Até As Últimas Consequências
2 Agora Ou Nunca
Notas iniciais
[RECAPITULANDO]
Preocupado, ele foi para onde ela estava, perto da porta que agora estava aberta. Olhou para o quarto com aparência normal, exceto pela enorme lareira de mármore em uma parede.
— Eu tive a impressão de que esse quarto lhe causou arrepios. Não foi aqui que achou que viu coisas mais cedo?
— É por isso que quero este — disse Georgiana. — Se tem algum tipo de fantasma por aqui, quero saber.
— Vai analisá-la até convencê-la de que possivelmente não pode existir?
— Talvez — respondeu ela, com um sorriso. — Então, quando a mudança vai chegar com meu XBOX?
***
1795
Ao longe, se ouviu um forte trovão, e Elizabeth se levantou da cadeira em que estivera em constante vigília para acender o lampião. Jane sempre tivera medo de trovão. Quando Lizzie ajeitou acendeu a vela, Jane se agitou, como a mãe imaginou.
— Mamãe… A senhora ainda está aqui.
— Onde mais poderia estar minha querida flor do campo?
— Trabalhando no aparelho, é claro. A senhora perde muito tempo aqui comigo.
— Gosto de ficar aqui. — Outro trovão, e Jane procurou a mão da mãe, pegou-a e apertou com força.
— Pronto, filha. Não precisa ficar com medo. Você sabe que o trovão não pode lhe machucar.
— Mas isso não faz com que o barulho dele seja menos assustador — disse Jane sensatamente. — Quanto tempo ainda vai durar, mamãe? Está chovendo assim a noite toda.
Elizabeth pegou o relógio de ouro no bolso, abriu e se virou para Jane.
— Ainda são nove horas, filha. Não está chovendo a noite toda, só há quase duas horas. Vai acabar a qualquer instante. Tenho…
Suas palavras foram cortadas pelo estrondo mais alto até agora, que fez até Elizabeth se assustar. No mesmo instante, o céu foi cortado por um relâmpago de brilho intenso.
— Mamãe, o raio! Atingiu alguma coisa!
Lizzie foi até a beira da cama e pegou a filha nos braços.
— Calma… Não foi tão perto quanto pareceu. — Mas manteve o olhar fixo no local que o raio atingiu. Enquanto olhava, balançava a filha, sussurrava e afagava seu cabelo.
Em segundos, um clarão de luz surgiu no céu distante. E começou a crescer e se espalhar, até que Lizzie reconhecesse o que era. Um incêndio. E pelo que conseguia ver, era no velho estábulo de Thomas, a quase cinco quilômetros dali, e agora estava queimando. Nenhuma grande perda. Era uma construção antiga e decrépita que não era usada há anos. Pelo que sabia, ali só tinha feno velho.
Jane pegou no sono nos braços de Elizabeth, que ficou ali a noite toda, com sua preciosa filha nos braços, observando a chama aumentar à distância. Logo, iluminava todo o céu. O estábulo era velho e se queimara facilmente.
Lizzie deveria estar trabalhando. Sabia disso, já que tanta coisa dependia do sucesso desse experimento. E estava tão perto.
Agora, porém, Jane precisava dela. E não conseguia deixá-la.
Quando o sol nasceu na manhã seguinte, e fumaça ainda saía das cinzas do velho estábulo, Lizzie tentou sair da cama sem incomodar Jane. E conseguiu. Muito facilmente. Ao levantar-se, percebeu que, doente como estava, Jane costumava ter o sono muito leve. Deveria pelo menos ter se agitado quando Lizzie levantou da cama.
Um arrepio frio subiu por sua espinha ao virar-se para a filha, que não se mexera muito a noite toda.
Então o coração de Elizabeth congelou. Sacudiu suavemente os ombros frágeis de Jane, bateu de leve nas bochechas pálidas. Mas não houve resposta. Sua filha estava em coma. O estado terminal da doença. A morte seria daqui a vinte e quatro horas, talvez menos.
Não havia mais tempo. Mais nada. Tinha de agir agora, e se seu experimento tivesse efeitos colaterais, não faria diferença. Sofreria qualquer coisa para ter a vida da filha de volta.
Pegou o casaco e tirou do bolso um aparelho. Não havia mais nenhum motivo para ficar aqui. Jane não acordaria de novo. A não ser… A não ser que isso funcionasse.
Inclinado sobre a cama, mexeu nos cachos loiros da filha e beijou-lhe a testa.
— Vou sair um pouquinho, filha. Vou tentar providenciar para que seja apenas um minuto para você. Não quero deixá-la, mas quero que fique saudável de novo. Entende?
Os cílios descansavam na face branca como vela, e um chiado saía do corpo frágil quando respirava.
Lizzie endireitou-se e passou a mão pelo cabelo. Estava péssima. Sabia disso sem nem mesmo olhar no espelho. As roupas estavam amarrotadas, o corpete do vestido, desabotoado e aberto. A saia amarrotada. Entretanto, ela planejara. Havia uma bolsa no armário de Jane, com uma muda de roupas e as coisas de que precisaria. Incluindo a prova, se fosse questionada. Levou um segundo para pegá-la. Não havia tempo para se trocar. Não agora. Jane podia morrer enquanto a mãe preocupava-se com trivialidades. Mas uma vez que Lizzie saísse, o tempo pararia virtualmente para Jane. Seria o tempo de um banho. Se fosse desagradável com as pessoas que encontrasse, o problema seria deles. Não que achasse que encontraria alguém. Cada vez que abria o portal, via uma versão vazia e sem vida de sua própria casa. Não que se importasse agora com quem encontraria ou o que pensariam dela.
Não estava pensando em si mesma. De jeito nenhum. Nem na sociedade ou na repercussão por estar se metendo com a natureza dessa maneira. Recusava-se terminantemente a considerar essas pessoas. Na cabeça de Elizabeth só havia sua filha. Agora só importava encontrar um jeito de salvar a frágil vida da filha, que estava tão perto da morte. E podia fazer isso. Podia viajar de volta no tempo, para a época antes de a filha ser exposta ao vírus mortal que tanto tentava levá-la embora. E quando chegasse, tiraria Jane de lá e a levaria para um lugar seguro. Então quando o vírus atingisse Pemberley, Jane estaria longe. Não seria exposta. E quando o perigo tivesse passado, traria Jane para casa são e salva. Não ficaria doente. Não morreria. Ficaria bem. Lizzie voltaria para o agora e encontraria a filha saudável de novo. Sem nenhuma recordação de ter ficado doente.
O coração de Lizzie acelerou quando apontou o aparelho para aquele ponto bem no meio do quarto da filha. Não fazia ideia do que era. Uma dobra no tecido do tempo. Uma fenda. O que quer que fosse só existia aqui, neste quarto, e suspeitava que estivera aqui, pairando no ar, mesmo antes de a casa ser construída. Tentara o experimento em diversos locais, mas só aqui obtivera sucesso.
Uma noite em que estivera trabalhando aqui para poder ficar com a filha doente, descobrira o portal por acidente.
Com o polegar, apertou o botão para ligar. E uma faísca de luz apareceu no ar, no meio do quarto. Segurando o aparelho firme, virou o disco e a luz aumentou e se intensificou até se transformar em uma esfera incandescente entre o chão e o teto. Uma esfera brilhante, cheia de névoa.
Mas de repente começou a mudar. A névoa clareou e tomou formas, e em segundos Lizzie estava olhando para o que parecia um espelho enorme. E o espelho refletia todo o quarto atrás dela. Só que em outro tempo. Ela podia ver perfeitamente que o papel de parede era diferente assim como as cortinas e os móveis. Tudo. Bem abaixo das cobertas estava o pequeno corpo. Jane? Antes de ficar doente, quando estava bem e forte e saudável? Isso funcionaria. Tinha de funcionar.
Só esperava que não a matasse. Todos os testes até agora indicaram que haveria efeitos colaterais. A xícara que Lizzie passou através do portal uns dias atrás se espatifou. Fez ajustes no aparelho e tentou de novo. A maçã que passou murchou, então fez ainda outros ajustes. O coelho… o coelho morreu. E apesar de Lizzie ter recalculado e feito mais ajustes, não podia ter certeza de que tudo estaria certo desta vez. Sim, provavelmente haveria efeitos colaterais. Sérios. Só não sabia quais, ainda. Mas — deu um pequeno sorriso — estava prestes a descobrir.
— Você vai ficar bem, Jane. Prometo que vai ficar boa de novo!
E Elizabeth Bennet entrou na luz e na hora sentiu uma pancada forte bem entre os olhos.
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