Notas iniciais
Olá meu povo, olha eu aqui com mais um capítulo para vocês. Obrigada pelos recados deixados.

[RECAPITULANDO]

Silenciosamente, subiu as escadas e foi em direção ao quarto de Jane. Mas então congelou ao ouvir vozes vindo de lá. E depois passos. Georgiana quase desmaiou de medo. Deslizou pelo corredor e entrou no armário.

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Darcy engoliu seco ao ficar ali, imóvel, fitando aquela menina tão pequena e pálida. Jane, a respiração fatigada, círculos escuros em volta dos olhos contornados por pestanas espessas, estava deitada, dormindo, as mãos apertadas. A mulher caíra no sono na cadeira de madeira ao lado da cama. Darcy só conseguia ver a parte de trás de sua cabeça caída para frente, os ombros roliços e baixos. E então, enquanto estava ali, se perguntando o que faria quando a mulher se virasse e o visse, ela se mexeu, endireitou-se na cadeira e fez exatamente isso.

— Quem é você? Como entrou…?

Darcy levantou a mão para acalmar a mulher.

— Está tudo bem, Mrs. Smith. Sou um amigo… de Elizabeth. Ela está?

A mulher se levantou, alisou a saia amarrotada, piscou para afastar o sono dos olhos.

— Não, e não tenho ideia de onde foi.

Darcy se sentiu preocupado. Ele e Lizzie não sabiam o que esperar. A perspectiva de encontrar a outra Lizzie, aquela que não o conhecia, era tão absurda que o deixava atordoado.

— A senhora tem certeza? Isso é muito importante. Preciso saber…

— Se Elizabeth estivesse aqui, não acha que estaria aqui ao lado da filha? Mal conseguimos tirá-la deste quarto para comer ou dormir. Não, senhor. Parece que Elizabeth sumiu sem deixar rastro. E estou morrendo de preocupação. — O lábio inferior da senhora estremeceu, e ela agarrou o avental, espremendo-o na mão.

Darcy se aproximou, a garganta apertada, e pôs a mão no ombro da mulher.

— Está tudo bem. Mas preciso da sua ajuda, Mrs. Smith. Estou procurando minha filha, Georgiana. Ela está desaparecida, e eu…

— Sua filha? — repetiu a mulher, parecendo acalmar-se. — Uma menina… que parece tanto com Jane que poderia ser gêmea, só que mais velha e bem mais saudável?

— Isso! Ela está aqui?

— Não, creio que não. Ela esteve, claro, porém mais cedo, e senhor do céu, a menina ainda não chegou em casa?

Darcy fechou os olhos quando sentiu lágrimas ameaçarem cair.

— Não.

— Céus! A jovem ficou aborrecida porque não a deixamos ver Jane. Fugiu daqui feito uma bandida e só o Senhor sabe para onde foi. Mas não se preocupe, tenho certeza de que ela achará o caminho de casa. — Depois ela balançou a cabeça e franziu o cenho ao olhar para as roupas de Darcy, jeans e camiseta. — Se não se importa que eu pergunte, onde mora?

— Muito longe — disse Darcy. Lutou contra a amarga decepção que o fez querer ajoelhar e chorar. Lutou contra a preocupação com Georgiana, tentou não entrar em pânico ao pensar nela lá fora, sozinha na noite, em algum lugar. Limpou a garganta e se concentrou nas perguntas que precisavam ser respondidas. Se houvesse duas Elizabeth Bennet circulando pela casa agora, e acontecesse de elas se verem, só o Senhor sabe o que aconteceria.

— Preciso saber, quando a senhora descobriu que Elizabeth tinha desaparecido?

Os olhos azuis se encheram de lágrimas.

— Uma hora atrás. Quando entrei para ver como estava Jane e vi a cadeira vazia. Soube que algo estava errado. Elizabeth não saiu do lado da filha por dias, a não ser para pegar o Dr. Baker quando as coisas pioraram. Procurei pela casa toda, mas nem sinal dela em lugar nenhum, e ninguém a viu sair. Por favor, se souber onde ela está…

— Estou aqui, Mrs. Smith.

A porta do quarto se abriu e Elizabeth entrou. Darcy respirou fundo quando girou e a viu ali, incerto de qual Elizabeth seria. Ela encontrou seu olhar e assentiu.

— Olá de novo, Fitzwilliam.

Ele deixou escapar um suspiro, e seus músculos relaxaram.

— Santa misericórdia, Elizabeth. Estava morrendo de medo!

— Sinto muito se a assustei. Mas estou aqui agora. Por que a senhora não volta para cama? Precisa descansar.

A Mrs. Smith olhou preocupada para Jane, que ainda dormia profundamente.

— Já vou. Mas me chame se precisar.

— Claro que chamarei. — Lizzie abraçou a mulher, e então ela os deixou. Lizzie desviou o olhar para a filha e fechou os olhos.

Darcy queria se aproximar dela, tocá-la. Queria sentir seus braços a envolvendo e ouvir sua voz delicada e confiante dizer que Georgiana ficaria bem, que a encontrariam. Mas o ar de confiança dela não estava ali naquele momento. Quando ela olhou para a filha que estava morrendo, era ela que precisava de conforto.

— Georgiana? — perguntou ela, sem tirar os olhos da filha.

— Esteve aqui — contou Darcy. — Mas fugiu. Lizzie, onde ela poderia estar?

Lizzie fechou os olhos e foi até a cadeira.

— Eu não sei.

Ela se abaixou como se fosse sentar, mas Darcy a segurou e puxou.

— Não, Lizzie. Você não vai voltar ao seu papel e ficar aí sentada vendo Jane murchar. Não vou deixar. Temos de achar Georgiana.

— Minha filha está morrendo — sussurrou ela, livrando-se dele.

— E a minha tem o remédio que vai curá-la.

Ela piscou como se por um momento tivesse esquecido.

— Você está certo.

— É claro, está certo.

Darcy começou a andar pelo quarto.

— Não entendo. Viemos para um dia antes de você partir, não foi? Quero dizer, você parecia tão certo. Mas se for esse o caso, então por que não há outra você, sentada aqui? Por quê…? — Ele virou-se para encará-la, passando as mãos no cabelo. — Isso é tão confuso!

— Tenho a impressão de que seria fisicamente impossível uma mulher existir em dois lugares ao mesmo tempo. Não poderia estar no meu quarto e aqui, neste quarto, ao mesmo tempo. Simplesmente não pode acontecer.

— Então onde… a outra… foi?

Lizzie levantou-se e foi até a janela, abrindo as cortinas para olhar para fora.

— Não sei. Mas sei que voltamos mais, pelo menos um dia. Isso é certo.

Darcy veio para seu lado, acompanhando seu olhar.

— Como pode ter tanta certeza?

— Houve uma tempestade com trovoadas e raios na noite antes de eu viajar no tempo. Um raio atingiu aquele estábulo que podemos ver à distância. Um pouco depois das nove da noite. — Ela apontou, e ele viu uma construção com aparência decrépita. — Estará no chão em poucas horas.

— Ok. Então sabemos que estamos aqui um dia antes, e sabemos que a outra Lizzie desapareceu quando você passou.

— Não. Eu acho… que de alguma forma me fundi a ela… a mim. É estranho… Lembro de tudo sobre a minha viagem para o futuro, mas também lembro de estar aqui ao lado do minha filha uma hora atrás, segurando a mão dela e rezando por um milagre.

Um arrepio frio subiu pela espinha de Darcy.

— Mamãe?

A voz fraca vindo da cama fez ambos virarem rapidamente. Lizzie foi até lá e se inclinou sobre a cama, colocando a filha nos braços.

— Desculpe, Jane. Nós a acordamos?

— Não — respondeu ela. Darcy estremeceu ao olhar para a magreza dos braços, a brancura da pele. — Minha cabeça está doendo. Foi isso que me acordou, eu acho.

— Bem, então vou lhe dar alguma coisa para isso — disse Lizzie, se levantando e passando suavemente a mão pela cabeça da filha. — E vou colocar dentro do chocolate quente já que sei o quanto você detesta o gosto.

A menina sorriu e se encostou nos travesseiros.

— Eu amo você, mamãe.

— Também amo você, Jane. Mais do que imagina.

Então aqueles olhos azuis curiosos pararam em Darcy, se apertaram e logo depois se arregalaram.

— Você é ele? É você?

Darcy franziu a testa, mandando um olhar questionador para Lizzie. Ela só levantou as sobrancelhas, obviamente sem saber mais do que ele sobre o que a menina estava falando.

— Eu sou quem, querida?

— O pai! Aquele que eu desejei quando vi as estrelas cadentes! Eu sabia que você viria! Ah, eu sabia. Você é tão bonito quanto eu desejei. É… — Suas palavras foram interrompidas por um acesso de tosse que sacudia o corpo tão magro.

O coração de Darcy se despedaçou, e ele puxou a menina mais para cima na cama, o abraçando delicadamente e esfregando as costas até que o espasmo passasse. E quando passou, os pequenos braços envolveram seu pescoço.

— Serei uma boa filha, papai. Eu prometo.

Darcy não poderia deixá-la continuar por muito tempo. As lágrimas que escorreram por seu rosto enquanto a abraçava não eram o que aquela anjinha precisava ver ou se preocupar agora. Lizzie as viu, e seus próprios olhos estavam vermelhos e cheios de lágrimas quando encontrou os dele. Ele abraçou Jane até que pudesse controlar as lágrimas e, então, enxugou o rosto antes de soltá-la.

— Você pode pegar meu chocolate agora — disse ela, fechando os olhos e se enfiando nas cobertas. — Ficarei bem. Sei que ficarei.

Quando Lizzie assentiu para ela e inclinou a cabeça em direção à porta, Darcy se afastou devagar da cama de Jane, e soube sem nenhuma dúvida que tinha de haver uma maneira de salvar essa menina, e a dele também. E ele a acharia ou morreria tentando.

Ele seguiu Lizzie pelas escadas até a cozinha, onde ela colocou uma chaleira no fogão a lenha e depois arremessou dois pedaços de madeira na grelha. Ela ficou lá por um momento, cabeça baixa, de costas para ele.

E ele se forçou a ir até ela. Passou os braços em volta da cintura dela e descansou a cabeça em cima da dela.

— Faremos com que ela fique boa de novo, Lizzie. Eu prometo.

Ela virou e o abraçou, puxando-o para bem perto e aconchegou a cabeça em seus cabelos. Ele sentiu as lágrimas que ensopavam a sua camisa e sabia muito bem o que significavam.

— Temos de conseguir — sussurrou ela.