Atração Fatal
10 Capítulo 10: Would You Keep My Secret?
— Tem certeza que não quer? Vai ficar doente desse jeito — já era a terceira vez que Katniss perguntava isso a Annie, porém, da mesma forma, a morena recusava comida desde cedo.
Um mês havia se passado, mas nada era diferente, só o fato do casamento entre Gale e Madge. Katniss se sentava no jardim toda manhã ao lado de sua amiga e hoje observava Peeta de longe, enquanto o mesmo dava ordens ao empregado. Annie recusava comida a semana inteira, principalmente pelo episódio da última semana, quando se rendeu aos pedidos da Everdeen, parando por fim em seu banheiro.
Enquanto isso, depois dos protestos de Katniss, Peeta acabou tirando para olhar o estado da irmã, o que não gerou conclusão nenhuma, porém deixou no loiro a suspeita de ser uma virose. E Annie continuava assim, com os olhos inchados, o corpo mole, má alimentação e parecia depressiva.
— Por que o olha desse jeito? — ela mesma perguntou, assustando Katniss, que estava distante.
— Quem?— indagou imediatamente, franzindo a testa ao notar Annie apontando para Peeta com o queixo. Katniss apenas deu os ombros em protesto — Você está enganada, eu não olho para ele.
— Vi seus olhos vidrados, você pelo menos pensava. Sei quando isso acontece, você não deixa de pensar no meu irmão — a morena lhe deu um meio sorriso, fazendo a Everdeen se aborrecer.
— Peeta não significa nada, só acho que ele deveria ser mais gentil com os empregados — inventou uma desculpa em seguida, contudo não havia como negar que ,no fundo, ela sabia que Annie tinha razão, mesmo que ela não desse muita importância para isso.
— Meu irmão não está brigando com o sujeito, só ensinado — por essa Katniss não esperava. Peeta não tinha a cara nervosa, pelo contrário, estava extremamente tranquilo e isso fazia Annie rir — O que você está tentando esconder, Kat?
— Não tenho nada a esconder...sabe que eu o odeio- por um momento, Peeta pareceu perceber os olhares das duas. Se virou, mas continuou sério, decidindo voltar a atenção para o homem ao lado.
— Ódio é um sentimento muito forte, Kat, cuidado com o que fala — Everdeen bufou ao lado de Annie. Peeta a tirava só sério, mas algo naquele beijo que aconteceu na noite do relógio, fazia com que ela vidrasse no olhar dele durante as últimas semanas.
— Não me diga que nunca sentiu algo assim por alguém — a Mellark calou-se em seguida, abaixando o olhar para as próprias mãos, totalmente insegura e desconfortável.
Ela não via Finnick desde aquela noite horrível, torcendo diversas vezes para que ele estivesse morto, mesmo sabendo que isso seria impossível por agora. Katniss insistia tanto em odiar o marido, que aquilo já se tornava meio estranho, fazendo-a pensar: Seria ódio o que ela sentia por Finnick?
— Katniss...se eu te contasse uma coisa, você guardaria segredo? — Annie disse, quebrando o silêncio assustador.
— Sabe que sempre pode contar comigo — a Everdeen afagou o ombro da amiga tentando mostrar sua sinceridade. Sabia que tudo o que Annie precisava agora era de alguém que pudesse confiar.
— O problema é que...é que eu não consigo comer. Já tentei antes, mas meu corpo rejeita- comentou de uma forma chorosa — Isso já acontece há um mês. Me sinto diferente, as vezes me sinto mal. E...minhas regras não chegam há três semanas.
— Mas...— o queixo de Katniss caiu, levando-a a pensar o quanto aquilo não era possível.
Everdeen se lembrava de Annie falando sobre um rapaz com quem teve um breve caso. Se lembrava da amiga arrependida e agora isso, o motivo suficiente para que suas suspeitas aumentassem.
Peeta pareceu perceber a tensão entre as duas, alguma coisa dentro dele o avisara. Algo o informou que tinha um erro ali, uma coisa o assustou. Ele olhou em direção a elas e seu olhar se chocou com o da esposa, também apavorada.
— Eu ainda não sei- Annie continuou, ainda sem ter a coragem de olhá-la diretamente — Katniss...se for verdade eu...
— Não, Annie. Não pense nisso- ela tentou desviar o olhar do marido para não dar nenhuma suspeita- Vai ver que é só engano, as minhas atrasam as vezes, só que nada acontece.
— Mas são três semanas, Katniss! Três semanas! Tem ideia do que é isso?
— Não pode ter nenhum bebê ai! — a garota sussurrou mesmo sabendo que Peeta estava a metros dali e não poderia ouvir perfeitamente, porém o fez por apenas precaução.
— Você não entende...já faz mais de um mês desde aquilo, eu só posso estar grávida — a morena chorava silenciosamente. Katniss queria acompanhá-la, mas seu desespero eram bem maior.
— Então...vai relaxar, Annie, tente comer alguma coisa — ela afagou os ombros da amiga novamente — Eu vou pensar em algo para te ajudar.
— Você faria isso? — Katniss sorriu amigavelmente e lhe deu um longo abraço.
Na verdade, Everdeen não tinha ideia ainda do que fazer. Lidar com uma criança era difícil, tinha toda aquela responsabilidade. E o pior de tudo era que Annie estava solteira. Ser mãe nessas condições era uma vergonha, ela poderia sofrer as piores consequências possíveis, começando por desonrar sua própria família.
Contudo, Katniss não iria deixar, faria o possível, só deixariam a salvos: a sua amiga e a criança.
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— Você andou chorando?- Peeta perguntou ao olhar a irmã.
Annie estava deitada em sua cama, sofrera um pequeno enjoo durante o almoço e ao tentar se levantar, suas pernas não aguentaram, levando-a ao chão. Gale e Madge tinham voltado de viagem e estavam ao seu lado. Já Katniss, a olhava atentamente de longe. Peeta acabou por carregar a morena até o quarto e agora se sentava ao lado dela, examinando-a.
— Na-não— a Mellark falou rouca, se sentindo totalmente indisposta.
— Seus olhos estão inchados, você está perdendo a cor, não come e agora desmaia- o loiro disse se levantando- O que há de errado, Annie?
— Você é o médico aqui, deveria saber- o rapaz revirou os olhos. Desistira daquilo, a garota precisava de um doutor de verdade e ele não estava resolvendo nada ali parado.
— Ainda acho que seja uma virose... Gale, poderia chamar um médico por favor?- Katniss levantou-se em susto no mesmo segundo em que viu o marido pedir uma coisa daquelas, ciente de que um verdadeiro profissional saberia o que havia ali. Todos olharam-na devido a ação da garota, mas ela travou. Peeta ergueu a sobrancelha incentivando-a.
— Não tem ideia do que seja? — disse por fim, ainda disfarçando — Talvez seja alguma virose boba, você deve ter alguma coisa a receitar.
— Er...— o rapaz olhou a irmã novamente — Não posso receitar nada, não temos certeza do que seja. Precisamos de um médico experiente.
Annie olhou para Katniss, suplicando. Sabia que um doutor ali estragaria tudo, ele descobriria a gravidez. O que era impressionante a Peeta, que não havia nem desconfiado. Ele já descartava a possibilidade, já que, segundo as suas teorias, a irmã ainda era virgem. Então suas suspeitas eram só a base de vírus, vírus e mais vírus.
— Está tendo um surto de virose na capital — continuou — Ainda não sabem o que é, mas ele causa todos esses sintomas...falei para não ficar andando por aí Annie. Só que ninguém nessa casa me escuta — ele olhou diretamente para Katniss, que ainda pensava em uma desculpa, precisava salvar a amiga.
— Não há problemas em chamar um médico Katniss, será até melhor para Annie — Gale entrou na conversa. O rapaz havia acabado de chegar e vira a irmã desmaiada, sendo como um choque a todos ali.
— Mas...eu conheço um chá. Um chá milagroso, lembra-se Madge?- Katniss viu a loira assentir. Mrs. Everdeen havia ensinado as duas, era uma bebida feita de folhas e poderia curar uma pessoa em poucos dias, era uma das receitas caseiras mais eficazes.
— Não confio em receitas caseiras- Peeta intrometeu, continuando a se mostrar impaciente.
— Eu prometo...eu prometo que ela ficará boa em dois dias. Só me dê essa chance- Katniss o olhou com a melhor expressão que tinha, sabendo que precisava daquela oportunidade.
— Dois dias Katniss, nada mais — o Mellark acabou se rendendo, antes de se retirar do quarto.
Annie a agradeceu com um pequeno sorriso. Madge e Gale saíram radiantes dali, mas o rapaz continuava preocupado. E Katniss precisava preparar o chá urgentemente, só que isso não acabaria por ali, a garota precisava pensar em retirar a amiga daquele problema, não daria para esconder quando o espartilho não servisse mais e a barriga começasse a crescer.
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— Pode entrar — Annie avisou e segundos depois uma figura entrava no quarto.
Ela já estava preparada para dormir, colocando em seu corpo uma enorme camisola que cobria até os pés enquanto se enrolava pelo edredom branco da cama. Fazia frio a noite, porém de tanto rolar pelas dores e enjoos, acabava ficando com calor.
Katniss trazia o chá milagroso em uma xícara, ali era o momento certo para elas conversarem. Estavam sozinhas e a Everdeen já tomara uma decisão, só precisava da aprovação.
— Precisamos conversar, Annie, sobre aquilo — anunciou Katniss, enquanto a Mellark bebia o remédio, levantando o olhar para encará-la com atenção — Eu tenho uma ideia.
— Eu quero ter esse filho, Kat, ele não tem culpa de estar aqui e eu não tenho direito de matá-lo, me odiaria se fizesse isso — Annie largou o chá, tocando o ventre — Por mais que eu não queira ficar com ele, não posso tirar-lhe a vida.
— É isso que eu queria falar — a moça deu um leve sorriso, sabia que Annie adoraria a sua ideia — Você não vai querer cuidar da criança, mas outra pessoa pode querer e talvez tenha até uma capacidade melhor de fazer isso.
Katniss pensara o dia todo. Enquanto colhia as folhas certas para o chá no jardim, pensava. Ela sorria consigo mesma, lembrava de quando fazia isso com 15 anos, ao lado do único e eterno amor de sua vida. Pena que tudo acabara rápido, parecia até ilusão da garota. Mas ao voltar para dentro de casa, viu o seu marido de longe.
Ele cavalgava um belo cavalo, uma de suas grandes paixões. Os seus pequenos fios de cabelo ainda balançavam com o vento e a garota paralisou por segundos, até vê-lo sumir de visão. E agora, ela sabia o que queria, não era só Katniss que precisava daquilo, Peeta também.
— E o que você vai fazer? — Annie perguntou curiosa.
— Eu vou assumir esse filho, quero ser a mãe de coração dele — falou decidida.
O queixo da Mellark caiu, ela esperava de tudo, menos aquilo. Katniss pensava que talvez uma criança poderia amolecer o coração de Peeta, mesmo não tendo os exatos traços que o marido possuía, o bebê teria o seu mesmo sangue e ela arranjaria uma boa desculpa.
— Mas...mas isso é loucura, Katniss! Como vamos fazer? E a minha barriga?
— Podemos te levar para uma viagem, eu não sei. Você ficará aqui até não dar para esconder a barriga, depois pode viajar para alguns lugares por uns meses até o bebê nascer.
— E como você fica? — Annie já se interessava pela conversa, tanto que voltara até a beber de seu chá.
— Vou fingir que estou grávida. Falarei a Peeta e usarei uma barriga falsa...Madge pode ajudar. Ainda não resolvi tudo mas dará certo no final — a garota deu um sorriso confiante a morena a sua frente.
— Peeta poderia te matar— disse antes de abraçá-la. Katniss não tinha medo da ira do marido, enfrentaria o que fosse, porém conquistaria suas próprias vontades.
Annie não acreditava, se sentiria eternamente grata por aquela mulher. Katniss queria ter um filho, mas tinha medo de não poder engravidar já que sua mãe tinha problemas com isso e demorara anos para conseguir ter Finnick, contudo estava a um passo de ter seus sonhos realizados, então acabou voltando ao seu quarto lentamente.
Peeta se encontrava também pronto para dormir, ela queria se aproximar dele e dar-lhe um longo beijo, como um casal normal faria. Ele, ao vê-la entrar no quarto, não atreveu-se a tomar alguma ação. Já Katniss, deu-lhe um pequeno sorriso. Os dois se deitaram um ao lado do outro, até que a garota percebeu estar observando o marido mesmo no escuro.
— O que houve, Chérie?— Peeta perguntou, assustando-a. Enquanto isso, as suspeitas de que ele era um ser sobrenatural por ter percebido o que ela fazia aumentavam consideravelmente na mente de Katniss.
— E-eu não fiz nada — Everdeen ouviu um pequeno riso, ciente de que era mais um de seus sarcasmos.
— Pode falar, sou seu marido então há porque ter vergonha de mim — o modo como ele falava “Seu marido” ou “Minha mulher” assustava a garota, ela não gostava desse sentimento de posse, ciente de que não era completamente dele.
— Peeta...você já pensou...em ter filhos?- o marido não respondeu. Katniss falou a frase engasgando nas palavras e agora só ouvia um barulho na cama. Ele havia se virado de lado em direção a ela.
— Na verdade...nunca— o Mellark sentia um ponta de esperança. Gostava de crianças, mas não era bom para lidar com elas- Por que, Chérie?
— Nada, só queria saber...boa noite.
— Boa noite, Ma Chérie- o rapaz a abraçou por trás, depositando um leve beijo em seu pescoço. Katniss se arrepiou por um momento, coisa que nunca fizera antes — Katniss...quer saber o que significa isso?
— Isso o que?- aproveitou o momento de paciência do marido. Ela sentiu, bem discretamente, a mão dele descer para seu ventre, mexendo delicadamente com os dedos ali, acabando por sorrir com isso.
— Ma Chérie. Quer saber o que significa?- a garota assentiu e virou a cabeça um pouquinho para olhá-lo — Significa "minha querida".
— Você sabe mesmo falar francês? — Katniss deixou que um enorme sorriso brotasse em seus lábios.
— Sei boa parte, vivi dois anos em Paris — a Everdeen ainda sentia a mão quente dele em seu ventre e ele desconfiava de algo.
Surpreendentemente, algo tomou conta do corpo e dos sentidos da garota, fazendo-a suspirar no escuro, deixando sua cabeça tombar nos travesseiros enquanto sentia a respiração leve de Peeta na curva de seu pescoço, levando descargar elétricas para o resto de seus membros. Sorriu levemente apertando a mão dele ali, em seu ventre, sentindo a temperatura quente daqueles dedos a aquecer.
Ele sem querer sorriu e deixou que a esposa o puxasse para um beijo rapidamente. Assim eles se esqueciam do resto, esqueciam a vida lá fora. Peeta nem sequer avançou mais, só faria isso se a garota permitisse. Porém eles preferiam continuar assim, somente nos simples carinhos. Katniss já sentia seu coração acelerar com aqueles toques, ela não sentia isso há anos. E os dois dormiram assim, abraçados pela primeira vez.
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A garota acordou sobre um travesseiro, ainda com o simples sorriso estampado em sua face enquanto os flashes dos dois abraçados a invadiam. Ela e o marido só conversaram, ele falava sobre algumas coisas que tinha aprendido em Paris e uma história engraçada que acontecera por lá. Isso arrancava belas risadas dela. As vezes, ele a beijava, com muita calma. E eles riam ao final.
Agora, Katniss acordava ali tranquilamente, contudo não acreditava que aquilo fosse tão real, que Peeta poderia ser gentil. A Everdeen se levantou, deixando que uma ponta de felicidade entrasse em si, indo em direção ao guarda roupa. Observou que o diário continuava lá, abandonado no canto, fazia tempo que ela não o lia. O pegou e abriu em uma página qualquer.
“Querido Diário,
Faz tempo que eu não escrevo, quase duas semanas, mas as coisas aconteceram tão rápido e foram tão boas, que eu não queria sair dali. Nós dois fugimos por um dia, ele me levou a um pequeno chalé onde guardava as suas belas flores no jardim e dois dias depois, eu conheci a sua mãe. Na verdade eu já conhecia, porém agora foi oficialmente. Ele queria me apresentar como namorada, mesmo eu achando cedo para isso, poderia ser um choque a todos.
E foi isso mesmo que ouviu. Namorada. Eu sou a namorada dele. As vezes, durante o trabalho, ele joga pedrinhas em minha janela e eu o deixo entrar. Ele é o único que entende todos os meus problemas. Ganhei até um pequeno quadro, que foi ele quem pintou. Disse que eu deveria fazer isso as vezes. E agora eu estou apaixonada...Completamente apaixonada...”.
— Completamente apaixo...— Katniss sentiu uma mão a agarrar pela cintura e a sua voz em seu pescoço, o que a fez fechar o diário com pressa — O que foi, Chérie? Deixe eu ler!
— N...não! O que faz aqui, Peeta? — ela perguntou apavorada. E se ele tivesse lido?
— Só vim te dar bom dia, não posso? — o Mellark lhe deu aquele velho sorriso safado, o Peeta de sempre estava de volta.
— Assustar as pessoas é muito feio — a garota chegou aos poucos para trás, até bater no guarda roupa - AI!
— Está tudo bem? — perguntou rapidamente, agarrando a sua cintura. Katniss sentiu um sentimento de proteção ali, aquilo a encantava- Chérie, você não machucou?
— Não Peeta, estou ótima...obrigada — e ela acabou entrando no banheiro com uma expressão radiante.
O rapaz a acompanhou só com o olhar. Nem percebia o que fazia, mas aquela mulher poderia ser a sua perdição. Ele negou com a cabeça imediatamente, voltando a andar, porém seu pé bateu em algo, um livro caído no chão, ou melhor, o diário de Katniss que havia caído com o susto.
E Peeta o pegou no mesmo segundo, levando-o consigo até o seu escritório.
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