Atração Fatal
26 Capítulo 26: Torture Me
"- Katniss! Katniss! Katniss! — Madge corria pela casa gritando aquelas palavras.
Tinhas as bochechas vermelhas e já estava ofegante, mas pouco se importava com aqueles detalhes. Ela correu pelo chão liso e brilhante do casarão, praticamente escorregando por um segundo, enquanto se recompunha no outro e tornava a subir as escadas.
Naquela manhã se comemorava o Natal. Porém, não havia somente aquela comemoração a fazer e, sabendo disso, Madge entrou no quarto de Katniss sem nem ao menos bater, encontrando-a ali para seu alívio.
Viu como a Everdeen enxaguava a boca com rapidez assim que a percebeu entrar e no mesmo instante Madge franziu o cenho.
— O que fazia, Kat? — perguntou desconfiada, cruzando os braços.
—N-nada— a garota desviou o olhar. Katniss andou para o outro lado do quarto, fingindo colocar umas joias para não encarar diretamente a irmã.
— Está tudo bem? — Madge continuou — Parece meio pálida.
— Impressão sua — e ela continuava assim, se distraindo enquanto colocava um brinco — Estou ótima.
— Bom…vim aqui dar uma notícia — a loira ignorou o acontecimento anterior, tornando a aparentar animada. Afinal, tinha coisa mais importante a fazer. Madge desceu as mãos até o ventre quando Katniss a olhou finalmente, provocando uma grande suspeita.
— Madge! — gritou sorrindo. Largou os objetos que tinha e tratou de ir abraçá-la bem forte- Então vou ser titia?
— Finalmente — lágrimas começavam a nascerem em seus olhos — Ainda estou pensando em como contarei a Gale...
Katniss a olhava com admiração. A irmã merecia, esse filho foi seu sonho por meses. Queria chorar de felicidade por ela, era a melhor notícia a se dar. Bom, até lembrar de outro detalhe. Ficou imóvel. Por mais que fosse maravilhoso, a garota não se sentia como antes, tinha certos receios.
— O que houve Kat? — Madge franziu a testa- Ficou estranha de repente.
— Dores de cabeça- Katniss respondeu, tentando forçar um sorriso, mas era inútil — Acho que vou pegar um resfriado.
— Você não tem resfriados...Desde a morte da mamãe, não pegou uma gripe sequer- a loira falava séria, mas lá no fundo estava preocupada — O que está havendo? Pode me contar.
— É que...- Katniss acabou respirando derrotada, enquanto se sentava na beira da cama — Eu tive uns enjoos minutos atrás.
— Enjoos? — sua reação foi totalmente ao contrário do que se esperava. Madge podia se desesperar, mas não. Talvez fosses aquelas quantidades de hormônios de grávida que a fazia sorrir de orelha a orelha — Não acredito nisso.
— Estou falando a verdade! Tanto que você me viu no banheiro e...
— Não falo disso Kat...Falo de...- Madge sorria feito uma criança — De ser titias ao mesmo tempo!
— Como, Madge?— Katniss se confundiu totalmente.Grávida?Como podia estar grávida? Claro, era óbvio, ela tinha um marido. E bom… este dormia na mesma cama todas as noites com a companhia dela...”
Katniss sentia uma dor infernal na cabeça. Não queria nem abrir os olhos, eles ardiam. Pensava que talvez tivesse morrido, parecia que passara tanto tempo naquele estado. Não ouvia nada, não sentia nada e não via nada… era tudo uma escuridão total. E o pior, não tinha lembranças. Era como se acordasse de um terrível sonho, que não lembrasse nem de seu próprio nome.
Katniss franziu o nariz, o cheiro não estava nada bom. Sua posição também, já que a dor insuportável em suas costas indicava que tinha dormido numa posição nada confortável. A garota tentou mover os braços, mas foi inútil. Não sabia como… mas estava amarrada. Os pulsos ardiam, já que certas cordas os prendiam na parte detrás de seu corpo. Seus tornozelos estavam no mesmo estado.
Peeta. Foi a primeira palavra que apareceu em sua mente. Precisava dar as notícias a ele, precisava vê-lo o quanto antes. Uma imagem de repente apareceu, ele estava bem arrumado, enquanto conversava com alguns parentes. Katniss, do outro lado, brincava com Andrew depois do garotinho conseguir engatinhar.
Ela forçou mais um pouco e assim viu uma imagem em que Peeta estava bem distante e ela gritava o seu nome desesperadamente. Tudo sumiu por uns instantes e logo depois a garota ouviu um chorinho longe.
Deveria ser Andrew. Ela o conhecia muito bem. Tentou abrir os olhos devagar, acostumando-se aos poucos com o novo ambiente, com a nova claridade. E assim que focalizou a região ao seu redor, perdeu por um segundo a respiração.
Onde estava? Katniss não fazia a mínima ideia. Sentia frio e seu casaco não estava ali. Um cheiro de sangue seco vinha de si, ela estava ferida em algum local. Na sua frente havia um homem, deitado enquanto cochilava no chão sujo mesmo.
Parecia um galpão abandonado, ou talvez uma casa, não sabia explicar. Katniss podia ver o lado de fora atrás de um fresta da janela aberta e percebeu que ainda nevava. Sinal de que não dormiu por muito tempo.
O homem espreguiçou, assustando ao ver a garota finalmente com os olhos abertos. Os dois se olharam, até que ele levantou num pulo, andando para os lados.
— Glimmer! — chamou bem alto, sorrindo de repente — Sua convidada especial acordou.
****
Peeta conseguiu chegar a Manchester depois de um dia cavalgando se parar. Tudo em si doía, pedia por descanso. Mas ele não queria parar, não conseguia fechar os olhos, não enquanto cumprisse o combinado que tinha feito a si mesmo. A arma ainda estava ali dentro de seu terno pesando bastante.
Olhou ao seu redor. Teria de pensar por onde começaria. Tinha visitados uns hospitais e até hotéis, tinha receio de que Katniss ou seu filho pudessem estar feridos.
As pessoas ficavam surpresas ao ver um Mellark naquele estado, totalmente atordoado. Peeta não tinha a aparência nada boa, já que tinha passado horas sem comer. Estava começando a achar que tinha raciocinado errado. Manchester não era o lugar. Por isso, andou derrotado até um bar próximo, disposto a tomar algo.
— O que tiver com álcool está ótimo para mim — Peeta interrompeu a fala do homem atrás do balcão, esfregando os olhos. Precisava esfriar a cabeça bem rápido.
O cheiro de fumo estava no ar, mas ele não tinha vontade de fumar. Talvez até fosse bom por um lado, porém, tinha outras preocupações que martelavam em sua cabeça. Ele bebeu o que fosse que estava ali no seu copo, escorado no balcão enquanto fazia uma certa careta, sentindo o álcool descer queimando por sua garganta.
Uns homens, de aparência mais velha, estavam sentados ao lado.
— Tenho que ir a Leeds esta semana — um sujeito falou ao amigo — Minha esposa mandou que uma mulher costurasse um vestido para ela lá e agora sou obrigado a ir buscar...ela disse que era a melhor costureira da cidade… como era o sobrenome dela mesmo? Fo...F...Fontaine! Isso! Fontaine!
— Isso não é inglês — o outro falou.
— A mulher é francesa, eu acho… mora em Leeds com o marido numa casa de campo...São até famosos por lá — Peeta acabou ficando atento. Vasculhou a mente, até que achou um certo acontecimento.
“- Você é inglês? Nossa… tenho uma avó que mora lá na Inglaterra — Glimmer falou, observando com cuidado o garoto a sua frente.
— De sobrenome Fontaine? — Peeta franziu a testa, tentando relembrar de algo parecido com essa palavra — Nunca ouvi falar, e olha que conheço Londres por completo.
— Não, ela não mora em Londres — a garota arrumou uma mecha de cabelo, fazia isso para passar certo charme — Mora em Leeds. Já fez excelentes vestidos de festa para mim… quando eu for na Inglaterra, não deixarei de dar uma passadinha lá.”
Era óbvio. Katniss e Andrew estavam escondidos em Leeds. Esse tempo todo Glimmer pensou em ir para lá, até porque sabia que Peeta era o único que entenderia. Havia contado sobre a avó quando ainda estava em Paris, estudando medicina.
Ele levantou do banco um pouco mais disposto, deixando uma nota de dinheiro em cima do balcão.
Peeta estava decido a seguir por essa longa viagem, mesmo que aquilo consumisse grande parte de seu tempo. Subiu no cavalo, sempre olhando atentamente para os lados. Ele tentava não deixar nada passar despercebido. Mas era estranho... parecia que havia um par de olhos lhe observando.
Mente idiota, Peeta pensou. Melhor acreditar que Katniss e Andrew estariam de volta em breve.
****
Era a terceira vez que Annie aparecia no hospital. Precisava ver Finnick constantemente, precisava conversar com ele. Ela se escondeu no corredor naquela manhã, assim que percebeu a presença de Mr. Everdeen. O homem saía do quarto onde estava Finnick, deixando transparecer uma aparência derrotada.
O estado do rapaz parecia piorar a cada dia. Febres aumentavam, os batimentos cardíacos ficavam mais leves e a esperança aos poucos evaporava.
Ela era uma burra. Tentou atingir o homem que fugia, mas ele já tinha ido quanto a bala feriu um inocente.Finnick estava a beira da morte. Annie pensava enquanto entrava no quarto, minutos depois. Estava chorando. Lágrimas caíam quando ela tocou a mão do rapaz adormecido.
— Bom dia, Finnick — falou tentando não soluçar alto demais. Porém, de qualquer forma, não era para muito, ele não ouviria da mesma forma — Katniss vai chegar daqui a pouco, Peeta foi buscá-la, já fazem dois dias...Gale também sumiu e Madge não quer falar nada sobre isso, mas ela perguntou sobre você… lembra que eu queria te falar uma coisa? Então, ainda quero saber se você permite… — Annie sorriu, limpando sua bochecha com as costas da mão — Mas primeiro quero lhe pedir perdão...
A garota sentiu um certo calor, bem estranho, em sua mão. Um calor que nunca sentiu quando o tocava antes. Tinha uma leve impressão de que aquele Finnick ganhara uma certa cor de repente.
Annie arfou. Perdeu a respiração, enquanto um leve aperto era evidente em sua mão.
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A mulher já de idade fervia um chá. Seu marido a esperava sentado numa pequena mesinha, impaciente. Precisa do seu lanche. Trabalhar na fazenda não adiantaria, já que a neve congelara tudo.
A idosa colocou a bebida quente num copo bem menos do que os outros, um que tinha umas decorações que ela gostava. Deu ao homem outra xícara e depois se preparava para sair, até ouvir duas batidas na porta da frente.
— Peter! Temos visitas! — ela gritou ao marido, vendo um rapaz com a aparência exausta, parado do lado de fora. A mulher nem pensou em abrir a porta, não conhecia aquele sujeito e o marido era bem melhor ao lidar com aquelas situações.
Peter logo veio, resmungando baixinho. A senhora caminhou até mais ao fundo, espiando tudo em um canto escondida. Ouviu alguns murmuros, não entendendo tudo com clareza, mas ouviu o que o rapaz disse no segundo em que se apresentou. Ela apertou o copo que tinha em mãos, dando um passo para trás.
Peter trouxe o sujeito para dentro. E com somente alguns passos ele já estava ali dentro da pequena e simples casa.
— O que te traz aqui, querido? — a senhora perguntou, servindo uma xícara de chá ao convidado. Ele preferiu não beber, então disfarçou, já que tinha certos receios.
— Er… estou a procura de alguém — Peeta estava atento, principalmente no velho, que o encarava sério — O senhor tem uma grande fazenda.
— A maior dessa cidade — comentou mastigando algo desconhecido — Mas fala aí garoto, o que quer conosco?
— Vocês...Vocês conhecem Glimmer Fontaine? — a idosa paralisou de repente, olhando para o marido. Peter pareceu meio nervoso, deixando Peeta sem palavras.
— É minha neta, por quê? — a mulher perguntou.
— Eu conheço o irmão dela...Louis — falou distraído — Éramos colegas de faculdade...eu precisava encontrá-la para...Para falar que ele pegou uma gripe forte.
— Louis? — o homem pigarreou. Abaixou a cabeça, com a esposa meio assustada com a notícia — Nosso pobre menino.
— Então...Vocês sabem onde posso encontrá-la? — nenhum dos dois ali responderam.
Peeta começou a perder as esperanças, aquele era só mais um casal de velhos no meio do nada. Perdera mais um dia até Leeds. Suspirou derrotado, disposto a começar a procurar em outro local. Pediu desculpas pelo incômodo e se levantou.
A idosa o acompanhou até a porta e já estava virando a maçaneta. Mas naquele instante, Peeta sentiu algo frio tocar em sua nuca. Peter estava logo atrás.
— O que você quer com a nossa família, garoto? — perguntou frio, enquanto apontava uma arma para o rapaz.
Peeta paralisou no mesmo instante. Teria que pensar muito bem antes de dar o próximo passo.
****
Glimmer estava ali. Fazia um dia desde que Katniss acordara, não comia nada desde então e ainda aturava a cara daquela loira rindo dela. Andrew estava em um berço montado ao seu lado. Chorava quase sempre, principalmente quando via Glimmer.
Katniss tinha recebido uma pancada na testa, daí o cheiro de sangue seco. Havia um cúmplice, mas ele não estava presente no momento.
Nem sabia o nome dele. Na verdade sempre olhava para a mulher. Ela ria as vezes, brincava com Andrew e certa vez apontou uma faca quando a garota ameaçou gritar. Agora carregava o objeto para todo lado, como se fosse seu brinquedinho. Levantou a arma cortante, rodeando Katniss.
— Seu cabelo é tão lindo...Kat — riu com falsidade, tocando em umas mechas da garota — Soube que o Peeta o adora.
Glimmer levou uma mecha na mão, cortando-a logo depois. Não daria para perceber a diferença, já que era muito pequena, mas Katniss deixou que uma lágrima escorresse pelo rosto. Andrew chorou ainda mais. A loira jogou os fios ao ar, voltando a ficar de frente para a morena.
— Esse garoto chora demais, não é? Também… da linhagem de onde veio — comentou olhando com desgosto para o bebê. Katniss não falava nada, só examinava seus movimentos — Ficou muda, garota? Não gosto de ser ignorada!
— Prefiro que corte a minha língua, ao ter que falar com você — disse algo pela primeira vez. Glimmer sorriu vitoriosa, mostrando que poderia realizar o seu pedido com a faca.
— Então quer dizer que Peeta te ensinou a ser assim, bem teimosa — gargalhou — Ele é um chato, não acha? Tive que aguentá-lo por quase três anos! Mereço prêmio por isso...
— Você também não é uma má companhia — ironizou, rolando os olhos.
— Aquele garoto mimado me tirava a paciência!- ela se sentou em um canto qualquer, rodando a faca entre os dedos — Tive de fazer ceninha diversas as vezes porque ele nunca entendia o que eu queria dizer! Consegue me acompanhar, Kat?
— Claro — sussurrou, ainda meio sem paciência.
— Bom… para conquistar ele não foi fácil, Peeta só se centrava na ideia de receber o trono. Depois, ele acabou se apaixonando por mim… me dava presentes e fazia diversas promessas… eratão ingênuo — riu sozinha, olhando para uma parede próxima — Mas até que Peeta é bonitinho, pena que é tão irritante quanto você. É infantil, birrento… as vezes queria transformá-lo em meu fantoche… e claro, foi isso que fiz.
— Se o odeia tanto, então por quê não o deixa em paz? — Katniss perguntou impaciente.
— Porque eu entrei nesse para ganhar. O meu jogo não tem regras e é sempre eu quem sai ganhando — Glimmer parou para sorrir em direção à garota — Você conquistou da noite para o dia o que eu batalhei para ter por anos, isso não é justo, Kat.
— Se quer dinheiro, peça para o Peeta que ele te dará — seus olhos já ardiam, mas ela fazia força para evitar, não queria se rebaixar ali — Ele não negará se esse for o preço para nos deixar livre.
— Não sou mendiga — Glimmer levantou nervosa, suas mãos trêmulas indicavam que ela queria dar um fim na baixinha em breve — Você me humilhou, Katniss, tirou tudo de mim!
— Ele vai acabar com você! — a garota gritou por fim, mais alto ainda. Estava até meio vermelha de raiva — Peeta vai te levar para a prisão, vai nos tirar daqui!
Aquele seria seu fim. Katniss sabia que se fosse rebelde, Glimmer passaria dos limites, mesmo sem querer. Percebia pelo modo como suas mãos ficavam trêmulas cada vez mais segurando aquela faca. Não sabia no que iria dar, fazia dois dias. Dois dias sem notícia de nada nem de ninguém. Andrew até emagreceu um pouco pela falta de alimentação.
— Ainda acredita que ele possa voltar, não é? — Glimmer perguntou irônica — Que ele vai chegar num lindo cavalo, com os cabelos ao vento… e quando a princesinha estiver a beira da morte, ele a acordará com um beijo!
— Peeta não está muito longe, eu sei — Glimmer gargalhou por fim, achando aquilo ridículo. Aproximou devagar da garota.
— Ele vai voltar, é por isso que eu te trouxe aqui — sussurrou bem próxima à Katniss, falando de uma forma ameaçadora que fez o corpo da Everdeen estremecer — Quero ver o quanto vale o amor de vocês… e assim vou deixá-los em paz finalmente.
— O-o que pretende fazer? — era idiota, mas Katniss sentiu a necessidade de perguntar. Afinal, aquela conversa com Glimmer estava rendendo bastante.
— Vou deixá-los juntos… para sempre – a loira se afastou com cuidado — Não vão sofrer mais… quando estiverem perto dos anjos ou queimando no inferno. Já tenho até uma ideia...
A garota não soube falar mais nada. Olhava somente para aquela mulher louca, que rodopiava a sua frente, parecendo feliz. Tirou a conclusão que ela não era normal, precisava de ajuda, talvez.
— Ele se verá obrigado a cumprir a única saída — Glimmer continuou — Teria que matar a sua amada, mas é doloroso demais ver o momento em que ela já estará estirada no chão… então, sem mais como evitar, ele iria...
— Isso não vai acontecer, Peeta é esperto — Katniss a interrompeu, olhando como se a desafiasse — Não virá sozinho.
— Peeta sabe que você e o pirralho são a isca — Glimmer falou grossa — Desculpe querida, mas seu conto de fadas acaba por aqui.
Uns passos fizeram barulho do lado de fora. Era o tal homem, que por sinal, estava bem ofegante. Ele tinha notícias. Katniss continuava a mexer os pulsos, eles ardiam e deveriam estar na cor do sangue.
Peeta não podia estar muito longe, ela pensou. Olhava para Andrew de vez em quando, que parecia tão quieto nesse instante, dando uma imensa vontade de ajudá-lo. Katniss morreria se fosse preciso, mas Glimmer nunca machucaria aquela criança.
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— Largue essa arma, senhor… assim podemos conversar — Peeta erguia as mãos, em redenção. Peter ainda estava atrás com a arma apontada para a nuca do rapaz.
— Por favor, Peter, não o machuque. Ele é da nobreza — a mulher do outro lado avisava, tremendo assustada. Ela sabia muito bem do que o marido era capaz — Isso pode custar caro.
O homem, ainda hesitante, abaixou o objeto. Puxou o garoto pelo braço sem delicadeza alguma, o obrigando a sentar em um sofá próximo. Peeta preferiu se fazer de calmo, poderia ganhar dicas assim. Afinal, aquelas atitudes de Peter só podiam significar algo. Precisava continuar confiante.
— Louis não está doente — o velho disse por fim, com a arma em uma das mãos — Você está mentindo, garoto.
— Estou — Peeta respirou fundo, olhando a idosa que ainda estava aflita — Precisava falar com Glimmer de qualquer maneira.
— Ela não fez nada, juro — a senhora se intrometeu na conversa — Só veio nos visitar por uns dias… minha neta é do bem.
— Vá para o quarto, mulher! – Peter ordenou com a voz grossa, segurando a arma ainda mais firme. Sem o poder de discutir, a idosa saiu de fininho — E é melhor você falar logo, garoto...
— O que ela quis dizer sobre Glimmer a visitar por uns dias? — Peeta perguntou interessado.
— Uma amiga — o homem disse baixo — Não gosto de falar mas… uma amiga dela está com certos problemas.
Uma luz pareceu acender dentro de Peeta e rapidamente seu coração acelerou em ansiedade.
— Então, eu acho que sei quem é essa tal amiga — ele dizia numa maneira que só ele sabia fazer para convencer qualquer pessoa em momentos como esses — Estou procurando por ela há dias. Se o senhor pudesse ajudar, eu...
— Glimmer me proibiu, sinto muito — Peter voltou com a expressão fria de antes — Não o conheço o suficiente para confiar.
— Eu conheço Louis, é meu melhor amigo — essa frase fez o homem afrouxar um pouco a arma na mão — Eu preciso saber quem é… conversar com Glimmer nem que seja por um minuto.
O homem ficou em silêncio por uns instantes, avaliando Peeta com o maior cuidado. Em seguida pigarreou.
— Ela me falou de um rapaz… forte como o senhor — comentou — Disse para liberá-lo caso insistisse… mas nem eu me atrevo a ir lá, é uma longa caminhada.
— Não me importo — Peeta disse já animadamente.
Ele acabou seguindo o velho, traçando um caminho pela velha casa. Os dois continuaram em silêncio.
Os dois passaram por uma portinha bem gasta e velha que ficava no fundo, até chegar numa área que só dava para ver o campo. Sem sinal de alguém. Peter apontou para a frente, fazendo Peeta andar até lá, hesitante.
Para onde iria? Havia uma baixa cerca a alguns metros dali, talvez ficasse além daquele lugar. Caminhou, percebendo que já estava sozinho.
Caminhou tanto que se assustou ao ouvir um barulho forte e depois viu que algo atingia o chão, a centímetros de seu pé. Peeta virou imediatamente, vendo Peter apontando a arma novamente, agora com a expressão assassina. Não tinha escolha, se desse um passo para qualquer lado que seja, seria morto. Então, por reflexo mesmo, agarrou sua arma dentro do terno, levantando o braço, enquanto tremia.
— Sempre soube que você não estava limpo, garoto — o velho comentou a respeito do objeto que Peeta carregava — Não vai chegar perto de minha neta.
— Não vou fazer mal a ninguém. Só quero levar Katniss — Peter franziu a testa, mostrando que não sabia sobre aquele nome.
— Seja lá quem for essa daí, não dará mais nenhum passo. Posso estourar sua cabeça num piscar de olhos — e o que Peeta fez a seguir foi tudo culpa de seu impulso. Um cavalo se assustou, quando um tiro acertara uma árvore em que ele estava preso.
Esses foram os milésimos suficientes para a sua fuga. Peter também se assustou, olhando para onde o tiro tinha sido atingido e quando se deu conta, o rapaz já corria para a cerca. Mais um estouro. Peeta até sentiu o vento da bala passar a centímetros de seu rosto enquanto ele pulava. Se abaixou, ouvindo mais tiros.
Não queria acertar o velho. Não tinha coragem o suficiente. Então correu, aquela cerca de madeira não o protegeria por muito tempo, já estava a ponto de ser destruída pelo tempo. Peter, pela idade, não conseguia acompanhar a corrida muito bem, perdendo o garoto de visão as vezes, quando ele desviava por entre as árvores. Sabia que já estava bem próximo, uma casinha não ficava muito distante dali.
Segurou o fôlego, apressou o passo nem olhando para trás. Peeta bateu violentamente em uma das portas, ouvindo um chorinho longe.
Andrew, pensou sorrindo. Havia encontrado, havia vencido no fim. Uma movimentação vinha de dentro da casa, enquanto ele batia freneticamente nas janelas, chamando por Katniss e pelo filho desesperadamente.
Contornou o lugar, dando de cara com quem menos queria depois daquela corrida.
— Se afaste, garoto — Peter falou com a arma apontada. Ele iria atirar naquele momento. Quer dizer, não mais, pois alguém havia abrido a porta da casa.
— Pode ir, vovô, eu cuido disso por aqui — Glimmer apareceu, sorridente como sempre. Peeta pensou em agarrá-la pelos cabelos ali mesmo, só que preferiu tomar de volta as suas forças.
Peter por fim, saiu sumindo de visão.
— Estávamos te esperando, Peeta!
Ela liberou a passagem. O rapaz, ainda calado, escondeu a arma disfarçadamente. Entrou na casa, vendo que era bem simples. Estava tudo fechado, bem abafado. Glimmer o levou até mais ao fundo, fazendo-o arfar ao ver a cena seguinte. Era a pior de sua vida, a mais torturante.
A sujeira e o cheiro nada agradável do local, Andrew o olhava curioso no canto, mas não expressou nenhuma reação como esperava. Só que esse não era o pior, Katniss estava numa situação horrível.
Sentada enquanto se escorava em uma parede, tornozelos amarrados, braços presos atrás, estava extremamente pálida e os olhos mal podiam ficar abertos. Ela chorava silenciosamente. Um ferimento inflamado em sua testa e a boca, agora, fora tampada, a impedindo de falar.
Peeta podia correr até ela, ajudá-la imediatamente. Katniss soltou mais lágrimas ao vê-lo finalmente entrar por aquela porta. Talvez estivesse a salvo. O rapaz sentiu que suas pernas foram obrigadas a andar.
Mas Glimmer apareceu a sua frente, impedindo. Sorriu divertida por um instante, andando até a garota, abaixando próximo ao seu rosto.
— Olha, Kat… nosso prato principal chegou para o banquete — e depois disso não se via mais nada. Peeta estava completamente cego.
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