Atração Fatal

24 Capítulo 24: Tomorrow Never Knows


— Eu realmente não sei como mas… Andrew tem uma marca igual a minha — Katniss levantou a ponta do vestido, deixando a mostra o seu tornozelo. Annie olhou a mancha da amiga e depois voltou ao bebê.

Eram realmente iguais. O mesmo formato, o mesmo tom avermelhado e, além disso, ambas estavam no mesmo local na perna direita. Annie não soube o que falar. Katniss muito menos. As duas ainda observavam Andrew, que mal entendia o que estava acontecendo.

— Isso é impossível — Annie sussurrou, provavelmente com medo de que alguém do lado de fora pudesse ouvir. Afinal, as paredes daquela casa pareciam ter ouvidos — Você já verificou se Peeta tem alguma marca assim pelo corpo?

— Não que eu me lembre — A Everdeen deu os ombros — nada desse tipo.

— Você já falou com ele? — Katniss negou imediatamente. Na noite anterior, quando Peeta perguntou sobre o que tanto a incomodava, já que o susto estava estampado na cara dela, a garota apenas inventou qualquer desculpa, nada que pudesse levantar suspeitas — então… talvez isso seja coincidência, Kat. Pode acontecer.

— Coincidência? — ela achava meio difícil acreditar naquela possibilidade, principalmente quando algo lhe dizia que ainda havia uma longa história para ser contada — Glimmer é muito mais perversa do que parece, sabe lá o que ela pode ter feito com esta criança!

— Como o que? — Annie riu sem ânimo algum — ter trocado os bebês?

— Não…— Katniss balançou a cabeça, ainda pensativa — isso não seria possível — a garota então se lembrou daquela noite terrível. E a única coisa que vinha em mente era a dor que a esmagava e depois o grande vazio que se instalou em seu peito após a notícia da morte do seu bebê — nós duas estávamos separadas, eu tinha uma parteira no quarto e se alguém caso quisesse trocar os bebês...Madge ou Peeta veriam.

Katniss poderia até estar certa, mas certos detalhes simplesmente não encaixavam. Ciente disso, Annie levantou de onde estava sentada, na beirada da cama. Depois cruzou os braços, fazendo aquela velha expressão de quem estava começando a juntar as peças do caso.

— Você estava no quarto, certo? — ela perguntou em seguida. Katniss consentiu — Quem mais estava lá?

— Só… só a parteira — a Everdeen se lembrava de uma mulher baixinha gritando para que ela fizesse força.

— E Madge? Ou qualquer outra mulher?

— Não. Só eu e a parteira. Madge foi… foi convidada a sair minutos antes do parto — ela não queria ter largado a mão da irmã. Madge chorava ao deixá-la, quando foi puxada por alguém que Katniss não se lembrava do rosto.

E foi a gota d’àgua. Algo então pareceu fazer os olhos de Annie brilharem.

— Não podiam ter deixado! — a Mellark disse, caminhando para próximo da amiga — e Peeta? Onde ele estava?

— Er… eu não sei! Não o vi desde a hora em que Gale me carregou até o quarto — Katniss fazia a maior força possível para se lembrar daqueles fatos. Porém, quanto mais se esforçava, menos se lembrava de certos detalhes.

— Provavelmente ficou com ela— Annie fez uma expressão de desgosto — então você se lembra de quando o bebê nasceu… o que a parteira fez em seguida?

— Não… quer dizer, eu ouvi um choro...vi ela carregar algo cheio de sangue e que esperneava, com vida… depois só apaguei — a partir daí não adiantava nem tentar, a mente dela não captava mais nada — O que quer com isso, Ann?

Annie parou no centro do quarto. Ainda estava de costas quando murmurou a última palavra. Uma palavra que resumia tudo o que ela havia entendido desde então.

— Vadia— ela disse para o nada. Katniss franziu a testa, mas não teve tempo de discutir, porque Annie já havia batido a porta do quarto.

****

Annie nem sequer pediu licença, apenas entrou no escritório com passos decididos. Seus saltos faziam um tremendo barulho no chão de madeira, algo que ela pouco parecia importar. A garota desejava apenas poder gritar, descontar toda a raiva que sentia naquele momento, o que era fruto das atitudes idiotas de seu próprio irmão.

Onde ele estava com a cabeça de trazer aquela mulher para dentro do palácio, afinal? O que diriam de sua família?

E agora ela torcia para poder achá-la, para poder fazê-la pagar por todo o mal que tinha acontecido.

Annie bateu a porta do escritório, procurando por Peeta. Seus olhos rodaram por todo o cômodo, mas não encontraram o que tanto buscavam. Estava tudo completamente vazio. Mas ela não desistiria tão fácil assim.

Caminhou até uma das estantes, afastando dali tudo o que pouco importava, só procurava por informações que fossem necessárias. Vasculhou algumas gavetas, jogou alguns papeis para longe. Quando deixou algo de vidro cair, ela não sentiu remorso. Deu os ombros e continuou a procurar.

E ela já esperava o momento em que alguém viesse a bater a porta mais uma vez para saber o que estava acontecendo.

— Annie, pare com todo esse barulho! — era apenas Gale, menos mal. Annie sentiu-se aliviada em parte, já que não teria que enfrentar as atitudes nada amigáveis de Peeta naquele instante. Gale teria mais paciência e a entenderia. O rapaz caminhou até o lado da irmã, segurando seus braços — Fala o que houve.

— A … a Katniss. Ela… você precisa me ajudar, Gale!— ao ouvir o nome de Katniss, ele já estava alerto. Pediu por calma, enquanto Annie tentava falar sem parecer uma louca — Um documento… qualquer documento de Andrew.

— Só Peeta sabe onde está — ele olhou ao redor — Talvez na gaveta da mesa dele — Gale apontou na direção do que falava, fazendo com que Annie corresse até lá. Vasculhou tudo o que via pela frente, tocando em uma certidão em seguida.

Ela sorriu ao ergueu o documento.

— Aqui — suspirou — Andrew Mellark. Aqui está.

— A certidão dele? — Gale franziu a testa, pegando a folha das mãos de Annie — filho de Peeta Mellark e Glimmer Fontaine — ele começou a ler, correndo os olhos pelas letras minúsculas do papel — inglês… nascido às 23:00 horas… — Gale lia alguns dados, mas viu os olhos da irmã brilharem assim que levantou a cabeça.

— Qual o nome da parteira?

— Não me lembro… só sei que Mary estava com Glimmer — respondeu meio confuso. Annie então parou, não entendendo o fato daquela menina estar envolvida naquela noite.

— Mary? Mary fez o parto de Glimmer? — Gale assentiu devagar, pensando se ter falado aquilo talvez tivesse sido uma má ideia — se você estava com Madge, Peeta provavelmente se escondeu em algum canto, já que estava assustado. Então por quê Mary está envolvida?

— Não sei...Peeta me disse que Glimmer chamou por ela.

Annie sentia que estava quase chegando lá. Se talvez procurasse por essa garota, se fosse atrás dela, seria possível encontrar a verdade, não?

E pensando justamente nisso, ela passou a ignorar as inúmeras perguntas que o irmão fazia. Gale ainda não entendia o desespero dela, mas ao vê-la sair correndo para fora do escritório, ele imaginou que fosse melhor esfriar a cabeça um pouco. Afinal, estavam mais do que próximos de uma data especial.

Naquela noite haveria uma comemoração de natal e a bagunça era evidente por todo o palácio. Gale por pouco não esbarrou em algumas criadas pelos corredores, enquanto elas se apressavam para arrumar os últimos enfeites para a festa que teria mais tarde. Madge, a mais animada de toda a casa, tomou o lugar de responsável por organizar o evento.

Após perceber que a rainha estava mais do que ocupada em decidir sobre os convites, assim como sobre os convidados, ela se ofereceu para cuidar do resto. E claro, a mulher aceitou. As duas já tiveram uma experiência parecida antes quando resolveram organizar outra festa tempos atrás e a rainha sabia que Madge não a decepcionaria.

Dessa forma, a Everdeen se viu mais do que atarefada naquela manhã. Nas últimas semanas ela mal teve tempo de respirar, escolhendo os pratos a serem servidos, as músicas, os enfeites e até mesmo a seleção de criadas e guardas que trabalhariam dentro do Grande Salão na dita noite.

Já naquela manhã, ela trabalhava com os últimos retoques. Dava ordens e gastava boa parte das horas dentro do Salão, apenas certificando-se de que tudo caminharia bem. Estava tão focada que mal notou quando Gale a abraçou por trás, chamando a atenção. Ela corou imediatamente, imaginando que várias criadas tinham flagrado o ato. Em seguida, afastou discretamente o marido, que ria de suas atitudes.

— Gale!— ela disse ainda com as bochechas vermelhas.

— Qual o problema? — ele se fez de desentendido. Após isso, Madge balançou a cabeça, tocando nos ombros do marido.

— Estou trabalhando agora — murmurou — mas você pode me ajudar. O que acha?

Gale torceu o nariz, negando rapidamente.

— Não entendo dessas coisas. Só vim te desejar um feliz natal — Gale então colocou um beijo na testa da esposa — Feliz Natal, loirinha.

— Feliz Natal… seu bobo— suas bochechas voltavam a corar. Gale logo se afastou, voltando de onde viera.

Madge então olhou ao redor. Seria uma grande noite.

****

Peeta chegou meio atrasado na festa, o que não era de seu costume. Acabou ficando irritado pelo fato de que se atrasara com o trabalho, fazendo com que ele perdesse a noção do tempo. E agora a sua pontualidade inglesa tinha ido pelos ares. Ele foi obrigado a se arrumar as pressas, pegando o smoking que Katniss havia escolhido para ele mais cedo.

Após isso, ele correu para fora do quarto. Ela ainda tentava ajeitar alguns fios de cabelo quando desceu o último degrau da escada, caminhando até o Grande Salão. As imensas portas estavam abertas e ele podia muito bem ver o movimento crescer conforme os minutos passavam. Seu relógio apontava 19:25, o que era um grande atraso. Estava vinte e cinco minutos atrasado.

Peeta colocou o relógio para dentro da roupa, encontrando Madge na entrada do Salão com uma expressão de poucos amigos. Ele teria que se explicar.

— Está atrasado, Peeta — ela disse enquanto segurava uma prancheta. Provavelmente ali estaria o nome dos convidados — onde esteve durante todo esse tempo?

— Me dê um desconto pelo menos por hoje, Madge — ele rolou os olhos — eu estava trabalhando, não pude chegar antes. E outra, eu sou um príncipe. Nunca estou atrasado.

Aquela foi a primeira desculpa que ele arranjou. Peeta não queria estragar aquela noite.

— Tudo bem…

— Onde está Katniss? — ele então perguntou, vasculhando o salão com certa curiosidade.

— Está por aí — ela pareceu rabiscar algo na folha presa na prancheta — pode ir, Peeta. Tenho que receber os outros convidados.

Ele não pensou duas vezes. Já estava preparado para procurar por Katniss, quando a voz de Madge novamente o parou.

— Onde está a sua máscara? — ela perguntou de repente.

Peeta franziu a testa e olhou para os demais convidados. Todos estavam de máscaras. Um certo calafrio passou pelo corpo do Mellark e a velha sensação de estar sendo observado se tornou presente. Ele então imaginou que fosse somente Madge o olhando como se fosse sua mãe prestes a lhe dar uma bronca.

Quando se virou de volta para a Everdeen, ela pareceu não dar mais atenção para ele como antes.

— Mr. Knightley, seja bem vindo — a garota sorriu para alguém atrás de Peeta — Feliz Natal!

— Desejo o mesmo a senhorita — Peeta olhou por detrás de seus ombros, tendo a impressão de conhecer aquela voz. Porém, antes que pudesse fitar o rosto do indivíduo, Madge pareceu cutucá-lo.

— É um baile de máscaras, Peeta! Coloque a sua máscara — a loira dizia com o dedo indicador apontado para o seu rosto. Peeta tinha uma expressão confusa, sentindo que o tal homem de antes tinha passado logo ao seu lado, adentrando no Salão.

Depois, ele não pode ver quem de fato era. O indivíduo estava de costas e pouco era possível observar seu rosto. Peeta tirou os olhos do estranho e se voltou para Madge.

— Quem era aquele? — ele apontou para o homem em questão, que tinha acabado de pegar uma taça de champanhe.

— Mr. Knightley. Não sei quem é, deve ser um velho conhecido de seu pai — Peeta não se lembrava muito bem daquele nome, mas ignorou, afinal, já esperava a presença de pessoas que mal conhecia — agora coloque a máscara, Peeta. Precisa obedecer a ordens pelo menos uma vez na vida.

Madge apontou para a mão dele. Peeta não tinha percebido antes, mas carregava a simples máscara durante todo aquele tempo. Ele então a colocou no rosto, tapando seus olhos.

A máscara que usava era bem mais discreta em comparação a muitas que ele tinha visto no Salão. Algumas chegavam a tapar o rosto por inteiro, não permitindo que a pessoa pudesse ser identificada. Outras chegavam a dar medo, tendo várias cores, desde o branco como a dele, até o preto como a do homem misterioso que entrara na festa, chamando a atenção de Peeta.

Ele tentou ignorar aquilo por uns simples minutos, avistando Katniss num dos cantos do Salão. Ela tinha Andrew nos braços e não usava máscara por enquanto. Não porque o bebê brincava com a mesma em suas mãos. Peeta então retirou a própria máscara, andando até a esposa. Colocou-a entre seus braços, beijando-a na bochecha.

— Como uma mulher tão bela como essa ainda está sem companhia? — falou se virando para ela. Katniss riu quando o encontrou sorrindo galanteador.

— Eu já estou bem acompanhada — ela mostrou Andrew em seus braços, mas não pareceu convencer Peeta.

— Tem certeza?

— Claro que sim — Katniss deu os ombros. Peeta balançou a cabeça.

— Falo da companhia de um belo cavalheiro. Se eu fosse você, não ficaria andando por aí desta forma — ele correu os olhos pelo vestido branco da esposa — pode atrair a atenção de vários rapazes mal intencionados.

— E você seria um deles? — ela levantou uma das sobrancelhas, como se o desafiasse.

— Talvez — Peeta respondeu. Katniss acabou rindo, levando-o a balançar a cabeça em negação — claro que não… tenho as melhores intenções possíveis.

Andrew levantou a cabeça e imediatamente viu o pai ali. E mesmo que fosse tão pequeno para falar algo, ele pareceu mais do que feliz ao reconhecê-lo ali. A máscara de Katniss caiu no chão no mesmo segundo e ele ergueu os braços na direção do Mellark.

— Você está aí, pequeno grande homem! Tentando se esconder do papai? — Peeta resgatou a máscara do chão, levantando-se para pegar Andrew. O pequeno pareceu alegre no colo do pai, mostrando seu belo sorriso infantil.

Katniss não pode evitar quando algo estranho se tornou presente dentro de seu peito. Ela não sabia o que significava, mas tinha certeza de que não era relacionado ao momento. Quer dizer, não exatamente. Ela não queria admitir que era ciúme.

Claro… não era ciúme. Não poderia ser. Era outra coisa.

Então ela se lembrou da conversa com Annie mais cedo, sentindo-se incomodada com aquilo mais uma vez. Katniss sentia um certo frio na barriga quando voltava a fitar Andrew nos braços de Peeta, como se aquilo fosse tudo novo para ela. A ideia de ter uma família a deixava nervosa as vezes.

Antes era normal, ela sabia que Andrew era filho de Glimmer e que ela teria que aceitar aquilo, aceitar que Peeta também tinha que dar atenção ao bebê, mesmo este sendo um bastardo. Porém, depois do que conversou com Annie, ela não tinha mais a certeza do que fazer. E se tudo aquilo fosse verdade? E se ela fosse…

— Chérie? — a voz de Peeta afastou seus pensamentos. Katniss pareceu acordar, olhando assustada para o marido — o que houve?

— Na-nada— ela mentiu, tentando se recompor. No mesmo instante uma criada levava Andrew para um lado mais distante.

Katniss seguiu os passos da mulher, atormentada com o que poderia acontecer. Mas ficou aliviada ao notar que o bebê agora estava nos braços da mãe de Peeta. Ela o mostraria para algumas amigas.

— Acho que você perdeu — Peeta estendeu a máscara de volta para ela. Num segundo ela já a tinha de volta no rosto, assim como ele tinha a dele. Peeta pareceu ignorar o instante fora do comum da esposa, estendendo uma das mãos — Me daria a honra de uma dança?

Uma música calma tocava no Salão. Katniss acabou aceitando, caminhando ao lado dele para o centro. Em seguida, ele segurava uma das mãos dela, mantendo a outra em suas costas. Ambos deram os primeiros passos, tentando aos poucos acostumarem-se com o ritmo.

Rapidamente já tinham a sequência gravada, apenas repetindo os passos. Katniss ignorou os olhares direcionados aos dois durante toda a dança. Mesmo de máscara, não era difícil de identificá-los. Muitos os fitavam com certa curiosidade, resultado dos maus boatos que rodavam pela cidade. Ninguém esperava vê-los juntos por ali. Pelo menos não daquela maneira.

A Everdeen ouviu alguns cochichos ao redor, não podendo decifrá-los de fato. Estavam longe demais para serem ouvidos com clareza. Mas sem dúvidas eram femininos.

Ela engoliu em seco imaginando o que falavam. Muitas mulheres tinham visto Andrew em seus braços mais cedo e com certeza agora riam de sua cara, de sua postura. Deveriam estar fazendo piadas sobre ela. Deveriam estar perguntando onde a outra estaria e dizendo que Peeta estava ali somente porque tinham o obrigado.

Ela olhou ao redor, distraindo-se da dança. Seus pés continuavam realizando os passos, mas sua mente estava longe dali. Os cochichos continuavam e algumas mulheres até mesmo a olhavam com certo desprezo. Ela podia perceber porque algumas não usavam máscaras mais. Já as que usavam, sabiam esconder muito bem, porém, ela sabia que estavam no mesmo estado.

Katniss então olhou para baixo e logo depois Peeta largava o aperto que fazia na mão dela, apenas para tocar-lhe no queixo. Ele ergueu o rosto da Everdeen, franzindo a testa.

— Você ficou estranha de repente — ele sussurrou.

— Está tudo bem — Katniss deu os ombros. A música em breve acabaria e ela sabia que acabaria correndo para o outro lado do Salão. Ela e suas malditas inseguranças.

— Chérie…— Peeta pareceu perceber o que estava acontecendo. Afinal, não era muito difícil — é por causa deles? Estão apenas nos admirando.

— Eu não teria tanta certeza…

— Você não deveria se preocupar com essas coisas — ele afastou a máscara dela com certo cuidado, deixando-o livre para que a mão dele segurasse um dos lados do rosto de Katniss com delicadeza — as pessoas comentam o que querem, já nós… nós sabemos a verdade. E outra, é a primeira vez que nós aparecemos juntos desde o casamento. Era de se esperar a surpresa.

Se fosse apenas isso… talvez Katniss estaria mais tranquila.

Ela forçou um sorriso, tentando parecer que tudo agora estava bem. Porém, ela nunca soube ser uma boa mentirosa.

— Talvez devêssemos dar algo a eles então — Peeta disse em seguida. Katniss não entendeu muito bem o que ele quis dizer, mas antes que pudesse perguntar, ele a beijava.

O mundo pareceu parar no instante que aquilo aconteceu. Os dois pararam de dançar e a música também tinha acabado, dando espaço para outra. Mas Katniss imaginou que ninguém iria voltar a dançar antes de raciocinar o que estava acontecendo.

O simples encostar de lábios parecer durar uma década, porém, era a única coisa permitida naquele instante. Peeta sabia disso, afastando-se logo em seguida, apenas para colocar a máscara da esposa de volta no lugar e puxá-la para fora do centro do Salão. Afinal, ele não a deixaria livre tão cedo.

Do outro lado do Salão, Annie caminhava sozinha entre os diversos convidados. Tinha acabado de flagrar o beijo de Katniss e Peeta e um sorriso escapou assim que tudo aconteceu. Ainda mais quando ela viu várias garotas mais novas saírem de perto, claramente insatisfeitas. Talvez esperavam que o tão disputado príncipe tivesse olhos para elas naquela noite. Porém, era óbvio que ele já estava ocupado.

Seu sorriso era tão grande e satisfeito, que não poderia ser somente por aquele motivo. Ela também não via a hora de solucionar o caso sobre Andrew. E jurou que nada acabaria com seus ânimos.

Nada além de…

— É apenas impressão minha, ou a senhorita anda fugindo de mim? — Annie congelou ao reconhecer aquela voz. Ela virou-se em câmera lenta, encontrando uma figura conhecida.

Mesmo com a máscara tapando boa parte de seu rosto, a garota via o par de olhos já decorados por ela brilhar em sua direção.

— Não lembro de te convidar — falou rude, negando a taça de bebida que Finnick estendia para ela.

— Katniss me chamou — o rapaz voltou a sorrir, mostrando seus dentes extremamente brancos — Fugiu aquele dia na loja e agora finge que não me viu chegar.

— Nós deixamos de conversar há um bom tempo, Finnick. Por quê não vai cantar as outras moças daqui? Me deixe aproveitar a minha festa.

Annie estava preparada para fugir daquele lugar. Provavelmente se esconderia em um dos cantos, como se aquilo fosse possível de fato.

— Com aquele rapaz? — Finnick apontou com um queixo para um sujeito próximo dos dois. Notou o homem observar Annie por uns instantes, até que fosse flagrado, sendo obrigado a virar para o outro lado — ele está de olho em você há um tempo… a senhorita gosta dos misteriosos, estou certo?- Finnick a deixava nervosa, e o pior, ele sabia disso.

— Não quero ser obrigada a te retirar da festa. Então, por favor, saia do meu caminho — Annie tentou dar um passo, sentindo a mão de Finnick agarrar seu braço. Puxou de volta só que ele era bem mais forte — Me larga!

A paciência já tinha ido embora como num piscar de olhos. A expressão de Finnick mudou e ele somente intensificou o aperto. Annie engoliu em seco ao vê-lo daquela forma.

— Onde esteve, hein? Você sumiu por meses! — ele falava nervoso, sussurrando bem próximo do rosto da garota.

Mas, felizmente, não bastou muito tempo para que alguém notasse algo estranho entre os dois.

— Ele está te incomodando, senhorita? — um segundo homem se intrometeu, fazendo Finnick largar Annie imediatamente. O irmão de Katniss olhou para o indivíduo, não reconhecendo o mesmo. Mas aquilo não importava.

Ele deu os ombros e caminhou para longe dali na mesma rapidez com que chegara antes.

— Obrigada — Annie então pode respirar, se virando para o homem que a ajudara. Observou o homem completamente vestido de preto e não reconheceu, assim como Finnick. Porém, ela foi educada ao estender a mão — Annie… Mellark.

O homem sorriu. Pegou na mão da garota e colocou um beijo ali.

— Mr. Knightley — disse em seguida. A voz dele era diferente, Annie nem ao menos se lembrava de alguém com aquele estranho sotaque.

— Knightley? Você é um Knightley? — o homem assentiu — Papai me falou de você, Max o ajudou nos últimos dias...Max deve ser o seu pai, certo?

A julgar pelo cabelo e por certos traços de escapavam da máscara, ela imaginou que ele não fosse tão velho. O homem a encarou por uns instantes.

— É… sim— ele falou bebendo o resto de bebida que tinha na taça — Mas ele não pode vir, infelizmente. Fiquei encarregado de conhecer esta família. Meu pai só não avisou que Haymitch tinha uma filha tão… tão…

Annie não deixou que ele terminasse. Pouco se importou com o possível elogio que o homem estava prestes a fazer, iniciando uma nova conversa rapidamente. Ela era boa com aquilo.

Na porta do Salão, Madge continuava distraída com os convidados, pensando até quando ficaria por ali. Queria aproveitar a festa ao lado de Gale e, pelo pouco que tinha ouvido, muita coisa tinha acontecido desde então. Ela podia ouvir as conversas rolando por ali.

Seus olhos foram parar mais longe, onde Katniss e Peeta estavam. O casal permanecia sozinho no Salão, apesar de terem conhecido alguns convidados anteriormente. Andrew foi colocado nos braços de Katniss logo depois que ela se sentou em uma das cadeiras, sendo seguida pelo marido.

Os dois ficaram em uma das mesas separadas, que eram mais distantes das demais. Mais ao lado estava a rainha com algumas convidadas especiais.

— Hoje eu não te disse que te amo — Peeta disse passando os lábios delicadamente pela curva do pescoço da garota. O rosto dela corou e ela se virou para o marido, recebendo um beijo rápido nos lábios mais uma vez.

Assim que se afastaram, Peeta pareceu estranho. Ele olhou por cima do ombro assim que teve a sensação de estar sendo observado. Mas não era uma simples pessoa fitando os dois, ele sabia que não era.

— Peeta? — Katniss o chamou. Era incrível como os dois se preocupavam tanto as vezes — aconteceu alguma coisa?

— Nada, só sinto que devo ficar perto de você esta noite — falou e em seguida Gale veio pegar Andrew. O casal deixou que o pequeno fosse embora mais uma vez.

— É só Gale, não precisa se preocupar — a Everdeen disse ao marido, notando que ele tinha congelado ao seu lado. E de fato ele tinha certa razão em ficar preocupado, Andrew era muito pequeno para ficar passeando assim sem que os pais estivessem por perto.

E Peeta tinha a certeza de que não deveria tirar os olhos dele e de Katniss durante toda a festa. Havia muitos olhares mal intencionados por aí, ele podia sentir.

— Você está estranho — ela voltou a comentar.

— Não fuja do meu olhar, tudo bem? — Peeta pediu olhando nos olhos dela, o que foi impossível de negar. Katniss consentiu e logo foi parar entre os braços dele, como se ali estivesse bem protegida.

— Para quem está olhando? — ela tentou seguir o olhar do marido, que estava no outro lado do Salão vendo um homem conversar com Annie.

— Aquele homem… diz que é amigo do meu pai. Mas eu nunca o vi — Katniss balançou a cabeça, puxando o rosto de Peeta para si.

— Ele está de máscara, não pode reconhecê-lo.

É, talvez ela tivesse razão. Peeta realmente desejava que ela tivesse.

****

O grande relógio tinha acabado de marcar meia-noite. Era a hora certa para a famosa ceia iniciar, fazendo com que os convidados começassem a se preparar.

Num dos lados do Salão, Andrew não conseguira dormir, estava agitado com toda a comemoração. Peeta costumava olhar para todos os lados, sempre com Katniss grudada ao seu lado. Já Annie, como sempre, permanecia ignorando os olhares insisitentes de Finnick, mas isso só acontecia quando ele não estava distraído com qualquer moça vagando por aí.

A Mellark por um momento passou a ajudar Madge, que estava prestes a terminar a receber os convidados. Ela poderia muito bem ter deixado o trabalho para as criadas, mas queria falar com cada pessoa que aparecia por ali.

Quando as portas estavam prestes a serem fechadas, Madge viu um último convidado chegar. Imaginou estar vendo coisas, porém, era realmente uma pessoa parada diante de si.

— Boa noite — murmurou tentando disfarçar o incômodo — o senhor é?

O rapaz alto retirou a máscara, deixando que ela um par de olhos azuis brilhando em sua direção. Ao seu lado estava uma moça misteriosa.

— Evan Knightley — Madge se pôs a olhar na lista. Encarou o homem, voltou aos nomes e depois franziu a testa — Algum problema, senhorita?

— Er...Mr. Knightley, o senhor já entrou. Quer dizer… se esse senhor for realmente o senhor — ela embaralhou as palavras, fazendo o homem rir por um instante.

— O que disse? — Evan pediu para verificar a lista da moça, vendo seu próprio riscado — isso deve ser um engano, eu sou Evan Knightley. Olhe o meu anel.

Madge olhou para o dedo dele, onde havia um grande e nada discreto anel com um “K” bem brilhante. Ela não sabia o que de fato aquilo podia significar, mas somente imaginar a confusão que estaria causando em poucos minutos, Madge já ficava apavorada.

O tal homem não parecia estar mentindo. A Everdeen engoliu em seco e pediu educadamente por licença, caminhando apressadamente pelo Salão. Seus olhos encontraram Gale e ela então foi até ele.

— Preciso que venha comigo imediatamente, querido — falou já puxando o rapaz. Gale, que estava com Katniss e Andrew, franziu a testa e num impulso acabou devolvendo o bebê para a amiga antes que a esposa derrubasse os dois.

Madge o puxou para longe dali, ignorando as perguntas que Katniss fazia em suas costas.

— Peeta me pediu para tomar conta deles — Gale ainda tentou avisar. Porém, a garota não ouvia.

Ele olhou para Katniss por cima de seus ombros, vendo-a fazer uma expressão que estava tudo bem ele ir. Talvez ela explicasse para Peeta mais tarde.

Gale sabia que o irmão iria ficar uma fera, mas não teve como evitar os puxões de Madge. A garota ofegava quando finalmente parou, tentando explicar o que de fato estava acontecendo.

Enquanto isso, em algum canto do Grande Salão, Peeta estava ocupado demais conversando com alguns amigos de seu pai. Tinha sido obrigado a ficar ali por uns instantes, ouvindo as velhas conversas sobre negócios. Dessa vez eles discutiam sobre a possibilidade da construção de algum monumento em homenagem a Haymitch, pois em breve ele completaria cinquenta anos no poder. Seus fios de cabelo branco denunciavam os longos anos com a famosa coroa.

Katniss perdeu Peeta de vista quando um amontoado de homens se colocaram ao redor da mesa em que ele estava. Ela deixou que Andrew fosse para o chão, depois de tanto vê-lo insistir. Ele estava naquela fase de querer andar com as próprias pernas, mesmo que não conseguisse de fato. O máximo que chegava era num simples engatinhar que muitas vezes também não dava certo.

A Everdeen observou Andrew dobrar os joelhos e logo depois apoiar as pequenas mãos no chão, esforçando-se aos poucos. E quando menos esperava, ela o viu engatinhar de verdade pela primeira vez. Katniss sentiu seu peito encher de orgulho somente por presenciar aquela cena. Até mesmo ficou chateada por não ter Peeta ali para ver o que o filho fazia.

Mas antes que pudesse chamar algum conhecido para comunicar a grande novidade, o coração de Katniss pareceu bater mais rápido. Como se algo a chamasse para mais longe, ela levantou o rosto, deixando Andrew de lado por um instante. Rodou os olhos pelo Salão, imaginando estar sendo observada. Depois de checar até mesmo as janelas, como se detrás dali pudesse haver alguém, ela voltou a procurar por Peeta.

A mesa onde o marido estava continuava cheia. Ela ficou na ponta dos pés para vê-lo, mas não conseguiu. O assunto lá deveria estar do que interessante.

Katniss então olhou para a mesa onde o banquete era servido. E jurou ter visto algo suspeito. Cachos loiros puderam ser avistados e ela engoliu em seco, perdendo a noção dos coisas por um segundo. Depois tentou esquecer-se daquilo, dizendo a si mesma que estava delirando demais.

Voltou-se para Andrew, mas ao olhar para onde ele estava antes, não o encontrou.

— Andrew? — chamou já com o desespero entalado na garganta. Katniss obviamente não obteve resposta. Caminhou o mais rápido que pode, vendo o garotinho próximo a porta dos fundos do Salão, onde os funcionários do palácio transitavam. Ela sorriu aliviada — Bem que Peeta disse que você era esperto.

A Everdeen correu também naquela direção, perguntando a si mesma como ele tinha conseguido ir tão longe em tão pouco tempo.

A festa continuava da mesma forma que antes. Madge tinha chamado Gale para um dos cantos, junto com o dito Evan Knightley e a moça que o homem acompanhava. Guardas também foram chamados para tentar resolver a situação, deixando o convidado levemente irritado com o que acontecia.

Diante disso, a porta do Salão acabou ficando livre. Os guardas apenas faziam seu trabalho dentro do baile e na parte de fora do palácio. Qualquer um que quisesse sair ou entrar tinha a liberdade, ninguém veria. Essa foi a saída encontrada por Annie assim que ela viu que não conseguiria mais ficar ali.

Caminhou para fora da festa, adentrando em alguns corredores escuros e completamente vazios. Xingava Finnick mentalmente enquanto caminhava na mesma rapidez de sempre. Ela estava tão nervosa que por pouco deixou algo mais do que interessante passar. Um pouco mais longe de onde ela estava, Annie viu um vulto cruzar um dos corredores, seguindo uma outra direção.

Ela estranhou o fato da pessoa não parecer perdida. Caso estivesse, já estaria gritando por ajuda. Afinal, não era difícil se perder no palácio.

Mas então o desespero ficou evidente na expressão de Annie. Ela se lembrou a confusão na porta do Salão e da sensação estranha que vinha sentindo desde mais cedo. O vulto que passara era uma mulher, a julgar pelo barulho dos saltos. E os cachos… aqueles cachos… ela tinha visto em algum lugar. Logo em seguida Annie lembrava também do homem com o sotaque estranho.

Era um sotaque diferente… não parecia inglês… parecia…

Annie não ficou ali para terminar o raciocínio. Sabia em qual direção a mulher estava indo e aquilo não daria em boa coisa. A garota deu meia volta e voltou para o Salão, procurando pela única pessoa que poderia ajudá-la naquele momento.

Assim que se aproximou da mesa cheia de homens, ela não parou para pensar em agir como uma boa moça agiria.

— Peeta! — disse nervosa, num tom mais alto do que o normal.

Os convidados a olharam com certa surpresa e até mesmo desaprovação pela forma como ela tinha chegado. Mas antes que uma nova confusão começasse, Peeta levantou da cadeira que estava sentado e puxou Annie para um dos cantos.

— Annie? Mas o que...

— Ela está aqui — ela sussurrou. Peeta então parou onde estava, claramente confuso — Glimmer… eu a vi.

— Como? — ele olhou para os lados, nervoso. Era como se todos pudessem ouvir o que Annie falava e ao mesmo sentir o desespero dele — Não tem como ela estar aqui.

— Mas está. Tenho certeza de que a vi. Ela estava aqui dentro do Salão antes… eu a vi antes, não é possível. Depois a encontrei num dos corredores — Annie se esforçou para lembrar da presença da loira na festa. Tinha a visto antes, sabia disso. Tinha a visto perto do homem com o sotaque diferente. Sabia disso porque o observara durante o baile, esperando que ele viesse chamá-la para dançar, o que não aconteceu — ela foi na direção cozinha, o que eu achei muito estranho. Se fosse algum convidado normal já estaria pedindo por ajuda… e ela parecia muito bem para alguém que não deveria conhecer o palácio.

Peeta começou procurar por algum sinal, porém, não via nada que pudesse chamar a atenção.

— Onde está Katniss e Andrew? — resolveu perguntar. Ele avistou Madge e Gale aparentemente preocupados com algo, enquanto conversavam com algumas pessoas. Peeta então pensou no misterioso convidado de mais cedo, tentando se lembrar da voz dele.

— Eu não sei! Quer dizer… vi Katniss correr atrás de Andrew até a porta dos fundos e depois saí do Salão… encontrei Glimmer num dos corredores, indo para a cozinha, então achei que ela pudesse indo até lá encontrar Katniss.

Seu raciocínio fazia sentido. Se Glimmer chegasse até onde pensar ir e se Katniss fosse atrás de Andrew até a porta dos fundos, as duas acabariam se encontrariam em algum momento.

Peeta parou de respirar por um instante. Seus olhos foram parar na direção onde Katniss deveria estar, mas que não estava. Nem havia sinal dela. E a porta dos fundos estava aberta, como ele imaginava. Já sabendo o que faria, Peeta voltou-se para a irmã.

— Preciso que me faça um favor — pediu sério e Annie consentiu meio hesitante. Tinha medo do que ele poderia ser capaz — vá para o meu escritório, abra a segunda gaveta a direita da minha mesa… puxe com força, embaixo achará uma arma — ele falava com pressa. Annie arfou, receosa sobre aquele pedido — Pegue e traga para mim imediatamente. Vou procurar por Katniss e Andrew.

— Vo-você tem uma arma?— ela gaguejou. Peeta preferiu não responder, continuou calado olhando para os lados — não pode matar ninguém, não na minha casa!

— Não vou matar, só vou intimidar — falou baixo, ainda alerta — Glimmer quer brincar e eu aceito o desafio… só não sou tão justo com as regras.

****

Annie correu para o escritório como se aquela fosse a última coisa que fosse fazer enquanto viva. Suas mãos estavam trêmulas, sua respiração alterada e a adrenalina pulsava em seu sangue.

Ela até tentou ser discreta, procurando ao máximo ajudar Peeta, pegar Glimmer e aproveitar para tirar suas dúvidas sobre Andrew. Porém, ainda torcia para que suas conclusões sobre a mulher na festa estivessem erradas.

Assim que chegou ao escritório, resgatou a pequena chave que Peeta havia lhe dado antes de sair. Ele sempre a carregava para qualquer imprevisto. Annie abriu a porta com desespero, puxando uma das velas que estava presa na parede do corredor para iluminar o cômodo.

Rapidamente ela já se aproximava da mesa, colocando a vela de lado. A luz da noite já deixava parte das coisas mais claras devido as enormes janelas. Annie retirou a máscara e tentou abrir a gaveta como Peeta tinha explicado.

— Vamos… vamos…— ela repetiu num sussurro, ainda ofegante. Tentou mais algumas vezes, mas não obteve sucesso — essa droga não abre!

Annie praticamente batia e chutava a mesa. Era inútil. Se abaixou, com raiva e medo já que tinha de ficar de olho na porta e seria impossível daquela maneira. Empurrou até ver uma pequena pistola quicar no chão.

Peeta era inacreditável, pensou negando com a cabeça. Ele guardava uma arma esse tempo todo no mesmo teto onde ela morava.

Annie então pegou o objeto com cuidado, como se aquilo pudesse machucá-la. Ela já se preparava para sair quando ouviu certos passos se aproximarem.

Gelou. Alguém estava no escritório com ela. Sorte que Annie estava escondida atrás da mesa, mas os passos se aproximavam cada vez mais. Ela não era capaz de atirar, muito menos matar uma pessoa, isso era pecado de qualquer forma.

A garota sentiu o suor escorrendo por sua testa quando tomou coragem e se levantou, encontrando homem de preto que conversara antes parado bem ali na sua frente. Somente a mesa os separava.

— Saia daqui — falou grossa, identificando o homem como Mr. Knightley, que agora levantava as mãos como se estivesse se rendendo. Ela não tinha visto o momento, mas quando percebeu, estava com a arma apontada para ele — o que faz aqui?

— Você sumiu de repente… eu queria me apresentar… definitivamente— ele sorriu maliciosamente. Annie o viu tirar a máscara e revelar o rosto. Mas nada que causasse grande surpresa, ela não conhecia aquele sujeito — agora largue esta arma e venha conversar.

— Não posso — falou tremendo, fazendo ele rir — o que quer comigo?

— Conversar. E sei que você também quer- o rapaz era alto, loiro e tinha certas pintinhas no rosto, como sardas — Largue a arma, por favor.

Annie pensou que talvez fosse melhor ouvi-lo. Poderia descobrir alguma coisa interessante. Ou talvez ele estivesse a enrolando, tendo outras intenções em mente.

— Pode me contar o que quer — por fim, ela andou até ele, abaixando a arma.

O loiro a fitou em silêncio, esperando que ela estivesse perto o suficiente para que continuasse.

— Você sabe demais — disse aquilo, o que aumentou ainda mais a confusão de Annie — ela odeia quando isso acontece… me desculpe por isso, Annie… eu realmente adorei conhecê-la.

Foi num piscar de olhos. Annie sentiu a arma escorregar para longe, enquanto um simples golpe a fazia cair no chão. Ela imaginou o que ele faria a partir dali.

Talvez retirasse a sua honra mais uma vez, como Finnick tinha feito antigamente. Mas ela sabia que assim que aquele homem notasse que ela não era mais pura, como várias outras no Salão eram, ele provavelmente iria embora.

Annie ainda tentava raciocinar as palavras que ele dissera. Esperou o momento que ele viesse atacá-la, até que fechou os olhos e não sentiu mais nada. Mas ouviu.

Ouviu um barulho que parecia como se algo, ou alguém, fosse arremessado contra outra estrutura. Annie abriu os olhos e viu as costas de um homem. Depois, o loiro que conversava antes caía no chão com o nariz sangrando. Ela ofegou e reconheceu Finnick como sendo o agressor.

O sangue escorria pelo rosto do estranho, que não sabia mais como se defender, não com toda a brutalidade como era tratado. Finnick então o puxou pelo colarinho da roupa, jogando-o contra a parede mais uma vez. Lhe deu um soco no rosto, seguido por vários outros. O punho dele sairia machucado, mas não tanto como a face do estranho.

O loiro permanecia tentando se defender. E quando já estava cansada de apenas olhar tudo o que acontecia, Annie engatinhou até onde a arma estava, resgatando-a mais uma vez.

****

Peeta estava impaciente. Annie não apareceu cumprindo sua ordem, então ele pediu que todas as saídas fossem trancadas. Prenderia Glimmer ali dentro se fosse preciso. Guardas do lado de fora correram imediatamente para os portões principais e outros se posicionaram caso precisassem atacar.

Peeta não tinha avisado sobre o que estava de fato acontecendo, tentando não levantar suspeitas. Mas a julgar pela maneira como os guardas trabalhavam, já era de esperar que eles imaginaram que fosse algo grande e perigoso. Não que não fosse na verdade, é claro.

Madge já tremia apavorada, pensando que tudo era sua culpa. Gale tinha conversado com Peeta e acabou sabendo sobre o que Annie tinha contado. Por fim, ele não conseguiu esconder da esposa. Madge soube de tudo e começou a chorar num dos cantos.

A garota viu o marido sumir do Salão, correndo pelos corredores enquanto vasculhava vários cômodos.

Já Peeta correu para a cozinha, vendo a máscara do filho caída no chão. Trancou os punhos e tentou não pensar no que faria caso Glimmer ou qualquer outra pessoa ousasse tocar em Andrew ou em Katniss. Ele começou a se culpar por ter se distraído tanto, tinha jurado a si mesmo que ficaria atento naquela noite.

Sem contar que já deveria ter imaginado algo parecido antes. Ele não podia ter sido tão burro a ponto de deixar tudo tão fácil assim.

Burro… burro!, pensou consigo mesmo.

Peeta procurou por Annie mais uma vez, não a vendo em lugar algum. Diante da demora, ele entrou de uma vez na cozinha.

— Alguém? — perguntou para o vazio. Não houve resposta. Olhou ao redor, encontrando o balcão cheio de comida e algumas panelas sujas na pia. Também havia vários tipos de facas penduradas em um canto.

Sem pensar duas vezes, pegou uma. Peeta não desejava matar ninguém, muito pelo contrário. Mas se fosse preciso, por quê não? Salvaria as duas pessoas mais preciosas em sua vida.

Peeta então voltou a caminhar, quando ouviu um barulho. Virou por impulso, só que nada apareceu. Só havia ele ali.

— Glimmer? — resolveu perguntar mais uma vez — quem quer que seja, apareça!

Qualquer um morreria de medo do tom de voz que ele usava. Peeta andou mais um pouco, com a faca afiada em sua frente. Ouviu o barulho novamente, ciente de que estava bem perto. Ele não soube o que de fato era, até dar mais dois passos. Depois disso, percebeu que se tratava de um soluço.

Alguém chorava naquela cozinha. Peeta se perguntou onde estariam os funcionários, deveriam estar trabalhando naquela hora. Ele ouviu o soluço mais uma vez e acabou virando para a esquerda, somente para se assustar quando encontrou uma pessoa encolhida num dos cantos.

Era apenas uma garota. A menina levantou o rosto, deixando que Peeta visse a tristeza estampada nos olhos da empregada. E ele a conhecia, tinha certeza disso. Só não se lembrava do nome...

— Katniss… sabe onde ela está? — perguntou baixo. A menina agarrou as próprias pernas. Ela enxugava as lágrimas com o pano amarelado e sujo do vestido. Seus cabelos negros estavam completamente bagunçados.

Como era o nome dela mesmo? Peeta tentava se lembrar.

Ele a observou, percebendo como os olhos da garota iam até a faca em suas mãos, parando em seu rosto desesperado em seguida. Ela então apontou com o queixo para uma porta no canto da cozinha, que dava aos fundos do palácio.

Peeta balançou a cabeça como se agradecesse pela informação. Depois, correu até lá. Sentia como se fosse perder seu coração, como se ele fosse explodir. Abriu a porta com força, chegando aos fundos. Estava vazio.

Tinha um simples corredor, que se seguisse por ali, daria no dormitório dos funcionários. Mas se seguisse pelo outro lado, encontraria outra porta. A porta de saída.

Peeta engoliu em seco, lembrando-se de que somente as criadas tinham posse das chaves. Caminhou até lá, encontrando a maldita porta aberta. A chave ainda estava na maçaneta e o vento do lado pareceu pareceu chamá-lo. Peeta então foi para aquele lado.

— Não — disse baixo ao constatar que não havia mais ninguém ali. Era somente ele e a noite. Nem ao menos tinha guardas para fazer a segurança - KATNISS!

Peeta resolveu chamá-la. Mas foi em vão, ela tinha ido, ele sabia disso. Peeta caminhou sobre a neve, ainda com a imagem da criada chorando em sua mente. Ela tinha feito aquilo… ela tinha ajudado… ela iria pagar.

Peeta sentiu a raiva dominar seu corpo, até que ele abaixou o rosto e viu um minúsculo objeto no chão. Tocou no pano, identificando como sendo a gravata borboleta que Andrew usava antes. Ele então a amassou entre seus dedos, olhando para algo na frente que ele não sabia o que era de fato.

Encarava o nada. Encarava a noite.

— KATNISS!— gritou já sentindo os olhos arderem — Me responde… KATNISS! - ele já chorava, olhando desesperado para os lados, com as mãos na cabeça.

Pensou em chutar a neve, ou ajoelhar e continuar chorando, mas seus pensamentos foram impedidos imediatamente por um tiro que vinha direto de dentro da mansão. Então, um silêncio se instalou.