O que você está olhando? — perguntou ele quando encontrou os olhos dela.
Ela balançou a cabeça lentamente.
— Sua filha tem muita sorte de ter você como pai, Fitzwilliam.
Um rubor subiu pelo pescoço dele e se espalhou por todo o rosto. Lizzie resistiu à tentação de tocá-lo e sentir o seu calor.
Ele piscou, talvez um pouco confuso.
— Elogios não vão livrar você dessa, Elizabeth. Você estragou tudo.
— Mr. Murple vai esquecer disso.
— Claro que vai, mas não antes de contar para todos na cidade que eu sou um Don Juan sem-vergonha que arranjei uma gata e a estou exibindo por aí na frente da minha inocente filha.
— Uma gata? — perguntou ela sentindo que também enrubescia.
Ele ficou ainda mais vermelho e levantou as sobrancelhas.
— Não foi bem isso que disse.
— Eu ouvi bem, você disse gata. E quem é esse Don Juan?
— Don Juan é um conquistador. Nossa... minha reputação está arruinada. Provavelmente vai me achar um pai incapaz.
— Você acha que Mr. Murple acredita que estamos…
— Fazendo sexo? — completou ele, e Lizzie ficou admirada pela maneira casual com que ele falou essas palavras. — É claro que acha. O que mais poderia pensar?
— Não consigo entender por que ele chegaria a tal conclusão tão drástica.
— Dê uma olhada no espelho, Lizzie. Mr. Murple não é insensível do pescoço para baixo, nem cego, nem gay. Provavelmente tem certeza de que eu também não sou nada disso. Senhor, espero que não saia no Pemberly Daily Star. Solteirão Local Vivendo em Pecado. Leia tudo sobre isso!
Lizzie se segurou para não rir. Ele estava realmente chateado com a mancha que ela causara em sua reputação. Sendo que era difícil de se concentrar nisso, pois tinha quase certeza de que ele acabara de dizer que ela era atraente. A não ser que tenha entendido errado.
— A fofoca não mudou muito, não é mesmo?
— Nada mudou nessa pequena cidade, Lizzie. Em qualquer outro lugar, não faria diferença se eu trocasse de mulher todo dia. Ninguém ligaria. Mas aqui temos Vagner Murple, a resposta de Pemberly à moralidade moderna, e a parceira dele, pastora Holly. E os dois também fazem parte da diretoria da escola.
— Sinto muito. Talvez possamos dizer que eu aluguei um quarto na sua casa ou…
— Ninguém acreditaria, Lizzie.
Lizzie suspirou, sentia muito por estar causando a Fitz tal problema.
— Acho que o melhor que posso fazer é conseguir esse miraculoso remédio assim que possível e pegar meu caminho. Com certeza a sua reputação pode sobreviver a alguns dias vivendo em pecado, não pode? Enquanto isso, Fitzwilliam, seria melhor se eu ficasse aqui na casa de hóspedes?
— Não é mais uma casa de hóspedes.
Lizzie passou seu olhar de Darcy para a casa de hóspedes. Agora prateleiras de uma loja se alinhavam perto das janelas, e em uma placa acima estava escrito "Velhos Tempos — Antiguidades Finas e Peças para Colecionadores e Restauração".
— Gostaria de ver? — perguntou ele gentilmente. E apesar de saber que já deveria ter começado sua busca pelo novo remédio, Lizzie se viu concordando. Alguns minutos não faria diferença.
— Gostaria — disse ela. — Gostaria muito.
O sorriso que tocou os lábios dele e o brilho no olhar verde disse a Lizzie que esse pequeno negócio significava muito para ele. E que tinha orgulho dele. Ela o acompanhou pela porta da frente, e Lizzie não reconheceu o lugar. Todo ele havia sido modificado, paredes demolidas. Agora era apenas um cômodo grande, com um balcão comprido ao longo da parte de trás, e muitas prateleiras. Tinham tantos itens nelas que nem dava para enumerar. Bules, pratos, bugigangas, caixas de música. Tinha uma seção inteira de livros e outra com peças de arte. E havia um canto sem prateleiras onde estavam vários móveis que tinham sido limpos e polidos até brilharem. Uma cadeira de balanço de carvalho. Uma máquina de costura. Um pedestal.
Cada item na loja tinha uma etiqueta com um preço pendurada. E no balcão havia uma grande caixa registradora que, obviamente, era do tempo dela. Lizzie duvidava que reconhecesse uma moderna.
— O mínimo que posso dizer é que estou impressionada. Um homem estabelecendo e administrando seu próprio negócio. Dono de uma casa e de um automóvel. Criando uma filha sozinho.
Ele balançou a mão e disse:
— Não fique impressionado até que eu ganhe dinheiro suficiente para expandir.
— Você está tendo problemas financeiros?
Ele sorriu para ela.
— Lizzie, minha família é uma das mais ricas do país. Tenho investimentos e ações que poderiam comprar a lua.
— Não entendo. Por que…
— Cresci em Londres, morando na mansão do meu pai. Muitos empregados. Mais roupas do que eu podia vestir em um ano. Carros, escolas particulares e dinheiro, dinheiro, dinheiro.
— E?
— E eu odiava isso. Lizzie, a Cosméticos Darcy é um monstro. Minha família acha que está conduzindo os negócios, mas a verdade é que são os negócios que a estão conduzindo. Meu pai tem tanto ciúme do meu tio Samuel que eles praticamente não conseguem conversar sem discutir. E eles são irmãos. Minha mãe só pensa em dinheiro e em como conseguir mais. Não quero participar disso. Não é para mim, e principalmente não é para Georgiana.
Ele deu de ombros e passou ao lado dela, os olhos sonhadores examinando cada canto da loja.
— Sempre fui o antiquado. Minha avó me conhecia. Mais do que eu podia imaginar. Quando ela morreu, deixou esta casa para mim. Então saí de casa para vir para cá e tentar levar uma vida mais simples. — Ele olhou para ela e abriu um sorriso. — E em vez disso, encontrei uma inventora que viaja no tempo.
— O que não é exatamente simples — disse Lizzie. — Estou impressionada de você se achar antiquado. Para mim, você é o oposto. Forte. Independente. Com opiniões próprias. Tudo que eu sempre… — interrompeu o que estava falando quando percebeu que ia falar "quis". — Tudo que sempre achei moderno — disse ela.
Era verdade tudo o que vinha pensando, percebeu, um pouco surpresa. Tivera sua pouca parcela de homens desde que George partira seu ingênuo coração. Mas desde então, sempre zombara de seus modos fúteis e esnobes e conversinhas insípidas. Suas maneiras educadas e falsa. A constante busca por maridos ricos. Bem no fundo, sempre desejara um homem moderno. Um que tivesse suas próprias opiniões e que não fosse subserviente a nenhuma mulher. Não queria um homem fraco, covarde, infantil, mas sim um homem como… Como Darcy.
Não que quisesse um homem presa a ela. Nem mesmo um como ele. Não, aprendera muito bem a lição. Mas só de conhecer um. Estar perto dele…
— Talvez eu seja moderno para os padrões do século XVIII, Lizzie. Mas para o século XXI, sou aquele que ficou parada no tempo.
Lizzie respirou fundo e soltou lentamente.
— Fale-me sobre… a mãe de Georgiana.
Darcy levantou a cabeça depressa. As sobrancelhas juntas.
— Não.
— Não quis me intrometer, Fitzwilliam. Só estava me perguntando como um homem tão antiquado conseguia…
— Eu deveria terminar de fazer a restauração em alguns livros — disse ele. — Por que não entra e termina o café da manhã?
Ela tocara em um assunto delicado. Tudo bem. Prometeu a si mesma que não faria mais isso. Embora, por alguma razão, estivesse curiosíssima para saber sobre a mulher que fora mãe de Georgiana.
— Acho que vou — disse ela. Esforçou-se para tirar os olhos dele, virou e saiu da loja.
— Almoçamos ao meio-dia — disse ele, enquanto ela saía. Ela assentiu e fechou a porta.
Darcy teve mais clientes essa manhã do que tivera desde que abrira a loja. Alguns deles até compraram alguma coisa. Estava convencido de que os outros vieram para ver se conseguiam dar uma olhada na mulher que Vagner Murple sem dúvida falara a respeito. A mulher que era a cópia da mulher mais famosa da cidade e que estava vivendo em pecado com um pai solteiro. Droga. Já fora difícil o bastante ver a especulação nos olhos deles quando chegou à cidade. Todos queriam saber onde estava sua mulher. A maioria perguntava mesmo, e apenas alguns poucos eram mais sutis. Não os culpava por serem curiosos. Ele se mudara para o meio da sociedade organizada e antiquada deles, e eles queriam saber que tipo de pessoa ele era.
Céus, agora eles provavelmente acham que sabem.
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