Através do Tempo
12 Tempo de Luta
Notas iniciais
A jornada precisara continuar, ambos ficaram por ali por mais dois dias, dando um tempo razoável para que Elliot se recuperasse de seus ferimentos. Acabara por se esforçar em demasiado, e tiveram que refazer as suturas. Quando sentira-se com mais energia porém, retomaram a viagem. Elliot pretendia chegar a uma cidade que sabia que teria proteção, mas era difícil viajar sendo perseguido e estando ferido.
- Acha que conseguiremos chegar até lá? – Comentava por alto Elizabeth, ambos montados em Luck. Era dia, mas o mesmo estava nublado de forma considerável.
- É claro que sim. Embora eu receio que demore, é realmente longe. Essas viagens costumam durar meses, somados ao tempo em que precisamos descansar. – Elizabeth já esperava por isso. Se quisessem realmente estarem seguros, precisavam ir para o mais longe possível.
- Você não se sente mal em deixar tudo para trás assim? Sua vida, seu pai...? – Elliot se pôs a pensar, medindo o que deveria ou não responder. Optou por ser sincero.
- Eu amo o meu pai, mas não concordo com a forma que ele pensa. Ele acha que pode controlar minha vida. E ele realmente podia por um tempo, mas esse tempo passou. O que ele não entende é que não sou mais um adolescente, do qual ele ditava as regras. Mas não sinto a menor falta de estar no exército. – A voz de Elliot era forte e firme, e tinha um quê charmoso e elegante. Ela o mirara, estava montada em Luck em frente a ele, enquanto o mesmo tomava as rédeas. Mirava o horizonte, e ela pode observar sua respiração exalando o ar quente que saía dos seus pulmões, parecendo fumaça em meio ao frio daqueles dias. Seu pomo de adão saliente subia e descia ora ou outra. O nariz reto e bem desenhado, fazia um belo conjunto com os lábios de grossura mediana, que estavam levemente avermelhados, assim como suas bochechas. O vento batia congelante, e seus cabelos claros esparramavam-se por seu uniforme. Ele havia se tornado um homem lindo, e sua imponência diante dos desafios era o que mais o deixava belo. Ele notara o olhar dela sobre si, e sorrira, dando-lhe uma piscadela.
- O que há de errado, Elizabeth? – Ela sorrira de volta. Sentia-se segura com ele, como costumava ser em sua infância.
- Nada, eu gosto de olhar pra você, e ver o quanto se tornou um homem majestoso.
- Majestoso, é? – Ele rira-se.
- Ora, vai me dizer que nunca lhe disseram isso? Que é belo e majestoso? – Ele ainda sorrindo mirou-a mais profundamente.
- Já, mas o seu elogio é o único que verdadeiramente me importa. – Respondera, vendo-a corar instantaneamente. – Obrigado, Elizabeth. Você é muito mais bela e majestosa do que eu.
- Ah não, eu não sou não! – Respondera, dando uma longa e gostosa gargalhada.
- Ei! Porque está rindo assim? É claro que você é!
- Eu sou mais um bicho do mato, do que alguém majestoso, Elli! Esse elogio é pra você! – Respondera ainda rindo-se.
- Eu discordo. Só porque você não concorda com o que fora imposto para as mulheres fazerem, não quer dizer que seja assim, um bicho do mato, como seus irmãos costumavam chamá-la. – Ela ficara séria. Realmente eram seus irmãos que se referiam a ela dessa maneira.
- Obrigada, Elli. Tem toda a razão.
A viagem transcorrera sempre com a total atenção de Elliot sobre tudo à sua volta. Muitas vezes não possuíam algum local realmente bom para se abrigar, pegando chuva e sol, vento e frio enquanto não podiam confiar em ninguém, ou se quer ousar descansar por muito tempo. Atravessaram longas estradas, por vezes embrenhando-se na mata, ainda sujeito aos perigos da floresta, mas sem esmorecer nenhum minuto se quer. Talvez pela vontade de sobreviver ao turbilhão que ainda enfrentavam. Em uma tarde porém, precisaram desviar o caminho, já que alguns soldados apaisana, pediam informações para os transeuntes que passavam por uma estrada movimentada próxima a uma pequena cidade. Elliot os conhecia, pois alguns deles até foram de seu próprio batalhão. Ele observava em Elizabeth a tristeza que em certos dias a acometia. Ela não falava de seu pai e nem de nada do que vira acontecer diante de seus olhos, novamente. Ele sabia que dentro de sua habitual animação, escondia-se uma raiva e uma dor contida, e por isso a admirava. Era realmente muito forte. Ele ficara nos céus por vários dias, relembrando a noite em que pertenceram um ao outro com total entrega, há muito desejara por aquele momento, mas respeitara-a. Porém suas preocupações não paravam de lhe atormentar. Elizabeth já era uma mulher, não se conformava que com toda sua experiência, ainda assim a fizera correr o risco de realmente tê-la engravidado. Acontece que perdera a noção de tudo quando finalmente estava vivendo seu sonho. A amava e sempre ansiara em ser correspondido de tal maneira, e quando finalmente teve a certeza, nada mais importava para si; um segundo de descuido fora o suficiente. Tentava não pensar muito nisso a cada instante, já que Elizabeth era muito observadora, e o analisava a todo momento.
Duas semanas já haviam se passado desde a caverna, e depois de horas sem beber água em certa manhã de sol, decidiram procurar por um riacho próximo, Luck precisava pastar e saciar sua sede também.
- Acha que não há perigo em pararmos por aqui? – Perguntara, enquanto Elliot levara Luck até a beira do riacho, e ele próprio abaixava-se, unindo as duas mãos em concha e levando-as ao rosto, molhando parte de seus cabelos.
- Todo lugar é perigoso. – Respondera. – Mas precisamos sobreviver, se não morreremos de inanição. – Dissera. Havia levado consigo reservas em dinheiro e parte já havia sido gasta. Elizabeth pusera-se em vigia, enquanto Luck e Elliot tomavam água e banhavam-se como podiam. Quando terminara fora sua vez. Estava fadigada da viagem longa e estressante, as águas do riacho estavam quentinhas e ela aproveitara para se banhar, afastando-se um pouco do rapaz e seu cavalo. Tirara suas roupas, a espada e os sapatos; fizera tudo com a maior rapidez que lhe era permitido, porém os segundos de paz eram um luxo para os dois. Foi então que sem aviso prévio, sentira duas mãos taparem-na a boca, enquanto era levada pelas costas para o mato. No susto e desespero tentara se debater, mas precisava manter a calma, não conseguia chamar por seu parceiro, porém não fora preciso. Em menos de dois minutos, vira o homem que a molestava, ser imobilizado rapidamente por Elliot, sendo jogado na água do riacho, com a espada lhe perfurando o peito sem nem tempo para falar algo em uma tentativa de defesa. Devia ter a idade de seu amante, ou um pouco mais. Longa barba, e corpo mediano.
- DESGRAÇADO! O QUE PENSA QUE IA FAZER?! – Gritara Elliot completamente exasperado, perfurando o homem ainda vivo, dezenas de vezes, até vê-lo parar de respirar.
- ELLI, PARE! – Elizabeth lhe segurara as mãos, em pânico ao vê-lo agir com tamanho ódio e violência.
- Olhe para ele, Elizabeth! Estava tirando as calças, você sabe o que ele ia fazer? – Elizabeth sabia perfeitamente. Estava nua, e fora atacada de repente.
- Eu sei, mas controle-se! – Ela mirara a cena, sangue tingia as águas antes límpidas do riacho. Perdera a completa vontade de fazer qualquer coisa naquele local, observando o corpo ensanguentado misturado à lama, boiar na margem. Uma forte ânsia de vômito a acometera, mas contivera-se.
- Você está bem? Ele machucou você? – Indagara, cobrindo-a com sua capa.
- Eu estou bem. – Respondera ela, subindo a encosta, com Elliot ao seu lado. – Não temos um minuto de paz se quer. – Lamentara a moça. Ele a puxara para si, beijando seus cabelos, abraçando-a contra seu peito. Ela pode ouvir seu coração em disparada. Nunca o havia visto tão furioso como naquele instante, matando não só para a defesa, mas porque o ódio o invadira. Talvez tenha sido um gatilho, desde a última vez que ele havia presenciado uma cena de estupro, tinha uma ideia do quanto aquilo o havia marcado.
- Vamos, precisa se vestir, ou ficará doente. – Dissera, ajudando-a a por suas roupas novamente.
Continuaram a viagem em silêncio, Elliot apanhara água em cantis, antes de tudo acontecer, o que ajudara a moça que nada mais fizera após o ocorrido infeliz. Elizabeth não reclamava nunca, então periodicamente ele a indagava se estava bem, e ela fazia o mesmo. Porém ao chegar a noite, a sentira amolecer sobre Luck, escorregando de seu lombo.
- Elizabeth! – Ele a agarrara pelas roupas, puxando-a para si. Ela havia desmaiado.
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